Primeiro aniversário

No próximo dia 12 de março o Banco da Poesia completará seu primeiro ano de vida. E, como toda organização bancária que se preza, deverá publicar seu primeiro balanço anual. Mas, à diferença das entidades financeiras, esquecerá os números e resultados
materiais. Queremos comemorar tão somente os dividendos culturais que possamos ter acumulado nestes doze primeiros meses de existência. Meses de permanente contato com um seleto grupo de pessoas que ama a poesia e sabe que a arte, bem além das ideologias, une as pessoas e as remete aos mundos imensuráveis dos sentidos e da fraternidade.

Lembrei-me agora de Gilberto Gil. Quando o mundo percebeu que homem poderia passear fisicamente na Lua, a eterna bola de queijo dos namorados, Gil tratou de passar um alerta musical, em sua Lunik 9:

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar
Momento histórico, simples resultado do desenvolvimento da ciência viva…

E não é a Internet também um simples-grande resultado da ciência viva? A magia dos luares não morreu, como temia o compositor. Em vez da morte das noites enluadas, estemunhamos o nascimento de uma grande nuvem eletrônica a possibilitar um encontro cada vez mais próximo entre as pessoas, mesmo as geograficamente separadas por grandes distâncias.

É interessante notar que tudo foi resultado da corrida espacial da guerra fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética, que se estendeu entre 1945 (fim da Segunda Guerra Mundial) e 1989 (queda do Muro de Berlim). A Internet, originada em um plano de segurança de informações criado pelo exército norte-americano, na década de 60, uniria mais que separaria, para a felicidade geral das nações.

Graças à magia da comunicação eletrônica, em um ano fizemos amigos em várias partes do mundo. Em 365 dias, estamos a revelar novos poetas, que passaram a partilhar o mesmo espaço com aedos já consagrados.

Teremos, portanto, muitas razões para fechar nosso balanço positivamente.

O azul dos poetas

De todas as cores, parece-me ser o azul o que mais habita os sonhos dos poetas. Confunde-se com a imensa paz cerúlea, com o misterioso índigo das águas, com as safiras líquidas que dão brilho a olhos tristes. “Azuis os montes que estão longe param”, via Pessoa na paisagem campestre. Ou, ainda:

O céu, azul de luz quieta.
As ondas brandas a quebrar,
Na praia lúcida e completa —
Pontos de dedos a brincar.

Dois poetas, já correntistas do Banco da Poesia, retiram de suas paletas verbais azuis intensos: José Dias Egipto, do Porto, Portugal (ver outros azuis seus aqui) e Solivan Brugnara, de Quedas do Iguaçu, Brasil. Ambos próximos a águas famosas.

A Azul Cendal dos Sentidos / José Dias Egipto


Não basta ser grão,
semente apenas plantada
luz parada
que espera o clarão.

É preciso agitar
os ventos e as nuivens,
chover e molhar,
soprar no chão da razão.

Não é parada que
a centelha aquece…
Não há beleza estagnada,
nem sequer amanhece
se o sol não se excita…

Tem de haver ritmo,
pulsão,
gravidez na matéria,
pão,
para nascer o espírito
nas águas das manhãs.

Tem de haver dor,
movimento,
um constante ferver
do entendimento,
para crescer o amor
em nossas mãos!

Libélula Azul / Solivan Brugnara

Canto com um azul
da melopéia concreta
a libélula azul,
brilho azul,
reverberações azuis metálicas
de peixe azul prateado
azul, azul, azul
no seu exoesqueleto
as cintilações
têm um tilintar azul.
Luz azul

Luz azul

Passa num assobio azul
libélula azul,
cavalo de fada,
broche de safira no vento.
Libélula azul
que enfeita a boca do camaleão
na minha,
quando mastigo tuas sílabas
com um gosto
azul-amargo metálico de âmago,
deixa um persistente
hálito de libélula azul.

Logopéia azul
penso, logo não existo
que existir é coisa concreta
você apenas sente
libélula
e existe um pouco mais.
O osso não pensa, não sente
ele existe, mais que nós
dois juntos.

