Dia Mundial da Poesia

A sempiterna Poesia

Hoje se comemora o Dia Mundial da Poesia, instituído pela Unesco em 16 de Novembro de 1999. O Banco da Poesia também se une às comemorações com excertos de um texto primevo, considerado a mais antiga obra literária da humanidade, a Epopeia de Gilgamesh, igualmente conhecida como Poema de Gilgamesh. Supõem-se que ela tenha sido escrita há mais de 2.500 anos a.C., embora a forma que nos chegou esteja registrada no Séc. VII a.C.  São inúmeras tablitas de barro, com escrita cuneiforme, boa parte das quais foram conservadas e possibilitaram a divulgação do texto nas linguagens ocidentais. Existe uma versão em Português, ainda inédita, feita pelo professor Emanuel Bouzon (1933-2006). Muitos trabalhos já foram escritos no Brasil sobre a obra de Gilgamesh, baseadas em versões editadas em outros idiomas.

Gilgamesh foi um rei sumério, cuja vida é semi-lendária, que se tornou conhecido por ser o protagonista da sua Epopeia. Ele teria sido o quinto rei da primeira dinastia de Uruk, que existiu cerca de 2750 a.C. Seu reinado teria durado 126 anos e as lendas que se criaram em torno dele levaram-no a ser considerado uma divindade, cujos feitos influenciaram as sucessivas religiões da região mesopotâmica, inclusive o judaísmo.

Segundo artigo publicado na Wikipédia, existem especulações dos estudiosos sobre a influência da Epopeia de Gilgamesh “sobre textos mais difundidos e conhecidos pela humanidade, como os poemas épicos gregos Ilíada e Odisséia de Homero, escritos entre VIII e VII a.C.  A polêmica é ainda maior” quando comparada “às narrativas do Pentateuco, a parte mais antiga do Velho Testamento, datadas do Primeiro Milênio a.C.” Com relação à Bíblia judaica, “além de semelhanças impressionantes,” há clara afinidade com “o próprio contexto histórico e geográfico”, pois não se desconhece “que a origem dos hebreus e das grandes civilizações semitas” é mesclada “com a própria história do povo sumério. Históricos períodos de cativeiro, onde a aculturação era, além de inevitável pelas circunstâncias de sobrevivência, uma forma de dominação ideológica”.

Em seu final, a Epopeia centra-se na dor de Gilgamesh pela morte de Enkidu, um dos personagens principais da obra. Essa emoção o faz seguir um busca compulsiva pela imortalidade. Gilgamesh quer descobrir o segredo da vida eterna e consulta Utnapishtim, o herói imortal do dilúvio. Mas o sábio responde às suas indagações com uma afirmação que até hoje preocupa a humanidade: “A vida que você procura nunca encontrará. Quando os deuses criaram o homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse.”

Fragmentos da Epopeia de Gilgamesh

“A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidu.”

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“Ele era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra. Enkidu comia grama nas colinas junto com as gazelas e rondava os poços de água com os animais da floresta; junto com os rebanhos de animais de caça, ele se alegrava com a água.”

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“Enkidu perdera sua força pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam seu coração.”

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“… tu, um mercenário, que depende do trabalho para obter teu pão!”

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“Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: ‘O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.’ Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana.”

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“Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”.

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… põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas. (…) Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos.”

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São claras as semelhanças entres textos sumérios e as narrativas da Gênese bíblica, principalmente quando se referem ao dilúvio universal, a indicar que, muitas vezes, a poesia, sempre repleta de sonhos humanos, é mais consistente que a própria história, ou, em outras palavras, a História sempre se aferrará à materialidade dos fatos, enquanto a Poesia tem o poder de, sem perder sua magia, tornar-se registro factual para muitas culturas. (C. de A.)

Um poeta andino mais alto que os Andes

Os 120 anos de Vallejo

No último dia 16 de março completaram-se os 120 anos de nascimento do poeta peruano César Abraham Vallejo Mendoza (Santiago de Chuco, 1892 – Paris, 1938). O escritor uruguaio Mario Benedetti o considerava o mais influente poeta das letras hispano-americanas do mundo moderno e o chileno Pablo Neruda dizia que Vallejo era melhor poeta do que ele próprio. De vida atribulada, pendente entre a religiosidade com que foi criado em uma família pobre e a rebeldia política que o conduzia a denunciar o sofrimento dos mais pobres, César Vallejo  viveu seus 46 anos com a alma amargurada, sentindo-se desamparado a ponto de dizer que havia nascido em um dia em que Deus estava enfermo. Mas os grandes poetas são grandes até mesmo na tristeza e na desesperança. Foi o que percebeu o nosso poeta Manoel de Andrade no livro que escreve sobre suas andanças pela América Latina, ao dedicar um sólido capítulo sobre o poeta peruano. Vamos publicá-lo em homenagem ao aniversariante – por seu nascimento de março e por sua morte em 15  abril próximo, quando somar-se-ão  46 anos desde sua partida. Dada a riqueza de detalhes que compõe a vida de Vallejo, o texto é extenso, mas vale a pena registrá-lo, em face do cuidadoso e sensível tratamento dado por Manoel de Andrade. (C. de A.)

CESAR VALLEJO: Um coração dividido (*)

Manoel de Andrade

Eu conhecia apenas alguns poemas esparsos de Cesar Vallejo quando encontrei, entre os livros de Francisco Macias, – meu anfitrião em Lima em fins de 69 – o poemário Trilce.

Publicada em 1922, sob a influência das vanguardas europeias e rompendo com a tradição poética peruana, a obra lembrava-me a renovação da linguagem e a liberdade na criação poética apresentadas pelo movimento modernista brasileiro de 22, que também rompera com os cânones parnasianos e românticos da poesia brasileira, influenciada pelos ismos europeus e sobretudo pelo Futurismo de Maninetti.

Como nunca aceitei o radical rompimento com os ideais estéticos do século XIX, proposto pela Semana da Arte Moderna de São Paulo – que foi um modernismo meramente paulista, marcado pela irreverência e o ufanismo, ideologicamente reacionário e com uma insensata aversão pelo lirismo –  não  me identifiquei com o discurso poético do segundo livro de Vallejo. Trilce surgiu numa época em que, na literatura hispânica, estava em moda a poesia “experimental” como uma reação em marcha contra o modernismo e foi  um desesperado manifesto de liberdade do poeta, expresso por sua íntima intuição, mas marcado então por uma liberdade literária ainda sem norte. “Quero ser livre  – declara, na época, em carta, a seu amigo Antenor Orrego  – ainda que a troco de todos os sacrifícios. Por ser livre, me sinto ocasionalmente rodeado de espantoso  ridículo  com o ar de um menino que leva a colher às narinas…1 O resultado desse íntimo desencontro é uma atitude poética audaciosa e original, mas expresso em versos sem lógica, frases  fragmentadas, espaços em branco, letras invertidas, neologismos, imagens herméticas, numa linguagem extraída do caos e do absurdo que maculam a  imagem da poesia.

Como a postura de vanguarda, em Trilce, pertencia a uma fase da linguagem poética que eu já havia superado, – sobretudo pelo engajamento político da minha poesia na década de 60, no Paraná – mas sabendo da consagração mundial da poesia de Vallejo e das providências que, naqueles anos, tomava a intelectualidade peruana, para consagrar a imagem do seu maior poeta – desprezado e autodesterrado para sempre da pátria, quarenta anos antes –, me isolei por uma semana, na Biblioteca Nacional do Peru, para ler a tão comentada primeira edição nacional de sua obra poética completa,  lançada no país, no ano anterior pelo editor Francisco Moncloa. (2)

Excetuando-se quatro poemas, toda a obra poética de Vallejo, escrita depois de Trilce, somente foi publicada depois de sua morte. Contudo, seu livro Poemas Humanos, última fase de sua produção poética, continuaria marcado pelo binômio metafísico do tempo e da morte, ante a ironia e a orfandade do homem diante do destino, mas agora enriquecido pelo comprometimento político, pelo seu despojamento social e solidário com o ser humano onde sua poesia conquista o merecido reconhecimento mundial e a cidadania da universalidade. Percebe-se claramente nessa obra o resgate poético do vazio com que ele próprio declarou ter escrito Trilce: “ O livro nasceu no maior vazio” – escreveu ao amigo Antenor Orrego, logo após seu lançamento –“Sou responsável por ele. Assumo toda a responsabilidade de sua estética”.3 Essa discreta “mea culpa” prematura de Vallejo será reassumida abertamente, alguns anos depois em Paris, quando ele renega Trilce depois que adere ao marxismo e ao ativismo ideológico.

