Duas solidões de Francisco Cenamor

cenamor-cuerpo-entero-sentado-2No início deste blog, publiquei três poemas de Francisco Cenamor, poeta espanhol que mantém um site chamado Asamblea de Palabras, no qual o Banco da Poesia já foi citado. Volto ao poeta, escritor e dramaturgo de Leganés (perto de Madrí) com mais dois poemas, com o tema soledad/solidão. Para ver os primeros poemas de Cenamor depositados no Banco, clique aqui.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

primera soledad

al fin aceptar la soledad
la mía
no me pareció tan doloroso
me pareció más bien
de una soledad sonora
yo
frente al oscuro escenario
cuando cae pesadamente el telón
yo
paseando por las calles luminosas de
barcelona cuando aún me resistía a estar solo
yo
mirando desde el tren las imposibles
curvas de una joven imposible
yo
decidiendo cortinas y alfombras
que decoren con gusto mi soledad
yo
comprando ropa juvenil a la par que
elegante para gustarme a mí mismo
yo
riéndome de mis propias tonterías
sobre la manida soledad del artista
yo
escribiéndome versos

primeira solidão

enfim,  aceitar a solidão
a minha
não me pareceu tão doloroso
pareceu-me antes
uma solidão sonora
eu
frente ao escuro cenário
quando cai pesadamente a cortina
eu
passeando pelas ruas luminosas de
barcelona quando ainda resistia estar sozinho
eu
olhando do trem as impossíveis
curvas de uma jovem impossível
eu
decidindo cortinas e tapetes
que decorem com gosto minha solidão
eu
comprando roupa juvenil ao mesmo tempo
elegante para gostar de mim mesmo
eu
rindo-me de minhas próprias besteiras
sobre a batida solidão do artista
eu
escrevendo-me versos

Soledad2

segunda soledad

solo
soledad sorprendente
soledad sonora
soledad rayada de sol
sol bemol sostenido
banda sonora de tanta soledad
sórdida soledad a ratos
arma arrojadiza
contra los que me dejaron solo
soledad ausente y suave
soledad tan desolada
soledad estando solo
estando entre tanta gente
soledad conmigo
soledad contigo
soledad con trigo y avena
soledad con humo y cemento
soledad a ciegas
soledad a oscuras
soledad sin tacto
contacto con la soledad
acepto la soledad
vivo la soledad
ya soy soledad

segunda solidão


solidão surpreendente
solidão sonora
solidão raiada de sol
sol bemol sustenido
trilha sonora de tanta solidão
sórdida solidão às vezes
arma arremessada
contra os que me deixaram só
solidão ausente e suave
solidão tão desolada
solidão por estar só
só entre tanta gente
solidão comigo
solidão contigo
solidão com trigo e aveia
solidão com fumaça e cimento
solidão às cegas
solidão às escuras
solidão sem tato
contato com a solidão
aceito a solidão
vivo a solidão
já sou solidão

____________

Ilustração e versão ao Português: C. de A.

Barcos de papel: quem não brincou?

Navegar é preciso

Cleto de Assis

NavegarÉpreciso

Na rua, a poça formada pela chuva

virava o oceano dos barquinhos de papel.

Se outro menino chegava

poderiam ocorrer batalhas navais ou regatas

até a água encharcar os cascos ou alguns irem a pique

sob o ribombar de pequenas pedras fingindo balas de canhão.

A chegada de uma bola ou uma historinha nova

levava os barcos ao reino do esquecimento,

mesmo que alguns ainda navegassem,

cheios de sonhos e tripulados por ilusões.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Quantos terão chegado a seus destinos?

Deborah O’Lins de Barros deposita dois poemas autobiográficos

deborahDeborah O’ Lins de Barros é uma catarinense de Itajaí, nascida no Rio de Janeiro, que mantém o blog Moça deitada na grama.

Ela diz em seu blog, à guisa de resumo biográfico: “Sou a encarnação de Álvares de Azevedo. Sou a personagem da crônica do Drummond (Moça deitada na grama). Sou a amante de Edgar Allan Poe. Sou a irmã mais nova de Pagu. I am Lucy in the grass with diamonds, words and melodies.