Libélula,
quando eu for ossos
passo a existir libélula,
quando minhas substâncias
mesclarem-se ao planeta
e moverem-se somente pelos dedos
das leis da física,
libélula
esses dedos musicais
são única parte que conhecemos
do corpo de Deus,
libélula.

Fanopéia,
e se meu indicador
fosse azul, seria sua fêmea,
libélula azul
e se as minhas cordas vocais fossem de cristal
e cantassem como pássaro,
uma única nota vibrante longa e aguda,
e a respiração tivesse
sonoridade de água corrente
pousaria no meu peito
sobre
o meu coração de pedra
coberto de musgos
pousaria nele, libélula?
Quero
porque toda a pedra em que pousa
vira adjetivo, libélula azul.

Pixinguinha: 37 anos de ausência

Pixinguinha, no traço de Bruno Venâncio

Hoje se completaram 37 anos da morte de Pixinguinha, vítima de um enfarto, a 17 de fevereiro de 1973.  Se o apelido todo mundo conhece, poucos sabem que seu nome completo era Alfredo da Rocha Vianna Filho e seu apelido misturava Bexiguinha, em razão de ele ter contraído varíola, com Pizin Din, que significaria menino bom ou guloso, em um dialeto africano.

Pixinguinha foi um dos  músicos mais importantes da fase inicial da música popular brasileira. Com um domínio técnico e um dom de improvisação encontrados nos grandes músicos de jazz, é considerado o maior flautista brasileiro de todos os tempos, além de um irreverente arranjador e compositor. Entre suas composições de maior sucesso estão Carinhoso, Lamento e Rosa. Neto de africanos, começou a tocar cavaquinho, depois uma flautinha de folha, acompanhando o pai que era flautista. Aos 12 anos, compôs sua primeira obra, o choro Lata de Leite. Aos 13, gravou seus primeiros discos como componente do conjunto Choro Carioca: São João Debaixo D’Água, Nhonhô em Sarilho e Salve (A Princesa de Cristal). Aos 14, estreou como diretor de harmonia do rancho Paladinos Japoneses e passou a fazer parte do conjunto Trio Suburbano. Aos 15, já tocava profissionalmente em casas noturnas, cassinos, cabarés e teatros. Em 1917, gravou a primeira música de sua autoria, a valsa Rosa, e, em 1918, o choro Sofres Porque Queres. Nessa época, desenvolveu um estilo próprio, que mesclava seu conhecimento teórico com sua origem musical africana e com as polcas, os maxixes e os tanguinhos.

Os Oito Batutas, Pixinguinha no centro com seu saxofone

Aos 20 anos formou o conjunto Os Oito Batutas (flauta, viola, violão, piano, bandolim, cavaquinho, pandeiro e reco-reco). Além de ter sido pioneiro na divulgação da música brasileira no exterior, adaptando para a técnica dos
instrumentos europeus a variedade rítmica produzida por frigideiras, tamborins, cuícas e gogôs, o grupo popularizou instrumentos afro-brasileiros, até então conhecidos apenas nos morros e terreiros de umbanda, e abriu novas possibilidades para os músicos populares. Na década de 1940, sem a mesma embocadura para o uso da flauta e com as mãos trêmulas devido à sua devoção ao uísque, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone, formando uma dupla com o flautista Benedito Lacerda. Fez uma parceria famosa com Vinícius de Moraes, na trilha sonora do filme Sol sobre a
Lama
, dirigido por Alex Viany, em 1962.

Flautista virtuose e saxofonista, Pixinguinha foi também grande compositor, deixando dezenas de músicas de sua autoria. Mas como arranjador também deixou grande marca na música brasileira. Nos anos 30 e 40 ele foi arranjador para várias gravadoras e inovou, pela primeira vez no País, fazendo arranjos autenticamente brasileiros, substituindo os arranjos em estilo europeu que prevaleciam até então. Entretanto, sua grande composição, pela qual é sempre lembrado, foi Carinhoso, composta em 1932, que se imortalizou com a parceria de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, que escreveu a letra, em 1937.

Homenageamos São Pixinguinha com a interpretação de Carinhoso por Marisa Monte e Paulinho da Viola.