1. Los heraldos negros

Mas além da grandeza e da qualidade social dos Poemas Humanos, tocou-me sobretudo, o lirismo de seu primeiro livro, Los Heraldos Negros, de 1918, obra com a qual inaugurou uma nova fase da poesia peruana. O primeiro poema, que dá o nome ao livro, aqui apresentado na excelente tradução de Felipe José Lindoso4, nos leva a profundas reflexões sobre o significado da vida, com seus golpes, poucos, mas cruéis, que nos são enviados como os arautos da morte:

Os arautos negros

Há golpes na vida, tão fortes… Não sei!
Golpes como o ódio de Deus; como se diante deles
A ressaca de todo o sofrido
Encharcasse a alma… Não sei!
São poucos;  mas são… Abrem valas escuras
 no rosto mais duro e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a morte.
São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que nos queima na  porta do forno.
E o homem… Pobre… pobre! Volta os olhos, como
quando por cima do ombro nos chama uma palmada;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.
Há golpes na vida, tão fortes… Não sei!”5

Todo o simbolismo que permeia Los Heraldos Negros ultrapassa esse estilo, meramente literário, para identificar-se com a própria simbologia da vida no seu cotidiano como um todo e a uma particular expressão nostálgica das imagens antropomórficas da cultura andina.  Talvez, por isso mesmo e por sua origem e aparência de mestiço, sua poesia não foi aceita, na época, pela “aristocrática” intelectualidade limenha. Na atualidade, Vallejo é a glória da poesia peruana, mas Mariátegui colocou abertamente, já em 1928, o dedo nessa preconceituosa  ferida cultural ao afirmar que  “Essa arte assinala o nascimento de uma nova sensibilidade. É uma arte nova, uma arte rebelde, que quebra com a tradição cortesã de uma literatura de bufões e lacaios. Essa linguagem é a de um poeta e de um homem. O grande poeta de Los heraldos negros e de Trilce  –  esse grande poeta que passou ignorado e desconhecido pelas ruas de Lima tão propícias e subservientes aos louros dos jograis de feira  —  se apresenta, em sua arte, como um precursor do novo espírito, da nova consciência”. (6)

2. O indigenismo de Vallejo

Vallejo foi amigo do grande ensaísta peruano José Carlos Mariátegui, com quem conviveu e depois manteve o mais estreito contato do exterior publicando seus textos na Revista Amauta fundada em Lima no ano de 1926, por Mariátegui,  levantando com ele as bandeiras do indigenismo andino – empunhadas primeiramente pelo pensamento lúcido e acusador de Manuel Gonzáles Prada, “descobridor” do índio peruano,7 e, depois, respectivamente,  por Ciro Alegria, José Maria Arguedas e  Manuel Scorza   –  e referindo-se poeticamente ao incário em sua histórica grandeza, quando o perfil do Império do Sol se justapunha á silhueta litorânea e a paisagem andina do continente americano do sul da Colômbia até o norte do Chile. “Consiste o indigenismo de Cesar Vallejo em mostrar seus antepassados não como débeis criaturas, mas sim pelo contrário” —  é o que afirma o escritor colombiano Miguel Manrique, mostrando a clara disposição de Vallejo para o melhor indigenismo, não somente na poesia, mas também como prosador em sua novela Hacia el Reino de los Sciris: Ressaltando a pompa de uma civilização na plenitude de sua glória e não na apresentação melindrosa da arquisabida má história da conquista. O que  melhor,  para alguém que se considera membro ou natural de uma coletividade, que representá-la com o brilho que Cesar Vallejo faz com esta curta porém imensa novela. Muito melhor do que se o escritor se colocasse na chorosa  tarefa de encenar a captura de Atahualpa e as exigências para o seu resgate. Vallejo se converte assim em um Homero quíchua que tece com luminosidade o esplendor de sua civilização, do outro costado do seu ser. Os dois sangues nunca o abandonarão nem muito menos o trairão, um em benefício covarde do outro. Vallejo soube toda a vida ser índio e espanhol, desfraldando uma mestiçagem fidalga, fiel descendente do quixotesco e do quíchua”.8

E agora, é novamente Mariáteghi quem declara: “Vallejo é o poeta de uma estirpe, de uma raça. Em Vallejo se encontra, pela primeira vez em nossa literatura, sentimento indígena virginalmente expresso.9 Contudo é um pouco diferente a opinião contemporânea do poeta e ensaísta peruano Américo Ferrari — talvez o melhor conhecedor da poesia de Vallejo  –  quando se refere a’Os Heraldos Negros: “O tema indigenista e telúrico é, de todos os modos, n’Os Heraldos Negros, secundário: a vocação do verdadeiro Vallejo é ruminar obsessões mais que descrever paisagens ou cantar a raça.” E contudo é o mesmo Ferrari quem escreve anteriormente: (…)“E, não obstante, existe algo mais: sob o espartilho das novas formas palpita a emoção e a nostalgia, o apego à terra andina de um homem que já antes de sair do Peru, na cidade costeira de Trujillo primeiro, em Lima depois, se sentia desterrado: desterrado do lar, que se confunde com o lugar onde nasceu, que se confunde com a pátria. A pátria é o entorno andino, com seu povoador, o camponês índio e serrano. Mais tarde, em Paris, o índio, essencializado e agigantado pela distância e a nostalgia, será protótipo de humanidade: “Índio depois de homem e antes dele”; e a serra peruana, símbolo de pátria universal: “Serra do meu Peru, Peru do mundo/ e Peru ao pé do orbe; eu concordo!”10

O fato é que sua condição de mestiço está sempre presente na sua assumida postura quíchua e castelhana, índia e espanhola, marcada pelo seu amor ao Peru e à Espanha, pela sua vida quixotesca e sempre iluminada pela luz e o calor de Inti, o deus Sol dos seus antepassados. “Había en Vallejo esa ‘inocencia candorosa’ que ha visto bien Larrea, pero oculta tras una máscara algo dura: la de su ‘pathos’ indígena, difícil en el primer momento de traspasar, llegando al transfondo puro, más allá del mestizaje sufrido. ‘Mineraloide’, incaico, andino  – se ha dicho.”11

Há também, na fase inicial da poesia de Vallejo, uma contraditória religiosidade e uma imagem de Deus ora evocada com amargura e hostilidade (“golpes como o ódio de Deus”) ora com o sentimento de piedade pelos homens:12

Sinto Deus que caminha
tão em mim, com a tarde e com o mar.
Com ele vamos juntos. Anoitece
Como ele anoitecemos. Orfandade…
 
Mas eu sinto Deus. E até parece
que ele me dita nem sei que boa cor.
Como um hospitaleiro, e bom e triste;
languesce um doce desdém  de apaixonado:
deve doer-te muito o coração.
 
Oh, Deus meu, só agora a ti chego
hoje que amo tanto esta tarde; hoje
que na balança falsa de uns seios
olho e choro uma frágil Criação.
 
E tu, o que chorarás… tu, apaixonado
de tão enorme seio girador…
Eu te consagro Deus, porque amas tanto;
porque jamais sorris; porque sempre
deve doer-te muito o coração.13

3. A pobreza, a indiferença e os caminhos do mundo

Nascido em 1892 em Santiago de Chuco, numa região montanhosa a quinhentos quilômetros ao norte de Lima, décimo primeiro filho de uma família de origem indígena e espanhola, Cesar Abraham Vallejo Mendoza sempre se identificou com os pobres e desamparados do mundo porque essa foi a imagem que trouxe da infância e adolescência marcada por dificuldades familiares próximas da miséria.. Viveu sua juventude com a intelectualidade de Trujillo em cuja Universidade estudou e onde publicou seus primeiros poemas. Foi lá que  entrou em contato com a poesia de Juan Ramón Jimenez, Miguel de Unamuno, Rubén Darío, Walt Whitman, Julio Herrera y Reissig e Chocano.14

Chega a Lima em 1917 e no ano seguinte publica Los Heraldos Negros, onde transparece a influência e sua admiração por Darío, a afinidade com Herrera, onde usa e abusa do valor dos símbolos. Talvez tenha sido a indiferença com que os limenhos trataram  a poesia de seus dois primeiros livros e sua injusta prisão de quatro meses, em Trujillo, por sua suposta participação em um incidente público ao visitar sua terra natal em 1920,  que o levou em 1923, a deixar o Peru para sempre, indo viver em Paris onde passará fome, dormirá algumas noites ao relento e depois sobrevive da atividade gráfica, jornalística, de traduções e docência. É ali que conhece os grandes poetas e pintores da época como Vicente Huidobro, Pablo Neruda, Juan Gris, Pablo Picasso, Antonin Artaut, Jean Cocteau, Tristan Tzara e o poeta espanhol Juan Larrea, que seria seu grande amigo, futuro biógrafo e com quem funda, em 1926, a Revista Favorables Paris Poema.  Em 1928 viaja a Moscou, onde conhece Maiakovski. Retorna a Paris, onde abre a  primeira célula parisiense do Partido Socialista do Peru e no ano seguinte, em companhia de Georgette Marie Philippart Travers – com quem passa a viver – viaja novamente à Rússia, retornando pela Hungria, Áustria, Tchecoslováquia, Polônia, Alemanha e Itália.

Em 1930 chega à Espanha para o lançamento da segunda edição de Trilce, voltando em seguida a Paris de onde é expulso por propagar o comunismo. Em 1931 está novamente na Espanha onde testemunha a queda da monarquia e a ascensão republicana. Relaciona-se com o filósofo Miguel de Unamuno, com António Machado e com os poetas mais jovens, da chamada “geração de 27”, como Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti, Jorge Guillen, Miguel Hernandez, Luis Cernuda, Dámaso Alonso ePedro Salinas, entre outros e quase todos vítima da Guerra Civil Espanhola. Neste mesmo ano publica suas crônicas e ensaios sobre a Rusia en 1931 e Reflexiones al pie del Kremlin, título cujo sucesso de vendas levou os editores espanhóis a publicar três edições em quatro meses. Ainda em 1931, atendendo a uma proposta editorial de uma novela proletária, escreve em três semanas e publica em Madri o livro El tungsteno, onde recorda seu tempo de adolescente e o contacto com trabalhadores da Empresa Minimo Society, no assentamento mineiro de Quiruvilca, perto de sua cidade natal. Denuncia as injustiças por que passam os mineiros, acusando os “gringos” e autoridades peruanas que defendem os interesses dos exploradores norte-americanos em detrimento dos abusos contra os mineiros e, sobretudo, pela exploração de uma coletividade indígena da etnia sora, submetida pelos atos mais cruéis e iníquos de arbitrariedade e cuja revolta é sufocada com o sangue dos caídos.

Em 1931 realiza sua última viagem a Moscou para participar do Congresso Internacional de Escritores Solidários com o Regime Soviético, de onde retorna a Madrid e encontra as portas editoriais fechadas a seus novos livros em razão do caráter marxista e revolucionário de suas obras. Recomeça a escrever poesia cujos versos serão publicados, postumamente, com o título de Poemas Humanos.

Em 1932 filia-se ao Partido Comunista Espanhol e regressa a Paris onde vive na clandestinidade, organizando, posteriormente, com Neruda, a coleta de fundos para a causa republicana na guerra civil espanhola. Em 1937 volta pela última vez à Espanha para participar do Congresso Internacional de Escritores Antifascistas, e talvez porque sua precária saúde o impedisse de empunhar um fuzil para defendê-la, escreve seu grande poema político: España, aparta de mí este cáliz, que deu título ao livro de quinze poemas, publicado postumamente, em 1939, como um verdadeiro testamento poético, por sua viúva, Georgette Vallejo.

