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Presentinhos para o Brasil

Poema de Helena Lanari

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal
Quando Helena Lanari dizia o “coqueiro”
O coqueiro ficava muito mais vegetal

De Geografia, 1967

Pátria Minha

Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

De Vinicius de Moraes – Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1998

A Brasília, com um pingo de saudade

Há um ano o Banco da Poesia homenageou Tiradentes, na voz poética de Cecília Meireles. E lembramos todos os homenageados do dia 21 de abril, que são muitos e alguns pouco lembrados.

Só para recordar:

Mas não deixemos de relembrar a história de Tiradentes, em cujo dia também se comemora o Dia da Latinidade (quem lembrou dele? Só o Chávez, quando presenteou o já rançoso livro do Eduardo Galeano ao Barack Obama); o aniversário de Brasília (inaugurada em 21 de abril exatamente porque Juscelino queria homenagear um mineiro ilustre); o aniversário de Roma (que não tem nada a ver com Tiradentes, mas em Brasília, na Praça dos Buritis, bem em frente ao palácio do governo distrital, existe uma réplica da Loba com Remo e Rômulo, presente da capital da Itália à capital brasileira –Brasília e Roma são cidades irmãs, devido à coincidência natalícia); Dia Mundial do Bombeiro, homenagem mais que justa (mas sempre apagada – perdão pelo trocadilho – diante da homenagem ao protomártir da Independência), e, ainda no Brasil, onde habita um povo que adora heróicos feriados retumbantes, o Dia da Polícia Civil, o Dia da Polícia Militar (que, possivelmente, serão os únicos a trabalhar neste feriado),  Dia do Metalúrgico (terá Lula lembrado de seus companheiros de antanho?) e, finalmente, o  Dia do Têxtil (que, de certa forma, colabora com a confecção das bandeiras hasteadas no dia de hoje).

Neste 21 de abril de 2010 temos uma data redondíssima a comemorar — os 50 anos de inauguração de Brasília, nossa Capital Federal, hoje quase transformada em Babilônica apocalíptica, onde transbordam as sem-vergonhices de muitos dos nossos honoráveis representantes, aos quais entregamos, de quatro em quatro anos, cheques em branco impagáveis (termo que se pode entender, na justa eleitoral, em todas as suas acepções léxicas: que não se pode ou não se deve pagar; inestimável; precioso; muito engraçado; hilariante; cômico, excêntrico, ridículo).

Vivi em Brasília por cerca de 14 anos. E confesso que aprendi a amá-la e entendê-la, pois, à moda de Bilac, é preciso saber vê-la e ouvi-la. Aprendi a conhecer as excentricidades da cidade cêntrica, planejada para abrigar preferencialmente o poder. Aprendi a ler seus complicados endereços, nem tão complicados assim depois que conhecemos seus códigos. Aprendi a separar a Brasília dos poderosos da Brasília da gente amigável, que trabalha realmente pensando no bem do enorme panorama brasileiro à sua volta.

Para homenagear seu cinquentenário, procurei poetas que a cantaram. E muitos há. Basta “guglear” Brasília poemas e aparecem coleções de odes elogiosas.  Mas senti que seria infiel se não usasse palavras minhas para conversar com ela no dia de seu importante aniversário. Sem pretender fazer um poema, abri as portas da memória e, apenas passeando por metáforas, desaguei no que vai abaixo, pois, em meio à festa, não posso descuidar, como preocupado brasileiro, do que ocorre por lá, apesar de nossa sentinela avançadíssima afirmar, para espanto quase geral, que nada ouve e nada vê.  E como ela nada escuta e nada enxerga, nada ocorre do que vemos e ouvimos. Pura lógica princepesca…