Parabéns, Vera Lúcia!

Parabéns pelo seu aniversário!

Já transmiti meu abraço eletrônico a Vera Lúcia Kalahari, nossa correntista de Angola/Portugal, que de quando em quando enriquece nosso patrimônio poético. Hoje ela completa mais um ciclo em redor do Sol e da beleza de sua arte e de seu idealismo social. Disse-me que não haveria festa, em razão de uma viagem de trabalho a outro país. Mas que pensaria em seus amigos brasileiros, assim como estamos pensando nela e a enviar-lhe rosas, com desejos de muita luz, paz e amor em sua vida. Em sua homenagem, a nossa melhor forma de abraçá-la, com a publicação de mais um poema seu.

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O pássaro branco

Um pássaro de asas brancas, desdobradas,
anda a dançar na praia…
Há o rumor de ondas desgrenhadas,
há espuma fervente e fria
e silêncio de ventos que não existem.
O barco da minha vida
caravela d’esperança
naufragou naquela praia,
sem mar, só com o cantar doce, amargurado,
do meu pranto.

Esse pássaro que nasceu comigo
não mora numa gaiola,
não nasceu nos verdes bosques,
não é um pássaro de penas.
É um pássaro que canta
nas longas noites sem luz,
um canto de risos e prantos,
um pássaro que agarrei
com mãos trémulas de criança
e d’esperança.
Larguei para que voasse
e cantasse
em todas as almas,
fizesse nelas brotar flores,
estrelas e amores.
O meu pássaro branco…
Bbranco como nuvens esvoaçantes,
como um pássaro tecido de fios de luar…
Fugiu das minhas mãos trémulas de criança
que se fechavam
e procuravam encurralá-lo
em qualquer ninho de amor.
É agora um pássaro triste e desolado…
Um pássaro vagabundo
açoitado por um vento furioso
que o assusta e o arrasta p’ra solidão.
Um pássaro de asas murchas,
roxas como lírios macerados,
como um céu esfarrapado
sem estrelas, sem luar.
Não houve ninhos que o abrigassem
nem mãos trémulas d’esperança que o agarrassem.
De nada serviram meus prantos e minhas dores…
O meu pássaro branco, alvo como nuvens esvoaçantes,
dança na praia que não existe,
a praia da solidão,
ferido de dor e de morte,
curvando as asas brancas
que não são brancas,
largando às ondas e aos ventos, as suas penas.

Vera Lúcia Kalahari

Cássio Amaral: mais brilhos de Araxá

Foto e poema: Cássio Amaral – montagem: C. de A.

Solivan Brugnara, vindo das águas e das estrelas

Solivan lê um de seus poemas na Semana da Poesia de 2008

Solivan Brugnara me parece ter a timidez dos gênios, apesar de portar um nome que lembra cantor de ópera. Eu conheci seus poemas no blog de J.B. Vidal, Palavras, Todas Palavras. Um deles, em especial, me entusiasmou pela coragem de ser contrário a uma onda de aprovações ideológicas aos atos de terrorismo no Oriente Médio. Vai abaixo o poema e meu comentário, em agosto de 2008. Depois o conheci pessoalmente na Semana da Poesia Paranaense organizada por Manoel de Andrade em setembro do mesmo ano, no Espaço Cultural Massuda. Um papo muito rápido, que ficou devendo outros encontros.

Solivan já deveria ter feito depósitos no Banco da Poesia desde o princípio de nosso trabalho na rede. Mas ele não veio e tive que convidá-lo, há alguns dias.

Mandou-me, generosamente, seus livros impressos em edições pessoais, com o cuidado de artista gráfico que também é. E uma série de poemas, que ficam investidos na bolsa de futuro imediato desta instituição bancária.

Dele já falou muito bem Ademir Demarchi, escritor, editor da revista de poesia Babel: “Solivan Brugnara escreve como quem parece querer fazer pacotes congelados de palavras, esmagadas, amarfanhadas, constituindo miscelâneas cuja característica é fugir a um estilo único e agir como uma ventosa que suga todas as possibilidades de expressão, sempre ainda insuficientes, afinal o sentido da vida e, em última instância, da palavra, é inalcançável, ainda que se possa percorrer o caminho da sua busca”.

