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Além do incêndio de Notre Dame

Recebi um significativo texto sobre o lamentável incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, escrito por uma ex-professora da Universidade dos Andes, de Bogotá, Colômbia, que merece ser lido por todos. Sabemos que a ereção daquela igreja, assim como de todas as que foram erguidas no período gótico da história da arte, foi motivada por grandes transformações sociais, religiosas, políticas e econômicas da Europa, onde, até então, dominava a política medieval, com estreita aliança entre reis e a igreja de Roma. As Cruzadas perdiam os seus objetivos religiosos e se transformaram no aprofundamento do fosso existente, até hoje, entre a igreja ocidental e a igreja oriental. Jerusalém – foco dos cruzados que se sucederam durante mais de mil anos, e de seus orientadores, para uma presumível consolidação da religião cristã romana e considerada durante todo o tempo como Terra Santa por várias crenças – tornou-se a eterna Terra de Conflitos, talvez o local onde mais se derramou sangue, sempre em nome de Deus.

Abade Suger

A história dá crédito ao abade francês Suger (1081-1151) como pioneiro do estilo gótico. Pároco da igreja de Saint Denis, ele lutava com um grande problema. O religioso registrou que, nos dias festivos, sua igreja ficava repleta de fiéis. Escreveu que “a multidão… empenhada em se reunir para adorar e beijar as santas relíquias, ninguém em meio à intensa densidade de milhares de pessoas podia mover um pé”. Claro que a solução era óbvia: aumentar o espaço. Naquela época, em que a arquitetura religiosa era inspirada nos ideais artísticos românicos, as construções eram pesadas, com paredes amplas e janelas diminutas, talvez por intenções defensivas, o que deixava o ambiente eclesial escuro e soturno. Consta que, durante a reforma de sua igreja, Suger teve uma inspiração, como se divina fosse. Imaginou um ambiente literalmente iluminado (símbolo da presença de Deus), cercado de paredes finas e sem divisões. Tudo isso unido à inspiração dos artistas e da também intensa reforma feita na arte contemporânea, foi também adotado um desenho que simbolizava a elevação espiritual: linhas ascendentes.

Paredes mais leves permitiram um verdadeiro desafio às leis da gravidade, pois era possível elevá-las quase sem limites, culminando nas agulhas que   coroavam as torres. A partir de Notre Dame, uma das primeiras igrejas monumentais erguida nesse estilo, houve uma evolução para um feitio mais rebuscado, conhecido como gótico flamejante (flamboyant), que em Portugal teve uma variação muito própria, batizada como Estilo Manuelino. Também em Portugal floresceu o Gótico Mendicante, exemplificado nas igrejas de Batalha e de São Francisco do Porto.


Interior da abadia de Saint-Denis

Foi erguida, então, a Abadia de Saint Denis, entre 1135 e 1144, (a partir de 1966 denominada Catedral Basílica) e fundado o Estilo Gótico. A arquitetura deu um salto técnico, com a utilização da ogiva na criação de abóbodas mais leves, com peso distribuído uniformemente. As paredes deixam de ser um elemento destinado exclusivamente ao suporte de cargas. Isso permitiu a abertura de janelas mais amplas, com belos vitrais colorido que filtram a luz para o interior.

Autorretrato de Giorgio Vasari

Mas coube ao pintor e arquiteto italiano Giorgio Vasari, (1511-1574), também consagrado como fundador da História da Arte, cunhar o termo Estilo Gótico, até então, a partir de Surge, conhecido como Estilo Francês (Opus Francigenum). Vasari criticava a arte medieval, em especial no campo da arquitetura, que, segundo ele, era obscura e negativa, o oposto da perfeição. Relacionou-a com a ação beligerante dos godos, que, no Séc. IV, invadiram a Europa e tiveram vários enfrentamentos com os romanos, chegando a saquear Roma, no Séc. V.

Essas contradições já abriam o caminho para o Renascimento da arte clássica e para o surgimento de pensamento mais aberto ao mundo e distanciamento de filosofias puramente religiosas. Redescobriam-se os filósofos gregos. Traçava-se a senda para o iluminismo e o mundo moderno.

Mas o que tudo isso tem a ver com um blog de Poesia? Tudo a ver, pois tudo, de certa maneira, quando encarado positivamente, é poesia. Lembremo-nos que o estilo Gótico acrescentou poesia e reflexões filosóficas nas construções religiosas, que seguiam as vertentes da arquitetura dos castelos fortificados, quando o que interessava era a segurança de seus ocupantes. Poesia no pensamento dos cientistas da época, os alquimistas, que sonhavam transformar a matéria bruta em riqueza, por meio de seus crisóis. Poesia na utilização da matemática para tornar mais bela a arquitetura. Poesia nas palavras de poetas, como o português Mário de Sá Carneiro (Lisboa, 1890 – Paris, 1916), contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa, que deixou seu elogio a Nossa Senhora de Paris. Notem que, entre os versos, há quase previsões místicas (“Mas o Ouro não perdura / E a noite cresce agora a desabar catedrais… / Fico sepulto sob círios – / Escureço-me em delírios, / Mas ressurjo de Ideais…”)

Mário de Sá Carneiro: profético?

