A ecológica Árvore de Cristal

Desde o último dia 9 uma árvore de natal com 12 metros de altura e feita de garrafas plásticas adorna o Paço da Liberdade (antiga Prefeitura Municipal) em Curitiba e ilumina suas noites. É a Árvore de Cristal, projeto da Fundação de Ação Social (FAS), presidida pela primeira dama Fernanda Richa, em parceria com a Coca-Cola, já em seu segundo ano.

Elaborada com 4 mil garrafas plásticas, com líquidos coloridos e seis mil lâmpadas, a árvore é espetáculo de luz e espírito natalino. Os demais componentes da árvore, como laços e guirlandas, também foram confeccionados com material das garrafas por grupos da terceira idade e por participantes do ProJovem.

O design é do arquiteto Fernando Canalli e todas as garrafas que integram o projeto foram coletadas pelo município e pelas comunidades que vivem perto das  margens dos rios, como iniciativa que contribui com o meio ambiente e ajuda a manter a cidade limpa.

A foto da praça foi recolhida no portal da Prefeitura e o belíssimo detalhe é de nossa amiga fotógrafa Lina Faria. Com sua sensibilidade, ela conseguiu até captar sutis raios luminosos vindos lá de cima.

Po falar em Paço da LIberdade, hoje eu quero visitá-lo para ver a exposição de Arnaldo Antunes, que materializa em quadros as suas teorias sobre Poesia Visual. Ainda falaremos muito sobre isto, aqui no Banco da Poesia.

Foto Lina Faria

Paz natalina

Hoje, domingo, 20 de dezembro de 2009, fez um belo domingo em Curitiba. Sol e cheiro do Natal que se aproxima.

O Banco da Poesia recebeu duas contribuições apropriadas à época natalina (ver abaixo). Manoel de Andrade relembra um poema de 2002, no qual dirige seus agradecimentos pelos presentes que a vida lhe reservou. Já Vera Lúcia Kalahari imagina, lá de Portugal, todo mundo reunido junto ao presépio cristão e faz um desafio inquietante. Aproveitei a onda e postei uma croniqueta, onde reflito sobre a possibilidade — utópica, é claro — de todos os dias poderem ser dias de Natal.

Tudo para reiterar nossos votos de um ótimo Natal e um ano de 2010 (gente, já estamos vencendo a décima parcela deste Século XXI!) bastante positivo para toda a sociedade humana e, evidentemente, para a grande Gaia que nos abriga.

Para ilustrar, uma foto do Natal do HSBC, tradição iniciada por seu antecessor Bamerindus, a nota máxima do Natal curitibano. Para quem não conhece o evento: imagine uma criança em cada janela do antigo Palácio Avenida, a compor um maravilhoso coral natalino. Cleto de Assis

Manoel de Andrade nos oferece sua prece natalina

Diz a história — ou histórias que se contam em volta dela — que Albrecht Dürer, pintor alemão (Nurembergue, 1471–1528), quando jovem, era bastante pobre, mas ansiava em se tornar um grande artista, assim como seu amigo, Franz Knigstein, com o qual dividia seus sonhos em direção à arte. Mas, para se sustentarem, tinham que trabalhar em tarefas mais rudes, incompatíveis com os estudos de pintura. Teriam chegado, então, a um acordo: lançariam a sorte e o perdedor continuaria trabalhando para financiar os estudos do outro.

Dürer ganhou e continuou a estudar, enquanto Knigstein permaneceu no trabalho. Um dia (toda história tem um dia importante) o pintor voltou à casa e encontrou-o rezando pelo sucesso do amigo, mesmo que ele, já com as mãos calejadas pelo trabalho bruto, não pudesse mais manipular os instrumentos de pintura. Albrecht Dürer, então, se comoveu com a cena e decidiu rapidamente gravá-la em um esboço que ficou conhecido como Mãos em Prece.

Na verdade, Dürer era filho de um abastado ourives e aprendeu com o pai o ofício, tornando-se também um exímio pintor, gravador e ilustrador. Com quinze anos tornou-se aprendiz do pintor e impressor alemão Michael Wolgemut (1434 – 1519), ao mesmo tempo em que ensaiava as técnicas de gravura em metal e em madeira. Com 31 anos de idade foi nomeado pintor da corte de Maximiliano I, da então Germânia. Após a morte do imperador, em 1520, partiu para a Holanda, onde conviveu com artistas e intelectuais do Renascimento, como Erasmo de Roterdam.