Abaixo, dois poemas de Deborah,  juntos porque fazem parte de uma mesma série: Autobiografia. Ela explica: “Poesia pode falar de qualquer coisa. Essas, no caso, falam de mim. São meus sentimentos sem metáforas, são crônicas em verso. Confissões, declarações. Como diria Fred Krueger, bem-vindo ao meu mundo!”.

Bastidores de mim

máscaras
Sinto saudade
Do silêncio de luz
Atrás do palco;
Do breu de palavras
Nas cochias;
Dos contra-regras,
Cenários antigos,
pedaços de figurinos usados,
Espalhados.

Sinto saudade
De odiar o cheiro
Do gelo seco;
E de amar a recepção
Nos camarins.
Olhares parabenizando,
Olhares agradecendo…
Mas eu não nasci para o teatro
E o teatro não nasceu para mim.

…………………..

Não, eu não sou uma atriz… embora ame essa atmosfera, sou egoísta demais para escolher um personagem apenas: a vantagem de escrever é que posso tê-los todos para mim!!

Reminiscência


xxxxxxEm meados de 2007 fiz um curso no SESC
xxxxxxcom a poetisa gaúchaTelma Scherer
xxxxxx(http://www.telmascherer.blogspot.com/).
xxxxxxLi e conheci bastante coisa diferente e, claro,
xxxxxxfui influenciada por essas novas formas.
xxxxxxE que fique para o futuro, para quem um dia
xxxxxxquiser montar uma biografia minha (hehe),
xxxxxxque Telma Scherer foi um divisor de águas
xxxxxxna minha produção em verso. E esse poema
xxxxxxmarca a nova fase. “Reminiscência” me
xxxxxxexorcisou do romantismo da adolescência.
xxxxxxCom ele “adulteci”.

OCorvo-1
Às vezes tenho certeza
quase absolutamente,
de que sou meio louca,
verdadeiramente.
Pois não tenho necessidade
de ácido licérgico
e nem de lítio.
Mas quando vêm reminiscências
de determinados fatos
há muito ocorridos,
me vem uma vontade insana
de ausência.
Ausência de pensamentos,
mas não de sentimentos.
Há uma necessidade
de estar só.
Inclusive a minha própria presença
me incomoda,
quando essas reminiscências
me recordam que
I miss the comfort in being sad.

Acho que relembrar
as mazelas do ontem
é como folhear
um álbum de fotos onde
a trilha sonora escolhida
é a responsável por virar as páginas.
E agora resta a dúvida:
será que remexer lembranças
é como lembrar da dívida
que tenho comigo mesma?
Isso, na verdade,
não importa.
Pois se o Corvo diz Nunca Mais,
não há portas
que abram para eu voltar.
E, pensando bem, parece hilário
pois forjar tristeza
se tornou, nada mais
que recurso literário.
A saudade existe para provar
que o passado não mata
e as reminiscências são só um mote
para entender que o que não mata
nos torna mais fortes.

Encontros com Miguel Torga

JCDefreitas-2A propósito do post sobre Miguel Torga (abaixo), o sociólogo e professor João Correia de Freitas enviou uma crônica sobre o poeta, a quem conheceu quando fazia pós-graduação em Portugal. Como diriam os obaobistas da imprensa, esta é uma exclusiva do Banco da Poesia. Somos gratos, professor Defreitas.

xxxxxxxxxxxxxx

O Poesta não morre

xxxxxVi Miguel Torga duas vezes.  A primeira em sua casa, em Coimbra, em 1966, quando eu lá estudava, com um grupo de brasileiros. Era uma figura interessante. Torga02Homem de grande porte, rosto rude, com profundos vincos, um nariz enorme que lhe saltava do rosto. Parecia sofrido e machucado pelo tempo. Sua voz pausada e grave lhe saía da boca com muita propriedade. Tinha ele seus 56 anos, com um aspecto mais de agricultor ou de lenhador trasmontano do que de um médico e muito menos de um poeta. Em sua sala, despojada, com móveis de madeira escura, sólidos e sóbrios, nos fez adentrar e sentar. Olhava-nos fixamente com seus olhos fundos, por trás de sobrancelhas espessas.