Para completar a homenagem, dois vídeos. O primeiro, com Vinicius de Moraes e Tom Jobim e a primeira música composta em Brasília, Água de Beber,  sob inspiração do murmurejo de um riacho ao lado do Catetinho, o palácio de madeira construído por Oscar Niemeyer para Juscelino Kubitschek na início da construção de Brasília. No segundo, Juca Chaves, ainda mocinho atrevido, canta Presidente Bossa Nova, uma sátira ao construtor da nova capital. Música, aliás, que chegou a ser temporariamente censurada, apesar do Brasil ter vivido, naqueles tempos, uma era de plena liberdade de expressão. Com meu abraço e (confesso) um pouco de saudade. (Cleto de Assis)

Brasília


Andar por Brasília é como voar:
……………..planar sobre projetos arquitetônicos
……………..mover-se velozmente por planos urbanísticos
……………..brincar de gente grande em um imenso jardim de infância.

Porque Brasília é ainda infante, apesar de cinquentenária:
que são cinquenta aninhos perto dos 510 do jovem Brasil?

No jardim do planalto central,
……………..onde árvores retorcidas do cerrado
……………..deram lugar a templos de cimento armado,
……………..onde se juntaram o sonho de Dom Bosco
……………..aos delírios de Juscelino
……………..e às fantasias temperadas
……………..nos caldeirões de Niemeyer e Lúcio Costa,
plantaram-se esperanças vindas de todas as partes
e nasceu gente nova, candangos do Século XXI.

É verdade que a Brasília igualitária imaginada nas pranchetas
jamais frutificou
— no sopé das caixas de cimento
ainda germinam as diferenças
e  aparecem e desaparecem teimosas favelas
como a dizer: também sou chão brasileiro
feito de pobreza, deseducação e doença.

É verdade que os senadores e ministros e deputados
e sacrossantos magistrados não realizaram o sonho de viver
ao lado dos motoristas e serventes e vigias.

É verdade que Brasília,
para onde se transferiu a forja de leis carioca,
também importou a fluidez e multifácies do poder insensato
e os inefáveis palavreados das tribunas e dos tribunais,
nos quais mudaram as paredes, o ar em torno, mas não o ar interno.

Brasília recebeu suntuosos memoriais
e em cada canto outros vicejam
a guardar reminiscências e a esconder pecados.
……………..Brasília ainda aguarda o Memorial da Incúria
……………..onde, em mil paredes, se exporiam
……………..as miríades de atos impudentes
……………..colhidos na Praça dos Três Poderes
……………..e onde as novas gerações aprenderiam
……………..a ter vergonha na cara
……………..e a respeitar e respeitar e respeitar todas as (re)públicas
……………..e a honrar e honrar e honrar todos os compromissos
……………..e fazer do não roubarás também um pétreo preceito constitucional.

Mas Brasília carrega a sina
de ter se tornado famosa
antes de madurar.
E por mais distante que esteja
é lá que nossas vidinhas e vidões
são lançados à sorte da roleta política
e das decisões destemperadas do Olimpo planaltino.
E segue vivendo sua vida sem esquinas
e com lagos artificiais e artifícios democráticos,
com mil violinos de Chagall
e violões de Dilermando
e cavaquinhos de Waldir Azevedo
a tocar sobre seus tetos,
com milhares de gravatas
transformadas em bandeiras de representação
do Zé Povinho descalço e sem roupas
eterna Capital da Esperança
com chegança sem data marcada.

……………………………..

Um dia, olhando Brasília lá do alto,
ouvi sua prece murmurante
a pedir para não ser transformada na Babilônia apocalíptica,
mãe de todas as prostitutas e abominações da terra.
sentada na Besta escarlate
e destinada a ser destruída por culpa dos pecados de seus príncipes,
que se gloriam com insolência e pronunciam blasfêmias
e reproduzem, de suas cabeças, outras Bestas,
com chifres semelhantes aos do Cordeiro,
mas com vozes troantes de Dragão,
a exercitar todo o poder da primeira Besta na sua presença
e a fazer que todos os habitantes adorem a primeira Besta,
cuja ferida mortal já foi curada,
tal como profetiza o Apocalipse 13.
Eu, então, a consolei, mostrando-lhe que os reis passarão
e ela permanecerá incólume e linda
e um dia se tornará uma das maravilhas do mundo moderno
com suas fontes a jorrar leite e mel e felicidade.