Mais dados sobre sua biografia virão depois, pois sua ficha cadastral ainda não está completa. Apenas a inscrição, em letras garrafais grafadas em vermelho: De Quedas do Iguaçu, PR, um poeta dos bons, sem dúvida alguma.

Vamos rememorar, primeiro, o poema que me revelou Solivan, em julho de 2008.

Lições de marketing para um terrorista

xxxxMustafá,
xxos aviões que balearam
xxxxo estômago das torres gêmeas
xxe fizeram ambas morrerem,
xxxxgritando como um pterodáctilo
xxxxxxsangrando fumaça e fogo.

Ou bombas que fazem desmoronar
xxxesses castelos de areia
xxxcimento e cal da ONU.

E também
xxxexplosões em bares
xxxxxxonde pessoas estavam pacificamente,
xxxxxxxxsendo amamentadas com cerveja.

São exemplos da covardia do fraco contra o forte.

xxxSeus métodos só fazem
xxxxuma mulher morta
xxxse transformar em abelha rainha
xxxem torno da qual
xxxxas opiniões formam uma enorme e perigosa
xxxcolméia de unanimidades.

xxxFazem uma gravata
xxxou um cartão de crédito ensanguentado
xxxxxtornarem-se ícones.

xxE mesmo se matar com sua bomba aleatória,
xum lobo com pele de cordeiro
xxxé a pele de cordeiro que receberá
xxxxas homenagens do estado,
xxxjá o lobo será levado para a tinturaria
para ser lavado e vendido num brechó.

xxxxxxxEscolha sempre as peças brancas do tabuleiro.
xxxxxxxxxApenas o alvo diferencia
xxxxxxxo herói do fanático.
xxxxxxPõe seu corpo na frente de uma manada
xxxxxde tanques,
xxxxxxxmas se recuse a explodir um ônibus.

xxxE os papiros
xxxxxlidos em amenos cafés da manhã
xxou os pergaminhos eletrônicos
xxxxe talvez, a história
xxtenderão a ser favoráveis a sua causa.

xxxxxxNão, Mustafá,
xxxxelogios da mídia não garantirão sua vitória,
xxmas despetalar pernas e braços de civis também não.
Além do mais,
xxxxxterá mais chances se ferir
xxxxcom um espinho a pata de um exército
xxxque a inócua idéia de matar
xxcoelhos alvos amontoados em metrôs e aeroportos.

Meu comentário, lá no Palavras:

Em um tempo em que nossos dirigentes políticos temem em definir como terroristas seus amigos terroristas; em um tempo em que os segredos da vida são desvendados com maior velocidade e se ela se torna mais sagrada do que a vida cantada nos templos religiosos; em um tempo em que os idealistas do passado não têm coragem para serem revisionistas de suas próprias histórias e idéias; em um tempo em que é mais fácil aderir aos suaves encantos da ira contestadora, dá gosto ler um poema-recado como o de Solivan Brugnara, que não conheço pessoalmente, aprendi a conhecê-lo nesta senda aberta por J.B.Vidal e, mesmo com pouca leitura, já passei a admirar. (C. de A.)

Na falta de dados biográficos, vai a apresentação pessoal em forma poética.

Apresentação


xxxNasci
xxxxxno útero da Via Láctea,
xxxxxxxxxneste óvulo fecundado pelo sol
xxxxxxxxxxxchamado terra
xxxxxxxxxxxxxxxcomo todos.
xxEra fraco,
mantive-me vivo graças às vitaminas, proteínas
xxxxxxxxxxxxxe sais minerais
contidos nas orações de minha avó.
xxxMeu corpo é feito de folhas, carne
xxxxxxxxxxxxxxar, sol e água.
Meu primeiro medo foi que das sementes
xxxxxxxxxxxxxxengolidas nascesse
xxpela minha boca um galho carregado de laranjas.
xxxxxxDas etapas
já mastiguei a doce infância, a amarga adolescência
xxxxxxxxestou roendo o osso da vida adulta
xxxxxxxxxxxxe roer osso é saboroso.
Amanhã morrerei
xxxxaliás absolvo a morte,
é a morte que renova a vida.
xxxPor fim
sou poeta
xxxxporque gosto de lamber
xxxxxxfolhas em branco,
xxlembra-me leite materno.

