Poemas encadeados

Manoel de Andrade costuma dizer que não existem coincidências. Tudo estaria mais ou menos encadeado e grande parte dos eventos deste mundo estão programados em outra parte, aguardando apenas que possamos confirmá-los ou modifícar o fado, segundo nosso livre arbítrio. Mas há coincidências significativas, como a que ocorreu hoje.

Ao fazer um comentário sobre o poema Espera-me, de Konstantin Simonov (ver abaixo),  Deborah O’Lins de Barros lembrou que ele combinaria com Unchained Melody (Melodia desencadeada ou desacorrentada) , música de Alex North e letra de Hy Zaret, cantada por Elvis Presley.

E onde está a coincidência? Diz sua biografia: “Em 16 de Agosto de 1977, Elvis chega a Graceland (a casa onde vivia) alguns minutos após a zero hora. No portão há vários fãs, um deles é Robert Call, que tira uma foto de Elvis. A última foto de Elvis em vida. Às 15:30 deste mesmo dia Elvis é declarado morto vitíma de um ataque cardíaco. A necrópsia revelou a ingestão de oito ou mais drogas (entre outras, morfina, valium e valmid), responsáveis por sua morte“.

Mas onde está a coincidência? Primeiro na letra, que se assemelha ao tema de Simonov: um homem apaixonado que se vê distante da amada e lamenta essa distância. Vejam a letra, no inglês original, encadeada à tradução em português.

Elvis

xxxxxxUnchained Melody

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered for your touch,
xxxxEu tenho ansiado por seu toque,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto,
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxxEu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

xxxxxxxLonely rivers flow to the sea, to the sea,
xxxxRios solitários seguem para o mar, para o mar,
xxxxxxxTo the open arms of the sea.
xxxxPara os braços abertos do mar.
xxxxxxxLonely rivers sigh,
xxxxRios solitários suspiram,
xxxxxxxWait for me, wait for me,
xxxxEspere por mim, espere por mim,
xxxxxxxI’ll be coming home, wait for me.
xxxxEstarei chegando em casa, espere por mim.

xxxxxxxOh, my love, my darling,
xxxxMeu amor, minha querida,
xxxxxxxI’ve hungered, hungered for your love,
xxxxEu tenho ansiado, ansiado por seu amor,
xxxxxxxA long lonely time.
xxxxUm longo tempo solitário.

xxxxxxxAnd time goes by, so slowly,
xxxxE o tempo passa, tão lentamente,
xxxxxxxAnd time can do so much,
xxxxE o tempo pode fazer tanto.
xxxxxxxAre you still mine?
xxxxVocê ainda é minha?

xxxxxxxI need your love,
xxxxEu preciso do seu amor,
xxxxxxxI need your love.
xxxx
Eu preciso do seu amor.
xxxxxxxGod speed your love to me.
xxxxDeus, mande depressa seu amor para mim.

Notaram a coincidência do espere por mim, por mim grifada? Segundo, porque foi uma das últimas músicas cantadas por Elvis Presley, em show realizado no dia 21 de junho de 1977. O que quer dizer que, no próximo domingo (21/06/2009), a última apresentação daquele concerto, com Unchained Melody – a mesma lembrada por Deborah – estará completando 22 anos.

Mas, ao contrário do que se divulga na Internet, aquele show não foi o último de Elvis. A última vez que ele pisou em um palco foi em Indianápolis,  no dia 26 de Junho de 1977, no Market Square Garden. Portanto, niver na próxima sexta-feira.

De qualquer maneira, junho é a grande coincidência. Não sei se Deborah lembrou a data (ele devia ser muito pequena, na ocasião), mas não deixa de ser significativa a lembrança da música tão próximo a esses aniversários. Abaixo, o vídeo daquela belíssima composição, que pode, de fato, como sugere Deborah, servir de fundo para Espera-me. A seguir, My Way, outra bela canção cantada por Elvis, também considerada a última apresentação do já mítico cantor. A maneira como Elvis encerra essa apresentação e se despede do público dá a impressão de que se trata, realmente, de uma last song. Vejam que ele repete o gesto de dar o seu cachecol branco para alguém do público. Parecia ser parte do roteiro, pois, na segunda música, um auxiliar de palco põe o cachecol no pescoço de Elvis, quando ele termina de cantar e se prepara para sair.