Teria Sá Carneiro, morto em Paris por vontade própria, pouco antes de completar 26 anos de idade, imaginado o que sucederia naquela cidade, um século depois?

Nossa Senhora de Paris

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…
Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar…
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos…
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais…
Fico sepulto sob círios —
Escureço-me em delírios,
Mas ressurjo de Ideais…
– Os meus sentidos a escoarem-se…
Altares e velas…
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!
Flores de lis…
Manchas de cor a ogivarem-se…
As grandes naves a sagrarem-se…
– Nossa Senhora de Paris!…

            (do livro Indícios de Oiro, publicado em 1937 pelas Edições Presença)

Mas vamos ao texto a que me refiro no início deste post.

O que hoje se queimou e, em parte, desmoronou em Paris, não é simplesmente um “templo católico”. É um dos testemunhos vivos de que houve um tempo – a  baixa Idade Média – no qual o conhecimento, a arte, o trabalho (individual e coletivo) e a educação foram concebidos de uma forma mais abrangente e, talvez, menos ingênua que hoje. As catedrais góticas respondiam ao desejo universal de fazer um livro vivo para mostrar que o universo é habitável e cognoscível (ainda hoje essa é a base de todo esforço científico e de toda vaidade política, em última instância). As catedrais góticas eram – são – edifícios legíveis que ligam a vida curta e frágil do homem com o extenso, porém finito tempo do mundo (com a história e as gerações) e com a eternidade de Deus. Na construção de uma catedral gótica, todas as disciplinas de conhecimento e do quefazer estavam envolvidas. A construção não culminava em uma geração, nem em duas: quem terminava de erguer a catedral (se é que uma catedral se termina de fazer) eram homens os quais os iniciadores não tinham conhecido ou concebido. Com isso, a catedral era construída pela cidade inteira: por seu passado, seu presente e seu futuro. Os vitrais, as esculturas, a pintura, a arquitetura procuravam transmitir a história da humanidade, e, ao mesmo tempo, formular as perguntas corretas para chegar a entender como estava estruturada a realidade. Um público que, na época, era iletrado, em sua maioria, poderia adquirir conhecimento (alguns explícitos, outros mais sutis, herméticos, espirituais) observando a catedral, vivendo-a e compartilhando-a. A catedral tinha uma aspiração universal, que talvez não tenha tido nenhum outro empreendimento educacional até hoje (talvez a internet seja seu correlato mais exato). Hoje o incêndio de Notre Dame, um lugar onde passei horas desejando entender e, por vezes, recebendo a promessa de que um dia entenderei algo, recordou-me que tudo é efêmero. Mais do que os esforços do homem e de todos os seus amores pode o fogo do sol. Dias após de vermos a foto do buraco negro, eu também leio este incêndio como um convite para voltar os olhos para o saber das catedrais (às vezes as coisas são destruídas para se tornarem mais visíveis): para lembrar que os arquitetos e maçons góticos (e os autores de enormes livros de contos inseridos, que eram catedrais escritas) também se aproximaram (não menos do que nossa ciência empírica, que, entre outras coisas, é um desenvolvimento da alquimia e dos cálculos de medievais) para ver além; imaginar mais e mais longe. As torres e a espiral de Notre Dame, e todos os seus altos relevos, suas esculturas e vitrais, clamam apenas uma coisa: o ser humano pode conhecer e elevar-se. Hoje a fumaça, que sobe mais que a espiral, afirma o mesmo. Tudo no mundo é finito e tudo ascende.
Carolina Sanin / 15 de abril de 2019

Carolina Sanín Paz (Bogotá, 28 de abril de 1973) é escritora e docente colombiana, licenciada em Filosofia e Letras da Universidade dos Andes e PhD em literatura espanhola e portuguesa pela Universidade de Yale. É sobrinha da política colombiana Noemí Sanín e neta do escritor Jaime Sanín Echeverri. Foi professora do Purchase College da Universidade de Nova Iorque e da Universidade dos Andes, instituição que deixou em dezembro de 2016. Tem sido colunista o jornal El Espectador, da revista Semana, do portal La silla vacía e da revista Arcadia. Recentemente, sua novela Los niños foi traduzida para o inglês e publicada pela editora inglesa MacLehose Press.

Socorro!

Help!

“Help me if you can, I’m feeling down

And I do appreciate you being round

Help me, get my feet back on the ground

Won’t you please, please help me?”

 

Paul McCartney / John Lennon

Se quiser me ajudar…

…sussurre palavras suaves e doces em meus ouvidos.

Derrame sons de roçar de mãos na relva úmida de seu corpo.

Faça-me esquecer que vivemos no país da simulação

onde a mentira vira imediata verdade.

Se quiser me ajudar…

… brinque comigo com bolinhas de búrico.

Mas tem que ser búrico. Nada de búlica,

gude, fubeca, borroca, berlinde ou ximbra:

essas todas estrangeiras para minha infância.

Se quiser me ajudar…

… empine sua pandorga até as nuvens

e leve-me nela pendurado

para que eu conheça de perto

os rebanhos em constante dispersão.

PandorgaBR
Ilustração: C. de A.

