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Maurício Ferreira em dose dupla

Segunda-feira da ressaca de Saramago

Maurício Ferreira, Jaú, SP

Dever humano:
Perdoar o Judas
Eternamente.

Nenhuma culpa, nenhum rancor

Apenas gravidades de compaixão
Onde Jesus, Javé, e Alá
Batem bocha, pebolim e rock’n’roll.
Sem árbitro ou arbítrio,
Em alguma sauna da periferia do infinito.

Absolutamente inocentes
Da inesgotável estupidez
Tão nossa.

Pretensiosa pluma no nariz da metafísica.

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Uma pequena vitória do Mal

El gusto es la cualidad fundamental que resume
todas las otras. Es el nec plus ultra de la inteligencia.
Sólo por él residen en el genio la salud suprema y el
equilibrio de todas las facultades.
Isidore Ducassé – Conde de Lautreamónt – Maldoror


As lacerações do mundo distendidas em tripas noturnas
Unico livro lido por Jack the Ripper.
Becos de Londres
Pontes de Paris
Pampas do Uruguai.
Luar e lâmina.
Sempre.

Vai volta retorna
sangue profano,
sacristias blasfemas,
cuspo, gala, escarro
fio, linho, novena,
Sempre

Velas! A chama tremulando
rufadas de vento, doce pios de corujas, bicos sangrentos.
agonias de fome, estertores do devorado vivo.

Todas as belezas sanguíneas da natureza humana.

Rá-Rá Rá-Rá Rá-Rá Rá-Rá.
MaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldoror!!!!!!!

Sua prisão de papel não te bastou.
ERGUE-TE.

Nas montanhas de vidro, concreto e açO
Destila seu veneno novamente,
Verás que tudo está mais difícil,
o homem evoluiu de crueldade em crueldade
E não com bom gosto.
mas prá TI, amante de tubaroas,
como quem finaliza a última casa do paletó,
basta apertar um botão.

Tantos átomos para queimar, não é verdade.
Doces delícias de desintegração em massa.
Bilhões de seres esperando, doce êxtase,
uma simples flexão de Teu dedO

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Ilustração: C. de A.

Vem de Jaú um novo canto

Segundo o próprio Mauricio Ferreira, “nasci em Jaú, SP no ano de 1970, estudei Direito (incompleto), Jornalismo (incompleto), fui viver uma aventura em Floripa em 1990, onde me tornei caseiro e me interessei definitivamente por letras. De volta pra São Paulo, ingressei no curso de Cinema e foi um dos editores do fanzine Azougue. Finalmente, me formei em Cinema, em 1996, fui produtor de vídeo em Bauru, SP, virei saci (tive que amputar uma perna) e atualmente sou diretor da Secretaria Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência e Idosos de Jaú, completando assim um ciclo de minha vida”.

Maurício se esqueceu de dizer: é também poeta. E dos bons. Tem um livro — Que se vá —  ainda não publicado. Ele prometeu assiduidade de depósitos no Banco da Poesia. Maurício tem um parente ilustre em Curitiba: é sobrinho de nosso amigo e artista plástico Ennio Marques Ferreira, um dos maiores semeadores (ele também é agrônomo) de cultura que o Paraná teve durante toda a segunda metade do Séc. XX.

Bem vindo, Maurício,  agora e sempre!

A Cidade

I

Não há sentido nas manhãs desta cidade

Só é vivo quem não pode fugir do sol.
O resto, todo mundo dorme,
Enquanto receitas de saúde e longevidade
São transmitidas na cadeia nacional.

O meio dia se almoça com protetor solar.
Seja o que deus quiser.
Tenho que trabalhar.

A tarde é uma miragem
Vista pelo fundo de um copo americano.
Nada desliga o ópio dos dias.

Vantagens contadas diante da TV,
Sonhos improváveis antes de dormir e
Promessas de eletrodomésticos
num crediário fácil.

Dias melhores, delírio,
sinto muito.
Pingue logo seu colírio,
Ou a vida é juros pra quem dá mole.
Ou moleza pra quem tem juros.

Há-há! Escreveu Jack the Ripper.
Loucura, Loucura, Loucura
Riu de volta outro maníaco.

Não há sentido nas manhãs desta cidade

II

Sexta Feira
O crepúsculo me revela vazio.
Expõe o cansaço da cidade:

O resto.

Carvão de cana no outono
Anunciando o suor da vassoura pela casa
E a agonia terra-roxa

Por miligramas de alegria,
A Cidade zumbi trabailando até as 18:00
No remoinho de cinzas em que piso

Lá longe o centro acende as luzes:
O rugir excitado dos motores
É um mantra de impotência.

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Do livro Que se vá   – Ilustração: C. de A.