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A odisséia ou o erro do pavão

O pavão
de olhinhos nervosos
irrequieto bípede
tirou dolorosamente
suas queridas penas
uma a uma
e colou
em folhas de papel sulfite.
Despiu-se de suas jóias
transgrediu o pudor
sentiu frio
ficou só
sua família não aguentou
a verdade nua.
Não satisfeito
regurgitou a pouca quirela
do jantar
e vendo o vômito convulso e amarelo
lembrou-se de Van Gogh
e chorou.
Colou sua bile no sulfite
e com as folhas e penas e vômitos
profissionalmente encadernados,
a pobre ave implume
saiu a procura de editor.


Seria mais fácil, pássaro
achar editor
se deixasse as penas no corpo
e levasse as folhas em branco
profissionalmente encadernadas
sempre
profissionalmente encadernadas.

Solivan Brugnara

Isaias 1:02

Isaias de Faria

Todo profeta é um poeta. Usa suas metáforas para predizer acontecimentos futuros e fazer advertências às ovelhas  tresmalhadas. O livro de Isaías, por exemplo, com seus 66 capítulos, é até mesmo na forma um livro de poemas. Como diria nosso Manoel de Andrade, poemas brabos, por certo. Recheados de metáforas ameaçadoras de um deus vingativo e insatisfeito com sua criação. Mas a poesia não canta apenas as venturas, o sol e as flores. O poeta vê beleza também na tempestade, nas nuvens escuras, na dor e nas lágrimas.

E por isso todo poeta é quase sempre um profeta. Porque consegue ver além da aparente realidade e prever cintilações e perfumes e cores e formas e fados que a maioria não consegue enxergar.

No dia 1º de fevereiro recebi uma mensagem de um novo Isaias, poeta, talvez profeta (daí a inscrição Isaias 1:02) que me disse querer publicar um poema seu no Banco da Poesia. Conversa vai, conversa vem, pedi foto, informações biográficas e eis aí Isaias de Faria, com resumidíssima folha corrida: poeta, mora em Belo Horizonte, escreve em seu blog Estações e em diversas revistas eletrônicas e outros endereços da rede. Em breve publicará seu primeiro livro de poemas, com o título Distrações.

Grato ao Isaias poeta ( também fotógrafo) pelos depósitos iniciais. Aos nossos leitores podemos recomendar, como o Isaías profeta: “Aplicai os ouvidos para ouvir sua voz, / sêde atentos para escutar sua palavra” (Isaías 28:23).

O olhar de um jovem fotógrafo

Montagem sobre fotos de Isaias de Faria – C. de A.

Um casal. 20 ele, 29 ela.
1º dia de um encontro
pra se conhecerem
numa praça florida.
feriado. Dia absorto
em sua quietude:

ele: os dias nublados
são os melhores dias
pra fotografar

ela: melancólico… seus
olhos não negam

Para a poiesis de Homero

Illion

irá de imortal e covalente suplício
desbravar setadas confusas de virtudes
nas moradas falsamente desnudas

objetivante
revela completo
desta busca
turbulenta deidade
na raiz de pedra
épico como ele só

destino de contendas traça aquiles
papel de epopéia
sucessivas até a morte

semideuses num próprio céu

A Apoteose de Homero - Jean Auguste Dominique Ingres, 1827 – Museu do Louvre (Paris)