Se quiser me ajudar…

… conte-me onde foi parar a minha coleção de pedras

que eu juntei com tanto carinho em uma mochila de lona,

e um dia foi-se de meus cuidados

levada pelos cuidados de alguém mais esperto.

Se quiser me ajudar…

… diga-me para onde seguiram meus amigos

cujos sonhos eram iguais aos meus

mas que se perderam em curvas inesperadas

sem olhar para trás e sem acenos de adeus.

Se quiser me ajudar…

…explique-me o que é essa tal liberdade

pela qual os homens prendem e matam

e inventam paraísos e nirvanas e outras utopias

e queimam vilas inocentes e sonhos de crianças.

Se quiser me ajudar…

… prove-me que este menino grande e pobre

chamado Brasil tem futuro e que a palavra

esperança ainda encontra sentido no presente

vilipendiado por tantos mal-eleitos.

Cleto de Assis

Curitiba/17.07.2018

Reflexões do C.A.R.A. na Sexta-feira Santa

Carlos-Alberto-Rodrigues-Al

C.A.R.A. são as iniciais de Carlos Alberto Rodrigues Alves. Mas a coincidência vem a calhar, pois ele é O Cara. Teólogo, pedagogo, Pastor evangélico e professor, porém sua profissão (de fé) verdadeira é ser amigo de muita gente. Quase sempre de bom humor, faz de versos de Vinicius sua máxima de vida: “a alegria é a melhor coisa que existe”. E também verseja, muitas vezes, embora sua melhor expressão artística esteja nas pontas do dedos, bom violonista que é. É casado com Luciana e tem três belos filhos: Giovani, Kauan e Giulia.

Hoje assume sua conta no Banco da Poesia, citando um de nossos poetas maiores, mas expondo uma visão da realidade que bem demonstra sua sensibilidade poética. Virão, em breve, versos seus.

Sobre Eriberto e seu cãozinho

Nesta semana santa, comovi-me diante de um catador de papel e morador de rua. Ele passa todos os dias em frente ao meu trabalho. Detalhe: sempre acompanhado de seu fiel e magérrimo cãozinho. Eriberto disse-me que não aceitou a oferta generosa de uma Ong que queria lhe dar um abrigo com maior dignidade. Razão de não ter aceito a generosidade: “ Eles me disseram que eu não poderia levar o Piloto para morar comigo”.

Vendo esta cumplicidade existencial entre o pequeno animal e seu dono entendi um pouco mais o poema do Drumond:
cao

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas ainda tens um cão…

Interpretei a cena que vi como mais uma lição de que nosso olhar não deve focar as nossas vias-sacras e sim as ressurreições constantes que a vida nos oferece. Noites que se transformam em manhãs, invernos que se tornam primaveras, lagartas que se metamorfoseiam em borboletas… Ou um cãozinho, com seu olhar de amigo, que nos comprova o valor da lealdade. C. A. R. A.

Sexta-feira da cruz que nos pesa

Não sou professo de religião organizada. E considero que minhas atuais convicções a respeito da vida e do[s] mundo[s] que me cerca[m] não são produto de soberba ou de exagerada humildade: creio-me incapaz de construir a ideia de outras vidas, além desta nossa precariamente vivida por alguns anos, e de seres imensamente poderosos que eventualmente nos criaram e comandam nossos destinos.

Confesso-me igualmente incapaz até mesmo de entender um universo (ou mais de um) com um começo e talvez sem fim, mesmo com explicações plausíveis da mais moderna Física. Já tenho um universo dentro de mim, cada um de nós é um microcosmo pouco conhecido: por que pretender ir além, sem complicar ainda mais a barafunda religiosa que povoa a mente e os corações dos seres humanos?

Mas respeito os que têm fé, opondo-se à minha (des)crença com uma confiança inabalável em uma vida transcendental. Respeito-os porque também já assumi essa confiança, dentro dela fui educado e nela vivi até adotar outros paradigmas. Em minha realidade, prefiro valer-me mais da dúvida que da fé, uma vez que a incerteza abre portas maiores para o conhecimento.

Em anos anteriores, possivelmente ainda sensível a exercícios religiosos que impregnaram minha infância, publiquei poemas alusivos à fé cristã, em datas especiais como a semana da Páscoa, que ainda me traz saudades dos tempos em que acordávamos, eu e minha irmã menor, nos domingos pascais, para iniciar a caça às cestas de doces que nos encantariam por alguns dias. Essas publicações em nada contradizem meu posicionamento em relação às religiões organizadas. Quem quiser saber mais um pouco, leia poemas que publiquei (aqui e aqui), arriscando-me a tangenciar levemente os campos metafísicos da vida humana. O resto é o que restar. E o que resta, ninguém ainda sabe.

Brasilia_Planalto

 

Para não deixar de refletir – sob vários ângulos – sobre essas datas histórico-religiosas, busquei algo relacionado com a crença em um deus-esperança, sem refúgio na tragédia sanguinolenta da sexta-feira da paixão. E encontrei um belo poema de Antônio Gonçalves Dias, o nosso romântico indianista. Denomina-se Ideia de Deus . Deposito aqui somente a segunda metade do Canto I, que pareceu-me profética, por descrever um cenário associado à imagem atual de certo país pendurado ao sul do Equador. Fala, em meio à invocação desse deus-esperança, de corrupção, de comandantes ímpios, de vingança e roubos, de invasão de insetos, mas também da fé em “um povo que nasce, esperançoso e crente, do povo corrupto”. Quem adivinhar que país é esse, ganha um ovinho de chocolate. Mas para reclamar somente dentro de alguns anos, quando tivermos recuperado nossa economia. C. de A.


