Ora, pois!




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Dizem os deuses oniscientes
        (e os há muitos por aí, a predicar seus conhecimentos
        sobre a eternidade e o efêmero)
que orar faz bem, acalma o espírito angustiado
e traz paz à alma.

Mas o que entendem eles de espíritos e de almas
se não conheceram os corpos de suas criaturas,
celas osseocarnais em que somos obrigados a viver?
Ou então, se às suas imagens e semelhanças fomos talhados
terão eles elementos sensoriais que simulam
a dor que deveras sentimos?
E por que inventaram a dor, os artesãos astrais?
Não poderiam ter-nos feito com matéria quintessenciada
e tênue, sutil e indolor?
 
Pedem os deuses oniscientes
que os adoremos e ocupemos seus templos e nosso tempo com orações.
Mas, na sua omnisciência, não sabem o que desejamos
e reiteramos nas preces e nas súplicas?
 
Afirmam os deuses oniscientes,
por meio de seus tradutores e supostos representantes,
que temos livre arbítrio, mas nos ameaçam com punições
se seguimos rotas inexistentes nos manuais celestes. 
 
Afirmam os deuses oniscientes que vaidade é egolatria
e egolatria é soberba, e soberba é pecado capital.
Mas porque aceitam as idolatrias a si dirigidas,
algumas desperdiçadas em custosos altares?
 
Recomendam os deuses oniscientes
permanentes prédicas para lembrá-los,
deuses e santos onissapientes e talvez desmemoriados,
que existimos aqui embaixo,
em estado de permanente de aflição.
 
Mas o que é oração, senão um evento unidirecional,
com respostas desprezadas, equivocadas e incompletas?
Deploro a vossa insegurança, senhores dos recônditos abissais,
ao sustentar vosso poder na ameaça às vossas frágeis criaturas
com castigos junto a Hades ou Belzebu
per saecula saeculorum.
 
Ora, pois, senhores deuses que tudo sabem,
cansei do meu silêncio
e me apresento em completo estado de nudez de alma,
sem artifícios literários ou de pretensa santidade,
pois santo não quero ser.
Sou o homem simples da terra esfarelada
do barro da primeira cerâmica factum in caelo
que recolheu, em uma quase completa existência,
todos os impostos a mim impostos sem maiores explicações,
a não ser o fato de que fui depositado no círculo vital
sob as condições de respirar manentemente,
alimentar-me de quando em quando,
trabalhar para patrões políticos,
multiplicar-me algumas vezes
e, diante de dúvidas filosóficas,
 
Ora, pois, aqui estou.
Nem recuo, nem avanço:
balanço na ponte entre o nada e o não sei onde.
Pergunto a vós: irei aonde?
 
        Mas de resposta somente o silêncio atroz.
 
Tudo atribuo a este meu ranço
de coisa antiga, sempre queixosa e inútil,
de coisa fútil e malcheirosa.
Quero ser ímpar, mas sou par de todos os homens
e das mulheres sem soluções,
sem o consolo baldado de orações.
 
O andar trôpego dos beberrões
marca meus passos. Não sinto abraços
ou o puro carinho das crianças
nessas andanças sem roteiro e horizonte.
Sou poeira universal, menos que um grão cortado ao meio
crendo-me montanha imortal.
Melhor cumpriria tal fado secreto
se filho fosse de Lethe,
sem a sede pelas águas do Mnemósine.
 
Ora, pois, ó deuses que tudo sabem,
não me impeçam mais o prazer do agora
sem a fantasia daquele que ora
pelo deleite nubívago do depois.
 
Curitiba, 06/02/2020
 

Uma resposta para “Ora, pois!

  1. Sábio, autêntico e profundo.

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