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Tom Jobim, parabéns pra você!

Ilustração de Bruni

Hoje, 25 de janeiro, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim estaria completando 83 anos, se há 16 não tivesse deixado a sua vida de poesia e beleza musical. O patrimônio que nos legou, no entanto, justicam plenamente que todos nós, brasileiros e muita gente por este mundoa afora,  tenham saudade dele. Vamos ouvir uma de suas músicas mais conhecidas, exatamente a que fala da Saudade, com versos de Vinicius de Moraes. Com Banda Nova, em show gravado em Montreal em 1986. Chega de saudade? Que nada…

Homenagem aos 15 anos de ausência de Tom Jobim

Há exatos quinze anos – 8 de dezembro de 1994 – morria em Nova Iorque o compositor, maestro, pianista, violonista , cantor e arranjador brasileiro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido como Tom Jobim. Tom foi músico e poeta. Na sua carreira, escreveu poemas musicados, associou-se a outros poetas – como Vinicius de Moraes – e deixou para a MPB obras imortais.

O Banco da Poesia presta sua homenagem a Tom com dois poemas seus carregados por músicas famosas: As Praias Desertas e Luiza. As duas músicas também completam a homenagem com vídeos do You Tube. Infelizmente não encontrei a melhor interpretação (diversas cantoras brasileiras a gravaram) de As Praias Desertas que, na minha opinião, é de Maysa. Para Luiza, vai o vídeo com a voz de Tom e a beleza da catarinense Vera Fisher, na novela Brilhante, para a qual Tom Jobim compôs a canção, em 1981.

As Praias Desertas – 1958


As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar

O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar

O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir

Porque tudo na vida há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois

Luiza – 1981

Lua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza

As Praias Desertas

com  Luciana Souza e Felipe Labate  ao violão

Luiza

Voz de Tom Jobim

Mercedes Sosa: adiós a la vida

Mercedes_Sosa

O site de Mercedes Sosa (http://www.mercedessosa.com.ar/), na Argentina, amanheceu com a seguinte notícia:

“Nesta data, na cidade de Buenos Aires, Argentina, temos que informar-lhes que a senhora Mercedes Sosa, a maior artista da música popular latino americana, nos deixou.
Haydé Mercedes Sosa nasceu no dia 9 de julho de 1935 na cidaden Miguel de Tucumán. Com 74 anos de idade e uma trajetória artística de 60 anos, ela transitou por diversos países do mundo, compartilhou cenários com inumeráveis e prestigiados artistas e  deixou, além disso, um enorme legado de gravações fonográficas.
Sua voz levou sempre uma profunda mensagem de compromisso social por meio da música de raiz folclórica, sem prejuízo de somar outras vertentes e expressões de qualidade musical.
Seu talento indiscutível, sua honestidade e suas profundas convicções deixam uma enorme herança para as gerações futuras. Admirada e respeitada em todo o mundo, Mercedes se constitui como um símbolo de nosso acervo cultural que nos representará por sempre e para sempre.
Talvez as palavras de sua grande amiga Teresa Parodi resumam o sentimento de muitos:

…Mercedes, salmo nos lábios

amorosa mãe amada

mulher da América ferida

tua canção nos põe asas e faz que a pátria toda

miudinha e desolada não morra todavia,

não morra porque sempre cantarás em nossas almas…

Seus restos serão velados no Salão dos Passos Perdidos, no Honorável Congresso da Nação, Avenida Rivadávia, 1864, a partir do meio dia de hoje. Sua familia, parentes e amigos agradecem profundamente o acompanhamento e o apoio expressado nestes dias.”

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes Sosa se tornou amiga de medalhões da MPB

O auge da popularidade de Mercedes Sosa no Brasil foi nas décadas de 1970 e 1980, quando se tornou amiga de medalhões da MPB, que chamaram a atenção para a sua importância e para a beleza contundente de seu canto. Amiga de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Fagner, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Beth Carvalho, Mercedes fez duetos em shows e gravações com vários deles. Numa de suas últimas vindas a São Paulo, em 2007, dividiu o palco com Maria Rita. Registrou em discos também canções de Vitor Ramil, Djavan, Marcos Valle e Kleiton Ramil.