É bastante provável, portanto, que a história de sua obra Mãos em Prece não passe de uma lenda. Em verdade, o desenho é apenas um esboço de mãos, feito por Dürer quando ele recebeu uma encomenda de Jakob Heller (1460-1522), um rico comerciante, prefeito de Frankfurt e membro do conselho da cidade, para pintar um
retábulo com o tema da Assunção e Coroação da Virgem Maria.

Dürer terminou o projeto em detalhes, copiado exatamente pelos pintores encarregados da execução do retábulo. Apenas o painel central, representando a Assunção e Coroação da Virgem, foi executado pelo próprio
Dürer. Ele trabalhou durante 13 meses sobre a pintura final, determinado a torná-la “tão boa e bela, que continuará a ser brilhante e fresca durante quinhentos anos.”

Infelizmente, o painel central do retábulo foi vendido, um século mais tarde, pelos dominicanos ao duque Maximiliano da Baviera e, em 1729, foi destruído por um incêndio. Uma cópia de 1614 da obra, feita por Jobst Harrich de Nuremberg (1580-1617), sobreviveu. Também se salvaram dezoito esboços preliminares preparados por Dürer para a pintura final, entre os quais Mãos em Prece.

Mas, como dizem os italianos, se non é vero, é ben trovato. Afinal, uma oração, feita com boa intenção, só pode ter resultados positivos. Prece é meditação, é introspecção, é reflexão, é momento de concentração interior, é tentativa de contato com outras energias positivas. Assim, as mãos postas de Dürer, desenhadas apenas como um esboço, sem acurácia pictórica, tornaram-se mais conhecidas do que muitas de suas obras primas.

Lembrei-me delas quando li o poema de Manoel de Andrade, Prece da Criatura, um ato de reconhecimento e humildade ante a grandeza da vida, bastante apropriado para esta  época natalina. Ele nos envia seu trabalho como cumprimento a seus amigos e leitores do Banco da Poesia.

A Prece da Criatura

Manoel de Andrade

Eu te agradeço, Senhor,
ser filho do teu amor
e herdeiro do universo.
Ser cantor dessa beleza,
ter um lugar nessa mesa,
pelo sabor do meu verso

Ó Senhor, muito obrigado,
pelos  pais bons e honrados,
e a lição da pobreza.
Pelo café com farinha,
por tudo que eu não tinha,
e que fez minha riqueza

Pelo meu corpo perfeito,
a poesia em meu peito
e os anos da minha idade.
Por todo dever cumprido,
pelo amparo recebido
e pela imortalidade.

Eu te agradeço também
pela semente do bem
plantada no meu pomar.
Pela doçura desse fruto,
não ter me tornado um bruto
e ter aprendido a amar.

Pela água da minha fonte,
pela linha do horizonte
e um sonho de marinheiro.
Pelo meu mar de criança,
e o meu barco de esperança
percorrendo o mundo inteiro.

Pelo pão, pelo abrigo,
pela dádiva de um amigo,
e o abraço imperecível.
Te agradeço com veemência
esta paz na consciência
e a minha fé invencível.

Pela luz que me ilumina
desde a antiga Palestina
na alegria e na dor.
Por quem sou, pelo que sei,
por Moisés trazendo a lei,
por Jesus trazendo o amor.

Eu te agradeço, Senhor,
sobretudo pela dor
quando ensina uma lição.
Ninguém paga sem dever
e a lei obriga a colher
o efeito da nossa ação.

Pela sapiência contida
no pergaminho da vida
e pela civilização.
Te agradeço a minha parte,
pela ciência, pela  arte,
e pela Grécia de Platão.

Por Cabral no rumo certo,
pelo Brasil descoberto,
meu orgulho de cidadão.
Pelo herói da Inconfidência,
o grito da Independência
e a benção da Abolição.

Pelas lições da História,
pelo povo e a sua glória
na busca da liberdade.
E pela humanidade inteira,
quando erguer sua bandeira
pela paz e a verdade.

Grato sou por ter um sonho,
sonhar com um mundo risonho
numa paz contagiante.
Ver este Brasil fecundo
como o coração do mundo
em um porvir deslumbrante.