4. Cesar Vallejo, um coração dividido.

Vallejo foi homem repartido. Filho da consanguinidade indígena e espanhola, sentiu seu coração dividir-se pelos caminhos da vida. Primeiro sentiu sua alma partir-se, dolorosamente, entre a imagem querida da mãe e a imperecível saudade que chegou com sua morte, em 1918.  Repartiu-se entre o idílio e a separação da mulher que amou, num romance tormentoso e frustrado de sua juventude como professor em Lima. Sentiu sempre o coração dividido entre a pátria e o mundo e culturalmente entre o Peru e a Espanha.  Vallejo viveu dividido entre Paris e a sua crônica nostalgia da paisagem andina. Pablo Neruda, seu grande amigo, afirma que: “Vallejo era sério e puro. Morreu em Paris. Morreu no ar sujo de Paris, do rio sujo de onde tiraram tantos mortos. Vallejo morreu de fome e asfixia. Se o tivéssemos trazido para o Peru, se o tivéssemos feito respirar ar e terra peruana, talvez estivesse vivo e cantando.15

O poeta  transitou balizado pelas  ironias da vida, pelos golpes do destino, entre o desespero e a esperança, que atormentaram sua alma sobretudo depois dos quarenta anos, onde sua poesia mantém sempre aquela obscuridade tatuada pela dor dos homens, pela perplexidade ante o grande mistério da vida e o significado da morte: “Haver nascido para viver de nossa morte”, e assim sempre dividido entre o imenso vazio do mundo e seu sonho de plenitude espiritual e de uma eterna felicidade. “E se alguém fica perplexo ante esse universo de trevas, de limites, é sobretudo o próprio poeta que o revela em seu poema; (Panteón)  daí o acento de angústia que raramente abandona Vallejo; daí essas yuntas, essas parelhas de significações em conflito que não são nunca abolidas nem superadas: o todo – o nada, a alma – o corpo, o alto – o baixo, o nunca – o sempre, o tempo – a eternidade, a vida – a morte, Deus – nada”.16

Vallejo viveu repartido entre sua íntima plenitude, filosófica e poética, e sua fidelidade ao marxismo. Conforme carta datada em 29 de Janeiro de 1932 ao poeta e amigo Juan Larrea, Vallejo confessa: “Comparto a minha vida entre a inquietação política e social e a minha inquietação introspectiva e pessoal minha para dentro. Ou seja, O poeta sentia-se, pois, dividido, sem conseguir unificar as duas partes de que se sentia feito: uma de inquietação política e social, que o marxismo satisfazia; outra introspectiva e pessoal minha para dentro para a qual nunca encontrou resposta que o satisfizesse, nem mesmo a religião que desde os primeiros tempos pulsava no seu íntimo, sem que por isso possa entender-se a adesão a uma igreja. Essa angústia persistirá até a sua morte, não sem um vislumbre de esperança que o levará a ditar a sua mulher, poucos dias antes de morrer, estas palavras: Qualquer que seja a causa que tenha de defender perante Deus, para além da morte, tenho um defensor:Deus.”17

Vallejo, cuja poesia foi desprezada por seus contemporâneos, é tido hoje como o maior poeta peruano de todos os tempos e talvez a figura mais proeminente da poesia hispano-americana depois de Pablo Neruda, o qual declarou que a poesia de Vallejo era maior que sua própria poesia.  Foi um homem marcado por transes pedregosos, por uma infância de misérias e penitências, e sua pobreza o obrigou a abandonar, em 1910, o curso de Letras na Universidade de Trujillo – somente concluído em 1915 –  para dar aulas particulares e depois trabalhar na administração de uma fazenda açucareira no vale de Chicama, onde presencia o drama cruel e cotidiano da exploração do trabalho indígena. Ciro Alegria – que depois se tornaria um dos grandes romancistas peruanos – conta que foi aluno de Vallejo no Colégio San Juan, de Trujillo, e que (…) “De todo seu ser fluía uma grande tristeza. Nunca  vi um homem que parecesse mais triste. Sua dor era como  uma secreta e ostensível condição, que terminou por contagiar-me.(…)  Ainda que à primeira vista pudesse parecer tranquilo, havia algo profundamente desgarrado naquele homem que eu não entendi mas senti com toda minha desperta e alerta sensibilidade de menino.(…) Foi assim como encontrei a  César Vallejo e como o vi, como se fosse pela primeira vez. As palavras que dele ouvi sobre a Terra são também  as que mais  gravei na memória. O tempo haveria de revelar-me novos aspectos de sua pessoa, os longos silêncios em que caía, sua atitude de tristeza infindável…(…)”18

5. “O poeta dos vencidos”

Eu nasci num dia em que Deus estava enfermo”, afirma ele, reiteradamente, em seu poema Espergegia. E apesar de tudo, do sentimento pessimista pela sua dor e por compreender a imensa dor humana, do desamparo que colheu da vida, nunca permitiu que suas dolorosas experiências alterassem seu espírito solidário com os pobres, os injustiçados do mundo e apagassem de sua alma a fé revolucionária e a esperança com que o marxismo prometia a construção de uma sociedade mais justa para todos os homens.

É, por isso mesmo, chamado o poeta dos pobres, da dor dos homens, o “poeta dos vencidos” na ótica histórica de Eduardo Galeano, e esse é o retrato que está por trás dos 76 poemas que integram os seus Poemas Humanos, escritos entre 1931 e 1937, e publicados, postumamente, em Paris, em 1939. “Aí o poeta exprimiu o sofrimento próprio e dos outros, o absurdo da existência, o sentimento de culpa que sentia pelos direitos em que se baseia a sociedade que fazia parte, e revolta perante a injustiça que era gritante ao seu redor, o horror da guerra vista como conflito global, sem rosto, e como tragédia dos seus humildes protagonistas anônimos, as contradições de um ser tenso entre pontos opostos que não param de enfrentar-se, a esperança num mundo de compreensão entre os homens, que ele sabia ser uma utopia”19

O seu sentimento poético de solidariedade e de piedade pelos desamparados e humildes, cujos primeiros passos são dados n’Os Heraldos Negros, – como neste fragmento do poema El pan nuestro:

Todos meus ossos são alheios;
quem sabe os tenha roubado!
Dei-os a mim mesmo o que talvez estivesse
designado para outro;
e penso que, se não tivesse nascido,
outro pobre tomaria este café!
Sou um mau ladrão… Para onde irei?

E nesta hora fria, em que a terra
recende a pó humano e é tão triste,
quisera eu bater em todas as portas
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui,  no forno do meu coração…!
(20)

– caminham ao longo de toda sua vida de escritor e chegam ainda mais comoventes em tantos de seus últimos poemas, como a perplexidade ante a dor humana em Los Nueve Monstruos e nestes versos fraternos de Traspié entre dos estrellas, ambos do livro Poemas Humanos:

Amado seja aquele que tem percevejos,
o que anda sob a chuva com sapatos furados
o que vela o cadáver de um pão com dois fósforos,
o que prende um dedo  numa porta,
o que não tem aniversário,
o que perdeu sua sombra num incêndio,
o animal, o que parece um papagaio,
o que parece um homem, o pobre rico,
o puro miserável, o pobre pobre!
21

6. O pressentimento e a morte

Na poesia dos últimos tempos de Vallejo, apesar do engajamento político dos seus  versos, persistirão sempre a sua obsessão pelo metafísico, que já existia com a feição religiosa  n’Os Heraldos Negros e ressurgindo somente em Espanha, aparta de mi este cáliz,  e nos Poemas Humanos onde o social e o metafísico se abraçam solidariamente nas emoções e sentimentos dos homens diante  da pobreza, do abandono, da injustiça e da morte. O tema da morte é uma constante na poesia de Vallejo e, à medida que o poeta dela se avizinha, vai registrando com seus versos sua despedida do mundo, como no poema París, octubre 1936:

De tudo isto sou o único que parte.
vou-me deste banco vou-me , de meus calções,
de minha  grande situação, de minhas ações,
de meu número fendido parte a parte,
de tudo isto sou o único que parte.

Dos Campos Elíseos ao dar volta
à estranha viela da Lua,
meu féretro se vai, parte de meu berço,
e, rodeada de gente, sozinha, solta,
minha semelhança humana dá a volta
e despacha suas sombras uma a uma.

E afasto-me de tudo, porque o todo
fica para ser restringido:
meu sapato, sua botoeira,  seu lodo
e até a dobra do  cotovelo
de minha própria camisa abotoada.
2

Há também um claro pressentimento de sua morte no poema Pedra negra sobre uma pedra branca. Não morreu na quinta, como supôs, mas no dia seguinte, numa sexta-feira chuvosa. Era outono em Lima, mas primavera em Paris. Este é um dos seus poemas mais conhecidos e dos mais reproduzidos nas antologias e seu estranho título deriva de uma tradição dos habitantes de Santiago de Chuco, sua cidade natal: o de colocar uma pedra negra sobre uma pedra branca para assinalar os enterros. Eis um fragmento:

Morrerei em Paris com aguaceiro
num dia do qual já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris — de onde não saio —
talvez numa quinta, como hoje, de outono.(…)
23

No início de 1938 leciona Língua e Literatura em Paris, quando tem um forte esgotamento físico. Foi internado em 24 de março com sintomas indefinidos que o levaram a uma forte crise e à morte em 15 de abril daquele ano, numa sexta-feira chuvosa. O poeta e romancista francês, Louis Aragon, um dos iniciadores do surrealismo, fez o elogio fúnebre a Vallejo, cujos restos repousam no cemitério de Montparnasse com o epitáfio: “He nevado tanto, para que duermas”.