xxxxxNão sabíamos bem por que o visitávamos. Talvez mais por curiosidade do que por conhecimento de sua obra. Ele parecia sem muita paciência e mostrava-se pouco amistoso, ou melhor, cerimonioso e um pouco distante. Entretanto, depois de servir-nos um porto, perguntar-nos de que lugar do Brasil éramos e o que fazíamos em Coimbra,  aquele homem com cara rude começou a se transfigurar, ao lembrar-se de sua vida de cinco anos no Brasil e de seu reencontro com o país, já poeta.

xxxxxFazia muito frio, naquele dia. Nunca houvera um frio tão intenso em Coimbra como nesse novembro, dizia ele. Se não me engano, até nevou naquele ano. Lembro-me bem que tive a curiosidade de perguntar-lhe de onde viria o nome de “anta”, pois ele havia nascido em  São Martinho de Anta, Trás-os-Montes, terra também de Aquilino Ribeiro. Sabia eu que São Martinho era famoso em Portugal, pois a 11 de novembro, dedicado a ele, era corrente o dito português: “Dia de São Martinho, mata o teu porco e abre o teu vinho”. Explicou-nos Torga que , realmente, novembro era época do “água pé”, vinho fraco e o primeiro a ser aberto; que  Lamego era terra de bom vinho; que a base da alimentação beirôa, onde agora vivia, era de carne de porco, haja vista a Bairrada, próxima dalí, ser a terra dos leitões. Explicou, também, que “anta” era um nome que designaria um grande monte de terra que servia, antigamente, para demarcar a divisa de territórios. Enfim, foi uma conversa muito descontraída e interessante, onde falou-se de tudo, inclusive de poesia, é claro.

xxxxxA segunda e última vez em que ví Miguel Torga, não falamos, não conversamos. Eu e um amigo haviamos saído de uma tasca, numa tarde cinzenta, onde fomos beber um cálice de “aguardente de medronho”, fortíssima, para espantar o frio. Ao longe, numa ponte sobre o Rio Mondego, de onde se via a Igreja de Santa Cara, avistamos o vulto de um homem, que aparentava ser de porte bem alto. Olhava fixamente as águas do Mondego, que passavam calmas por debaixo da ponte, e que fôra motivo de tantos fados imorredouros de Coimbra. Depois, mais de perto, reparamos tratar-se de Torga, com seu pesado capote de frio, com as golas viradas para cima, que a passos pausados afastava-se daquele local. Ficamos ali por uns minutos e notamos que peixes nadavam em baixo da ponte. Pensamos que o rio estava sem poluição, embora hoje, talvez, não se possa dizer o mesmo.

xxxxxFoi assim que conheci Miguel Torga, um grande poeta que tudo tem a ver com Coimbra, com as capas pretas e batinas, com as tricanas de Bernardim, com a Sé, ao pé da qual muitos fados-de-Coimbra escutamos; da Queima das Fitas e do fumo  subindo aos céus. Enfim, hoje leio as obras de Torga e deleito-me com o livro Traço de União, onde ele declara seu profundo amor pelo Brasil.  Em 1995, li a noticia da morte de Miguel Torga. Tenho certeza que Torga vive em suas poesias e tenho certeza , agora mais do que nunca, de que os Poetas não morrem.

Apelo de Marilda Confortin: PROCURA-SE

Mandado de busca e apreensão contra a Poesia

Procura_se

Senhores, minha poesia escafedeu-se.
Procurem nos seguintes locais:

xxxxxNo calo dos dedos dos músicos,
xxxxxNo quadro negro das escolas,
xxxxxNo fascínio quântico dos físicos,
xxxxxNa placa do cego que esmola.

xxxxxProcurem nos diários e discos rígidos,
xxxxxNos papiros, nas lápides dos túmulos,
xxxxxNas paredes dos banheiros públicos,
xxxxxNas gavetas e nos grafites dos muros.

xxxxxProcurem nas pedras das cavernas,
xxxxxNos evangelhos apócrifos e escrituras,
xxxxxNos templos, conventos e tabernas,
xxxxxNas democracias e nas ditaduras

xxxxxProcurem nas celas e nos parreirais,
xxxxxNos campos de girassóis maduros,
xxxxxNos tercetos modernos e haicais,
xxxxxNo passado, presente e no futuro.

xxxxxProcurem nos álbuns de fotografias,
xxxxxNos bares, museus, sebos e alcorões,
xxxxxSe não encontrarem, revirem as livrarias,
xxxxxCostumam escondê-la nos porões.