Te agradeço o bom combate,
e ter encarado esse embate
com o coração despojado.
Com tua luz nos meus passos,
a fraternidade em meus braços
e um sonho partilhado.

Contigo, Senhor, sou forte,
tenho um fanal, tenho um norte,
razão, sensibilidade.
Eu moro na melodia,
na música e na poesia
e no farol da verdade.

Muito obrigado Senhor
pelo trabalho e o suor,
pelo que dei e recebi.
Quando chegar meu momento,
se eu tiver merecimento.
me leva pra junto de ti.

Curitiba, dezembro de 2002

Vera Lúcia lança um desafio natalino

Hoje resolvi apresentar-vos um trabalho diferente. Nesta época natalícia, que todos vivem o nascimento de Cristo, gostaria de vos conhecer um pouco melhor. Por isso, aqui vai o meu desafio.

Pieter Brueghel, o Velho (1525-69) – 1564, painel de madeira, 111 x 83.5 cm, National Gallery, Londres

Eles vieram de longe, do Oriente… Seguindo a estrela mensageira, encontraram no deserto os caminhos que conduziam a Jesus.

Menino-Deus, pedacinho de gente, dormindo sobre palhas…

A História conta que levaram presentes dignos do rei mais poderoso da terra. Não conta, isso não, que foi feito do ouro, do incenso e da mirra… E da estrela que guiou os passos dos três Reis Magos, Baltazar, Gaspar e Melchior…

Perguntas que deixaram de ser, porque cada vez que surge um presépio, uma manjedoira e uma estrela, a história do Menino repete-se, como se cada um de nós tivesse estado presente nessa noite distante de Belém.

E se assim tivesse acontecido? Se a sua presença fosse ali, bem perto da manjedoira? Qual teria sido o seu presente para Jesus, SE VOCÊ FOSSE REI MAGO?

Vera Lúcia Kalahari, Portugal, dezembro de 2009

Croniqueta de Natal

E se todos os dias fossem Natais?
Se dos pensamentos e das bocas de todas as pessoas
saíssem desejos de Feliz Dia e Bom Próximo Amanhã?
E se nos esforçássemos
para que o pão nunca faltasse à mesa de alguém?
E se os realmente desamparados
sempre encontrassem mãos solidárias
dispostas a reerguê-los e a lhes ensinar a conduzir o barco da vida?
E se aprendêssemos a guiar a nau
sem dependência de timoneiros
e de remos mais poderosos que nossa própria vontade de navegar?
Ah, se a tal fraternidade reservada apenas para festas
Se regozijasse todos os dias
e enchesse os corações de alegria permanente…
Como seria bom se nenhuma criança sofresse fome,
frio, tristeza e enfermidades em qualquer dia do ano.
Maravilhoso, mesmo, seria
amar o próximo como a nós mesmos
sem paixões dolorosas,
sem batalhas cruentas,
sem batalha alguma,
sem lágrimas ou lamentações.
E se o erro
— sim, aquele desvio que as sacrossantas pessoas jamais perdoam —
fosse considerado apenas como um tropeço de aprendizado,
uma falha nossa, a que sempre se permitisse remediação e reedição melhorada?
E se aceitássemos que a idéia diferente da nossa
não fosse um antagonismo
mas possibilidade de agregação
e gênese de melhores sonhos e realizações?
E se todos os presentes
os mais baratos das feirinhas e os mais caros dos shopping centers
fossem substituídos por mãos estendidas
e flores nunca arrancadas dos jardins?

Mas enquanto o céu modorrento, insosso e inodoro não vem até nós,
enquanto não transite em julgado a condenação a eternas aulas de lira
e a demorados passeios sem rumo por macias nuvens,
deixemos pelo menos que haja um único dia
em que os abraços sejam realmente amplos, sinceros e energizantes
e que o simbolismo do nascimento
de um menino ainda sem certidão de nascimento
faça parte de nossas vidas
e que sejamos todos irmãos,
mesmo que durante um só feriado.

Cleto de Assis, dezembro 2009

Araxá nos descobriu: Cássio Amaral também envia depósitos

Quem, em Araxá,
procurar da Poesia o Banco,
Axará?