Convocamos os Sherloques da rede para irem atrás de mais informações.

Mas, como diz a televisão, vale a pena ver de novo, pois são duas belas e poéticas canções. Ah, é bom lembar que Unchained Melody foi composta por Alex North para um filme um tanto obscuro feito 1955 chamado também Unchained. E, em 1990, ressurgiu como tema de Ghost (Do Outro Lado da Vida), dirigido por Jerry Zucker e estrelado por Patrick Swayze, Demi Moore e Whoopi Goldberg.

Poema de amor e guerra

KSimonovKonstantin Simonov, poeta, escritor e dramaturgo russo, nasceu em novembro de 1915 na cidade de São Petersbugo (Petrogrado, de 1914 a 1924, e Leningrado, de 1924 a 1991). Em 1931 a sua família mudou-se para Moscou e  Konstantin começou a trabalhar como mecânico numa fábrica. Os primeiros poemas surgem nessa época, publicados em alguns jornais moscovitas. Entra para o Instituto Gorki de Literatura, interrompendo os estudos para cumprir serviço militar como correspondente de guerra. Escreve peças de teatro, romances, reportagens e livros de poemas inspirados na temática da guerra. Depois da guerra, ocupou alguns cargos importantes que abandonou para se dedicar por inteiro à sua obra. Morreu em Moscou no dia 28 de Agosto de 1979.

serova_1Espera por mim, de sua autoria, é um dos mais conhecidos poemas russos. Foi escrito em 1941, logo após a invasão de Hitler na Rússia. No verão daquele ano, Simonov tinha 25 anos e, apesar das suas origens aristocráticas, já era um bem sucedido poeta e dramaturgo soviético. Ele era apaixonado pela jovem atriz Valentina Serova. Quando Hitler atacou, Simonov recebeu ordens imediatas para avançar para a frente como correspondente de guerra. Valentina esteve com ele na estação.

O comboio da tropa levou-o para oeste, em direção à fronteira, como ele imaginava. Mas as tropas alemãs já haviam penetrado na Rússia e o trem nunca chegou a seu destino. Durante horas, Simonov foi exposto à brutal e caótica realidade da guerra. Simonv pensou que não iria sobreviver.

Simonov casou-se com Valentina em 1943. Mas não foram felizes, como poemas posteriores registraram. A personalidade volúvel de Valentina decepcionou Simonov e eles se separaram em 1957. Seus poemas subsequentes continuaram a história de um jovem homem exposto simultaneamente a todos os perigos da guerra, a uma paixão e, finalmente, a um infeliz caso de amor – e à súbita e dramática elevação como celebridade nacional.

O poema de Konstantin Simonov (em outras versões também intitulado Espera por mim) é aqui publicado por sugestão de nosso amigo e colaborador Manoel de Andrade.

Espera-me

xxxxxxxxxxxxxA Valentina Serova

EsperaPorMim
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…

Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!

Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!

xxxxxxxxxxxxxTradução de Hélio do Soveral

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helio do soveralHélio do Soveral Rodrigues de Oliveira Trigo, mais conhecido como Hélio do Soveral , nasceu em Setúbal, Portugal, em 1918, e faleceu a 21 de março de 2001, em Brasília.Foi radialista e escritor infanto-juvenil brasileiro. Hoje não é lembrado nem reconhecido, mas publicou dezenas de livros que se tornaram muito populares nas décadas de 1970 e 1980. É dele a tradução do poema Espera-me para o Português. Sua versão é provavelmente a melhor publicada em nossa língua.

