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Vem de Minas um novo depósito: L. Rafael Nolli

Ganhamos mais um correntista que descobriu o Banco da Poesia na Internet. Trata-se de L. Rafael Nolli, de Araxá, Minas Gerais, a terra de Ana Jacinta de São José — a  lendária Dona Beja ou Beija —, que desafiou os costumes da sociedade mineira na primeira metade dfo Séc. XIX. Araxá (a vista para o mundo, plnalto de vastos horizontes, segundo o Vocabulário Tupi/Guarani-Português) é hoje uma famosa estância hidromineral, situada no famoso triângulo mineiro, no oeste do estado. E parece que daquelas fontes não jorram apenas águas miraculosas (como a que, conforme a lenda, mantinha Dona Beja formosa e sempre jovem), mas também poesia.

Rafael Nolli (ainda não descobri o que significa o prenome L.) mantém um blog, Stalingrado III, dedicado a temas culturais, com ênfase na poesia. Ele visitou recentemente o Banco, deixou seu recado na página de Vicente Gerbasi e contou que já havia lido o livro do poeta venezuelano Espaços Cálidos, por mim traduzido, na biblioteca pública local.

Aí teve início esta nova conta, pois visitei seu blog e descobri o excelente poeta que é, jovem e inovador na linguagem. Ele nos conta que nasceu em Araxá no ano de 1980. Publicou, de forma independente, o livro de poemas Memórias à Beira de um Estopim. Tem poemas publicados em diversas coletâneas e publicações especializadas. Está na gráfica Comerciais de Metralhadora, a ser lançado no primeiro semestre de 2010.  Atualmente, leciona História e Geografia no ensino médio. Pode ser lido , como já informamos, no seu blog.

Seguem seus dois primeiros depósitos, com a promessa de que outros virão. Nossa boas vindas e  agradecimentos ao novo correntista.

Poema # 1


A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.
Pioneiras que antes de todos foram ao fundo
e dele regressaram com avisos, precauções.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ser feliz com elas enquanto transitam –
estendendo a fronteira de nossa alegria
às ruas onde não eram aceitos os nossos passos.

A um toque, para o bem ou para o mal –
ter algo quebrado quando se embrutecem,
ser ferido quando se atracam,
quando se estilhaçam, ter algo partido.

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder viver nelas o que não nos foi possível –
em seus pulmões o ar que nos foi recusado.
Seus sonhos e os nossos em uma mesma sala.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.

Poema # 2

Gustave Courbet - 1819-1877 – Mulher nua com cachorro – óleo sobre tela (65 x 81 cm) 1861-1862 – Museu de Orsay, Paris

: impossível sem quebrar uns ossos,

talvez alguns golpes de navalha na face

(como um imprudente zagueiro

ou um barbeiro louco).

: improvável sem queimar algumas casas,

talvez algumas pessoas em praça pública

(como se fazia em nome de Deus

ou de homens alçados a).

: fora de cogitação sem pessoas,

talvez algumas que não existam

(como aquelas dos romances antigos

ou dos sonhos razoáveis).

: impensável sem amor pela vida,

talvez por uma mulher ou por um cão

(como se vê nos bares à noite

ou na rua aos sábados).