O oeste mineiro nos descobriu. E nós estamos descobrindo a poesia do oeste de Minas.  Junto aos comentários sobre os poemas de Rafael Nolli, com L. antes, chegou mais uma proposta de abertura de conta no Banco da Poesia de Cássio Amaral. Também poeta jovem, professor e, como se vê nos seus trabalhos, em busca de novas linguagens, mesmo quando utiliza a antiga estrutura haicaiana. Saudamos o novo correntista, professor  de História, Filosofia e Sociologia no ensino médio. Ele nasceu e vive em Araxá, Minas Gerais. Autor dos livros Lua Insana Sol Demente (2001), Estrelas Cadentes (2003), Sem Nome (2006) e Sonnen (2008). Participou das coletâneas de autores blogueiros Corpo e Alma em Verso e Prosa (2006) e Trilhas (2008), organizadas por Euza Procópio Noronha. Tem poemas publicados nos endereços eletrônicos Diversos Afins, Germina Literatura, Revista Lasanha e site de Antonio Miranda.

Seu blog se chama enten katsudatsu . Nossas boas vindas a mais este araxaense e sua poesia.

Metafísica dos coiotes I

Rasgo o trago do imprevisto
que distrai o tempo que passa rápido.
Canto o cântico dos malditos que me cai.
Tudo vaza, tudo explode.
A noite é lenta quando lírios conspiram
contra a sorte perdida.
Lâminas que a incerteza jura fatiar para a salada
de nepotismo barato e regular da gargalhada da noite.
Bebo as estrelas virgens,
Como os meteoros platônicos,
latindo, uivando pra lua prostituta
que cavalga numa nuvem
o sexo santo dos devassos.

A Morte do Poeta


O poeta morreu
Balbuciando formigas em seus versos
Ficou obcecado por metáforas
Cuspiu pleonasmos pretéritos

O poeta morreu
Tentando achar seu caminho
Disse imperfeições nas metonímias
Atirou-se do nono  andar

O poeta morreu tentando desmontar a bomba atômica
Depois de ter punhetado Descartes buscando a verdade ao contrário
Verter-se em Paganini tocando seu violino diabólico
Esvoaçando flores carcomidas por aliterações fingidas

O poeta morreu
Nos precipícios lunáticos de toda a imperfeição
Uivando diante do absurdo da sua própria voz
Silenciada no êxtase da loucura.

Três Kai-kais

Hai-cães uivantes

um trovão instiga o uivo
a noite cai em mosaico
no verso latido de um pária

tirar leite das pedras
pisar na velocidade da luz
extrair a raiz sisuda do futuro.

Catador

catando palavras
desvirginando a métrica
endoidando a sintaxe.

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Ilustrações: C. de A.

Sabe onde fica Quissico? Mia Couto sabe.

Quissico


1. Deixei o sol
na praia de Quissico
De bruços
sobre o Verão
eu deixei o Sol
na extensão do tempo
Molhando, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico
A terra
se via estar nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua

2. Não o pássaro: era o céu
que voava
O ombro da terra
amparava o dia
A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
em minhas ocultas asas

Mia Couto – Moçambique (ver mais aqui)

Que tal ler poesia em leitor eletrônico?

Há alguns anos li uma matéria com Humberto Eco e Paulo Coelho, na qual os dois escritores declararam suas negações à leitura eletrônica, em favor do velho e bom livro de papel. Estávamos no início da história dos e-books ou livros eletrônicos e eles visualizavam apenas a leitura feita em computadores tradicionais, nem sempre confortável. Lembro que Eco dizia que gostava de ler na banheira e não conseguia imaginar ter que carregar um computador na hora do banho.

Sony Reader, Japão

Na realidade, a trajetória dos e-books ainda está no seu começo. Podemos dizer que a viagem ainda nem começou, está apenas no aquecimento e na arrumação da bagagem. O que muitos divulgam como e-book, por enquanto, são apenas livros tradicionais digitalizados. Não se percebeu ainda a totalidade da revolução, que está modificando a própria leitura e o modo de construir o pensamento “escrito”. Os verdadeiros livros eletrônicos poderão ter até textos (com essas figurinhas conhecidas como letras), mas as novas mídias estã0 a compor novos meios de expressão, dentro de diversos suportes do conhecimento, dentro daquilo que é chamada de hipermídia.

