A amizade dissecada pelo médico Oscar Alves

Para contar quem é Oscar Alves eu precisaria de um blog inteiro. Seu dinamismo vital é enorme e sua história de realizações imensa. Conhecemo-nos durante o entusiasmo da política estudantil, na década de 60. Ele era presidente do Centro Acadêmico Jackson de Figueiredo, da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica (antes de decidir estudar Medicina) e eu epresidente do Diretório Acadêmico da Escola de Música e Belas Artes. Na época, apoiávamos o presidente da União Paranaense de Estudantes, José Richa, que teria uma brilhante carreira política nos anos posteriores. Eram os últimos anos das atividades de política estudantil, antes do governo militar de 64.

Reencontrei Oscar, anos mais tarde, em Londrina, onde ele exercia a Medicina e, em seguida, foi eleito reitor da Universidade local. Eu tinha planos de retornar a Curitiba, mas ele me convenceu do contrário, convidando-me para exercer a função de cordenador de assuntos culturais da UEL, no começo de sua gestão. Ali pude realizar, com seu sempre efetivo apoio, muitas ações em benefício da instituição e da própria cidade. E praticamente não nos separamos mais, mesmo com idas e vindas de um e de outro para outras paragens. Trabalhamos juntos no segundo governo de Ney Braga, quando ele foi Secretário da Saúde. Em seguida, pude acompanhar seu mandato como Deputado Federal, em Brasília, para onde eu havia me transferido, após meu trabalho na UEL.

Oscar me levou novamente a Londrina, onde fiquei por dois anos, durante a sua gestão como reitor da Unopar. Hoje ele ocupa a função de membro do Conselho Estadual de Educação e continua suas atividades médicas,  em sua especialidade de Ginecologia.

Como seu amigo, sei muito de sua vida e me orgulha a sua amizade. Só não conhecia a sua veia poética, que estava lá, escondidinha e que o Banco da Poesia tem o prazer de revelar. Em sua homenagem, vai a foto de quatro amigos, reunidos na última exposição de Juarez Machado em Curitiba, em outuibro de 2009. Bem vindo ao clube, Oscar!

Oscar Alves, Manoel de Andrade, Juarez Machado e Cleto de Assis, em foto de Neiva de Andrade

Amizade

A sua amizade é como a brisa que acaricia
xxxxxxxxxxxas flores do meu jardim.
A sua amizade é como o vento que açoita
xxxxxxxxxxxas folhas da árvore da minha vida.
A sua amizade é como o sol que ilumina
xxxxxxxxxxxo meu caminho.
A sua amizade é como o mar que banha
xxxxxxxxxxxa minha alma.
A sua amizade é como o fogo que faz arder
xxxxxxxxxxxo meu entusiasmo por viver.
A sua amizade é como o bálsamo que alivia
xxxxxxxxxxxa minha angústia.
A sua amizade é como as estrelas que embelezam
xxxxxxxxxxxas minhas noites.

Oscar Alves -20/07/2005

Delírio de Iriene Borges

Delírio da tarde


Há sol lá fora e não quero ir
A saia me estrangula pela cintura
e a bota revelará o passo lerdo
pelo tornozelo esquerdo
Há um engasgo me esperando

Girassol, Náusea, Asfixia

Tenho sono e fastio dos modos humanos
e nenhum interesse na arte do improviso
Há serpentes e odaliscas ondulando sob o sol
Nunca soube distinguir os guizos
No sofá sob a colcha azul
sou a concha que verte o mar
nas almofadas

Não quero ir
Um palmo de luz pela janela já embriaga
e estou certa de que esfolarei a retina
nas asas finas de alguma fada amarela.

Iriene Borges
Ilustração: C. de A.

Comente sobre a situação no Haiti

Novos comentários no post A ti, Haiti . Faça também o seu.

Foto Reuters - O Estado de São Paulo

Revista Hispanista divulga a obra de Manoel de Andrade

Suely Reis Pinheiro é professora, pesquisadora e escritora que vive em Niterói, de onde envia para o mundo a sua preciosa revista eletrônica Hispanista, já há dez anos. Doutora em Literatura Espanhola e Hispano-americana e especialista em Literaturas Hispânicas e Literatura Comparada, ela dá aulas na Universidade Federal Fluminense – UFF, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e na UNIGRANRIO.

