Hoje é dia de Walmor!

Não esqueçam: hoje, quinta-feira, dia 4 de fevereiro de 2010, é dia de cantarmos parabéns pra Walmor Marcelino na Biblioteca Pública do Paraná, às 19 horas. E vamos conhecer seu último livro, Ulciscor, que será lançado como homenagem aos 80 anos de nascimento do escritor, jornalista e poeta.

Metáforas em busca de atento escutar

Certa vez, ao ilustrar  poema de um bardo amigo, coloquei nas mãos da figura pensativa, à beira do mar, um simples bastão. A idéia era mostrar um observador, que sonhava, na praia, em navegar nas velas do barco ao alcance de seu olhar. Naquele momento de descanso da caminhada e imerso na paz de seu velho sonho marinheiro,  apoiava-se no seu pequeno cajado. Mas nem sempre o que imaginamos é o que os outros sentem. E meu amigo poeta reclamou, pois o bordão, mesmo simbólico, lhe parecia bengala de arrimo a vetusto e cansado espectador das marés.

Ora, direis, tira-lhe o báculo e devolva-lhe a vitalidade dos mais jovens. Mas lhes responderei, ainda usurpando de Bilac a frase: por certo perdestes também a visão correta! Jamais lhe daria um bastão de apoio à velhice (a não ser que fosse necessário), mas quis simbolizar na pequena haste o apoio a seu espírito de peregrino. Talvez me explique melhor no poema abaixo. (C. de A.)

Ode ao bom pastor

Montagem sobre gravura de Albrecht Dürer

Dizem que Hermes, filho de Zeus e da ninfa Maia
e irmão de Apolo,
antes de se tornar deus do comércio,
amava a música e enriqueceu-a com a lira.
Apolo, embevecido com o novo instrumento,
permutou-o por um bastão mágico
que dava a seu possuidor conduta reta e prudência moral,
além de poder, diligência, sabedoria e superiores pensamentos.
Mas Hermes continuava a amar a música e criou a flauta
(cochicham as ninfas que muito antes de seu romano filho Pã),
e em troca recebeu do irmão o dom da sabedoria.
E para dotar o mundo de equilíbrio e justiça,
teria criado a balança,
na qual Têmis passou a sopesar as ações dos homens.

A Hermes seu pai proveu-o de asas nos pés
e ele se tornou o deus dos viajantes,
inspirador dos peregrinos,
condutor dos viandantes sem rumo,
iluminante das beiras dos caminhos
e protetor de todos os que se apóiam em bastões seguros
para tornar menos árduas as caminhadas.

Poeta, tu que partiste em busca da paz e da justiça,
e empunhaste outrora o símbolo equivocado da lança fratricida,
bendito seja o teu retorno às asas da pomba peregrina
que carrega o ramo da oliveira para anunciar bom tempo
e a paz dos mares, e o perfume dos ares,
e a fartura da terra que concede saudável alimento para o corpo
e a ternura da palavra que consagra fraterno alimento para a alma
e a transformação da haste mortal em firme bastão de ajuda.

Vagaste por rotas erradias, muitas vezes sem saber que destinos alcançar
mas guardavas dentro de ti a certeza do encontro seguro contigo mesmo
e de reencontros com os que deixaste para trás
quando seguiste por sendas que só teu canto iluminava,
sempre guardado pelo vigia das veredas desconhecidas.

Por certo andaste por trilhas distantes das caminhadas por Hermes,
sem ouvir liras de cascos de tartaruga
e afinadas flautas de bambu gregas ou romanas.
Mas criaste tua própria Arcádia nos zênites andinos
ao som de zamponhas  e charangos,
engendrados em frágeis taquaras e cascos de tatu
e harmonizados por Apu Kun Tiqsi Wiraqutra,  Senhor e Maestro do mundo.

Bendito sejas tu, porque garimpaste a paz na rudeza das palavras primevas
e  hoje fazes de tua voz conselho e bálsamo para os aflitos
e alcançaste a verdadeira liberdade nos teus sequentes cantares,
onde toda utopia está a teu alcance, porque construída em bondade.

Se o cajado que te dei
foi de súbito confundido com o apagar da juventude
assegura-te que ele é símbolo da sabedoria, da ajuda fraterna
e da medicina da alma, sem o peso de serpentes conflitantes.
Apóia-te nele e segue em tua faina de pastor nos campos da poesia
e continua a lavrar e levar paz e alimento a teu rebanho de palavras.