_____________

Ver Maisrilda, no cofre do Banco da Poesia:

1 2 3

e em http://iscapoetica.blogspot.com/

Helena Kolody, a indizível alegria de criar

RetratHKHelena Kolody, a consagrada poeta do Paraná, inaugurou em 1941 a série de mulheres haicaístas do país. Dona de uma enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras-emblemas, atribuídos a ela pelo povo paranaense, Helena deixou uma obra que, na qualidade, lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. O amor que ela conquistou pelos poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua poesia feita de canções à vida, de solidariedade,  natureza e inquietude da condição humana. Pode-se brincar dizendo que as letras iniciais do nome da poeta, HK, são as mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela o fazia.
………………….
Carlos Drummond de Andrade enviou, em 1980, uma pequena carta à poeta, onde dizia: “Tão simples, tão pura – e tão funda – a poesia de Infinito Presente. Você domina a arte de exprimir o máximo no mínimo, e com que meditativa sensibilidade!”
………………….
Drummond, segundo Kamita, fez um elogio dizendo ter ficado feliz com poemas como esse, “em que à expressão mais simples e discreta se alia uma fina intuição dos imponderáveis poéticos”. (José Marins*)

Helena Kolody (Cruz Machado, 12 de outubro de 1912 — Curitiba, 15 de fevereiro de 2004) foi morar na Mansão dos Poetas Eternos há cinco anos. Sua obra ficou por aqui, a inspirar novos poetas e, principalmente, a insistir que a linguagem poética vê mais longe, nos ensina a olhar as profundezas da vida e as alturas dos ideais humanos.Seus pais foram imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil. Helena passou parte da infância na cidade de Rio Negro, onde fez o curso primário. Estudou piano, pintura e, aos doze anos, fez seus primeiros versos.

Seu primeiro poema publicado foi A Lágrima, aos 16 anos de idade, e a divulgação de seus trabalhos, na época, era através da revista Marinha, de Paranaguá. Aos 20 anos, Helena iniciou a carreira de professora do Ensino Médio e inspetora de escola pública. Lecionou no Instituto de Educação de Curitiba por 23 anos. Helena, segundo o que consta em seu livro Viagem no Espelho, foi professora da Escola de Professores da cidade de Jacarezinho, onde lecionou por vários anos. Seu primeiro livro, publicado em 1941, foi Paisagem Interior, dedicado a seu pai, Miguel Kolody, que faleceu dois meses antes da publicação. (extrato de Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Kolody)

O Banco da Poesia fa justa homenagem à poeta paranaense, com três poemas ilustrados, em versão gráfica de C. de A.

FimDeJornada

IlhasPoema

Tempo

_______________

*José Marins é de Curitiba, escritor, poeta. Mestre em Educação pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), haicaísta membro do fórum Haikai-l (http://www.kakinet.com/lista), autor de POEZEN (haicai); Pinha-Pinhão, Pinhão-Pinheiro (renga, juntamente com o haicaísta Sérgio F. Pichorim), Karumi (haicai), e Bico do João-de-Barro (haicai), inéditos.

De Portugal para a eternidade, via Brasil

miguel+torgaOLDMiguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia Rocha, (São Martinho de Anta, Vila Real, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX.

Filho de gente humilde do campo do concelho de Sabrosa, no Alto Douro, Portugal, o menino Adolfo vai, aos dez anos, para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família. Com uniforme branco servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó e polia os metais da escadaria nobre, atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918, vai para o Seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida, tendo melhorado os conhecimentos de português, da geografia, da história, aprendido o latim e adquirido familiaridade com os textos sagrados. No fim das férias comunicou ao pai que não seria padre. Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e como ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a Natureza – mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração. (extrato da Wikipédia)

CaricaturaMTMiguel Torga considerava o Brasil sua segunda pátria. Aqui viveu boa parte de sua adolescência, antes de voltar a Portugal para fazer seus  estudos superiores. No vídeo que finaliza este post há um relato biográfico do poeta (embora com imagem de pouca resolução), que mostra essa ligação com a terra e a cultura brasileiras. Dizem que ele era uma pessoa dura, quase intratável, mas sua poesia era carregada de imensa sensibilidade, como se pode ver (e sentir) nos exemplos que publicamos abaixo.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Segredo

ovoSei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Súplica

hand_on_waterAgora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Livro de Horas

confesso
Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Aos Poetas

Troubadour

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos…
Nós,
Preguiçosos insetos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar…