Sua experiência pedagógica e a visão sobre o dinamismo da Internet no processo de comunicação social, levaram-na a criar a revista eletrônica. Ela explica melhor: “A idéia de criar uma revista eletrônica, que pudesse aglutinar a força dos hispanistas, surgiu daí; apostando numa revista que disponibilizasse espaço, na grande rede e que pudesse ser consultada e utilizada, não só pelos hispanistas do Brasil, mas também de outros países“. E mais: “Neste começo de século, quando queremos, cada vez mais, intercambiar conhecimentos e experiências, a revista Hispanista aproveita o inegável valor comunicativo da Internet e se abre ao diálogo, permitindo pensar, neste terceiro milênio, questões do hispanismo e seu vasto campo multidisciplinar“.

E por que o título Hispanista?

Porque ser um hispanista ― e o termo pode ser tomado no sentido amplo ― é estar enlaçado pelos estudos hispânicos. Hispanistas somos todos, quando nos debruçamos sobre a Língua Espanhola e as Literaturas Espanhola e Hispano-Americana… uma revista aberta a várias tendências e linhas de pesquisa da área hispânica, abarca, por ser uma revista virtual, um horizonte bem mais largo do que o das revistas nãovirtuais. Reúne, em viagem intelectual, pessoas envolvidas no processo de intensificação e de divulgação das ‘cosas hispánicas’, e promove, no âmbito da reflexão e da análise, uma
instigante troca de experiências, idéias e enfoques
“.

Ela informa, ainda, que a “revista abre espaço para divulgar o trabalho científico de estudiosos da hispanidade, possibilitando, também, ao sabor da intertextualidade, que pesquisadores de outras áreas atualizem a interdisciplinariedade, nas relações entre língua, literatura, história, artes plásticas, folclore, cinema, cultura… Com isso, um grande acervo comum, facilmente acessado por todos, vai sendo formado“.

Os trabalhos publicados passam por avaliação prévia de um conselho editorial formado por professores e especialistas em literatura, brasileiros e de outros países, como Argentina, Cuba, Venezuela e Espanha. Mantém correspondentes em vários estados brasileiros e no exterior.

Mas nem só de estudos acadêmicos vive Hispanista. Há pouco tempo Suely conheceu o trabalho poético do nosso Manoel de Andrade e, de quando em quando, os publica na revista virtual, além de outros textos. Para quem quiser ler os trabalhos de Manoel de Andrade já publicados na revista Hispanista, basta clicar nos ítulos abaixo. Alguns deles também foram postados aqui no Banco da Poesia.

Começamos pelo último número (Vol X I nº 40, correspondente ao trimestre de janeiro,  fevereiro e marçoo de 2010).

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

x-

Manoel de Andrade, o poeta que escreveu para toda a América Latina

Artigo do jornalista Julio Daio Borges, publicado na revista eletrônica Digestivo Cultural

Recado à mulher amada

Poema

Canção de amor à América

Poema

Por que cantamos

Poema

Véspera

Poema

Canção para os homens sem face

Poema

Poesía y Oralidad

Ensaio

Otto René Castillo: O sonho e o martírio de um poeta

Artigo

Manoel de Andrade e Ferreira Gullar: poetas da resistência

Entrevista concedida ao jornal A Tarde, de Salvador, Bahia

Parabéns à professora Suely, por seu importante trabalho e ao poeta Manoel de Andrade, pelo reconhecimento que sua obra vem obtendo em todas as partes.


Vem de Jaú um novo canto

Segundo o próprio Mauricio Ferreira, “nasci em Jaú, SP no ano de 1970, estudei Direito (incompleto), Jornalismo (incompleto), fui viver uma aventura em Floripa em 1990, onde me tornei caseiro e me interessei definitivamente por letras. De volta pra São Paulo, ingressei no curso de Cinema e foi um dos editores do fanzine Azougue. Finalmente, me formei em Cinema, em 1996, fui produtor de vídeo em Bauru, SP, virei saci (tive que amputar uma perna) e atualmente sou diretor da Secretaria Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência e Idosos de Jaú, completando assim um ciclo de minha vida”.

Maurício se esqueceu de dizer: é também poeta. E dos bons. Tem um livro — Que se vá —  ainda não publicado. Ele prometeu assiduidade de depósitos no Banco da Poesia. Maurício tem um parente ilustre em Curitiba: é sobrinho de nosso amigo e artista plástico Ennio Marques Ferreira, um dos maiores semeadores (ele também é agrônomo) de cultura que o Paraná teve durante toda a segunda metade do Séc. XX.