“Esta primavera da Europa está  crescendo sobre mais um, um inesquecível entre os mortos, nosso bem-admirado, nosso bem-querido César Vallejo. Por estes tempos de Paris, ele vivia com a janela aberta, e  sua pensativa cabeça de pedra peruana recolhia o rumor de França, do mundo, da Espanha… Velho combatente da esperança, velho querido. É possível? E que faremos neste mundo para sermos  dignos de tua silenciosa obra duradoura, do teu interno crescimento essencial? Já em teus últimos tempos, irmão, teu corpo, tua alma te pediam terra americana, mas a fogueira da Espanha te retinha na França, onde ninguém foi mais estrangeiro.Porque eras o espectro americano  – indo-americano como vós outros preferis dizer  – , um espectro de nossa martirizada América, um espectro maduro na liberdade e na paixão. Tinhas algo de mina, de socavão lunar, algo terrenamente profundo.

“Rendeu tributo a suas muitas fomes” –  me escreve Juan Larrea. Muitas fomes, parece mentira…  As muitas fomes, as muitas solidões, as muitas léguas de viagem, pensando nos homens, na injustiça sobre a terra, na covardia de meia humanidade. O caso da Espanha já te ia roendo a alma. Essa alma roída por teu próprio espírito, tão despojada, tão ferida por tua própria necessidade ascética. O caso da Espanha foi a verruma diária para a tua imensa virtude. Eras grande, Vallejo. Eras interior e grande, como um grande palácio de pedra subterrânea, com muito silêncio mineral, com muita essência de tempo e de espécie. E ali no fundo, o fogo implacável do espírito, brasa e cinza…   Salve, grande poeta, salve irmão!”24

Pablo Neruda25

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Notas e textos em espanhol

(*) Este artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na  América Latina , nas décadas de 60/70.

1. O texto original em espanhol pode ser encontrado em: FERRARI, Américo. César Vallejo entre la angústia y la esperanza. In: FERRARI, Américo (int.). Cesar Vallejo: Obra poética completa. Madrid: Alianza ,1983, p. 20.

2. O reconhecimento literário de toda obra poética de Vallejo chegou, editorialmente, trinta anos atrasado em seu próprio país. A primeira edição de Poemas Humanos (1923-1938) foi publicada  por Editions des Press Modernes, Paris, 1939, um ano depois de sua morte.  Já na América do Sul, foi a editora argentina Losada que tomou a dianteira na publicação de toda a sua poesia, editando, em  1949, as Poesías Completas (1918-1938). Em 1959, Los Heraldos Negros e Poemas Humanos foram publicados em Lima, em edições separadas, pela Editora Peru Nuevo. Contudo a publicação de  Cesar Vallejo, Obra poética completa, somente foi lançada no Peru em 1968, pelo editor Francisco Moncloa. Essa edição tornou-se clássica, servindo de base para muitas outras edições latino-americanas,  espanholas e portuguesas. Além do excelente prólogo de  Américo Ferrari, a obra, com 510 páginas, foi supervisionada por Georgette Vallejo, esposa do poeta, e sua originalidade está em apresentar  os fac-smiles dos poemas póstumos, quase todos datilografados e corrigidos pelo próprio Vallejo. Em 1970, a Casa das América editou em Havana Cesar Vallejo, obra poética completa, com prólogo do poeta cubano Roberto Fernández Retamar, reproduzindo o título e o texto da edição Moncloa.

3. FERRARI, Américo. Obra citada.

 4. MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Tradução Felipe José Lindoso. São Paulo: Clacso. 2008. p. 291/292.

5.  Hay golpes en la vida, tan fuertes… Yo no sé!/ Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,/ la resaca de todo lo sufrido/ se empozara en el alma… Yo no sé./ Son pocos; pero son… Abren zanjas oscuras/ en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte./ Serán talvez los potros de bárbaros atilas;/ o los heraldos negros que nos manda la Muerte./ Son las caídas hondas de los Cristos del alma,/ de alguna fe adorable que el Destino blasfema./ Esos golpes sangrientos son las crepitaciones/ de algún pan que en la puerta del horno se nos quema./ Y el hombre… Pobre… pobre! Vuelve los ojos, como/ cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;/ vuelve los ojos locos, y todo lo vivido/ se empoza, como un charco de culpa, en la mirada./ Hay golpes em la vida, tan fuertes… Yo no sé! (N.A.)

 6.  MARIÁTEGUI, José Carlos. Obra citada, p. 299.

7. A importância do indigenismo, no Peru, surge somente com as obras de Gonzalo Prada, estabelecendo, entre 1900 e 1930, o início da grande  polémica entre hispanismo e indigenismo que dominariam todo o pensamento social do Peru durante o século XX e marcam os conflitos culturais até os dias de hoje no país, cujas negociações têm buscado, sem sucesso, a igualdade cultural sem desconsiderar as diferenças.

8. MANRIQUE, Miguel. El hombre vallejiano. Cuadernos Hispanoamericanos, Madrid. v. I. n. 456/457, junio/julio 1988, p.531.

 9. MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. cit., p. 291.

 10. FERRARI, Américo. Op. cit., p. 12.

 11. TORRE, Guillermo de. Tres conceptos de la literatura Hispanoamericana. Buenos Aires, Losada, 1963, p., 164.

 12. MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. cit., p.296.

 13. Siento a Dios que camina/ tan  en mí, con la tarde y con el mar./  Con  él nos vamos juntos. Anochece./ con él anochecemos. Orfandad…/ Pero yo siento a Dios. Y hasta parece/ que él me dicta no sé qué buen color./ Como un hospitalario, es bueno y triste;/ mustia un dulce desdén de enamorado:/ debe dolerle mucho el corazón./ Oh, Dios mío, recién a ti me llego,/ hoy que amo tanto en esta tarde; hoy/  que en la falsa balanza de unos  senos,/ miro y lloro una frágil Creación./ Y tú, cuál llorarás… tú, enamorado/ de tanto enorme seno girador…/  Yo te consagro Dios, porque amas tanto;/ porque jamás sonríes; porque siempre/  debe dolerte mucho el corazón. (N.A.)

 14. José Santos Chocano, destacado poeta modernista peruano nascido em 1875, em Lima, também conhecido pelo pseudônimo de O Cantor da América. Foi uma estranha figura literária.  Polêmico e aventureiro, foi secretário de Pancho Villa, escapou por pouco do fuzilamento na Guatemala, em 1920, e matou em Lima, num duelo o jovem escritor Edwim Elmore. Morreu em 1934 em Santiago, assassinado por  um demente que acreditava ter Chocano  o mapa de um tesouro.

 15. NERUDA, Pablo. Confesso que vivi. São Paulo: Difel, 1979, p.285.

 16. FERRARI, Américo. Op. cit., p.39.

 17. VALLEJO, César. Antologia poética. Tradução, seleção, prólogo e notas de José Bento. Lisboa: Relógio D’Água, 1992, p.19/20.

 18. ALEGRÍA, Ciro. El César Vallejo que yo conocí. Cuadernos Hispanoamericanos. México, ano III, vol. XVIII, n. 6, nov/dez 1944.

 19. VALLEJO, César. Op. cit., p 18.

 20. Todos mis huesos son ajenos/ yo talvez los robé!/ Yo vine a darme lo que acaso estuvo/ asignado para otro;/ y pienso que, si no hubiera nacido,/ otro pobre tomara este café!/ Yo soy un mal ladrón… A dónde iré!/ Y en esta hora fría, en que la tierra/ trasciende a polvo humano y es tan triste,/ quisiera yo tocar todas las puertas,/ y suplicar a no sé quién, perdón,/ y hacerle pedacitos de pan fresco/ aquí, en el horno de mi corazón…! (Tradução e nota do autor)

 21. ¡Amado sea aquel que tiene chinches,/   el que lleva zapato roto bajo la lluvia,/el que vela el cadáver de un pan con dos cerillas,/el que se coge un dedo en una puerta,/ el que no tiene cumpleaños,/ el que perdió su sombra en un incendio,/el animal, el que parece un loro, el que parece un hombre, el pobre rico,/ el puro miserable, el pobre pobre!  (Tradução e nota do autor)

 22. De todo esto yo soy el único que parte./ De este banco me voy, de mis calzones, de mi gran situación, de mis acciones,/ de mi número hendido parte a parte,/ de todo esto yo soy el único que parte./De los Campos Elíseos al dar vuelta/ la extraña callejuela de la luna,/ mi defunción se va, parte de mi cuna,/ y, rodeada de gente, sola, suelta,/ mi semejanza humana dase vuelta/ y despacha sus sombras una a una./ Y me alejo de todo, porque todo/ se queda para hacer la coartada:/ mi zapato, su ojal, también su lodo/ y hasta el doblez del codo/ de mi propia camisa abotonada.(Tradução e nota do autor)

 23. Me moriré en París con aguacero,/ un día del cual tengo ya el recuerdo./ Me moriré en París —y no me corro— / tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.(Tradução e nota  do autor)

 24. NERUDA, Pablo. Para nascer nasci. São Paulo: Difel, 1979, p.66.

 25.  Este texto foi escrito quando Cesar Vallejo morreu e posteriormente publicado, em Santiago do Chile, pela revista Aurora, em 1° de agosto de 1938.

Nilson Monteiro, novo e ilustre correntista

A estréia bancária de Nilson Monteiro

O Banco da Poesia recebe mais um correntista ilustre, que demorou a chegar mas, com certeza, estará sempre por aqui a enriquecer sua conta poética. Orgulho-me por tê-lo como amigo e ter participado de sua formação profissional, como jornalista, no tempo em que ele, um jovem entusiasmado pela área, mostrava o seu talento numa experiência inovadora, o Novo Jornal, por mim editado em Londrina.

Nilson Monteiro nasceu em Presidente Bernardes, no interior de São Paulo, Aportou  em Curitiba ainda aos 10 anos de idade, por força da profissão do pai, que era representante comercial. Um ano e meio depois, por volta de 1964, mudou-se com a família para Londrina, onde se estabeleceu e pôde desenvolver seus estudos, dividindo-se entre os cursos de Letras e Literatura Francesa e Comunicações, na Universidade Estadual de Londrina .

O grande estímulo para ingressar na profissão veio através do jornalista e escritor Domingos Pellegrini, que o levou para o Diário de Londrina, de Edson Maschio, onde, ainda adolescente, foi responsável pela coluna “No Mundo Estudantil”.