Mais um depósito conquistado de Saramar

Do teu amor, que quisera meu

Beija-flor
Imprevista, os espelhos me mostram
outra mulher, deste teu amor iluminada.
E perdem meus pés, o chão,
passarinho pela casa em cantos desafinados
sem fala, sem medo, sem mais nada
senão o teu vôo riscando meu mundo
em rabiscos delicados de amor.

E sigo, brilhando sob o teu olhar
à quentura do teu beijo e o meu morno ventre
flor e o seu sol presos num instante
antes de todas as primaveras, atrasadas.

Enfim, em alva liberdade, sei e sabes
das palavras em lugar dos nomes
“minha amada”, meu amor
e da mímica dulcíssima de beijos
no silêncio azul das madrugadas.

___________

Ilustração: C. de A.

Renovação de depósito de Artur Alonso Novelhe, direto da Galícia

Intuito

IntuitoIlustração: C. de A., com uma ajudazinha de Francisco José de Goya y Lucientes

No prazer dos dias e das noites
procurei teu corpo

no perdido recanto da memória
achava tua sombra vigorosa

Ficava admirado a cada instante
que eles teu nome nunca adivinhassem

em cada fragrância,
em cada aroma estendido
como palma duma mão
que em milhares de rosas progredisse

estavas
sentada no mais amplo silencio,
contemplando os murmúrios do planeta

insinuando teus perfumes
a luz de todos os aconteceres,
clara e consciente

como quem conserva por dentro
aromas a feno, a cravo, loureiro,
num imenso campo, sempre a céu aberto

estavas
qual essas almas grandes que humildes se reconhecem
entre a paciência de quem aguarda
uma vida do inverno renascer
e a vertigem das palavras na boca do adulador,
falseadas por tanta soberba

Habitavam também
teus lábios frescos querendo apoderar-se
na lua clara de março
quando há quarto minguante,
do primeiro movimento, livre de rotação

ou do ocaso duma borboleta,
que três continentes atravessara,
antes mesmo de no vento ser parte
do candor mais suave, dos campos primaveris

aqueles que na tua pele escrevem segredos,
ou navegam florestas
nas que outros inventam mistérios
como veias que orvalham as fragas
para obter alguma lagrima aderida a sua folhagem

onde também limpa te encontras,
bem sei,
no local onde eu sempre aguardo
a chegada das noites
prazeres que em mim atrasas

com a esperança de que abra o espírito
aprenda ouvir, escute
e dentro de teus olhos meninos
possa ao final saborear,
por primeira e única vez, a essência do amanhecer…

Marilda (re)toma os copos

[…] “depois do terceiro copo, você vê as coisas como elas realmente são: terríveis” Oscar Wilde

Ab-sinto

Ab-sinto-me
como se tivesse bebido um litro inteiro de absinto.
Estou sob os defeitos da terceira idade.
Uma calamidade.
Eu devia ter parado na primeira dose,  aos doze,
quando o mundo era como eu queria que fosse.
Ou lá na curva da juventude,
onde, segundo Wilde, no segundo copo
a gente vê as coisas como elas não são.
Meu erro foi acreditar nele.
Oscar parou de beber com pouca idade
vendo como as coisas são no terceiro copo: Só um porre.
Se ele fosse mulher, passasse do quarto copo,
saberia que, na verdade, as coisas são bem piores.
Não vou me matar não, amigo.
Não sou suicida.
Sou curiosa, teimosa, compulsiva
e vou beber dessa vida até a última gota
porque acredito que ela tenha uma relação íntima
com o efeito do absinto.
Pressinto que, no quinto copo,
as coisas estarão como me sinto
num corpo de mais de cinco décadas: decadente, indecente.
Mas, no fim do litro,
findo o líquido,
estarei em equilíbrio, livre e leve como pluma.
E o copo
e o corpo,
xxxxxxxxxnão terão importância alguma.