Milton é o brasileiro mais presente no repertório da cantora, que também fez duetos históricos com ele em Volver a los 17 (Violeta Parra) e Sueño con Serpientes (do cubano Silvio Rodriguez). Em 1985, os dois dividiram o palco com o argentino León Gieco num grande show em Buenos Aires, que virou disco: Corazón Americano. Procurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, Milton, segundo sua empresária, não quis dar declarações por estar muito abalado com a morte da amiga.

Outros encontros marcantes de Mercedes com brasileiros foram com Beth Carvalho, em Solo le Pido a Diós (León Gieco) e com Fagner em Años (Pablo Milanés). Um compacto com O Cio da Terra (Chico Buarque/Milton Nascimento) e San Vicente (Milton/Fernando Brant) é outro registro que merece destaque.

“Éramos bastante amigas desde que vi um show dela no Scala, no Rio. Depois convidei-a para gravar em 1986. Foi uma gravação muito feliz, muito bonita”, lembra Beth Carvalho. Depois ela me convidou para fazer um espetáculo no Luna Park, em Buenos Aires, chamado Sin Fronteras, em 1988. Ela estabeleceu que era uma reunião das rainhas de cada lugar. Do Brasil fui eu, do México tinha Amparo Ochoa, da Venezuela foi uma outra. Foi muito lindo, eu encerrava o show com ela”, lembra Beth.

Em 1980, Mercedes gravou o álbum Ao Vivo no Brasil e em 1982 teve um outro disco montado só para o mercado brasileiro, Gente Humilde, puxado pela faixa-título de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Garoto. O álbum também incluía Viola Enluarada (Marcos/Paulo Sérgio Valle) e o dueto com Fagner em Años. Em 1986. ela fez uma participação no programa Chico & Caetano, da Rede Globo, cantando Volver a los 17, com os anfitriões mais Milton Nascimento e Gal Costa. O encontro saiu em CD numa coletânea brasileira.

Recentemente, Vitor Ramil, de quem Mercedes gravou Semeadura, a tinha convidado para participar de seu novo álbum, mas ela já estava doente. O produtor Ricardo Frugoli tinha um projeto de gravar um novo álbum de Mercedes no Brasil ainda este ano. “Seriam 14 canções, sete com cantores brasileiros consagrados e sete canções com cantores brasileiros de várias gerações com enorme talento e menor visibilidade”, conta Frugoli.

Mercedes também estaria no projeto que Beth Carvalho vem alimentando há anos, que se chama Beth Carvalho Canta as Músicas Revolucionárias Latino-Americanas. “Ela topou na hora quando falei desse projeto. Iria cantar com ela, com Silvio Rodríguez, cada um representante de cada lugar desse tipo de música, revolucionária, que acho linda. Queria fazer uma coisa grandiosa, gravar em Cuba. Mas eu vou fazer, pena que não vou ter mais a Mercedes.” (A.E.)

Mercedes canta Gracias a la Vida, de Violeta Parra,

Perdoem-me, mas é preciso relembrar o pavor e a dor

Em 1945, eu tinha apenas quatro anos. Um menininho, um little boy, como se diz em inglês. Nos Estados Unidos da América do Norte, havia milhares de little boys iguais a mim. E lá no Japão, no outro lado da Terra, também existiam milhares de little boys e little girls. Todos, como eu, germinando para a vida e dispostos a crescer e fazer parte dessa imensa massa de gente a que chamamos humanidade.

Mas eis que alguns pais desses menininhos e menininhas daquele país e do Japão estavam brigando. E o pai de todos os estadunidenses mandou um avião até a Terra do Sol Nascente para jogar uma bomba ironicamente batizada de Little Boy e matar menininhos e menininhas e adultos e idosos de uma só vez. Era o 6 de agosto daquele ano.