Sempre pelas mãos de Pellegrini deu o passo seguinte, que o conduziu à redação do semanário Novo Jornal, ao lado de Marcelo Oikawa, Roldão Arruda e Carlos Eduardo Lourenço Jorge, no início da década de 1970.

O convite para ingressar na Folha de Londrina surgiu na sequência, por intermédio de Walmor Macarini, em 1973. Lá permaneceu por cerca de cinco anos, passando por diversas editorias, com ênfase para a de Cultura. Simultaneamente, desenvolvia trabalhos em rádio e televisão e fazia incursões no terreno da literatura, escrevendo contos e poemas. Passou também por agências de publicidade e ajudou a fundar a Cooperativa de Jornalistas do Paraná, que produzia o jornal Paraná Repórter.

Ainda em meados de 1970 fez parte da redação do lendário Panorama, uma experiência ousada capitaneada pelo empresário e ex-governador Paulo Pimentel, que teve vida breve, porém marcou  história no jornalismo paranaense. Após seu fechamento, Nilson foi para São Paulo, trabalhar no jornal Movimento, o principal porta-voz da esquerda no país à época da ditadura militar. Voltou depois para a Folha de Londrina, onde atuou como repórter especial e editor do Caderno de Cultura, angariando vários prêmios por reportagens que publicou.

Em 1986 transferiu-se para o jornal O Estado de São Paulo, depois para a Gazeta Mercantil, onde editou o Caderno Regional do Paraná e, finalmente, para a revista Isto É.

Nesse meio tempo continuou produzindo poemas e contos. O livro de poemas “Simples” foi editado em 1984. Depois vieram “Curitiba Vista por um Pé Vermelho”, editado pela Fundação Cultural de Curitiba, “Ferroeste, um novo Rumo para o Paraná”, “Itaipu, a Luz”, e, finalmente, “Madeira de Lei”, que narra a trajetória do empresário Miguel Zattar, um pioneiro na área da silvicultura, na condução das Indústrias João José Zattar S/A.

Atualmente lotado no gabinete do governador Beto Richa, Nilson fez assessoria de imprensa no Banco Regional de Desenvolvimento Econômico (BDRE), na Companhia de Habitação do Paraná – Cohapar – e na Associação Comercial do Paraná – ACP. Também assessorou o ex-governador José Richa em sua última campanha para o Senado, na década de 1990.

Seu trabalho recebe, neste momento de sua vida, reconhecimento público, ao ser diplomado como Cidadão Honorário do Paraná, título que receberá no próximo dia 20 de março.

Bem vindo, Nilson poeta, ao nosso Banco. (Cleto de Assis, con informações da Assessoria de Impnresa da Assembléia Legislativa do Paraná)

Impressões de viagem

(crônica a Neruda)

 
Onde andas, poeta, como fantasma
grunhindo as tábuas do convés?

Onde passeias, leve, pipa entre as cores
dos varais e das casas penduradas nas escarpas?

Onde choras, líquido, em meio
às ondas largas e geladas do Pacífico?

Onde, plantas, mágico, teu coração
nas pedras, gelatinas de ostras endurecidas?

Onde, esfarinhas, versejador, tua alma
em estrelas, uvas bêbadas, cafés franceses?

Onde, fincas, amante, as âncoras
na vida, feira livre, de teu povo?

Onde, espalhas, boiadeiro, as crinas
de teus cavalos, relinchos selvagens?

Onde, anjo, sem alas, sem religião,
feito de renda branca da cordilheira,
tateias a pele desses muros?

Aqui, poeta,
aqui entre livros, mapas, bússolas, bananeiras
cerâmicas
e escadas,
as pessoas te chamam neste inferno de paixões
de anjo

Nesta cidade feita de ruelas,
peles, ondas, vinho, fumaça,
bodegas, teias, dores,
empanadas, penhascos que arranham o céu,
choclo e palta nos beiços dos pratos,
pisco e pinga nos copos,
funiculares ensandecidos

Descubro, num átimo, que amo
o atômico explodir da vida,
pedaços de gente esparramados
ao pé do cerro
sortidos em meio ao sebo do porto,
sentimentos espalhados sem cercas

Descubro que amo
cada arrulho de seus colegiais,
meias de lã, gravatas inglesas
achadas no passado,
maritacas de azul
gritando alegrias e mirando futuros
nas rachaduras da arquitetura

Descubro que amo
cada lágrima que desce
nas fendas molhadas da montanha,
vidro, cristal safira que fura os olhos
para embrulhar-se nos lençóis do Pacífico

Descubro que amo
cada suspiro de teu ar,
o cheiro pastoso de teu mercado,
cada célula de teus mariscos,
cada ensaio de voo
de teus copos suados

Descubro que amo
cada farelo de tuas pedras
cada dor de seu paraíso
cada ritmo de teus versos
cada sentimento de entranhas,
das putas e das guitarras,
de ventanas, de pinturas
em paredes sem casca

Onde, poeta, é permitido sonhar
com este prelúdio salgado
desta sinfonia doce que
deram o nome de Neruda?

Aqui,
neste chão agarrado em Valparaíso,
madeira de porão do mar
tua casa de degraus
de mastros eriçados,
La Sebastiana.
____________

Ilustrações: C. de A.

Cine Teatro Ouro Verde vive a sua maior tragedia

O fogo destrói o Cine Teatro Ouro Verde

A tragédia em dois atos

Se o destino do café é ser torrado, o mesmo não deveria ter ocorrido com o cinema histórico de Londrina que homenageou os bons tempos em que a coffea arabica enriqueceu o Norte do Paraná. O café era, sem dúvida alguma, o ouro verde e não foi por acaso que o moderno cinema projetado pelo arquiteto curitibano João Batista Vilanova Artigas, no final da década de 40 e inaugurado em 1952, recebeu o suntuoso nome: Cine Ouro Verde, que por mais de vinte anos orgulhou a cidade. Era um dos arrojados projetos de Vilanova Artigas, junto ao da Estação Rodoviária, do Fórum e do Edifício Autolon, para os quais ele contou com a parceira do arquiteto Carlos Castaldi.  Já contei, aqui, a história do tombamento da Estação Rodoviária, hoje Museu de Arte de Londrina.  Mas o incêndio que devorou o Cine Teatro Universitário Ouro Verde me chocou, pois também participei do episódio que o salvou, quando ele estava na fase final da venda para uma instituição bancária.

Antiga foto de Londriuna, onde aparecem, à esquerda, o Cine Ouro Verde e, à direita, o Edifício Autolon, projetos de Vilanova Artigas

No final da década de 70 eu trabalhava com Ney Braga no Ministério da Educação. Em uma visita que fiz a Londrina, conversei com Walmor Macarini, então redator-chefe da Folha de Londrina, que me contou sobre a venda do Cine Ouro Verde, propriedade da família de Celso Garcia Cid, de José Garcia Molina, seu sócio na Viação Garcia, de Jordão Santoro e Ângelo Pezarini. O prédio, que não comportava mais a atividade cinematográfica – como ocorreu com a quase totalidade dos cinemas brasileiros, apagados pelas salas de exibição menores dos shopping centers – estava em negociação com um banco, o que significaria o fim do espaço cultural e, possivelmente, a sua derrubada em favor de um edifício mais adequado aos novos negócios. Tanto Walmor quanto eu, evidentemente, nos preocupávamos com o destino do Cine Ouro Verde, um marco da história londrinense e da arquitetura brasileira, inaugurado em 1952, com projeto de  Vilanova Artigas, também autor de outros projetos na cidade, inclusive a estação rodoviária, igualmente inaugurada em 52 e que, já no final da década de 60, se mostrava pequena demais para  a Londrina que se desenvolvera rapidamente.

A fachada do Ouro Verde, que conservou o desenho do projeto original

Outro aspecto da fachada do Ouro Verde (fotos odiraio.com)

Com a preocupação de um final triste para o Cine Ouro Verde, falei com o reitor Oscar Alves, da UEL, e ele telefonou ao ministro Ney Braga, externando também seu desalento com a possível venda do edifício a um grupo privado. Adiantou que eu voltaria a Brasília no dia seguinte e relataria ao ministro os detalhes da situação. No mesmo dia de meu retorno ao MEC, procurei o ministro e expus o problema. Ato contínuo, ele pediu à secretária para localizar um dos proprietários, Manoel Garcia Cid, que logo estava ao telefone. Solicitou ao Neco informações sobre os valores em negociação, além de um prazo para que o poder público pudesse apresentar uma proposta de aquisição do cinema e conservar seu objetivo cultural. Em seguida, fez ele mesmo uma ligação direta para o governador Jaime Canet Jr. e informou-lhe sobre a questão, já com a sugestão de que o MEC entraria com a metade do valor e o governo paranaense com a outra parte, a ser paga em prazo maior.  O governador mostrou-se relutante, em princípio, pois já estávamos em  1978 e ele deixaria o governo em março do ano seguinte. Foi a deixa para que Ney Braga lhe dissesse que, então, estava tudo resolvido, pois ele, como ministro da Educação, daria a primeira metade e a segunda parte seria paga pelo governador Ney Braga, que viria a substituir Canet.

A doação do Cine Ouro Verde à UEL, em 1978: da esquerda para a direita: Francisco Borsari Neto, secretário da Educação e Cultura, Jaime Canet Jr., governador do Paraná, Ney Braga, Oscar Alves, reitor da UEL e Cleto de Assis, diretor de Assuntos Estudantis do MEC – Foto Folha de Londrina

Tudo acertado em menos de uma hora, o processo foi encaminhado para sua resolução legal e, no dia 14 de abril de 78, uma cerimônia no próprio Cine Ouro Verde, com a presença do ministro e do governador, selou a sorte do Cine Ouro Verde, que viria a ser absorvido pela Universidade Estadual de Londrina. Para a adaptação do cinema às novas atividades culturais, consegui do ministro Ney Braga, mais tarde, a aprovação de um projeto de reforma. O Cine Teatro Universitário Ouro Verde foi inaugurado pelo reitor José Carlos Pinotti Filho, que sucedeu a Oscar Alves, e reformado pelo seguinte dirigente, reitor Marco Antonio Fiori. Em 1998, ele foi finalmente tombado pelo Patrimônio Histórico estadual.