Novo correntista: José Marins

Haibun junino

José Marins

A imagem de Santo Antônio destacada nos
enfeites do bolo. É fácil ver sorrisos entre a
gente no pátio da igreja.
A polaquinha está vindo a terceira vez.
Na primeira, foi sorteada com a imagenzinha
do santo no pedaço de bolo, arrumou namorado.
Na segunda, o santinho de porcelana foi parar
entre seus dentes, ficou noiva.
Agora, ela é toda sorriso: vai casar!
***
Dia de Santo Antônio
são doces as esperanças
da moça devota

santo_ant_nio_bolo.materiaGrafismo sobre foto de Manuela Salazar

Todos os anos a Igreja do Bom Jesus, aqui em Curitiba,
faz um enorme bolo amarelo, confeitado de açúcar, que
é vendido aos pedaços. No meio dele foram espalhadas
centenas de pequenas imagens de Santo Antônio, quem
tira o Santo no seu pedaço alcança a graça.
Tudo não passa de uma gostosa brincadeira!
Mas se o amor não for alegre, que graça tem……………?

(J.M.)

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José Marins, um haicaísta paranaense

de um artigo de Alvaro Posselt

josemarinsJosé Marins é paranaense de Jandaia do Sul, mas se criou em Umuarama, noroeste do estado. Veio para Curitiba quando tinha 18 anos e mora na cidade há 35 anos. “Curitibanizou-se”, criou raízes e asas, onde das asas só possui agora o coto, pois diz ser uma pessoa caseira, um provinciano que não gosta da metropolização de Curitiba e se sente esmagado pela explosão demográfica, porém, brinca o haicaísta, busca o universo em sua aldeia. É casado com uma curitibana e tem um filho. Formou-se em Psicologia Clínica pela UFPR, é psicoterapeuta de profissão, fez duas pós-graduações, em Educação e Antropologia e Mestrado pela UFPR (a biblioteca da UFPR e a Divisão de Documentação Paranaense da BPP têm exemplares de sua Dissertação de Mestrado). Desistiu da carreira acadêmica. Tem licença de jornalista e editor por trabalhos anteriores nestas áreas. Atualmente busca a Literatura como um caminho de desafios, desafios estes que o estimulam a prosseguir. É um autodidata dedicado, gosta de estudar e de praticar o que aprende. Seu primeiro contato com a poesia foi logo aos 10 anos de idade, em 1963. Ele não conseguira gostar de nada do que lera nos livros escolares, até que nessa época leu uma crônica de Paulo Mendes Campos na Revista Manchete e nunca mais foi o mesmo, descobriu a verdadeira função poética da linguagem escrita. A prosa poética de Campos tocou-o: “então é possível a beleza com a escrita”, lembra-se. Feliz foi a sua descoberta, acabou lendo todas as crônicas de Paulo Mendes que foram publicadas naquela revista. (extraído do blog Meu Artigo)

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E o que é um haibun?

A palavra haibun é formada por hai, de haicai, e bun, que significa escritas, composições ou sentenças (Reichhold, 2002). Bashô praticava o haibun, considerado um de seus mais importantes trabalhos, adicionando nova profundidade ao que era escrito de forma humorística por outros de seus discípulos. Os primeiros exemplos de haibun são encontrados nas crônicas da história do Japão – The Kojiki. De acordo com Reichhold , o haibun passou a ser praticado por autores americanos apenas nos últimos dez anos. No Brasil, essa prática é um pouco mais recente e tem despertado um crescente interesse entre uma pequena parcela da comunidade haicaista. Leia mais em Samauma.