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.
E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.
Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.
Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

xxxxxxxxxxxxxxde Odes (1946)
Pensamentos
________________
Caricatura de Miguel Torga: Suso Sanmartin 2007

Prêmio Camões para Cabo Verde

AVtomando_cafe_no_extinto_Café_Cachito_Praia_julho1997O poeta Armenio Vieira, de Cabo Verde, ganhou o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa, informou na quarta-feira, dia 3/6,  a imprensa portuguesa. É a primeira vez que este prêmio é atribuído a um cidadão de Cabo Verde, “país cuja tradição literária e cultural merece um reconhecimento”, segundo a presidente do júri Helena Buescu.

Nascido em 2 de janeiro de 1941, Vieira é jornalista e colabora com diversas publicações. Seu primeiro livro, intitulado Poemas foi publicado em 1981. O Prêmio Camões, dotado de 100 mil euros, foi criado em 1988 por Portugal e Brasil com o objetivo de recompensar os autores de língua portuguesa que contribuem para enriquecer o patrimônio cultural e literário dos países lusófonos. Autores como os portugueses Antonio Lobo Antunes (em 2007) e José Saramago (em 1995), o brasileiro Jorge Amado (em 1994) e o angolano Pepetela (em 1997) foram alguns dos vencedores em edições anteriores. (Agência France Presse)

O Banco da Poesia também presta homenagem ao recente laureado, com três poemas de sua lavra. Ao final, a homenagem a Cabo Verde, que também apareceu por aqui no dia 31 de maio, com Corsino Fortes. No vídeo, canta uma das maiores intérpretes cabo-verdianas, Cesária Évora, em crioulo, que é uma mistura do português arcaico com a lingua nativa. E quem a acompanha é a nossa Marisa Monte. Segundo a Wikipédia, Cesária Évora (Mindelo, 27 de agosto de 1941), também conhecida como “a diva dos pés descalços”, é a cantora cabo-verdiana de maior reconhecimento internacional de toda história da música popular daquele país. O gênero musical com o qual ela é melhor relacionada é a “morna”, por isso também recebe o apelido de “Rainha da morna”, mesmo tendo sido bastante sucedida com diversos outros gêneros musicais. Morna é um ritmo e uma dança de Cabo-Verde, que lembra o nosso samba e, às vezes, o chorinho.

Isto é o que fazem de nós

Galinhas

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxIsto!
E perguntam-nos:
xxxxxxxxxxxxxxx sois homens?
Respondemos:
xxxxxxxxxxxxxxx animais de capoeira.
Dizem-nos:
xxxxxxxxxxxxxxx bom dia.
Pensamos:
xxxxxxxxxxxxxxxlá fora…

Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
xxxxxxxxxxxxxxx estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
xxxxxxxxxxxxxxxdormimos.

Poema

Sand__Sea

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?

xxxxxxxxxxxxxxx(1962)

Ser Tigre

tigerO tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.

xxxxxxxxxxxxxxx(de Vozes poéticas da lusofonia, Sintra, 1999)

Cesária Évora e Marisa Monte

Mar Azul

Composição: B. Leza

xxxxxO… Mar, detá quitinho bô dixam bai
xxxxxBô dixam bai spiá nha terra
xxxxxBô dixam bai salvá nha Mâe… Oh Mar, oh mar
xxxxxMar azul, subi mansinho
xxxxxLua cheia lumiam caminho
xxxxxPam ba nha terra di meu
xxxxxSão Vicente pequinino, pam bà braçá nha cretcheu…
xxxxxOh… Mar, anô passá tempo corrê
xxxxxSol raiá, lua sai
xxxxxA mi ausente na terra longe… Oh  Mar, oh Mar..