Platéia do Cine Teatro Universitário Ouro Verde: tudo transformado em cinzas

Platéia do Cine Teatro Universitário Ouro Verde: tudo transformado em cinzas

E agora? O incêndio do último domingo, dia 12 de fevereiro, causou um grande impacto no Paraná. O governador Beto Richa já anunciou que promoverá a recosntrução daquele espaço cultural. A reitora da UEL, profa. Nádina Aparecida Moreno, também já enfatizou a necessidade da reconstrução, em suas primeiras manifestações à imprensa, logo após o sinistro. Mas a perda foi de todos nós. Um importante local para o desenvolvimento cultural e um poema arquitetônico de Vilanova Artigas, ele  também um patrimônio da cultura paranaense e brasileira.

Eu creio que a tarefa de reerguer das cinzas esta Fênix cultural é obra para todos nós.

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Jão Batista Vilanova Artigas  (1915-1985)

“Admiro os poetas. O que
eles dizem com duas palavras a gente
tem que exprimir com milhares de tijolos.”

Walter Bezerra, de Maceió, reflete sobre o Fim do Mundo

Crônica sobre o fim do mundo

Sabemos que o mundo não se acabou no ano 2000, frustrando a interpretação de uma das centúrias do astrólogo, astrônomo, alquimista, erudito e mago francês Michel Nostradamus.

Agora, os donos da bola de cristal estão afirmando que o dia 21 de dezembro de 2012 será o fim do mundo (ou o início de um novo ciclo, como dizem os mais românticos), segundo previsão apocalíptica baseada na cultura maia.

O pressentimento é que o Sol nascerá, no tal dia, aliado ao planeta e ao centro da Via Láctea, um fato astronômico que só acontece a cada 26 mil anos e que provocará o cataclismo, causando o fim da vida na Terra.

Em alguns países, como na Espanha, as pessoas de alto poder econômico estão construindo, em sistema de cooperativas, os famosos bunkers, refúgios subterrâneos emergenciais, para se protegerem da possível explosão do planeta.

Os bunkers permitem que as pessoas permaneçam no interior deles até 3 anos, respirando ar puro e sobrevivendo à base de medicamentos e alimentos estocados. Eles estão protegidos por uma capa de 60 centímetros de concreto e contam com filtros de partículas radioativas para evitar a infiltração de resíduos tóxicos ou a passagem de radiação ou bactérias.

A história dos bunkers é uma realidade inconteste. Mas, digamos que as pessoas realmente acreditem que o mundo vai se acabar em 21 de dezembro, eu fico a imaginar, cá da minha porção vidente hilária, o que poderia acontecer diante dos efeitos colaterais causados pela síndrome do pânico generalizada:

Milhares e milhares de mulheres grávidas desesperadas por não poderem sequer conhecer a cara dos frutos de seus ventres;

Mulheres casadas – reprimidas, sofridas e traídas por seus maridos – pulando, por simples vingança, a cerca pela primeira e última vez;

Outras revelando, para seus maridos mulherengos, que tais filhos não são deles, mas dos vizinhos, patrões e pés de lã;

Outras ainda, agora decididas e encorajadas, revelando suas fantasias sexuais a seus maridos, namorados e parceiros de cama conservadores e recatados sexualmente;

Caretas e falsos moralistas experimentando maconha, cocaína, LSD e outras drogas alucinógenas e “reveladoras”;

Pais repressores, arrependidos, pedindo perdão a seus filhos;

Boa percentagem dos católicos, evangélicos, mulçumanos, espíritas e outros crédulos rogando a Deus para que lhes salve as almas, posto que só eles – por serem religiosos confessos e praticantes – merecem mais do que ninguém sobreviver à tragédia;

Centenas de milhares de agnósticos saindo de cima do muro e fazendo opção definitiva por Deus;

Empresários e milionários gastando tudo com viagens, extravagâncias e orgias;

Maus políticos, insaciáveis, promovendo a farra do Dinheiro Público dos Últimos Dias;

Homens e mulheres de bem revelando seus quinhões corruptos camuflados;

Multidões incautas, pobres, honestas e sem grandes ambições jogadas ao deus-dará;

Empregados e bajuladores mandando seus gerentes, diretores e patrões tomarem no devido lugar;

Formação acirrada e célere de cartéis, empresários majorando os preços, inflação a todo pique;

Devedores rindo da cara de seus credores;

Aproveitadores e caloteiros adquirindo tudo a crédito: carros de luxo, lanchas, vinhos, uísques, jóias, casacos de couro e perfumes caríssimos, visando desfrutar os (últimos) prazeres da vida;

Todo mundo, pessoas jurídicas e físicas, sonegando impostos, provocando a falência múltipla de países, estados e municípios e quebrando, por osmose, seus funcionários e fornecedores;

Tchau, tchau serviços essenciais públicos (saúde, segurança, educação etc.)!;

Estupradores de plantão violentando ídolos, divas e paixões adormecidas e dissimuladas;

Homossexuais enrustidos assumindo suas opções e preferências sexuais,

Vegetarianos devorando carnes, inclusive vermelhas, e naturalistas comendo produtos de origem animal, incluindo enlatados;

Naturistas e exibicionistas desfilando nus pelas ruas, sem nenhum pudor ou constrangimento;

Comercialização massificada de confessionários eletrônicos aplicados em iPhones, (concessão já aprovada pela Igreja Católica), e a efervescência da prática do Sacramento da Confissão nas paróquias de todo o mundo;

O Vaticano revelando, ainda que tarde, seus segredos históricos e eclesiásticos guardados secularmente a sete chaves;

Líderes de todas as facções religiosas revelando – em confissão e por desencargo de consciência – que Dostoiévski, Nietzsche, Saramago, Chaplin, Galilei, Reich, Freud, Einstein, Huxley, Epicuro, Fernando Pessoa, Thomas Edison, Charles Darwin e Lennon, entre inúmeros gênios, eram figuras sapientes, confiáveis, generosas e amáveis, dignos de serem ouvidos e seguidos;

A NASA tirando do baú e divulgando, embora sem mais nenhuma serventia, suas descobertas científicas e pesquisas espaciais sigilosas;

Terroristas e homens-bombas explodindo de raiva, revoltados com o efeito bumerangue;

Todo mundo, incluindo aidéticos, praticando sexo sem camisinha;

Pedófilos dissimulados praticando suas taras imorais e esdrúxulas;

Psicanalistas, psicólogos e terapeutas irresponsáveis seduzindo seus pacientes;

Homofóbos, racistas, chauvinistas, xenófobos e preconceituosos em geral praticando calorosamente suas aversões nefastas;

Depravação, obscenidade, parentes copulando com parentes, Sodoma e Gomorra se reeditando, tudo como Satã quer e gosta;

Pessoas revoltadas fazendo justiça com as próprias mãos, visando, por exemplo, vingar a morte do irmão assassinado ou a da mãe acidentada no trânsito;

Pessoas injustiçadas dando, numa atitude revanchista, o troco a seus déspotas e opressores;

Oportunistas e caras de pau vendendo terrenos na Lua e em Marte, à vista e em espécie, com desconto de 90%;

Internautas inescrupulosos espalhando boatos e defecando nas redes sociais contra seus desafetos;

Desesperados querendo ser tornar, a todo custo, cobaias de extraterrestres, só para fugir da catástrofe;

Propaganda de lançamento de um novo produto: Fique invisível e se livre da explosão mundial!

Grandes laboratórios farmacêuticos futurando zilhões e zilhões de euros com a pandemia de doenças como a antlofobia, astrofobia, brontofobia, termofobia, calipsefobia, demonofobia, somnifobia, meteorofobia e necrofobia, entre outros transtornos de ansiedade de nomes morfológica e semanticamente psicodélicos;

Superpotências pedindo perdão à Humanidade pela ganância capitalista e ocupações imperialistas, que causaram guerras e mortes de milhões de pessoas inocentes em diversos continentes do Planeta.

Enfim, se as pessoas acreditassem plenamente na previsão apocalíptica, o fim do mundo seria um verdadeiro deus nos acuda, uma bagaceira sem igual.

Mas, se eu fosse Deus, não destruiria o mundo não. Faria algumas reformas essenciais, justas e necessárias

Primeiro ato: em vez de Terra, o planeta passaria a se chamar Paz!

Em seguida, ignoraria essa conversa de herdeiros  do pecado original. Nada de pagar o justo pelo pecador! Nem aqui, nem na China!

Chega de tragédias: não haverá terremotos, tsunamis, tornados, vulcões, dilúvios ou qualquer outro fenômeno natural destrutivo em nenhum lugar do mundo!

Eu, o Todo-Poderoso, acabaria com a indústria bélica. Não haverá bombas nucleares, mísseis e nenhum tipo de arma de fogo sobre o planeta!

Eu, o Criador Onipresente, faria a reforma racial: não haverá brancos, negros, amarelos, índios.Todos serão coloridos!

Eu, o Soberano Onipotente, implantaria a reforma geográfica: não haverá país maior que outro! Todos terão os mesmos metros quadrados e a mesma quantidade de recursos e belezas naturais! Todos falaram uma só língua e suas moedas correntes terão o mesmo valor cambial! Não haverá mais superpotências e nem impérios!

Eu, o Supremo Magistrado, faria a reforma moral: fora todos os corruptos, crápulas, usurpadores e ditadores de qualquer tendência político-ideológica!

Eu, o Senhor da Democracia, promoveria também a reforma social: todos serão realmente iguais perante a lei e gozarão dos mesmos privilégios materiais e culturais!

Eu, o Sumo Sacerdote da Alma, faria, com urgência e sem pestanejar, a reforma religiosa e espiritual: a partir de hoje, a religião do planeta será o Amor!

E, por fim, eu, o Onisciente, decretaria: não tentarás contra a natureza. A partir de agora, a consciência ecológica passará a ser matéria disciplinar obrigatória em todas as escolas do planeta Paz!