Cleto de Assis – fevereiro 2010

Presentes de José Dias Egipto

Recebi da cidade do Porto, Portugal, três livros enviados por José Dias Egipto, cujos trabalhos já publicamos por duas vezes no Banco da Poesia. Escrevo sobre a agradável surpresa na página de Crônicas.

Leia mais aqui.

Homenagem a Walmor Marcelino

No próximo dia 4 de fevereiro, quinta-feira, o jornalista, escritor e poeta Walmor Marcelino, que nos deixou no último mês de setembro, completaria 80 anos de vida. Familiares e amigos farão uma homenagem a ele, com o lançamento de seu último livro, Ulciscor, e leitura dramática de poemas e outros textos. O evento ocorrerá no auditório da Biblioteca Pública do Paraná, às 19 horas. Vamos lá levar a nossa saudade a Walmor!

Para Wilson Martins, que iluminou meu solitário canto*

O poeta Manoel de Andrade

O poeta Manoel de Andrade

Pois é…, eu havia citado o Wilson Martins no comentário que fiz domingo, no blog de J.B. Vidal, Palavras, Todas Palavras, sobre o Walmor Marcelino, mas ainda não sabia que o nosso grande crítico literário já viajara, sábado, para um Mundo Maior. Tal como ao Walmor, devo também a ele o grande estímulo que deu nas duas vezes que se referiu à minha poesia.

Em 02 de agosto 1980, em sua coluna no Caderno B, do Jornal do Brasil, comentando minha Canção de amor à América publicado aquele ano pela revista Encontros com a Civilização Brasileira, refere-se ao poema dizendo que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo, integrado nos seus conflitos e perplexidades, e no qual lirismo e epopéia se combinam (no sentido químico da palavra) para formar uma terceira entelequia (a entelequia poética, alimentada pelo mundo exterior)…” .

Já em 30 de outubro de 2002, na sua coluna semanal no Caderno G, da Gazeta do Povo, comentando antologias poéticas lançadas no Paraná e o livro Próximas Palavras, editado pelo Walmor, exagera em sua generosidade ao afirmar que a “grande poesia, nesta coletânea e na literatura brasileira dos nossos dias, foi escrita por Manoel de Andrade…” . Cita, em seguida, trechos de meu poema Um homem no Cais e comenta que é “um longo poema de fulgurações whitmanianas e profunda consciência da condição humana, poesia de um homem no mundo dos homens, e também o testemunho de suas ansiedades. Basta ler esses versos simultaneamente com a maior parte dos que compõem estas antologias para perceber a diferença de natureza entre o poeta, de um lado, e, de outro, as pesadas legiões dos menores”.

Nunca tive contato com esse Mestre admirável da nossa crítica literária e, assim, não pude agradecer-lhe pessoalmente. Sempre esperei que essa oportunidade acontecesse naturalmente, mas há anos que ele, por problemas de saúde, já não aparecia em eventos culturais. Agora me sinto um pouco frustrado por não tê-lo visitado em sua casa. É que o sentimento de gratidão é uma das maiores dimensões que trago na alma e, assim, mesmo postumamente, quero registrar aqui meu agradecimento pelo aval que deu a minha poesia e rogar a Senhor da Vida que o assista e ampare seu espírito nessa misteriosa transição para a imortalidade.

Manoel de Andrade – 01/02/2010

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* Dedicatória que fiz a ele em meu livro Cantares (Escrituras, 2007)

Departamento de Crônicas

O Banco da Poesia se aproxima de seu aniversário. Acenderemos a primeira velinha no próximo dia 12 de março, com muitos motivos para festejar. E, como em qualquer organização, de verdade ou metafórica, o tempo e a experiência nos levam a transformações e, sempre que possível, a apriomoramentos. Por isso, nosso Banco ganhou mais um departamento, dedicado à postagem de Crônicas, esse gênero literário que relaciona-se com a memória e o tempo, a memória de episódios gravados no tempo.

Abrimos o Departamento de Crônicas com um texto da poeta Vera Lúcia Kalahari, de Angola. Ou, de vez em quando, de Portugal. (Leia mais aqui)

Tom Jobim, parabéns pra você!