Bem vindo, Maurício,  agora e sempre!

A Cidade

I

Não há sentido nas manhãs desta cidade

Só é vivo quem não pode fugir do sol.
O resto, todo mundo dorme,
Enquanto receitas de saúde e longevidade
São transmitidas na cadeia nacional.

O meio dia se almoça com protetor solar.
Seja o que deus quiser.
Tenho que trabalhar.

A tarde é uma miragem
Vista pelo fundo de um copo americano.
Nada desliga o ópio dos dias.

Vantagens contadas diante da TV,
Sonhos improváveis antes de dormir e
Promessas de eletrodomésticos
num crediário fácil.

Dias melhores, delírio,
sinto muito.
Pingue logo seu colírio,
Ou a vida é juros pra quem dá mole.
Ou moleza pra quem tem juros.

Há-há! Escreveu Jack the Ripper.
Loucura, Loucura, Loucura
Riu de volta outro maníaco.

Não há sentido nas manhãs desta cidade

II

Sexta Feira
O crepúsculo me revela vazio.
Expõe o cansaço da cidade:

O resto.

Carvão de cana no outono
Anunciando o suor da vassoura pela casa
E a agonia terra-roxa

Por miligramas de alegria,
A Cidade zumbi trabailando até as 18:00
No remoinho de cinzas em que piso

Lá longe o centro acende as luzes:
O rugir excitado dos motores
É um mantra de impotência.

_________

Do livro Que se vá   – Ilustração: C. de A.

Em Portugal, José Dias Egipto pensa no Haiti

Atualidades


O meu irmão Haitiano
gasta tudo o que ganha
na alimentação.
Quando tem o que gastar…

O meu irmão europeu
nem pensa no que gasta
para o pão.
Quando a vida não lhe é madrasta…

Os sonhos de uns fazem-se de amores
e de coisas mesquinhas;
os de outros medem-se em gramas
de arroz e farinhas…

Eu hoje fui ao cinema
e deitei arroz às galinhas…
Ele acordou com um rato
no estômago em chamas…
Eu só quero coisas minhas!…
Ele de arroz, por dia,
só tem vinte e cinco gramas!

José Dias Egipto

A ti, Haiti

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Augusto do Anjos,

em A Ilha de Cipango, do livro Eu, 1912



Nós, brasileiros, já estamos acostumados com as águas de dezembro e janeiro. Casas e gente soterradas pela lama dos barrancos, inundações a afogar cidades. Perto delas, as águas de março são mera poesia, como aproveitou Jobim (o compositor). As notícias dão conta que os poderes administrativos não fiscalizam e as pessoas, em busca de um lugar para viver, constroem onde não se pode construir e jogam lixo onde não devem.

Neste ano tivemos algo diferente. Já não foram apenas os pobres da favelas que sofreram com os desbarrancamentos, mas a classe média também foi atingida, em Angra dos Reis. Já não foram só os anônimos da desgraça, mas gente com nome, profissão e planos concretos para o presente e o futuro desapareceu durante os cataclismos. Desgraça pior? Não, foi gente que se foi sem precisar ter ido, vítimas da incúria administrativa de um país que quer traçar políticas de meio ambiente e direitos humanos, mas não sabe como escrever simples posturas municipais e fazê-las cumprir. Seja em Brasília, no Rio de Janeiro, São Paulo ou em Quixeramobim.

Quando morei em Brasília, em um belo apartamento recém-construído na Asa Norte, vi uma favela nascer e se desenvolver ao lado de um lixão, este formado em terras semiabandonadas da Universidade de Brasília. Foram poucos meses entre o primeiro barraco levantado ao lado do monte de lixo e as dezenas, talvez centenas de casas de compensado, papelão e lona plástica. Contaram-me que muitas das famílias que para ali se transferiram vinham de outra favela formada em um vale coberto de vegetação e que escondia dos olhos da classe média burocrata a sua pobreza.

E a favela da superquadra, ao começar a incomodar o cartão postal da Capital Federal, foi desmontada em um só dia, por ação da polícia militar, a mando das autoridades que não viram nem preveniram a sua construção. E, no Congresso Nacional, boa parte dos representantes nordestinos, conterrâneos de grande parte dos então favelados de Brasília, continuava a exibir seus relógios de ouro e, como dizia Stanislaw Ponte Preta, seus ternos mais brilhantes que a própria inteligência.