Bebook Reader, Holanda

É possível que nossa dificuldade em aceitar a nova realidade (sim, acredito que a mídia impressa vai desaparecer, para felicidade geral das florestas) ainda é produto do condicionamento ao pensamento linear, elaborado em séculos com os olhos postos nas linhas dos textos escritos. Lembram-se como era trabalhoso escrever um determinando trabalho e, a todo momento, levantar-se para buscar referências em muitos livros, fazer fichas, anotações, cópias? Quando escrevíamos com a saudosa máquina datilográfica (tem gente das atuais gerações que nunva viu uma), pensávamos que o trabalho era reduzido, rápido e mais bem feito. Mas quando descobríamos que era necessário incluir um parágrafo importante no texto já pronto, babaus: era preciso redigir tudo de novo, a partir da modificação.

Hoje o computador já nos salvou desses trabalhos paleolíticos. E a Internet traça o caminho hipermidiático, no qual já conseguimos conduzir o pensamento à maneira de mosaicos, sem a rigidez da construção linear. Difícil? Nem tanto, se imaginarmos que os chineses e japoneses e todos os que usam linguagem ideográfica já pensam assim.

Cybook, Grã-Bretanha

Agora chegou avez da popularização dos aparatos eletrônicos que permitem a Humberto Eco e Paulo Coelho ler seus livros confortavelmente instalados em suas mornas banheiras. São os readers ou leitores digitais, cada vez mais leves e baratos e que podem arquivar centenas de documentos (tranquilizem-se os mais assustados: podem até ser centenas de livros, destes com uma linha de texto em baixo da outra, até o final…) A Sony já tem seu reader, a Microsoft também. Mas o mais famosos é Kindle, lançado pela Amazon, que não era uma empresa de produtos eletrônicos, mas especializou-se em vender livros. Aliás, é a maior livraria virtual do mundo.

E um dia eles acharam que o livro de papel, que pesa muito e custa caro, além de ter ainda um complexo e demorado sistema logístico para sua entrega, talvez estivesse com seus dias contados. E decidiram investir no desenvolvimento de um aparelho que servisse para a leitura de todos os livros. Ainda mais: também o vendem, nos Estados Unidos, com assinaturas de jornais, como o New York Times, em sua edição eletrônica. Quer saber mais? Clique aqui.

Irez-Iliad, Holanda

Durante mais de dois anos as vendas se limitaram aos Estados Unidos. Mas há dois meses já estão vendendo o aparelhinho para os brasileiros, com ampla área de cobertura, já que ele funciona com ligação à Internet no modo wireless, sem fio. Mas o problema era o preço. Lá ele é vendido por US$ 259 e chegava até aqui pelo dobro, pois se cobrava o imposto de importação. Sem falar no frete, que não é barato.

Um advogado brasileiro, no entanto, recorreu à justiça e ganhou o direito de importá-lo sem impostos, uma vez que livros são isentos. E o aparelho é apenas um suporte para a leitura, isto é, cada aparelho pode ser comparado a uma biblioteca eletrônica.

Embora este nosso blog não seja veículo para outra coisa que não a Poesia, de alguma forma a novidade está ligada intrinsecamente à leitura e, portanto, interessa ao futuro da arte, que poderá ganhar novos suportes e dimensões. Por isso, apresso-me em divulgar a notícia. Com o convite para que os caros amigos do Banco da Poesia depositem seus comentários. Pode ser uma bela discussão. Abaixo, a notícia divulgada pelo G1, da Globo.

Elonex Borders, Grã-Bretanha

E como no mundo eletrônico e globalizado as notícias são mais rápidas que raios, acabei de saber que a partir de amanhã, 17/12, já estará à venda uma biblioteca eletrônica com um aparelhinho europeu chamado COOL-ER, com caracteristicas semelhantes ao Kindle, e comercializado no Brasil pela Editora Gato Sabido. Clique no nome da editora para saber mais. Vai começar a concorrência e, com ela, a queda nos preços. Aguardemos.

Kindle, da Amazon

Concedida autorização judicial para importar leitor digital sem impostos

Advogado entrou com mandado de segurança e obteve a autorização. Nos EUA por US$ 259, Kindle tem US$ 266,62 de taxa de importação.

O advogado Marcel Leonardi obteve na Justiça uma autorização para a compra do leitor digital Kindle, da Amazon, sem pagar os impostos referentes à importação do produto. Vendido somente pela loja virtual nos EUA, o produto custa US$ 259, mas para os brasileiros chega a US$ 545,30 (cerca de R$ 956) – dessas taxas, US$ 21 referem-se à entrega, enquanto US$ 266,62 são de importação. Ainda cabe recurso da Receita Federal.