Ilustração de Bruni

Hoje, 25 de janeiro, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim estaria completando 83 anos, se há 16 não tivesse deixado a sua vida de poesia e beleza musical. O patrimônio que nos legou, no entanto, justicam plenamente que todos nós, brasileiros e muita gente por este mundoa afora,  tenham saudade dele. Vamos ouvir uma de suas músicas mais conhecidas, exatamente a que fala da Saudade, com versos de Vinicius de Moraes. Com Banda Nova, em show gravado em Montreal em 1986. Chega de saudade? Que nada…

Vera Lúcia Kalahari em uma misteriosa rua

Rua 13


O beco é escuro…
Rua 13…Rua 13…
Bocas que sugam sangue
Olhos que choram sangue
Solidão e miséria.
É noite…
Sinto qu’é noite.
Não porque o sol s’escondesse
Não porque a sombra descesse
Mas porque no meu coração
O brado dessa miséria
Se fundiu, se faz sentir.
É a noite que nos arrasta.
Não é só a noite…
É noite. Uma noite espessa, sem paz.
Sem Deus, sem afagos,
Sem nacos de pão, sem nada.
Uma noite sem distâncias…
Apenas noite.
Mas por trás dos altos montes
A aurora vem surgindo.
Tudo o que à noite perdemos
O dia nos traz novamente.
Surgem  aves chilreantes
Badalar manso de sinos
Cantos suaves do mar.
No alto da Rua 13
Brilha tremendo uma luz.
É o sol…A esperança,
Que um dia aquela rua
De almas sem luz e sem sol
Também veja o alvorecer.

Vera Lúcia

Reencontros inesquecíveis

Depois de viver muito tempo fora de Curitiba – Londrina, Brasília, São Paulo, Londrina novamente, voltei à Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais para reorganizar a “melhor idade” (que tolice! melhor idade é aquela em que a gente vive bem, do zero aos cento e tantos), agregar a família, curtir os netos e rever uma boa quantidade de amigos que aqui havia deixado. Dizem que amigos-amigos podem ser contados nos dedos das mãos. Mas descobri que tenho mais amigos que dedos. Bastou uma voltinha pelo delicioso cenário do mercado municipal para encontrar, de cara, dois ou três deles. Alguns telefonemas e velhas amizades já estavam rejuntadas com cola mágica, melhor do que aquelas à base de éster de cianoacrilato. Reuniões promovidas por amigos mais chegados e eis diante de mim chusmas de e(ternos) companheiros e companheiras (no bom sentido da palavra), a relembrar os anos 60 e 70, quando aqui vivi intensamente. Amizades já velhas de 40 anos, mas nunca desgastadas, se renovaram como se o lapso tivesse sido apenas de poucos meses.

Evidentemente, alguns amigos já tinham tomado outros rumos desconhecidos, aqueles que muitos afirmam existir, mas nuca realmente comprovados. Outros encontrei de malas prontas e pude usufruir um pouquinho suas presenças físicas. Alguns, lamentavelmente, não alcancei abraçar antes da partida e lastimo não ter feito maior esforço para visitá-los antes que o trem partisse, como os bons amigos Érico da Silva e o Jamil Snege.

Perguntei por esse e aquele: já não vivem mais em Curitiba. Onde? Não sei, sei, mas não tenho o endereço. E descobri também que Curitiba já não é a cidade semiprovinciana dos anos 60, onde (quase) todo mundo se conhecia, existia número reduzido de locais para se frequentar e a Rua XV era o grande ponto de encontro. Hoje, ao passar por lá, de vez em quando reconheço algumas faces antigas, camufladas pela geada do tempo, mas há uma multidão de caras novas totalmente irreconhecíveis. É a Curitiba cosmopolita, metida a cidade grande, de centro renovado e, até certo ponto, degradado.

Mas volto às amizades, que é o que interessa. Na lista dos amigos debandados estava o arquiteto Sérgio Todeschini Alves, dedicado durante década e meia ao patrimônio histórico do Paraná. Frequentávamos, nos Anos de Ouro, as exposições, os recitais de música e as eventuais tertúlias intelectuais. No meu primeiro êxodo, em direção a Londrina, Sérgio foi muito importante para a realização de um projeto meu na Universidade de Londrina – onde eu dirigia o setor cultural, no reitorado de Oscar Alves – e que objetivava tombar a antiga estação rodoviária no patrimônio histórico, antes que algum desvairado alcaide utilizasse apenas a primeira acepção do verbo ambíguo. O edifício, projetado pelo arquiteto paranaense João Batista Vilanova Artigas, iniciado a construir em 1949 e inaugurado em 1952, havia cumprido sua missão e o local já não conseguia receber a catadupa de ônibus bem mais crescidinhos que as antigas jardineiras dos anos 40. José Richa, prefeito empossado em 72, havia encomendado a Oscar Niemeyer um projeto de uma nova e maior rodoviária.
Aliás, quando inaugurada, a antiga rodoviária londrinense já estava ungida como patrimônio histórico, pois foi o primeiro edifício público do Paraná projetado dentro dos cânones da arquitetura moderna do Século XX. E aproveito para fazer um reparo a alguns historiadores pouco informados: o tombamento não se deu graças a iniciativa da Secretaria de Cultura do Paraná e sim por proposição da UEL, como já registrei anteriormente. Mesmo porque, naquele ano de 1975, quando se deu o tombamento, nem havia a referida secretaria, criada apenas na última gestão de Ney Braga, em 1979. O Patrimôniuo Histórico do Estado estava ligado ao Departamento de Cultura da Secretaria de Educação. Para comprovar, transcrevo o texto publicado por Sérgio Todeschini Alves em seu blog Todesca, lá em Itu, após o milagre da reaproximação eletrônica  promovido pela Internet.