Walter Bezerra

(ilustração de Cleto de Assis)

 

Haikais de Carlos Verçosa

Homenagem a um bom amigo

Ele se identifica no Facebook como relações públicas, publicitário, jornalista, roteirista, poeta. Inverto a apresentação e coloco o poeta em primeiro lugar, pois as outras profissões são circunstanciais.  Carlos Alberto Verçosa Silva, um pé vermelho de Londrina que foi para a Bahia há muitos anos e lá mudou o sotaque, mas não o talento e o caráter. Fomos vizinhos e bons amigos, embora a vida, que nos faz ciganear por aí, tenha me punido por longo tempo sem notícias do novo baiano. Até que a fama o alcançou, com a publicação de Oku: viajando com Bashô*, um verdadeiro tratado com mais de 500 páginas sobre o Haikai, a finíssima contribuição da poesia oriental que busca a concisão e a objetividade de momentos mágicos. Inspirado em Matsuô Bashô (1644-1694), Verçosa compôs uma obra antológica,  nacionalmente reconhecida.  E foi por aí que o reencontrei.

Faço a ele uma pequena homenagem, com a publicação de trêss de seus próprios haikais, já transformados em aves soltas nas nuvens internetianas. Sem a devida licença do autor, mas para imenso prazer meu, dei aos dois últimos vestimenta plástica.

Verçosa, o Banco da Poesia é seu. Aqui você tem crédito ilimitado. (Cleto de Assis)

I

 

 

 

 

II

 

III

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* O “Oku” do titulo refere-se a “Oku no Hosomichi”, diário de viagem escrito pelo poeta japonês Basho no século 17. O trabalho de Carlos Verçosa, um alentado volume de 568 paginas, pode ser dividido em tres partes: a primeira contem traduções de dois ensaios de Octavio Paz sobre haicai: “A Poesia de Matsuo Basho” e “A Tradição do Haikai”. A segunda consiste na tradução do diário de viagem “Oku no Hosomichi”, ou “Sendas de Oku”, como é mais conhecido no Brasil, a partir da tradução mexicana de Octavio Paz e Eikichi Hayashiya. Por ultimo, o ensaio “Presença do Haikai na Poesia Brasileira”, do próprio Verçosa. (Edson Kenji Iura, em “A Obra de Carlos Verçosa” )

Bom dia, Ano Novo!

Meu mantra

Nas várias religiões que cobrem o mundo há discussões infindas sobre o valor das orações repetidas. Fosse eu sacerdote (ou ainda melhor, um bispo) de uma delas, defenderia a repetição como a reiteração do desejo não alcançado, a insistência, a persistência, a reprodução e a multiplicação da vontade. “Ah, mas Mateus ensinou que não devemos multiplicar as palavras, como fazem os pagãos, que usam a força das palavras para serem ouvidos.” Segundo o apóstolo cristão, Deus sabe o que necessitamos, antes mesmo que peçamos a ele. Porém, prevenindo-se contra as dúvidas, ele ensinou a seus discípulos a rezar o Pai Nosso, tantas vezes repetido ao longo de todos os dias.

Mas entre nós, míseros mortais, a força da palavra deve ser usada à exaustão, já que os ouvidos dos poderosos são moucos, mesmo quando sabem, também à exaustão, o que necessitamos.

A oração, para mim, é um ato íntimo (como pregava Mateus), uma busca pelas forças recônditas de nosso próprio ser. Não é prova de abandono, mas de apego à vida, até em momentos em que a esperança é ínfima. Sobretudo, a oração utiliza a energia da palavra para também multiplicá-la em nosso interior. Desse modo, não é preciso ser religioso, no sentido de pertencer a uma determinada organização mística, para fazer uma oração. Noel Rosa fez uma canção em louvor a uma mulher amada e lhe deu um nome adequado: “Feitio de Oração”. E era (é) realmente uma oração, sem necessariamente ser dirigida a um ser supremo. Os pintores também rezam quando produzem seus quadros, porque retiram de dentro de si a energia da criação. Os poetas literalmente oram e predicam em seus poemas, construídos com a força da palavra.

Os budistas e outros religiosos orientais vão além das palavras para proferir suas orações, sempre em busca de um caminho energético. Fixam-se, em seus mantras, nos sons de palavras antigas, algumas incompreensíveis, cuja repetição e, possivelmente, a vibração ou onda sonora com que são produzidos criam vários efeitos sobre a pessoa que as emite ou, como creem os seus adeptos, entre o emissor e aquelas que são alcançadas por tais sons.

Repetir um mantra abre portais para o akasha, que seria, no nosso limitado entendimento ocidental, uma espécie de substrato espiritual, o cosmos, a quintessência universal.

Por isso, retomo um recado ao ano de 2010, publicado em dezembro de 2029 no Banco da Poesia, e dedico-o ao novo ano que abre agora suas portas. A releitura serviu para convencer-me que pouco mudou, nos limites da pátria amada, nem em 2010, nem em 2011. Os poucos avanços que conquistamos foram quase todos inerciais, produtos da energia social que não necessita de apoios oficiais para mover-se, ou de empurrões do mundo globalizado, que nos obriga a acompanhar ou copiar ações de outros países. Continuamos a ser meros exportadores de produtos primários (ou de commodities, como dizem os mais sofisticados) e de alguns semimanufaturados, sem agregar valor às nossas riquezas naturais. Temos pouco desenvolvimento tecnológico, porque nos faltam Educação e pesquisa científica. Recebemos afagos da vaidade quando anunciam que nos tornamos a oitava economia mundial e logo seremos a sétima, passando pelo Reino Unido e pela França, o que só nos distrai de outra verdade mais contundente: o Brasil ainda está na 84ª posição no índice de Desenvolvimento Humano, atrás de muitos países da América Latina, como Argentina, Chile, México, Uruguai, Cuba, Costa Rica, Panamá, Peru, Equador  e Venezuela. A cada novo governo, a cada novo ano, ecoam as promessas mântricas de prioridade para a Educação, combate à fome e à miséria (como se fossem coisas separadas), faxina para os malfeitos (mas nunca para todos os malfeitores). Continuam a ser mantras sem reverberações.

Eis-nos, pois, nascente ano de 2012, novamente embasbacados diante de ti, um novo ano aventuroso, cujas venturas podem se confundir apenas com leves ventos de esperanças. Arrepiados, por exemplo, quando se anuncia, já para janeiro, a troca do roto pelo esfarrapado na pasta da Educação, que deveria ser o ministério mais importante para qualquer governo. Temerosos, novamente, quando ainda perduram as estruturas políticas viciadas e os estratagemas indecentes para manter o poder de determinados partidos. Assombrados porque, diante de um novo ano eleitoral, quando iremos escolher novos prefeitos e vereadores, nada mais existe, em matéria política, que a mera vontade de se ganhar eleições, sob qualquer condição, com qualquer indivíduo, seja ele preparado para o trabalho público ou um virtual aproveitador do dinheiro público.

É hora, portanto, de repetir meu mantra, certo de que, em um ano qualquer mais radiante, conseguiremos fazer com que nossa sociedade nacional cresça e apareça –  mais séria, mais respeitosa e respeitada.

E não custa também repetir, apesar disto ser um velho clichê: Feliz Ano Novo para todos! (Cleto de Assis)

 Oração a 2012

2012,  que estás a chegar
tão cheio de esperanças, tal como teus irmãos passados,
venha até nós com certezas e realizações.
Faze-nos atingir o caminho da Justiça, em todas as suas direções
e realiza o milagre da multiplicação dos pães
sem o auxílio mesquinho de astuciosas dádivas politicóides,
mas alcançado por meio do Trabalho digno e recompensador.
Faze com que a Saúde seja também imperadora em todos os lares
e afasta principalmente as crianças das caliginosas névoas da tristeza
e da fome e da doença.
Acende a chama pentecostal do conhecimento
sobre todas as cabeças, por meio da nobreza da Educação e da alegria do Saber.
Livra-nos das promessas vazias dos homens e das mulheres que querem nos liderar
e encaminha-os ao cometimento de ações sérias e consequentes
com total respeito ao imposto nosso de cada dia.
Não os deixes cair nas tentações das propinas
e não lhes perdoes as suas ofensas, nem lhes dês a benção espúria da impunidade.
Unge-nos com o bálsamo da paciência
para que possamos suportar as falsidades, as descaradas mentiras,
os impropérios gramaticais dos horários eleitorais
e as ladainhas sem sentido dos salvadores da Pátria.

Amigo 2012, tu que vens com data certa para um novo exercício de Democracia,
faze com que ela permaneça entre nós,
senhora que é da Liberdade e da Justiça Social.
Ajuda-a a não ser usada para a prosperidade dos demagogos
ou para o gozo dos déspotas.
Mostra aos pretensos donos do poder que só ela salva
e pode nos garantir o direito de opinião e de expressão
sem termos que nos submeter à censura dos donos das verdades
ou ao estulto absolutismo de um único partido.
No período eleitoral, faze que, quando houver ódio,
possamos também falar de amor sem nos envergonharmos;
quando houver ofensa, que ela seja sucedida pela pacificação;
quando houver discórdia, que possamos remar a favor da união;
quando houver dúvida, que tenhamos de pronto o esclarecimento;
quando houver erro, que possamos chegar rápido à verdade;
quando houver desespero, ajuda-nos a manter a esperança;
quando houver tristeza, que se eleve a alegria;
quando houver trevas, que se faça a luz.

Sobretudo, aguardado 2012,
faze com que finalmente compreendamos o valor da Paz e do Trabalho
para que não precisemos mais suplicar por felizes novos anos .

Cleto de Assis – dezembro de 2009, renovado em dezembro de 2011.

Últimos dezembros

Vivemos um novo dezembro. Fim de ano, renascer de esperanças e renovação de promessas. Festas, comilanças, fome aqui e ali, bebedeiras, ressacas, fogos de artifício, ensaios de solidariedade. Declarações de amor e amizade que, muito provavelmente, serão esquecidas a partir de janeiro ou no tempo que correr após o próximo carnaval. Dizem os apocalípticos que será o último dezembro completo da humanidade, pois está marcada a data fatal do calendário Maia: 21 de dezembro de 2012.