Mas janeiro de 2010, que encerra a primeira década do Século XXI, foi ainda mais trágico que os janeiros anteriores, literalmente derrubando o Haiti e tornando-o ainda mais pobre. Perdemos gente brasileira por lá. Militares e civis. Entre eles, a nossa Zilda Arns, que queria levar a sua Pastoral da Criança para proteger a infância daquela ilha desafortunada. Aí volta o outro Jobim, este descompositor da esperança, a dizer que não era hora de cuidar de eufemismos e já devíamos contar como mortos os militares ainda dados como desaparecidos. Palavras que parecem ser retiradas do tal PNDH III, contra o qual o ministro da nossa defesa se manifestou.

Enfim, coisas de mais um janeiro convulsivo, no qual Gaia mostra que ninguém manda nela e, apesar de nossa presunção em poder controlá-la, é ela que nos comanda e nos envia avisos, de quando em quando.

Na volta das pequenas férias, de onde fui enxotado pelas águas de janeiro, fui em busca de informações. Pesquisei sobre a poesia haitiana e descobri que, como sua história, ela é melancólica e terrivelmente profética. Abaixo vão dois exemplos.

Também descobri que Augusto dos Anjos, o poeta brasileiro que contradizia seu nome, também lembrou, há quase cem anos, a ilha caribenha apegada à dor. Igualmente o transcrevo. Mas não pude deixar de reunir letras para testemunhar a minha compaixão por aquela ilha que tem tudo para ser um paraíso, mas que se tornou hospedaria da desgraça, desde que Cristóvão Colombo a descobriu, em 1492. (C. de A.)

À ti, haiti, meu ai

Cleto de Assis

Quisqueya, mãe de todas as terras,
foste amaldiçoada por Colombo,
que te acreditava Cipango,
quando engoliste a nau Santa Maria
e mataste os 39 marinheiros
dados a ti de presente no dia de Natal.
Tu, que fizeste ruir o sonho
da primeira construção americana.
Tu, Hispaniola, Española, Espanhola,
Tu, à esquerda de Santo Domingo repartida,
Terra Montanhosa,
Ahti, guiada por Guacanagarí,
que também renegaste por ter sido o primeiro amigo.

E serias hostil por tempo quase eterno.
Teu Porto Príncipe depois se afrancesaria,
povoado por gente arrancada da Guiné
sem as mesuras gaulesas
e com sangue caribe transvasado de tuas praias e montanhas,
a vingar o povo de África e a bramir contra o branco.
“Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio te! Canga, mauné delé!
Canga, do ki lá! Canga, Li!”

Preferias a morte
se não houveras tomado a vida do branco e tudo o que ele possuía.
E a morte encontraste muitas vezes
pela mão do branco,
pelas mãos de teus adotados filhos
e pela mão de Gaia
sem proteção dos L’whas.

Haiti, tens o grito de dor no teu ventre
e na pobreza de tua gente.
Conseguiste fazer a enorme revolução negra
mas ainda não encontraste a liberdade
no imenso quilombo em que te transformaste
e precisaste mostrar a face da aflição
para receberes gestos de fraternidade.

Haiti, usina de restavecs violadas,
tu, que tens fome de paz,
mas não consegues a paz porque tens fome.
Tu, abandonada nas águas turmalinas do Caribe
trocaste o bafejo da sorte pelo hálito feroz do tufões
e não encontras o socorro nem de tua padroeira.

Haiti, terra amontoada pelo Senhor dos Infernos,
Terra Escombrosa, Poeirenta,
com cheiro da morte, com sede de água e de ternura,
és o retrato do abandono do homem pelo homem.

Chegarão a ti, Haiti, os Senhores da Fortuna,
a retirar das algibeiras abarrotadas alguns trocados,
sem exigir em troca crianças abandonadas
e o açúcar que tiras da terra, já pouco para teus próprios filhos.

Mas cuida-te, Haiti, e recusa ofertas por tua alma combalida.
Retira o pó da gente descolorida pela desgraça
e recria a Nova Fênix Caribe que deverá surgir das cinzas.

Sê novamente Quisqueya com tua própria vontade
e com tuas própria mãos,
sem a opressão de teu passado de dor.