Ideia de Deus

Gonçalves Dias

À voz de Jeová infindos mundos
Se formaram do nada;
Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia,
E a noite foi criada,

Luziu no espaço a lua!
Sobre a terra
Rouqueja o mar raivoso,
E as esferas nos céus ergueram hinos

Ao Deus prodigioso.
Hino de amar a criação, que soa Eternal, incessante,
Da noite no remanso, no ruído
Do dia cintilante!

A morte, as aflições, o espaço, o tempo,
O que é para o Senhor?
Eterno, imenso, que lh’importa a sanha
Do tempo roedor?

Como um raio de luz, percorre o espaço,
E tudo nota e vê –
O argueiro, os mundos, o universo, o justo;
E o homem que não crê.

E Ele que pode aniquilar os mundos,
Tão forte como Ele é,
E vê e passa, e não castiga o crime,
Nem o ímpio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro
O Nome seu maldiz,
Quando só vive de vingança e roubos,
Julgando-se feliz;

Quando o ímpio comanda, quando o justo
Sofre as penas do mal,
E as virgens sem pudor, e as mães sem honra.
E a justiça venal;

Ai da perversa, da nação maldita,
Cheia de ingratidão,
Que há de ela mesma sujeitar seu colo
A justa punição.

Ou já terrível peste expande as asas,
Bem lenta a esvoaçar;
Vai de uns a outros, dos festins conviva,
Hóspede em todo o lar!

Ou já torvo rugir da guerra acesa
Espalha a confusão;
E a esposa, e a filha, de tenor opresso,
Não sente o coração.

E o pai, e o esposo, no morrer cruento,
Vomita o fel raivoso;
– Milhões de insetos vis que um pé gigante
Enterra em chão lodoso.

E do povo corrupto um povo nasce
Esperançoso e crente.
Como do podre e carunchoso tronco
Hástea forte e virente.


Gonçalves_Dias

Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias, Maranhão, a 10 de agosto de 1823, e morreu em Guimarães, no mesmo estado, a 3 de novembro de 1864, vítima de um naufrágio. Estudo em Portugal e em Coimbra relacionou-se com escritores lusos celebrados na época, como Almeida Garret e Alexandre Herculano. De volta ao Brasil, já diplomado em Direito, deu início à sua saga literária, marcada pela influência do romantismo português, mas que se voltaria ao elogio de valores nacionais, numa espécie de reação ao colonialismo, tornando-se um dos maiores expoentes do romantismo brasileiro e da corrente literária conhecida como “indianismo”. Sua famosa Canção do Exílio  foi escrita ainda nos tempos de estudante, em Portugal, e registrou a saudade do Brasil (“… não permita Deus que eu morra / sem que eu volte para lá”…).  Mas foi na fase indianista que surgiu o poema épico I-Juca-Pirama  ( “…Meu canto de morte, /
Guerreiros, ouvi: / Sou filho das selvas, / Nas selvas cresci; / Guerreiros, descendo / Da tribo tupi. – [primeira estrofe do Canto IV]). Seu trabalho intelectual foi enriquecido  pelas pesquisas das línguas indígenas e do folclore brasileiro.

É o patrono da cadeira 15 da Academia Brasileira de Letras. Essa cadeira foi fundada por Olavo Bilac e, na linha de sucessão, nela se assentaram Amadeu Amaral, Guilherme de Almeida, Odilo Costa Filho, Dom Marcos Barbosa e Padre Fernando Bastos de Ávila. O atual ocupante é Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1963), poeta, escritor, romancista, ensaísta e tradutor.

Mais um abraço para a Poesia, em seu dia

Desencanto

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira - 1986-1968

Manuel Bandeira – 1986-1968

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Ode à Cuia de Chimarrão

Ode_a_cuia

Vejo-te à minha frente,
sensualmente curvilínea,
ostentando a nudez campesina com que nasceste.
Ainda não te senti em minhas mãos,
mas sei que me aguardas,
quente e úmida
à espera de meu beijo pleno de apetite.
Vou a teu encontro e te agarro pelo pescoço
já a sentir teus aromas selvagens
a fluir de teu ventre esperançoso.
Avidamente, vou sorver-te até o fim,
até ouvir os ruídos finais de nosso conúbio.
Saciarei tua sede com mais calores líquidos
que libertarão novos perfumes.
Satisfeito, mas não saciado, passo-te a mãos alheias,
até a próxima rodada.

Cleto de Assis – 2015

Dia Mundial da Poesia

21 de março marca o Dia Mundial da Poesia,  criado na XXX Conferência Geral da Unesco, em 16 de novembro de 1999. O objetivo deste dia é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da Poesia em todo o mundo.