Ao mestre, com carinho

PessoaSerigrLuizBadosaFernando António Nogueira Pessoa nasce a 13 de Junho de 1888, às 3:20 da tarde, no quarto andar esquerdo do n.º 4 do Largo de São Carlos, em frente à ópera de Lisboa (Teatro de São Carlos). São seus pais Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, natural da Ilha Terceira, nos Açores, de vinte e seis anos, e Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, de 38 anos, funcionário público no Ministério da Justiça e crítico musical do “Diário de Notícias”. Com eles vivem a avó paterna, Dionísia, e duas criadas velhas, Joana e Emília.*

São os primeiros registros da vida de um homem que se tornaria, anos depois, o maior nome da poesia de língua portuguesa e um dos maiores da poesia universal. São passados 121 anos daquele 13 de junho em que FP ingressava não só na vida, mas na Eternidade. Em sua homenagem, publicamos um pequeno poema, no qual ele imagina uma biografia escrita após sua morte, ocorrida em 30 de novembro de 1935. Mal sabia ele que, entre as duas principais datas de sua vida, haveria tantas cousas produzidas que passariam a pertencer a toda a humanidade.

CasaFPCasa onde FP nasceu, no Largo de São Carlos, nº. 4, em Lisboa

Se depois de eu morrer

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferntes uma das outras.
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

xxxxxx1915
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CertNascimentoCertidão de nascimento e batismo de Fernando Pessoa

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Notas
* Dados do livro Fernando Pessoa, uma fotobiografia. Imprensa Nacional-Casa da Moeda – Centro de Estudos Pessoanos. Lisboa, 1981.
Retrato de Fernando PessoaLuis Badosa -Homenaje a Fernando Pessoa. Óleo s/ tela – 1997 – 116 x 81 cm
Casa natal de FP e certidão de nascimento – do livro Fernando Pessoa, uma fotobiografia

Dicas de Fernando Pessoa – 04

fernando.pessoaEstTEm junho de 1930, Fernando Pessoa é consultado por um jovem literato, com 23 anos incompletos, sobre um livro que este produzira. A carta do amigo foi respondida com amabilidade, em lições de mestre, com observações claras sobre o que ele interpretava como sensibilidade artística e sua aplicação na obra de arte. Dá conselhos, critica o que ainda crê imaturo e indica caminhos para o amadurecimento. O nome do amigo: Adolfo Rocha, que, mais tarde, adotaria o pseudônimo de Miguel Torga e se tornaria também um dos grandes mestres da literatura portuguesa. Transcrevo parte da carta de FP a Adolfo Rocha, o cerne de seu aconselhamento.

xxxxxxxEm substância, e expondo discursivamente, o ponto de vista que lhe expus é o seguinte:
xxxxxxx1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade;
xxxxxxx2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível;
xxxxxxx3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
xxxxxxx4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualização direta e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama “inspiração”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual (prim. versão: tirem da sensação o que não pode ser sensível aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, reforçam o que lhes pode ser sensível); b) a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela “inspiração” a um processo inteiramente objetivo – construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
xxxxxxx5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita, resultam dois tipos de artista: a) o inspirado ou espontâneo, em quem o reflexo crítico é fraco ou nulo, o que não quer dizer nada quanto ao valor da obra; b) o reflexivo e crítico, que elabora, por necessidade orgânica, o já elaborado.

xxxxxxxDir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo – isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de “maneira”, não de ser, mas de “dever ser”.

xxxxxxx(em Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. Edições Ática: Lisboa, 1973)

Para o dia de hoje, um duplo soneto a quatro mãos

Há cristãos e não cristãos. Há católicos e não católicos. Há evangélicos, há protestantes, budistas, espíritas, existem os que se dizem ateus, há os agnósticos. Há o islamismo e o judaísmo.

Mas há também a Poesia, uma espécie de religião universal que desvenda segredos da vida, depura sensações, faz da palavra magia. Por isso, neste feriado, onde os católicos se reunem para lembrar a última ceia de Cristo, recolhi em Asamblea de Palabras o poema Corpus Christi – escrito pelos irmãos Antonio e Carlos Murciano, nascidos em Arcos de la Frontera, Cádiz, Espanha,  en 1931 e 1929, respectivamente – e publicado no livro Poemas para orar (Biblioteca de autores cristianos, Madrí, 2004, ed. de Miguel Combarros). É poesia, merece a leitura por todos de todas as crenças. C. de A.