A internet continua a me surpreender! Numa navegação descobri o blog do Cleto de Assis – Banco da Poesia. Lembro em 1976, eu estava Diretor do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, e fui convocado pelo Cleto, então Diretor da Área Cultural da
Universidade de Londrina, para fazer o tombamento da Estação Rodoviária de Londrina, projeto do arquiteto Vilanova Artigas. A estação representava o progresso da região e tinha valor histórico, porque a maioria das pessoas que habitavam aquela pujante cidade, haviam chegado por aquele porto. Não tive dúvidas, convocado pelo Cleto, fiz uma pequena consulta a alguns membros do Conselho, e iniciamos o processo de tombamento. No dia do tombamento estava presente o  arquiteto Vilanova Artigas, o prefeito de Londrina José Richa, o reitor da Universidade de Londrina Oscar Alves, e inúmeras personalidades. Vilanova Artigas, que havia perdido a sua cátedra por perseguições políticas, fez um violento discurso contra a ditadura, o que, convenhamos, na época era coragem extrema. Tudo isso eu conto, porque me veio de relance à memória, e por ter descoberto o blog do Cleto, que fala de poesia.” Avante Cleto, o mundo precisa de poesia!

Em foto da década de 70, Vilanova Artigas na rodoviária de Londrina, provavelmente na ocasião de seu tombamento

A rodoviária de Londrina na década de 50, foto enviada por Carlos Verçosa, da Bahia

E lá veio, do interior paulista, mais uma velha amizade recuperada. Que me dá ensejo de contar as historinhas adjacentes, como a da rodoviária de Vilanova Artigas.

Após seu tombamento, a rodoviária ainda continuou a ser utilizda como terminal de transporte, até 1988, quando foi desativada em razão da inauguração da nova estação. E então, é preciso dizer, quase teve o mesmo destino dos prédios cadastrados no patrimônio histórico e artístico. Ficou abandonada por algum tempo, até ser restaurada, em 1992, pela Associação dos Funcionários da Viação Garcia e ressurgir para um nobre destino, ao ser transformada no Museu de Arte de Londrina, em 1993, segundo projeto de adaptação elaborado pelo arquiteto Antonio Carlos Zani. Uma obra de arte com ventre recheado de outras.

O atual Museu de Arte de Londrina

Não bastasse esse prodígio, a nova e boa rede de comunicação me trouxe de volta também outro velho e bom amigo, Carlos Alberto Verçosa da Silva, poeta, jornalista e publicitário que conheci em Londrina, raptado, há muitos e muitos anos, pela Bahia, que o vestiu até com o sotaque daquele país nordestino. E novamente a rodoviária vem à baila, na coleção de fotos antigas de Londrina que Verçosa me envia lá de Salvador.

Em novembro de 2009 Sérgio veio a Curitiba, com sua Silvana,  para festejar mais um ano de sua turma de arquitetura da UFPR. Telefonou-me e pudemos nos encontrar por algumas horas, primeiro na inauguração do Museu Guido Viaro e, em seguida, na sempre boa mesa do Ile de France, do restaurateur Jean Paul Roland Deckoc.

Sérgio e Silvana, 11 de novembro, chuvosa noite do apagão, no Ile de France

Estas reminiscências são feitas para, principalmente, ressaltar o valor das boas amizades e foram ainda mais provocadas pela surpresa de um poema enviado ao Banco da Poesia por outro amigo, o médico Oscar Alves. Além de amigo, fratello del cuore, como dizem os italianos Apesar disso, eu desconhecia as suas aptidões poéticas. E ele escolheu exatamente o tema Amizade para registrar seus versos (ver abaixo).

Como eu mesmo escrevi, em um poema dedicado ao reencontro com Manoel de Andrade, ter amigos é a melhor coisa que existe. (C. de A.)