Salve, Poesia, mãe de todas as paixões,
misericordiosa para todos os males.
Salve, Rainha das Palavras
e maga toda poderosa das ternuras e das bem-aventuranças,
acalentadora de corações, artífice de piedades.
Saúdo-te em teu dia glorioso
embora tenha cometido o pecado do abandono provisório.
Mas de ti não desdenhei.

Desenhei teus encantos
nos traços de rotas várias de multicoloridas imagens: ut pictura poesis.
Salve, mimética e metafórica arte,
jubilosa Érato, desejável Euterpe,
mensageira de precisões e ambiguidades,
portadora de lamentos e devaneios,
incubadora de sonhos e tormentos,
arrimo dos nubívagos.

Em teu dia volto a abraçar-te
e em meus braços trago a promessa firme
de em ti permanecer,
pois em teu seio tenho o melhor alimento.
Eia ergo, carmina nostra,
illos tuos misericordes oculos
ad nos converte.
Porque nós precisamos de ti,
agora e sempre.

Cleto de Assis – março de 2016

 

Axé, Olorum!

Paulo Valente, do frio curitibano ao calor baiano

Paulo_ValenteConheci Paulo Valente ainda bem jovem, ao lado de seu homônimo pai, um senhor de excelente bom gosto que manteve, durante muitos anos, em Curitiba, uma galeria de arte e de objetos de decoração. Com minhas andanças brasilianas, perdi contato com ele e nos cruzamos recentemente em diálogos feicebuquianos, dentro do natural amontoado de amigos comuns. E o redescobri como criativo fotógrafo, que utiliza sua visão plástica para reinventar a poesia. No clique fotográfico nasce o clique poético, que tem que ser instantâneo, minimalista. Algumas de suas produções são tão concisas que dispensam palavras, a poesia verte nas pequenas imagens. Faz brincadeiras com tachinhas e luz que se tornam sérias cenas de palco, algumas a lembrar dançarinas de balé.

Ele nasceu em Curitiba, em 1947, e desde jovem se dedicou às artes plásticas. Adotou a fotografia como ferramenta para o desenvolvimento de suas atividades artísticas, sempre acompanhando as diversas fases do artista. Ainda em sua cidade, participou de diversos concursos e salões. Mudou-se para Salvador em 1977, onde, paralelamente ao ofício de designer de interiores, continuou a desenvolver sua arte e a participar de salões e coletivas. Entre os anos de 1990 e 1993 suas obras estiveram presentes no acervo da Belanthi Gallery, de Nova Iorque, em exposições individuais e coletivas.

Em seus trabalhos mais recentes a fotografia é utilizada como mídia plástica e poética. Segundo ele, adota “o pseudônimo Olorum Piancóski menos para resguardar-me do que para acentuar o hibridismo cultural que pretendo revelar nesses rápidos e despretensiosos fotopoemas”.

Rápidos, talvez. Despretensiosos, nunca.

Saudamos o nosso Piancóski curitibano e o Olorum soteropolitano: Powitanie! Axé!

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Continua em próximos capítulos.

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Reflexões pluviosas

Depois da chuva

O Santo poeta

Pioneiro de muitas artes

anchieta

Quem foi o primeiro poeta brasileiro? Alguns defendem que foi José de Anchieta, o missionário jesuíta que aqui viveu de 1553 a 1597. Conta-se que ele escreveu um longo poema nas areias da praia de Iperoig (nome antigo de Ubatuba, no litoral paulista, que significa rio do tubarão – ypirú-yg – ou rio das perobas – yperó-yg). Diz a tradição, quase ou puramente lendária, que Anchieta teria escrito esse poema com o auxílio de um cajado ou caniço. Pelo menos é assim que o representam em pinturas, como a de Portinari, que ilustra esta página.

José de Anchieta nasceu em San Cristobal de la Laguna, em Tenerife, uma das sete ilhas do arquipélago das Canárias, Espanha, em 19 de março de 1534, portanto há exatos 480 anos.  Pertenceu a uma família nobre de 12 irmãos, mas abandonou suas origens ao escolher uma vida missionária.

Em 1551 foi estudar em Coimbra, Portugal, local onde teve o primeiro contato com a Companhia de Jesus, por meio de Francisco Xavier. Já aos 17 anos definiu sua vida religiosa. Na Companhia fundada recentemente por Inácio de Loyola fez um noviciado exigente, e mesmo com a saúde frágil adotou seus votos de castidade, pobreza e obediência. Em 1553, com apenas 19 anos, foi enviado para o Brasil com missão evangelizadora. Mas deveria continuar seus estudos, pois ainda não era sacerdote. Estudava Filosofia, Teologia, em meio a seu trabalho catequista, dando aulas e conhecendo melhor o povo indígena. Para melhor evangelizar, respeitava a cultura dos índios e procurou aprender a língua Tupi-Guarani. E foi além: estruturou gramaticalmente o idioma dos índios, ao escrever um vocabulário, uma gramática e diversos opúsculos para os evangelizadores. Conhecia muito bem o Latim, o Espanhol e o Português, o que lhe facilitou a abertura ao trabalho literário. Hoje é considerado o iniciador da poesia e da dramaturgia brasileiras, deixando cantos piedosos, poemas e autos e diálogos ao estilo de Gil Vicente, espalhados entre os primeiros colégios brasileiros fundados pelos Jesuítas, desde São Paulo. Suas cartas, enviadas a Portugal, se tornaram fonte preciosa para o registro da história brasileira daquela época, além de contribuições para o estudo da fauna, da flora e da ictiologia local e da coleta que fez sobre aspectos etnológicos e folclóricos.