Leonardi entrou com um mandado de segurança no qual alegou que o Kindle possui a função exclusiva de leitor de textos. Por isso, o produto seria abrangido pela imunidade tributária da importação de livros, jornais, periódicos e papel destinado a sua impressão, da Constituição Federal (art. 150, inciso VI, alínea d).

“Essa lei existe para garantir o acesso à cultura, por isso não se pagam impostos na importação de livros. Ela também fala na isenção de papel para a impressão de textos, que já foi estendido para CD-ROMs e mídias eletrônicas em geral. O Kindle se encaixa nessa categoria, pois tem como única finalidade a leitura”, explicou o advogado ao G1 .

Em sua decisão, a juíza federal substituta Marcelle Ragazoni Carvalho, da 22ª Vara Federal de São Paulo, afirmou: “ainda que se trate o aparelho a ser importado de meio para leitura dos livros digitais vendidos na Internet, aquele que goza efetivamente da imunidade, assim como o papel para impressão também é imune”.

Segundo Leonardi, notebooks e aparelhos como o iPhone não poderiam ter os mesmos benefícios, porque além de permitir a leitura de documentos digitais têm outras funções. Dessa forma, eles são considerados eletrônicos e continuam pagando os impostos de importação.

Como a Amazon já cobra dos brasileiros os impostos no ato da compra, o advogado vai adquirir o produto e pedir que ele seja entregue a um contato dos Estados Unidos. O Kindle será então enviado legalmente por correio ao Brasil, com a descrição do produto, e a liminar impedirá a cobrança de impostos aduaneiros do advogado.

“Pelo valor do produto, não vale a pena contratar um advogado para fazer algo parecido. Mas a decisão mostra que a Justiça está a par das novidades tecnológicas. Fiquei surpreso com a qualidade da fundamentação da liminar e, muito provavelmente, a decisão final será igual”, diz o advogado, que pretende comprar seu Kindle logo depois do Natal, quando as lojas fazem promoções.

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Fonte: G1 – Globo.com / Autor: Juliana Carpanez, do G1, em São Paulo

Vem de Minas um novo depósito: L. Rafael Nolli

Ganhamos mais um correntista que descobriu o Banco da Poesia na Internet. Trata-se de L. Rafael Nolli, de Araxá, Minas Gerais, a terra de Ana Jacinta de São José — a  lendária Dona Beja ou Beija —, que desafiou os costumes da sociedade mineira na primeira metade dfo Séc. XIX. Araxá (a vista para o mundo, plnalto de vastos horizontes, segundo o Vocabulário Tupi/Guarani-Português) é hoje uma famosa estância hidromineral, situada no famoso triângulo mineiro, no oeste do estado. E parece que daquelas fontes não jorram apenas águas miraculosas (como a que, conforme a lenda, mantinha Dona Beja formosa e sempre jovem), mas também poesia.

Rafael Nolli (ainda não descobri o que significa o prenome L.) mantém um blog, Stalingrado III, dedicado a temas culturais, com ênfase na poesia. Ele visitou recentemente o Banco, deixou seu recado na página de Vicente Gerbasi e contou que já havia lido o livro do poeta venezuelano Espaços Cálidos, por mim traduzido, na biblioteca pública local.

Aí teve início esta nova conta, pois visitei seu blog e descobri o excelente poeta que é, jovem e inovador na linguagem. Ele nos conta que nasceu em Araxá no ano de 1980. Publicou, de forma independente, o livro de poemas Memórias à Beira de um Estopim. Tem poemas publicados em diversas coletâneas e publicações especializadas. Está na gráfica Comerciais de Metralhadora, a ser lançado no primeiro semestre de 2010.  Atualmente, leciona História e Geografia no ensino médio. Pode ser lido , como já informamos, no seu blog.

Seguem seus dois primeiros depósitos, com a promessa de que outros virão. Nossa boas vindas e  agradecimentos ao novo correntista.

Poema # 1


A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.
Pioneiras que antes de todos foram ao fundo
e dele regressaram com avisos, precauções.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ser feliz com elas enquanto transitam –
estendendo a fronteira de nossa alegria
às ruas onde não eram aceitos os nossos passos.