Odisseus

em que fala a
fonte erga
vibre
em que fala –semiviva, fornalha, estentor, adaga, lança,
fonte mire
incline
em que o
passado estentor
semiviva
de
fornalhas ditas
venha de irrealidade
que não se pode fugir
mas plangente

se vai sim a adaga,
lança, aço em mãos e
ostenta golpe afrente a
voltar
(tão caro nunca se foi, odisseu!)
ostente a volta

recalcando a lida (consumindo-se pelo extenso trilho)
prestes ao amor que volta:
não sabeis

certeza de quem se
arruma sabes
em flanco brilhante horrendo

fina farpa a cada ponto,
trancos, barrancos, barras
e amargas despalavras
sentias e tais tais azeus

e o tal zeus,
retoma as energias desfeitas,
nervos desarrumados
o corpo a avante e prevista ira,
não pode pasmar de ver
nada de dó de açoite
a almejada rota

prossiga,
já tens a terra em pés, pele,
tateamento nos céus

árduo estrategista de ouvidos atentos
no jogo cantado-lírico

orgulho ainda intacto
cravado e repouso atento mito

L. Rafael Nolli, de Araxá, adverte: antes que…

Balada homicida

Francisco de Goya — O 3 de maio, 1808. 1814. Óleo sobre tela. 266 x 345cm. Museu do Prado, Madri

É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.

É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
xxxxxxxxxxxe de caixinhas de Malrboro.

É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.

É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.

Renascimento de Deborah

Depois de alguns meses de confesso exílio criativo, Deborah O’Lins de Barros, a-moça-deitada-na-grama,  envia, lá de Itajaí, mais um miniconto. Bem vindo seu novo depósito, Deborah!

Era uma vez


…e o mal venceu. O braço direito do vilão perguntou:
– oh, líder, como viveremos agora?
Foram felizes para sempre.

Deborah O’Lins de Barros
07/02/2010

A homenagem a Walmor Marcellino

Familiares e amigos de Walmor Marcellino participam do lançamento de seu último livro

O jornalista e poeta Walmor Marcellino, falecido em setembro do ano passado, foi homenageado nesta quinta-feira (4/02/2010), na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. Familiares e amigos do jornalista se reuniram na data em que ele completaria 80 anos para o lançamento do seu último livro Ulciscor e abertura da exposição de fotos Walmor e Amigos.

Elba Ravaglio

Elba Ravaglio

O livro foi organizado pela viúva de Marcellino, Elba Ravaglio. “Walmor era uma pessoa incorruptível. Ele estava sempre à margem esquerda, determinado a alcançar um mundo mais justo. Este livro que lançamos hoje é uma obra seqüente de todos escritos que ele já lançou. Ali ele aborda política, sociedade, meios de comunicação. Não há um tema único, mas um conjunto de assuntos que relatam suas experiências e observações sobre o mundo”, explicou o filho do escritor, Marcelo Marcellino.

Nelson Padrella

“Conheci o Walmor nos anos 50, no Diário do Paraná. Havia uma página de arte chamada Letras e Artes, onde os jovens poetas colocavam suas idéias. Ali eu comecei a colocar meus poemas. Walmor me ensinou que poesia não são apenas versos rimados, mas versos livres, como Drummond. Ele foi uma pessoa séria, muito correta. Encarava política como uma missão. Este livro é uma surpresa. Elba finalizou o trabalho, estamos curiosos para saber o seu conteúdo”, destacou o escritor e artista plástico Nelson Padrella.

O poeta Manuel de Andrade contou que voltou a escrever após 30 anos, graças ao incentivo de Walmor Marcellino. “O último escrito que publiquei foi em 1968, ano em que entrou em vigor o AI-5. Walmor foi preso e eu exilado. Eu o reencontrei apenas em 2002. Na época ele me convidou para participar da antologia poética que ele estava organizando, livro que se chamou Próximas Palavras. Voltei a escrever poesia graças a Walmor. Foi uma honra conhecer uma pessoa como ele”, contou Andrade.

“Walmor não era um autor fácil. O processo de consagração deste tipo de escritor é lento, porém inevitável. Ele será consagrado à medida que as pessoas lerem seus trabalhos. É um grande autor, que continuará fazendo história. Seu nome vai continuar vivo”, acentuou o filósofo José Veríssimo Teixeira da Mata, amigo de Walmor.