Mas nem tudo era paz nas relações com os habitantes da nova terra. Mais ao interior viviam os Tamoios, povo bravio, que trariam dificuldades aos trabalhos de aproximação. Nesse sentido, foi fundamental a sua tarefa como intérprete de Manoel da Nóbrega, seu chefe provincial, que procurava salvar da destruição as primeiras colônias do litoral paulista. Nessa ocasião, permaneceu vários meses preso, como refém dos indígenas, para facilitar o trabalho de Nóbrega. Foi nessa situação que teria escrito o seu poema  A compaixão e o pranto da Virgem na morte do Filho, primeiro em Latim (De compassione et planctu virginis in morte filii), em plena praia, utilizando um bastão. Não se pode duvidar que ele possa ter utilizado a grande lousa de areia para ensinar os indígenas, escrevendo algo aqui e ali, ou mesmo para ensaiar versos.  Mas seria um ofício grandioso escrever 4172 versos – esta a medida de seu poema – na areia e guardá-los na memória para, mais tarde, transcrevê-los no papel e traduzi-lo ao Português. Milagre de um futuro santo?

Em 1566 foi enviado à Capitania da Bahia com o encargo de informar ao governador Mem de Sá sobre o andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Somente nesta época foi ordenado sacerdote, aos 32 anos de idade.

Anchieta foto 2

Sua admiração pelo Governador-geral, fundador do Rio de Janeiro, era grande e a ele dedicou outro enorme poema, considerado pelos exegetas como obra comparável aos poemas de Homero, por ele denominado De Gestis Mendi de Saa.

Mem-de-sa

Mem de Sá

Após a expulsão dos franceses da Guanabara, Anchieta e Manuel da Nóbrega teriam motivado Mem de Sá a prender, em 1559, um refugiado calvinista, o alfaiate Jacques Le Balleur, e a condená-lo à morte por professar “heresias protestantes”. Em 1567, Jacques Le Balleur foi preso e conduzido ao Rio de Janeiro para ser executado. Porém o carrasco teria se recusado a executá-lo ou teve dificuldades para fazê-lo prontamente. Diante do fato e talvez até movido por piedade, Anchieta o teria estrangulado com suas próprias mãos. O episódio é contestado como apócrifo pelo maior biógrafo de Anchieta, o padre jesuíta Hélio Abranches Viotti, com base em documentos que, segundo o autor, contradizem a versão. Mas investigações históricas, baseadas em documentos da época (correspondência de Anchieta e manuscritos de Goa) revelam que Balleur não morreu no Brasil. Teria sido conduzido a Salvador, na capitania da Bahia, e dali mandado a Portugal, onde teve o seu primeiro processo concluído em 1569. Em um segundo processo, no Estado Português da Índia, foi finalmente condenado pelo tribunal da Inquisição de Goa, em 1572.

Anchieta dirigiu o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba (ou Iriritiba), atual Anchieta, no Espírito Santo. Outra ação memorável da vida de Anchieta é a fundação da cidade de São Paulo pelo grupo de jesuítas que ele comandava, ao lado de Manoel da Nóbrega, a 25 de janeiro de 1554. Com o objetivo de catequizar os índios que viviam na região, os jesuítas erguem um barracão de taipa de pilão, em uma colina alta e plana, localizada entre os rios Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí, com a anuência do cacique Tibiriçá, que comandava uma aldeia de guaianases nas proximidades.

Cacique Tibiriça e José de Anchieta. Pintura de Claudio Pastro, acervo da sede do Anchietanum, em São Paulo, SP

Cacique Tibiriça e José de Anchieta. Pintura de Claudio Pastro, acervo da sede do Anchietanum, em São Paulo, SP

Em 1577 José de Anchieta foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos, sendo substituído, a seu pedido, em 1587. Retirou-se para Reritiba, mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória, no Espírito Santo. Um equívoco histórico levou Anchieta a ser considerado o primeiro professor brasileiro. Mas esse mérito pertence a um colega seu, chegado ao Brasil antes dele, em 1549, com Tomé de Souza, que desembarcou na Bahia com a primeira missão jesuítica. Era Vicente Rijo, português, nascido em 1528 e aqui falecido, em 1600. Conviveu com Anchieta por algum tempo, quando se trasladou para a região hoje ocupada pelo Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

Em 1595 obteve dispensa dessas funções e conseguiu retirar-se definitivamente para Reritiba, onde faleceu, em 1597. Seu corpo foi sepultado em Vitória.

Respondo à pergunta inicial: Anchieta não foi o primeiro poeta brasileiro, mas o autor do primeiro poema aqui composto, transcrito abaixo, com alternação dos dois idiomas originais. Do primeiro poeta brasileiro nato me ocuparei daqui a pouco.