Como se não bastasse a horrível carnificina, três dias depois, no dia 9 de agosto, o mesmo paizão mandou mais um avião jogar outra bomba em um cidade próxima à primeira destruída. Dessa vez o artefato bélico foi batizado com outro irônico nome, Fat Man. E matou e aleijou muitos homens gordos, homens magros, mulheres e mais menininhos e menininhas.

Aí os homens da época – que se diziam adultos, inteligentes e sérios – festejaram porque aquela imensa imolação fizera com que a guerra mundial finalmente acabasse, embora outros adultos, também considerados sérios e inteligentes, tenham dito que a guerra iria logo acabar, de qualquer jeito, mesmo que Little Boy e Fat Man não tivessem interpretado o papel sujo  naquela tragédia.

O que os meninos e meninas não conseguiam entender era o porquê daquela briga e de tantas mortes causadas. Os adultos não ensinavam que brigar era coisa feia? Então, por que faziam tanta coisa feia?

Eu, mesmo depois que deixei de ser menino, jamais consegui compreender.

………………………………..

Mas os poetas nos ajudam a não esquecer e a tentar entender. Por isso, pedimos a dois poetas brasileiros – Manoel de Andrade e Vinicius de Moraes – a energia poderosa de suas palavras para homenagear os que sentiram a dor e o pavor de Hiroshima e Nagasaki naqueles dias trágicos, de forma definitiva ou arrastados até os dias finais pelas sequelas físicas e espirituais. Ao final deste post, um dos poemas de Vinicius, musicado por João Apolinário e Gerson Conrad, do grupo Secos & Molhados, com a voz de Ney Matogrosso.

Hiroshima

xxxxxxxxxManoel de Andrade

Hiroshima, Hiroshima
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.

Farol de luz no estuário
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.

Verão de quarenta e cinco
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.

Surge o Sol, se abre o dia
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.

Teus colibris revoavam
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.

O arroz na água e na espiga
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.

Vidas… teu rosto eram vidas
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.

Folguedos, danças, cantigas
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.

As horas cruzavam o dia
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.

De repente nos teus ares
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.

O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.
Hiroshima
No céu… um avião se afasta
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e a cidade destruída.

Quem eras tu, Hiroshima
naquele dia distante…?
Eras sonhos e esperanças
incendiados num instante…

Quantos projetos de vida
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.

Eras filhote no ninho
eras fruto no pomar
canteiro de brancas rosas
e toda a vida a cantar.

Eras mãe, eras criança
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente

Por que Hiroshima, por quê…?
o punhal de fogo, a explosão…?
Por que cem mil corações
ardendo sem compaixão…?

Tua inocência cremada
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.

Teu sangue vive na história
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas, na memória
na dor dos sobreviventes.

Quem previu tua agonia?
Quem explodiu tua paz?
Quem tatuou nos teus lábios
as palavras: nunca mais!?

Comandantes, comandados…
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?

Por tanta dor, rogo a Deus
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.

Hiroshima, flor da vida,
semente, ressurreição.
Fênix, face renascida.
PAZ, santuário, canção.

xxxxCuritiba, Julho de 2005.
xxxxDo livro CANTARES, editado por Escrituras

A Bomba Atômica

xxxxxxxxxVinicius de Moraes

xxxxxxxxxxIxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxe=mc2xxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxEinstein

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
xxxxxxxxxxxxDeusa, visão dos céus que me domina
xxxxxxxxxxxxxx… tu que és mulher e nada mais!