“Ele era um intelectual multifacetado da literatura, da crônica do cotidiano. Tinha uma palavra firme e desapegada, comprometida com a sua consciência e com a consciência coletiva dos trabalhadores. Um dos maiores intelectuais paranaenses que deve sempre ser relembrado. Fundamentalmente devemos seguir o seu exemplo de coragem”, afirmou o presidente da Ferroeste, Samuel Gomes.

Ulciscor, o último livro

Walmor Marcellino foi casado duas vezes e teve quatro filhos, um deles já falecido. Nascido em Araranguá (SC), em 1930, morou em Florianópolis, Porto Alegre e fixou residência em Curitiba. Escritor com forte atuação política, publicou mais de 30 livros, entre poesia, ficção e textos de opinião.

O jornalista se destacou como ativista de esquerda, participando das lutas pela volta da democracia brasileira nos anos de chumbo do regime militar. Na década de 70, participou do Centro Popular de Cultura em Curitiba e de grupos de teatro da UFPR, sempre em oposição à ditadura militar. Preso político, nunca se furtou da crítica ao governo militar e das suas posições políticas.

Marcellino trabalhou em diversos órgãos de comunicação, entre eles a Gazeta do Povo e o jornal Última Hora, e também na Assembleia Legislativa do Paraná e no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

Além de jornalista, poeta, e dramaturgo, Walmor Marcelino também era compositor. Junto com o músico Gerson Biantinez, compôs O Encontro de Walmor Marcellino com o Capitão Lamarca. A música, inédita, fala do encontro do jornalista com o guerrilheiro. (Agência Estadual de Notícias, fotos Levy Ferreira)

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Ao amigo Walmor

Manoel de Andrade

Manoel de Andrade - foto Levy Ferreira

Estive quinta feira, dia 04, na merecida homenagem aos 80 anos de Walmor Marcelino e lançamento de seu livro Ulciscor.  O evento foi aberto com as palavras do nosso querido Cláudio Fajardo, diretor da Biblioteca Pública do Paraná, saudando, com sua invejável linguagem,  o amigo de muitas trincheiras e abordando a obra literária e o pensamento político do Walmor.

Muita gente, canais de TV filmando e um programa onde amigos leram alguns de seus poemas e escritos políticos intercalados com trechos de uma de suas entrevistas, exibida em data-show num telão ao fundo. Jornalistas, políticos, poetas, atores, muitos dos seus velhos camaradas do Partido Comunista, admiradores e leitores dos seus mais de 30 livros.  Li o seu poema As Mães da Praça de Maio e, em nome do João Bosco Vidal — que o conheceu depois da anistia —, o seu poema Culpa. No final da primeira parte foi interpretada a canção lembrando o encontro de Walmor com o guerrilheiro Carlos Lamarca, com letra do próprio poeta e música e interpretação de Genson Biantinez. O evento foi encerrado  com meu preito de gratidão ao Walmor que, em 2002, marcou meu reencontro com a poesia depois de 30 anos de abstinência literária ao incluir meus poemas na antologia Próximas Palavras, e me estimulando a voltar a escrever.

Posteriormente foi inaugurada, no saguão do auditório, a sua imagem em mosaico feita pelo artista equatoriano Javier Guerrero, num comovente tributo de Cláudio Fajardo ao amigo e ao velho companheiro de lutas nos “anos de chumbo” da ditadura militar.

Conheci o Walmor na década de 60. Éramos uma meia dúzia de “ratos” de livraria da Ghignone, naquele saudoso tempo em ela ainda abria suas portas na rua XV de Novembro.Ali, no final das tardes, chegava o livreiro Aristides Vinholes, o poeta e crítico literário Sérgio Rubens Sossella, o publicitário e romancista Jamil Snege, o poeta e contista Nelson Padrella, o grande polemista Walmor Marcelino e eu, que estreava naqueles anos na poesia. Mas toda aquela memorável agenda vespertina se fechou para sempre depois que a Ditadura lançou o AI-5, em 13 de dezembro de 68, e muitos de nós passamos a respirar numa atmosfera de medo e de pressentimentos. O marxista Vinholes sumiu, o Walmor foi preso e eu fugi para a América Latina. Eu só encontraria o Walmor no século seguinte.