Emmelie Prophète

Emmelie Prophète nasceu em Porto Príncipe, no Haiti, a 15 de junho de 1971, onde estudou Direito e Literatura Moderna. Fez cursos de Comunicação na Jackson State University, no Mississippi, E.U.A.. Ela apresentou, por oito anos, uim programa de difusão de Jazz na Rádio Haiti. Trabalhado em Educação e na diplomacia, como adida cultural do Haiti em Genebra. Colabora em várias revistas, Chemins Critiques, Boutures, Casa de las Americas, Cultura, La Nouvelle Revue Française.

É autora de duas coletâneas de poemas, Des marges à remplir (2000) e Sur parure d’ombre (2004). Em 2007, ele lançou sua primeira narrativa, Le Testament des solitudes, em Montreal.

Emmelie Prophète escreve para salvar sua pele. Sua literatura é simples, fluída e argentina. Ela nos conduz de acaso a acaso e nos segura em torno de palavras generosas, muitas vezes íntimas, que dizem que há beleza mesmo com mau tempo.

Seu trabalho é como um espelho que reflete as ligações exploradas e acessíveis das estações conhecidas. Solidão, melancolia, fraturas, o canto da terra natal perdida e reencontrada, o desejo a céu aberto, as chagas saindo de todas as suas páginas como segredos cochichados. Emmelie Prophète é uma voz que nos conta coisas em palavras simples. É uma voz que se revela e nos revela.

Desde 2006 ela é responsável pela Divisão Nacional do Livro, ligada ao Ministério da Cultura no Haiti.

Fonte: http://www.lehman.cuny.edu/ile.en.ile/paroles/prophete_emmelie.html

___________

Un jour

Un jour rappelle-toi
cette ville dépécée
entre le bruit la bêtise et la douleur.
On a créé l’infidélité,
le bleu des trottoirs d’un autre continent.
La folie est devenue utile.
Nous nous appliquons à dessiner
des portes de sortie

Depuis tes yeux
le vide est à réinventer.

Écoute la prière de nos sexes
étouffée par le poids des mots
le trou de votre blue jean
est la seule fenêtre
qui donne sur l’espoir

On rêve tous de trottoirs.
Les cris de notre nudité
sont sans issue
comme vos silences.

Em fotografia de 4 de setembro de 2008, menino resgata carrinho de casa inundada depois da tempestade tropical Hannah, que atingiu Gonaives, no Haiti. A imagem é do fotógrafo Patrick Farrell, do Miami Herald. (Foto: Patrick Farrell/ Miami Herald/ AP)

Um dia

Um dia, lembra-te
desta cidade despedaçada
entre o ruído a estupidez e a dor.
Criamos a infidelidade,
o azul das calçadas de um outro continente.
A loucura tornou-se útil.
Nos esforçamos para desenhar
as portas de saída

Desde teus olhos
o vazio se reinventará.

Ouvi as orações do nosso sexo
sufocada pelo peso das palavras
o buraco no vosso jeans azul
é a única janela
que leva à esperança.

Nós sonhamos todos com as calçadas.
Os gritos de nossa nudez
são inúteis
Como vossos silêncios.

___________

Rodney Saint-Eloi

Rodney Saint-Eloi nasceu em 27 de agosto de 1963, em Cavaillon, no sul do Haiti. Ele é escritor, editor e acadêmico. Em 1991, fundou, em Porto Príncipe, a Éditions Mémoire, editora que publica escritores haitianos que vivem dentro e fora do país. A editora privilegia o trabalho de jovens escritores ainda não conhecidos devidamente.

O poeta Georges Castera se juntou à editora Mémoire, em 1999, e se tornou seu editor literário. Com Castera, Saint-Eloi fundou uma revista semestral de arte e da literatura, denominada Boutures (Estacas).

Saint-Eloi começou a escrever com a idade de 13 anos. Ele publicou uma dúzia de coleções de poemas, ensaios sobre literatura e pintura. Algumas de suas obras foram traduzidas para o Inglês, o Espanhol e o Japonês. Sua obra é uma lenta travessia de cidades, rios e rostos.

Saint-Eloi mora em Montreal desde 2001. Em março de 2003, ele fundou e dirige a versão canadense da editora Mémoire, que publica obras de autores de diferentes comunidades culturais – África, Caribe e Oceano Índico.