Poema à Virgem

Padre José de Anchieta

Padre Anchieta, de Cândido Portinari

Padre Anchieta, de Cândido Portinari

De compassione et planctu virginis in morte filii

A compaixão e o pranto da Virgem na morte do Filho

Mens mea, quid tanto torpes absorpta sopore?
Quid stertis somno desidiosa gravi?
Nec te cura movet lacrimabilis ulIa parentis,
Funera quæ nati flet truculenta sui?

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do Filho chora tanto?

Viscera cui duro tabescunt ægra dolore,
Vulnera dum præsens, quæ tulit ilIe, videt.
En, quocunque oculos converteris, omnia lesu
Occurrent oculis sanguine plena tuis.

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,
Ao ver, ali presente, as chagas que Ele padece?
Em qualquer parte que olha, vê Jesus,
Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

Respice ut, æterni prostrato ante ora Parentis,
Sanguineus toto corpore sudor abit.
Respice ut immanis captum quasi turba latronem
Proterit, et laqueis colla manusque ligat.

Olha como está prostrado diante da Face do Pai,
Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.
Olha a multidão se comporta como Ele se ladrão fosse,
Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

Respice ut ante Annam sævus divina satelles
Duriter armata percutit ora manu.
Cernis ut in Caiphae conspectu mille superbi
Probra humilis, colaphos sputaque foeda tulit.

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado
O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.
Vê como diante Caifás, em humildes meneios,
Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

Nec faciem avertit, cum percuteretur; et hosti
Vellendam barbam cæsariemque dedit.
Adspice quam diro crudelis verbere tortor
Dilaniet Domini mitia membra tui.

Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso
Que arranca Tua barba com golpes violento.
Olha com que chicote o carrasco sombrio
Dilacera do Senhor a meiga carne a frio.

Adspice quam duri lacerent sacra tempora vepres,
Diffluat et purus pulchra per ora cruor.
Nonne vides, totos lacerum crudeliter artus,
Grandia vix umeris pondera ferre suis?

Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,
E o sangue corre pela Face pura e bela.
Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido
Mal susterá ao ombro o desumano peso?

Cernis ut innocuas peracuta cuspide ligno
Dextera tortoris figit iniqua manus.
Cernis ut innocuas peracuta cuspide plantas
Tortoris figit dextera sæva cruce.

Vê como os carrascos pregaram no lenho
As inocentes mãos atravessadas por cravos.
Olha como na Cruz o algoz cruel prega
Os inocentes pés o cravo atravessa.

Adspicis ut dura laceratus in arbore pendet,
Et tua divino sanguine furta luit.
Adspice: quam dirum transfosso in pectore vulnus,
Unde immixta fluit sanguine lympha, patet!

Eis o Senhor, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,
Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime!
Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto
Donde corre mistura de sangue e água.

Omnia si nescis, mater sibi vindicat ægra
Vulnera, quae natum sustinuisse vides.
Namque quot innocuo tulit ille in corpore poenas,
Pectore tot mater fert miseranda pio.

Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama
Para si, as chagas que vê suportar o Filho que ama.
Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,
Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.

Surge, age, et infensæ per moenia iniqua Sionis
Sollicito matrem pectore quaere Dei.
Signa tibi passim notissima liquit uterque,
Clara tibi certis est via facta notis.

Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus
Procura o Coração da Mãe de Deus.
Um e outro deixaram sinais bem marcados
Do caminho claro e certo feito para todos nós.

Ille viam multo raptatus sanguine tinxit,
Illa piis lacrimis moesta rigavit humum.
Quaere piam matrem, forsan solabere flentem.
Indulget lacrimis sicubi mæsta piis.

Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
Ela o solo regou com lágrimas tremendas.
A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,
Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.

Si tanto admittit solatia nulla dolori,
Quod vitam vitæ mors tulit atra suæ,
At saltem effundes lacrimas, tua crimina plangens,
Crimina, quæ diræ causa fuere necis.

Mas se tanta dor não admite consolação
É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,
Ao menos chorarás lastimando a injúria,
Injúria, que causou a morte violenta.

Sed quo te, Mater, turbo tulit iste doloris?
Quæ te plangentem funera terra tenet?
Num capit ille tuos gemitus lamentaque collis,
Putris ubi humanis ossibus albet humus?

Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?
Que região te guardou a prantear tal morte?
Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?
Onde está a terra podre dos ossos humanos?

Numquid odoriferæ cruciaris in arboris umbra,
Unde tuus lesus, unde pependit amor?

Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,
Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?

Hic lacrimosa sedes, et primæ noxia matris
Gaudia, crudeli fixa dolore, Luis
Illa fuit vetita corrupta sub arbore, fructum
Dum legit audaci, stulta loquaxque, manu.

Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,
No lugar da alegria, segura uma dor cruel,
Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,
Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.

Iste tui ventris pretiosus ab arbore fructus
Dat vitam matri tempus in omne piæ,
Quæque malo primi succo periere veneni
Suscitat et tradit pignora cara tibi.

Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre
Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,
E prefere a magia do nascer à força da morte,
Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.

Sed periit tua vita, tui peramabile cordis
Delicium, vires occubuere tuæ.
Raptus ab infesto crudeliter occidit hoste,
Qui tibi de mammis dulce pependit onus.

Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,
Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!
O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,
Que pesou incomodo em Teu doce seio.