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx “Deusa”, valsa carioca

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
xxxxxxDos céus descendo
xxxxxxMeu Deus eu vejo
xxxxxxDe paraquedas?
xxxxxxUma coisa branca
xxxxxxComo uma forma
xxxxxxDe estatuária
xxxxxxTalvez a forma
xxxxxxDo homem primitivo
xxxxxxA costela branca!
xxxxxxTalvez um seio
xxxxxxDespregado à lua
xxxxxxTalvez o anjo
xxxxxxTutelar cadente
xxxxxxTalvez a Vênus
xxxxxxNua, de clâmide
xxxxxxTalvez a inversa
xxxxxxBranca pirâmide
xxxxxxDo pensamento
xxxxxxTalvez o troço
xxxxxxDe uma coluna
xxxxxxDa eternidade
xxxxxxApaixonado
xxxxxxNão sei indago
xxxxxxDizem-me todos
xxxxxxÉ A BOMBA ATÔMICA.
CogumeloAtômico

xxxxxxVem-me uma angústia.

xxxxxxQuisera tanto
xxxxxxPor um momento
xxxxxxTê-la em meus braços
xxxxxxA coma ao vento
xxxxxxDescendo nua
xxxxxxPelos espaços
xxxxxxDescendo branca
xxxxxxBranca e serena
xxxxxxComo um espasmo
xxxxxxFria e corrupta
xxxxxxDo longo sêmen
xxxxxxDa Via-Láctea
xxxxxxDeusa impoluta
xxxxxxO sexo abrupto
xxxxxxCubo de prata
xxxxxxMulher ao cubo
xxxxxxCaindo aos súcubos
xxxxxxIntemerata
xxxxxxCarne tão rija
xxxxxxDe hormônios vivos
xxxxxxExacerbada
xxxxxxQue o simples toque
xxxxxxPode rompê-la
xxxxxxEm cada átomo
xxxxxxNuma explosão
xxxxxxMilhões de vezes
xxxxxxMaior que a força
xxxxxxContida no ato
xxxxxxOu que a energia
xxxxxxQue expulsa o feto
xxxxxxNa hora do parto.

xxxxxxxxxxII

xxxA bomba atômica é triste
xxxCoisa mais triste não há
xxxQuando cai, cai sem vontade
xxxVem caindo devagar
xxxTão devagar vem caindo
xxxQue dá tempo a um passarinho
xxxDe pousar nela e voar…
xxxCoitada da bomba atômica
xxxQue não gosta de matar!

xxxCoitada da bomba atômica
xxxQue não gosta de matar
xxxMas que ao matar mata tudo
xxxAnimal e vegetal
xxxQue mata a vida da terra
xxxE mata a vida do ar
xxxMas que também mata a guerra…
xxxBomba atômica que aterra!
xxxPomba atônita da paz!

xxxPomba tonta, bomba atômica
xxxTristeza, consolação
xxxFlor puríssima do urânio
xxxDesabrochada no chão
xxxDa cor pálida do hélium
xxxE odor de rádium fatal
xxxLoelia mineral carnívora
xxxRadiosa rosa radical.

xxxNunca mais, oh bomba atômica
xxxNunca, em tempo algum, jamais
xxxSeja preciso que mates
xxxOnde houver morte demais:
xxxFique apenas tua imagem
xxxAterradora miragem
xxxSobre as grandes catedrais:
xxxGuarda de uma nova era
xxxArcanjo insigne da paz!

xxxxxxxxxxIII

Bomba atômica, eu te amo! És pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! Alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

Rosa de Hiroshima

xxxxxxxxxVinicius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

______________

Ilustrações: C. de A.

Sob as ondas

A natureza é toda poesia. O fotógrafo que tem a capacidade (ou a sorte) do clique correto, também é poeta. E se ele surfa e tem o necessário equilíbrio para clicar, no momento exato, dentro da onda, em meio ao turbilhão, faz do atletismo um momento de poesia. No instante paralisado, conserva o movimento da natureza, o agitar-se da vida. E a vida – como disse Vinicius de Moraes, em O Dia da Criação –, a vida bem em ondas, como o mar.

As fotos que publicamos, verdadeiros poemas fotográficos, foram extraídas de mensagem da arquiteta, escritora e ilustradora portuguesa Margarida Botelho. Infelizmente, não cosneguimos localizar os autores. Se alguém conseguir identificá-los, por favor, nos comunique para fazermos o registro.

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