Murilo Mendes, dois poemas

murilomendes_guignardMédico, telegrafista, auxiliar de guarda-livros, notário e Inspetor do Ensino Secundário do Distrito Federal. Foi escrivão da quarta Vara de Família do Distrito Federal, em 1946. De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira.Em 1957 se estabeleceu em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira. Manteve-se fiel às imagens mineiras, mesclando-as às da Sicília e Espanha, carregadas de história. Assim diz a sua biografia. Mas Murilo Mendes, nascido em Juiz de Fora, em 13 de maio de 1901, e falecido em Lisboa, em 13 de agosto de 1975, mais que tudo isso, foi um poeta. E dos bons.

Cartão postal

PostCard
Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.

O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.

xxxxxxxxxxxxxxde Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

Canto a García Lorca

LorcaBlood
Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.

O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

xxxxxxxxxxxxxxde Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 1976
_____________
Ilustrações
Alberto da Veiga Guignard – Retrato de Murilo Mendes
Óleo sobre tela – 61cm x52cm
Cartão postal e García Lorca – montagem gráfica de C. de A.

Artur Alonso Novelhe, o mexicano-galego

ArturANartArtur Alonso Novelhe, poeta e escritor, nasceu na Cidade do México em 1964. Ele mesmo informa: “Filho de galegos, galego pois, e mexicano porque os primeiros aromas, os primeiros passos sobre a relva, o sonho persistente de lua como parte da vida, o corpo deitado da mulher desnuda, essa figura de vulcão que dorme e escuta o latir da cidade, do vale na profundeza no silêncio… ficam para sempre inseridos na alma». Artur acrescenta que também fazem parte da sua identidade “o exílio e a forçada migração… dos seres que vivem divididos em dois…”. Membro da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) e do Clube dos Poetas Vivos, uma associação poética que mistura musica, pintura com poesia e textos literários. Participa nas redes sociais da cultura galega, “para levar a poesia a rua e campo, a natureza… de onde surgiu”.

Tem dois livros publicados : Entre os teus Olhos (Difusora, 2003) e Umha Meixela Depois a Outra* (AGAL, 2005), além de poemas soltos na revista Agália, colaborando também com a revista Outras Vozes e o periódico Novas da Galiza. Primeiro prêmio no XVIII Certame Poético Feliciano Rolán (Guarda – Baixo Minho). Tem participado em livros coletivos, várias colaborações em revistas e jornais, assim como na Web e jornais digitais. Nossas boas vindas ao mais recente amigo do Banco da Poesia.(Informações do próprio poeta e do site Clube dos Poetas Vivos http://poetas.agal-gz.org )

Houve um tempo

LostInnocenseFoto:Philippe Tarbouriech - Galeria Flickr

Houve um tempo em que o mar de fogo
não ardia meu peito preso da história vital
que cada homem percorre no fio do seu cutelo

e eu tinha companheiros no dia para dançar
almoçando até o pôr de sol fazer inveja
de sonhar toda a noite, serem nossa, num branco para o luar

assim como quem abre entre as asas de duas pombas
uma bandeira  branca encaixada na linha do ar,
para ansiar dele mesmo ser vento
eu crescia na ideia de tudo dar porque a vida era infinita

porque houve um tempo em que a humildade
e a casa e a pobreza não tinham importância
e tu e companheiro igual significado
como amigo e alento

mas também houve um tempo
em que a luz do nosso interior era cinzas na crueldade a vir
dos homens que se aferram, com medo,
a impor desejos, no sangue de quem caiu

porque também houve um tempo
para irrigar brêtema** densa nos olhos dos filhos
e morte nas veias
e mães que perseguem eternamente um porquê
nas janelas retidas da sua memória, que nunca se abrem

e esse era o tempo para eu perder a inocência.
E esse era o tempo para enfrentar-me com Deuses falsos,
sentir e comprovar que eram gigantes de Pedra
e junto a toda sua mentira minha alma velha falecer.

Porque houve esse tempo doloroso
preciso para renascer na Aurora da Vida
bebendo de seus lábios o néctar da verdade
para eu dos sonhos acordar.

______________

NOTAS

(*) Unha meixela depois a outra:  Uma bochecha depois a outra (do latim maxillam, passando pelo castelhano mejilla)
(**) Brêtema s. f. Termo usado na Galícia: (1) Névoa úmida. Variações: Brêtima, brêtoma. (2) Chuva forte. (3) Chuva forte com vento. (4) Nuvens que passam sem produzir chuva.