A um toque, para o bem ou para o mal –
ter algo quebrado quando se embrutecem,
ser ferido quando se atracam,
quando se estilhaçam, ter algo partido.

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder viver nelas o que não nos foi possível –
em seus pulmões o ar que nos foi recusado.
Seus sonhos e os nossos em uma mesma sala.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.

Poema # 2

Gustave Courbet - 1819-1877 – Mulher nua com cachorro – óleo sobre tela (65 x 81 cm) 1861-1862 – Museu de Orsay, Paris

: impossível sem quebrar uns ossos,

talvez alguns golpes de navalha na face

(como um imprudente zagueiro

ou um barbeiro louco).

: improvável sem queimar algumas casas,

talvez algumas pessoas em praça pública

(como se fazia em nome de Deus

ou de homens alçados a).

: fora de cogitação sem pessoas,

talvez algumas que não existam

(como aquelas dos romances antigos

ou dos sonhos razoáveis).

: impensável sem amor pela vida,

talvez por uma mulher ou por um cão

(como se vê nos bares à noite

ou na rua aos sábados).

Octavio Paz: de poetas e poesia

Octavio Paz, ensaísta e poeta mexicano, nasceu na Cidade do México em 1914. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.

Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocqueville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.

Passou a infância nos Estados Unidos, em companhia da família. Ao retornar, estudou Direito na Universidade Nacional Autônoma do México. Fez também especialização em Literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Ao residir em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, sugerida por Breton, e que consiste em transmitir diretamente — sem refletir ou concentrar-se no que se quer dizer — as palavras que, sem tema preconcebido, vêm à mente de forma imediata. Essas frases procederiam diretamente do inconsciente e não teriam relação lógica entre si. Breton considerava a escrita automática como “texto puro”, ou poema surgido do inconsciente. Por isso, recusava o exercício da crítica sobre a que produzia com esse método.

Paz publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933. Muitos de seus livros foram traduzidos ao português. Aliás, ele era um grande admirador do idioma luso e chegou a traduzir, em uma Antologia, publicada em 1984, poemas de Fernando Pessoa, a quem chamava o “desconhecido de si mesmo”.

Em 1976 fundou a revista Plural e anos mais tarde a revista Vuelta. Publicou mais de vinte livros de poesia e inumeráveis ensaios de literatura, arte, cultura e política.

Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Juntamente com Pablo Neruda e César Vallejo, Octavio Paz está no grupo dos grandes poetas latino-americanos cuja obra teve um forte impacto internacional. Suas antologias de poemas, em espanhol e em inglês, foram publicadas em 1988.

Em torno de sua obra encontram-se influências diversas como do marxismo, surrealismo, existencialismo, Budismo, Hinduísmo e do modernismo francês e anglo-americano. Muitos dos poemas de Paz são baseados em pinturas de Joan Miró, Marcel Duchamp, Antonio Tapies, Robert Rauschenberg e Roberto Matta. Em Salamandra, de 1962, Octavio Paz usa inovações advindas do cubismo francês. Sua escrita frequentemente lida com oposições, paixão e razão, sociedade e indivíduo, trabalho e sentido: “A imagem poética é o encontro de realidades opostas”, como ele mesmo escreveu em A Dupla Chama.

Epitafio para un poeta

Quiso cantar, cantar
para olvidar
su vida verdadera de mentiras
y recordar
su mentirosa vida de verdades.

Epitáfio para um poeta

Quis cantar, cantar
para esquecer
sua vida verdadeira de mentiras
e recordar
sua mentirosa vida de verdades.

Tradução de Cleto de Assis

La poesía

¿Por qué tocas mi pecho nuevamente?
Llegas, silenciosa, secreta, armada,
tal los guerreros a una ciudad dormida;
quemas mi lengua con tus labios, pulpo,
y despiertas los furores, los goces,
y esta angustia sin fin
que enciende lo que toca
y engendra en cada cosa
una avidez sombría.

El mundo cede y se desploma
como metal al fuego.
Entre mis ruinas me levanto,
solo, desnudo, despojado,
sobre la roca inmensa del silencio,
como un solitario combatiente
contra invisibles huestes.