Occubuit diris plagis confossus lesus,
Ille decor mentis, gloria luxque, tuæ;
Quotque illum plagæ, tot te affixere dolores:
Una etenim vobis vita duobus erat.

Morreu Jesus traspassado com terríveis chagas
Ele, formoso espírito, glória e luz do mundo;
Quanta chaga sofreu e tantas Lhe causaram dores;
Efetivamente, uma vida em vós era duas! 

Scilicet hunc medio cum serves corde, nec unquam
Liquerit hospitium pectoris ille tui,
Ut sic discerptus letum crudele subiret,
Scindendum rigido cor fuit ense tibi.

Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais
Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,
Feito em pedaços pela morte cruel que suportou
Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.

Cor tibi dira pium misere rupere flagella,
Spina cruentavit cor tibi dira pium.
In te cum clavis coniuravere cruentis
Omnia, quæ in ligno natus acerba tulit.

O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,
A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.
Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,
Tudo que é amargo e cruel o Teu Filho suportou na Cruz.

Sed cur vivis adhuc, vita moriente Deoque?
Cur non es simili tu quoque rapta nece,
Quando non illo est animam exhalante revulsum
Cor tibi, si vinctos mens tenet una duos?

Morto Deus, então porque vives Tu a Tua vida?
Porque não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,
Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?

Non posset, fateor, tantos tua vita dolores
Ferre, nec id nimius sustinuisset amor,
Ni te divino firmaret robore natus,
Linqueret ut cordi plura ferenda tuo.

Admito, não pode tantas dores em Tua vida
Suportar, aguentando se não com um amor imenso;
Se não Te alentar a força do nascimento Divino
Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.

Vivis adhuc, Mater, plures passura labores;
Ultima te in sævo iam petet unda mari.
Sed tege maternum vultum, pia lumina conde,
Ecce furens auras verberat hasta leves:
Et sacra defuncti discindit pectora nati
Insuper in medio lancea corde tremens.

Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,
Já te assalta no mar onda maior e cruel.
Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:
Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,
Rasga o sagrado peito ao teu Filho já morto,
Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.

Scilicet hæc etiam tantorum summa dolorum
Defuerat plagis adicienda tuis.
Hoc te supplicium, vulnus crudele manebat,
Hæc tibi servata est poena gravisque dolor.

Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,
Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!
Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!
Tão penoso sofrimento este castigo guardava!

In cruce cum dulci figi tibi prole volebas
Virgineasque manus virgineosque pedes.
Ille sibi accepit rigidos cum stipite clavos,
Servata est cordi lancea dira tuo.

Com O querido Filho pregado a Cruz Tu querias
Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.
Ele tomou para Si a dura Cruz e os cravos,
E deu-Te a lança para guardar no Coração.

Iam potes, o Mater, compos requiescere voti,
Hic tibi totus abit cordis in ima dolor.
Quod gelida excepit corpus iam morte solutum,
Sola pio crudum pectore vulnus habes.

Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,
A dor mudou para o fundo do Teu Coração.
Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,
Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.

O sacrum vulnus, quod non tam ferrea cuspis,
Quam nimius nostri fecit amoris amor!
O flumen, medio paradisi e fonte refusum,
Cuius ab uberibus terra tumescit aquis!

Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,
Que imensamente nos faz amar o Amor!
Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,
Que intumesce com água fartamente a terra!

O via regalis, gemmataque ianua cæli,
Præsidi turris, confugiique locus!
O rosa, divinae spirans virtutis odorem!
Gemma, poli solium qua sibi paupar emit!

Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,
Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!
Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!
Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!

Nidus, ubi puræ sua ponunt ova columbæ,
Castus ubi tenere pignora turtur alit!
O plaga, immensi splendoris honore rubescens,
Quæ pia divino pectora amore feris!

Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,
E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!
Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,
Feres os piedosos peitos com divinal amor!

O vulnus, dulci præcordia vulnere findens,
Qua patet ad Christi cor via lata pium!
Testis inauditi, quo nos sibi iunxit, amoris!
Portus, ab æquoribus quo fugit icta ratis!

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de Cristo.
Prova do novo amor que nos conduz a união!
Porto do mar que protege o barco de afundar!

Ad te confugiunt, hostis quibus instat iniquus;
Tu præsens morbis es medicina malis.
ln te, tristitia pressus, solamina carpit,
Et grave de mæsto pectore ponit onus.

Em Ti todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
Tu, Senhor, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!

Per te reiecto, spe non fallente, timore,
Ingreditur cæli tecta beata reus.
O pacis sedes! o vivæ vena perennis,
Aeternam in vitam subsilientis, aquæ!

Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!

Hoc est, o Mater, soli tibi vulnus apertum,
Tu sola hoc pateris, tu dare sola potes.
Da mihi, ut ingrediar per apertum cuspide pectus,
Ut possim in Domini vivere corde mei.

Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu Senhor!

Hac pia divini penetrabo ad viscera amoris,
Hic mihi erit requies, hic mihi certa domus.
Hic mea sanguineo redimam delicta liquore,
Hic animi sordes munda lavabit aqua.

Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifiquei com água a sujeira espiritual!

His mihi sub tectis erit, his in sedibus omnes
Vivere dulce dies, hic mihi dulce mori!

Embaixo deste teto que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.