O próximo ano será o ano do Armageddon, a batalha final prenunciada pela Bíblia.  Nostradamus também volta ser lembrado e tem gente que jura que ele (já usado para outras mortes do mundo, em épocas passadas) igualmente previu algo terrível para o próximo final de ano. Mas também há previsões científicas, que dizem ser 2012 o ano do fenômeno da Precessão, ou do alinhamento cósmico, no qual o eixo da Terra mudará seu ângulo em relação à galáxia. Prevê-se também a inversão dos polos da Terra, com cataclismos fantásticos, erupções vulcânicas, terremotos,  tsunamis e colossais tormentas solares, que causarão colapsos nas redes elétricas e eletrônicas.

O pior (ainda pode haver coisas piores do que os desastres anunciados?) será o deslizamento da crosta terrestre, desarranjando novamente a posição dos continentes. A vingança de Gea, por não sabermos dela cuidar. Ou de uma justiceira alienígena, Némesis, a deusa da vingança, uma estrela que poderá afetar terrivelmente a vida terrestre, devido a sua aproximação. Também com agenda marcada para 2012. E os asteróides, já vistos em produções holiudianas, que poderão (ou deverão?) chocar-se com nosso planetinha querido, igualmente no próximo ano?  Têm até identidade própria, alfanuméricas:  2003 QQ47 ou VD17 2004, monstros de pedra que podem por um ponto final na nossa vidinha nem sempre tão mansa como gostaríamos. Tudo isso sem falar no degelo total do polo norte, com suas consequencias imagináveis.

Os mais otimistas ( e ponha-se otimismo nisso) falam no início de uma nova fase para a humanidade, de conscientização universal e de abandono do egoísmo que, até agora, tem comandado nossa história.

Nós, que amamos a Poesia, mesmo quando ela se nos mostra triste e até trágica, preferimos acreditar que a humanidade, pouco a pouco, alcançará o caminho do equilíbrio social e da harmonia universal. Desastres sempre ocorreram e fazem parte da história natural do planeta. Enquanto eles não vem, preferimos acreditar que ainda haverá muitos dezembros felizes para muitos, infelizes para alguns. Dezembros luminosos, não necessariamente candentes devido a bombas ou asteróides vingadores.  Dezembros que continuarão a lembrar o simbolismo de um menino que renasce todos os anos para, depois de adulto, pregar paz e amor. Símbolo bom para religiosos e não religiosos.

Menino despertado, neste dezembro, pela crônica poética de Vera Lúcia Kalahari, por ela enviada lá de Portugal. Menino que lembra todos os meninos que fomos, que somos e que seremos, como o menino de João Manuel Simões, exposto no seu mais recente livro de poemas, Memórias Breves do Menino Antigo, sobre o qual escreverei mais tarde. Atrevo-me a emprestar o texto da amiga Vera Lúcia para dele fazer minha mensagem de Natal, endereçada a todos os amigos do banco da Poesia. (Cleto de Assis)

Crônica do Menino-Deus

Vera Lúcia Kalahari

Nasceste.
Chegaste num dia frio de sol cadente.
Dormirás sobre estrelas e trazias no cabelo o ouro que tiraras delas.
Nas mãos, um tesouro: o peso assustador, esmagador, do mundo…
Nos olhos, a pureza duma açucena, o brilhar de prantos que jamais choraste.

Nasceste. Não vieste para reinar entre pratas, ouro e pedras, como
aqueles que se intitulam teus seguidores.  Chegaste só, com a chuva
que tombava num telhado em ruínas. Agora, dormes num monte de feno
quente, cheirando a campo. Perto, tua mãe vela docemente com o peso
dum filho que é seu, mas que o mundo roubará.

Nasceste, menino, Homem-Deus, mas não ficaste.
Encontraste, em cada esquina, um Judas
para te trair e uma coroa de espinhos para te ferir com o peso dos
pecados a curvar-te, a enterrar-se até ao fundo do teu coração. Estás
em tudo, Menino-Deus…

Pena teres partido. Não teres mantido o teu
reinado, Tua humildade imensa de cordeiro, entre os homens.
Porque então, Menino-Deus, esta não seria a terra de rios intumescidos
de prantos e de gemidos.
E nós, não seriamos estes vermes rastejantes, de olhos suplicantes
virados para Ti, numa ânsia agônica de Te tocar, sem termos forças
para Te alcançar.

 

Feliz aniversário, com felizes silêncios de Eduardo Masullo

Eduardo Masullo, nosso correntista de Buenos Aires, está fazendo aninhos hoje.  Enviamos nosso abraço e comemoramos a data com seus canoros silêncios.

Las cosas de la vida

Eduardo Mazullo

Silencio, por Cleto de Assis

El silencio
A veces
Es un gato negro.
A veces,
Un tordo blanco.
A veces un sable con sueño.

Nunca es la misma cosa
Si una vez el silencio fue el invierno
Ya nunca el invierno será el silencio.
Hay tantas cosas en la vida
Que nunca el silencio quedará solo.
Ayer el silencio
Fue la pelota de fútbol perdida.
Hoy sabemos, que la pelota de fútbol
Ya nunca será el silencio.
Una cosa por la otra.
Dios es justo como mi tío Alberto,
Que me regaló todas las pelotas de la infancia.

Silencio fue mi papá.
Silencio mi mamá. Y los abuelos.
Ahora tengo muchísimo miedo
Porque uno de estos días
Silencio será mi corazón,
Y desde entonces
Seré silencio para siempre.

20/7/2010

As coisas da vida

O silêncio
Às vezes
É um gato negro.
Às vezes,
Um tordo branco.
Às vezes um sabre com sono.

Nunca é a mesma coisa
Se uma vez o silêncio foi o inverno
Já nunca o inverno será o silêncio.
Há tantas coisas na vida
Que nunca o silêncio ficará sozinho.
Ontem o silêncio
Foi a bola de futebol perdida.
Hoje sabemos que a bola de futebol
Já nunca será o silêncio.
Uma coisa pela outra.
Deus é justo como meu tio Alberto,
Que me deu todas as bolas da infância.

Silêncio foi meu pai.
Silêncio minha mãe. E os avós.
Agora tenho muitíssimo medo
Porque um destes dias
Silêncio será meu coração,
E desde então
Serei silêncio para sempre.

Tu mirada

Teu_Olhar_ilustração de Cleto de Assis

¿En qué cava oscura,
Húmeda y maravillosa,
Madura tu silencio?

Allí congrega
Otros silencios
Más antiguos,
Más nocturnos,
De los tiempos bárbaros
En que la lluvia
Era siempre
Un peligro.

Y el silencio
Sube por tu rostro
Como el vino
Dentro de ancha copa
Invertida de coñac
Hasta que tus ojos
Huelen a lo callado,
A lo húmedo, a lo maravilloso.

16/9/2010

Teu olhar

Em que cava escura,
Úmida e maravilhosa,
Matura teu silêncio?

Ali congrega
Outros silêncios
Mais antigos,
Mais noturnos,
Dos tempos bárbaros
Em que a chuva
Era sempre
Um perigo.

E o silêncio
Sobe por teu rosto
Como o vinho
Dentro de larga taça
Invertida de conhaque
Até que teus olhos
Cheirem a calado,
A úmido, a maravilhoso.

Sin título

Pés de outono, ilustração de Cleto de Assis

¿Qué es esa prisa
Que cruje veloz
Entre las hojas secas?

Cruje
El alma del otoño.

Hay un llanto
Que crece
Como hierba entre la piedra.

¿De quién es todo este silencio?

18/9/2010

Sem título

O que é essa pressa
Que estala veloz
Entre as folhas secas?

Estala
A alma do outono.

Há um pranto
Que cresce
Como erva entre a pedra.

De quem é todo este silêncio?

Os dois Mários utópicos

Em linha reta, menos de mil quilômetros os separavam. Um em Montevidéu, outro em Porto Alegre. Em linhas poéticas, nenhuma separação, a não ser de idéias individualizadas. Ambos buscavam a palavra simples, mas de enorme carga emocional. Ambos Mário. Um Benedetti, o outro Quintana. Ambos poetas que já se foram. Ambos menestréis do amor e da paz que ficarão entre nós eternamente.

Este post é dedicado a Manoel de Andrade, em regozijo à sua pronta recuperação.

Utopía

Mário Benedetti

Cómo voy a creer / dijo el fulano
que el mundo se quedó sin utopías

cómo voy a creer / dijo el fulano
que el universo es una ruina
aunque lo sea
o que la muerte es el silencio
aunque lo sea

cómo voy a creer
que el horizonte es la frontera
que el mar es nadie
que la noche es nada

cómo voy a creer / dijo el fulano
que tu cuerpo / mengana
no es algo más de lo que palpo
o que tu amor

ese remoto amor que me destinas
no es el desnudo de tus ojos
la parsimonia de tus manos

cómo voy a creer / mengana austral
que sos tan sólo lo que miro
acaricio o penetro
cómo voy a creer / dijo el fulano
que la utopía ya no existe
si vos  / mengana dulce
osada / eterna
si vos / sos mi utopía.

Utopia

Como vou crer / disse o fulano
que o mundo ficou sem utopias

como vou crer / disse o fulano
que o universo é uma ruína
ainda que o seja
ou que a morte é o silencio
ainda que o seja

como vou crer
que o horizonte é a fronteira
que o mar é ninguém
que a noite é nada

como vou crer / disse o fulano
que teu corpo / sicrana
não é algo mais do que apalpo
ou que teu amor

esse remoto amor que me destinas
não é o despir-se de teus olhos
a moderação de tuas mãos

como vou crer / sicrana austral
que és tão somente o que vejo
acaricio ou penetro
como vou crer / disse o fulano
que a utopia já não existe
se tu / sicrana doce
ousada/ eterna
se tu / és minha utopia

Versão: C. de A.

Ilustração: Cleto de Assis

Das Utopias

Mário Quintana

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

de:  Espelho Mágico