Considerado um dos pontos fortes das comunidades culturais no Canadá, a editora Mémoire retoma obras do patrimônio haitiano com a coleção Anthologie secrète (Carl Brouard, Davertige, Frankétienne) e a série Poèsie (Roussan Camille, Roger Dorsinville, Yanick Jean, Leon Laleau, Anthony Lespes …).

Em Rodney Saint-Eloi é tudo compromisso: redação e edição. Compromisso com o social, compromisso com a literatura, compromisso, finalmente, com tudo que liberação. “O que alimenta os meus escritos” – argumenta ele – “é a cólera contra a estupidez, contra qualquer coisa que nos impede de crescer e de reunir o humano em nós. Contra tudo que se assemelhe a segregação e racismo. Enfim, contra qualquer coisa que impeça o homem de desfrutar plenamente o seu estatuto de homem Minha paixão é o humano e o livro, este objeto sereno que testemunha a presença lúcida das mulheres e dos homens sobre a terra”.

Fonte: http://www.lehman.cuny.edu/ile.en.ile/paroles/saint-eloi.html

Ma Ville

Ma ville est morte, c’est peut-être hier, elle l’étrangère que je connais à peine m’a téléphoné de sa prison et m’a dit trois mots comme l’annonce d’une tragédie: ville mort soudaine. Je me rappelle pas du tout sinon le claquement de cette voix à l1autre bout étouffé, j’en suis gêné de ne pouvoir vous dire la date exacte, c’était, autant que je me rappelle, un matin des années cinquante; et ma ville amnésique est morte comme hier, sans histoire, sans échouage, au pied d’une mer mourante dans la grisaille du vent.

Ma ville est morte hier comme l’ammnandier brun qui me fut ami, sans géographe ni postulant, morte sans sacrement, sans sentiments, dans le labyrinthe des couleurs, avec una tache de sang sur sa paupière gauche, et je me rappellel pas trop le nom des assassins, c’est peut-être trop et c’est peut-être moi, car les murs de nos silences construisent une cathédrale de souvenirs, et chacun pleure en la mort de cette ville sa mort de poche dans un miroir ovale.

Minha Cidade

Minha cidade está morta, talvez ontem, ela a estrangeira que eu conheci na prisão me ligou e disse três palavras, como o anúncio de uma tragédia: Cidade morte súbita. Eu não me lembro a todos que a quebra de sua voz embargada de final l1autre, não tenho vergonha de dizer a data exata era, tanto quanto me lembro, uma de manhã dos anos cinqüenta, e minha cidade amnésica está morta como ontem, sem história, sem encalhar, ao pé de um mar moribundo na pátina cinza do vento.

Minha cidade morreu ontem como a amendoeira parda que me foi amiga, sem geógrafo nem postulante, morte sem sacramentos, num labirinto de cores, com uma mancha de sangue em sua pálpebra esquerda, e eu não lembro mais o nome dos assassinos, isto pode ser demais e pode ser eu, porque o muro de nossos silêncios construiu uma catedral de memórias, e todo mundo chora na morte desta cidade sua morte imediata em um espelho oval.
___________

A ilha de Cipango

Augusto dos Anjos

Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia…
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!
Caio de joelhos, trêmulo… Ofereço
Preces a Deus de amor e de respeito
E o Ocaso que nas águas se retrata
Nitidamente reproduz, exata,
A saudade interior que há no meu peito…

Tenho alucinações de toda a sorte…
Impressionado sem cessar com a Morte
E sentindo o que um lázaro não sente,
Em negras nuanças lúgubres e aziagas
Vejo terribilíssimas adagas,
Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino
E observo-me pigmeu e pequenino
Através de minúsculos espelhos.
Assim, quem diante duma cordilheira,
Para, entre assombros, pela vez primeira,
Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,
Anunciando desmoronamentos
De mil lajedos sobre mil lajedos…
E ao longe soam trágicos fracassos
De heróis, partindo e fraturando os braços
Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,
Qual se num sonho arrebatado fosse,
Na ilha encantada de Cipango tombo,
Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha
A árvore da perpétua maravilha,
A cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cipango,
Verde, afetando a forma de um losango,
Rica, ostentando amplo floral risonho,
Que Toscanelli viu seu sonho extinto
E como sucedeu a Afonso Quinto
Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia
O gênio singular da Fantasia
Convidou-me a sorrir para um passeio…
Iríamos a um país de eternas pazes
Onde em cada deserto há mil oásis
E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,
Banhei-me na água de risonhos lagos
E finalmente me cobri de flores…
Mas veio o vento que a desgraça espalha
E cobriu-me com o pano da mortalha,
Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade.
E a grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.
A tarde morre. Passa o seu enterro!…
A luz descreve ziguezagues tortos
Enviando à terra os derradeiros beijos.
Pela estrada feral dous realejos
Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa…
O Firmamento é uma caverna oblonga
Em cujo fundo a Via – Láctea existe.
E como agora a lua cheia brilha!
Ilha maldita vinte vezes a ilha
Que para todo o sempre me fez triste!