Verdad abrasadora,
¿a qué me empujas?
No quiero tu verdad,
tu insensata pregunta.
¿A qué esta lucha estéril?
No es el hombre criatura capaz de contenerte,
avidez que sólo en la sed se sacia,
llama que todos los labios consume,
espíritu que no vive en ninguna forma
mas hace arder todas las formas
con un secreto fuego indestructible.

Pero insistes, lágrima escarnecida,
y alzas en mí tu imperio desolado.

Subes desde lo más hondo de mí,
desde el centro innombrable de mi ser,
ejército, marea.
Creces, tu sed me ahoga,
expulsando, tiránica,
aquello que no cede
a tu espada frenética.
Ya sólo tú me habitas,
tú, sin nombre, furiosa sustancia,
avidez subterránea, delirante.

Golpean mi pecho tus fantasmas,
despiertas a mi tacto,
hielas mi frente
y haces proféticos mis ojos.

Percibo el mundo y te toco,
sustancia intocable,
unidad de mi alma y de mi cuerpo,
y contemplo el combate que combato
y mis bodas de tierra.

Nublan mis ojos imágenes opuestas,
y a las mismas imágenes
otras, más profundas, las niegan,
ardiente balbuceo,
aguas que anega un agua más oculta y densa.
En su húmeda tiniebla vida y muerte,
quietud y movimiento, son lo mismo.

Insiste, vencedora,
porque tan sólo existo porque existes,
y mi boca y mi lengua se formaron
para decir tan sólo tu existencia
y tus secretas sílabas, palabra
impalpable y despótica,
sustancia de mi alma.

Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras.
Rozo al tocar tu pecho
la eléctrica frontera de la vida,
la tiniebla de sangre
donde pacta la boca cruel y enamorada,
ávida aún de destruir lo que ama
y revivir lo que destruye,
con el mundo, impasible
y siempre idéntico a sí mismo,
porque no se detiene en ninguna forma
ni se demora sobre lo que engendra.

Llévame, solitaria,
llévame entre los sueños,
llévame, madre mía,
despiértame del todo,
hazme soñar tu sueño,
unta mis ojos con aceite,
para que al conocerte me conozca.

A poesia

Por que tocas meu peito novamente?
Chegas silenciosa, secreta, armada,
como os guerreiros a uma cidade adormecida;
queimas minha língua com teus lábios, polvo,
e despertas os furores, os gozos,
e esta angústia sem fim
que acende o que toca
e engendra em cada coisa
uma avidez sombria.

O mundo cede e se desmorona
como metal no fogo.
Entre minhas ruínas me levanto,
só, desnudo, despojado,
sobre a rocha imensa do silêncio,
como um solitário combatente
contra invisíveis hostes.

Verdade abrasadora,
para onde me impeles?
Não quero tua verdade,
tua insensata pergunta.
Aonde vai esta luta estéril?
Não é o homem criatura capaz de conter-te,
avidez que só na sede se sacia,
chama que todos os lábios consome,
espírito que não vive em forma alguma
mas faz arder todas as formas
com um secreto fogo indestrutível.

Mas insistes, lágrima escarnecida,
e alças em mim teu império desolado.

Sobes do mais profundo de mim,
desde o centro inominável de meu ser,
exército, maré.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
a tua espada frenética.
Já somente tu me habitas,
tu, sem nome, furiosa substância,
avidez subterrânea, delirante.

Golpeiam meu peito teus fantasmas,
despertas com meu tato,
gelas minha fronte
e fazes proféticos meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e minhas bodas de terra.

Nuveiam meus olhos imagens opostas,
e às mesmas imagens
outras, mais profundas, as negam,
ardente balbucio,
águas que afogam uma água mais oculta e densa.
Em sua úmida treva vida e morte,
quietude e movimento, são o mesmo.

Insiste, vencedora,
porque tão somente existo porque existes,
e minha boca e minha língua se formaram
para dizer tão somente tua existência
e tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.

És tão somente um sonho,
mas em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com tuas palavras.
Roço ao tocar teu peito
a elétrica fronteira da vida,
a treva de sangue
onde pactua a boca cruel e enamorada,
ávida ainda de destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém de forma alguma
nem se demora sobre o que engendra.

Leva-me, solitária,
leva-me entre os sonhos,
leva-me, mãe minha,
me desperta do todo,
faz-me sonhar teu sonho,
unta meus olhos com óleo,
para que, ao conhecer-te, eu possa conhecer-me.

Tradução de Cleto de Assis