Do livro Eu, 1912

Pequeno recesso

Como nem só de poesia vivem os seres humanos, vou buscar o mar de Santa Catarina e seus deliciosos frutos para um rápido descanso de fim de ano. Pouco mais de uma semana. Deverei estar de volta no dia 10 de janeiro e retomarei imediatamente a gerência deste Banco da Poesia. No entanto, estarei atento a eventuais colaborações de nossos leitores e, sempre que for possível, procurarei inseri-las.

Deixo aqui meus votos de Paz, já transmitidos também no post anterior. Paz que também é resultado do trabalho realizado até agora e que quero dividir com o já grande número de colaboradores.

Obrigado a todos e que no próximo ano nos seja permtido divulgar ainda mais a Poesia, que é o verdadeiro pão da alma. Cleto de Assis

Oração a 2010

2010 que estás a chegar
tão cheio de esperanças, tal como teus irmãos passados,
venha até nós com certezas e realizações.
faze-nos atingir o caminho da Justiça, em todas as suas direções
e realiza o milagre da multiplicação dos pães
sem o auxílio mesquinho de astuciosas dádivas politicóides
mas alcançado por meio do Trabalho digno e recompensador.
Faze com que a Saúde seja também imperadora em todos os lares
e afasta principalmente as crianças das caliginosas névoas da tristeza
e da fome e da doença.
Acende a chama pentecostal do conhecimento
sobre todas as cabeças, por meio da nobreza da Educação e da alegria do Saber.
Livra-nos das promessas vazias dos homens e mulheres que querem nos liderar
e encaminha-os ao cometimento de ações sérias e consequentes
com total respeito ao imposto nosso de cada dia.
Não os deixes cair nas tentações das propinas
e não perdoa-lhes as suas ofensas, nem dá-lhes  a benção espúria da impunidade.
Unge-nos com o bálsamo da paciência
para que possamos suportar as falsidades, as descaradas mentiras,
os impropérios gramaticais dos horários eleitorais
e as ladainhas sem sentido dos salvadores da Pátria.

Amigo 2010, tu que vens com data certa para o exercício da Democracia
faze com que ela permaneça entre nós,
senhora que é da liberdade e da justiça social.
Ajuda-a a não ser usada para a prosperidade do demagogos
ou para o gozo dos déspotas.
Mostra aos pretensos donos do poder que só ela salva
e pode nos garantir o direito de opinião e de expressão
sem termos que nos submeter à censura dos donos das verdades
ou ao estulto absolutismo de um único partido.
No período eleitoral, faze que, quando houver ódio,
possamos também falar de amor sem nos envergonharmos;
quando houver ofensa, que ela seja sucedida pelo pacificação;
quando houver discórdia, que possamos remar a favor da união;
quando houver dúvida, que tenhamos de pronto o esclarecimento;
quando houver erro, que possamos chegar rápido à verdade;
quando houver desespero, ajuda-nos a manter a esperança;
quando houver tristeza, que se eleve a alegria;
quando houver trevas, que se faça a luz.

Sobretudo, aguardado 2010,
faze com que finalmente compreendamos o valor da paz e do trabalho
para que não precisemos mais suplicar por felizes anos novos.

Cleto de Assis – dezembro de 2009

Natal de Saramar

Vazio


A neve já cobre as uvas
para o natal dos úteis e puros.
As luzes já cobrem máscaras.
Todos são anjos.
A árvore já grávida,
abarca o berço vazio.
Onde era luz,
laços e brilhos
de presentes luzidios.
Em azáfama de vazios,
jaz a natividade.

Saramar Mendes de Souza