CorpusChristi2009Antonio e Carlos Murciano

Corpus Christi

Todo fue así: tu voz, tu dulce aliento
sobre un trozo de pan que bendijiste
que en humildad partiste y repartiste
haciendo despedida y testamento.

“Así mi cuerpo os doy como alimento…”
¡Qué prodigio de amor! Porque quisiste,
diste tu carne al pan y te nos diste,
Dios, en el trigo para el sacramento.

Y te quedaste aquí, patena viva;
virgen alondra que le nace al alba
de vuelo siempre y sin cesar cautiva.

Hostia de nieve, nube, nardo, fuente;
gota de luna que ilumina y salva.
Y todo ocurrió así, sencillamente.

Sencillamente, como el ave cuando
inaugura, de un vuelo, la mañana;
sencillamente, como la fontana
canta en la roca, agua de luz manando:

sencillamente, como cuando ando,
como cuando Tú andabas la besana,
cuando calmabas sed samaritana
cuando te nos morías perdonando.

Sencillamente. Hora de paz. ¡Qué leves
tus manos para el pan, para el amigo!
Cena de doce y Dios. Noche de Jueves.

Y era en Jerusalén la primavera.
Y era blanco milagro ya aquel trigo.
Sencillamente: “Éste es mi cuerpo”. Y era.

Corpus Christi

Tudo foi assim: tua voz, teu doce alento
sobre um naco de pão que bendissestes
que em humildade partistes e repartistes
fazendo despedida e testamento.

“Assim meu corpo vos dou como alimento…”
Que prodígio de amor! Porque quisestes,
destes tua carne ao pão e ela nos destes,
Deus, dentro do trigo para o sacramento.

E aquí permanecestes, pátena viva;
virgem cotovia que aparece à alva
sempre do voo e sem cessar cativa.

Hóstia de neve, nuvem albescente,
gota de lua que ilumina e salva.
E tudo ocorreu assim, tão simplesmente.

Simples assim, como a ave quando
inaugura, com um voo, a aurora;
simplesmente, como a canora
água na pedra, vida e luz manando.

Simplesmente, como quando ando,
como quando Tu andavas na abesana,
quando pedias água à samaritana
quando agonizavas, já nos perdoando.

Simplesmente. Hora de paz. São teus
o pão, o vinho, o gesto doce e  amigo.
Quinta à noite. Ceia de doze e Deus.

E era em Jerusalém a primavera.
E era alvo milagre já aquele trigo.
Simplesmente: “Este é meu corpo”. E era.

xxxxxxxxxxxxxxTradução: C. de A.

Tudo foi assim: tua voz, teu doce alento

sobre um naco de pão que bendissestes

que em humildade partistes e repartistes

fazendo despedida e testamento.

“Assim meu corpo vos dou como alimento…”

Que prodígio de amor! Porque quisestes,

destes tua carne ao pão e ela nos destes,

Deus, dentro do trigo para o sacramento.

E aquí permanecestes, patena viva;

virgem cotovia que aparece à alva

sempre do voo e sem cessar cativa.

Hóstia de neve, nuvem albescente,

gota de lua que ilumina e salva.

E tudo ocorreu assim, tão simplesmente.

Simples assim, como a ave quando

inaugura, com um voo, a aurora;

simplesmente, como a canora

água na pedra, vida e luz manando:

simplesmente, como quando ando,

como quando Tu andavas na abesana,

quando acalmavas sede samaritana

quando agonizavas, nos perdoando.

Simplesmente. Hora de paz. São teus

o pão, o vinho, o gesto doce e  amigo.

Quinta à noite. Ceia de doze e Deus.

E era em Jerusalem a primavera.

E era alvo milagre já aquele trigo.

Simplesmente: “Este é meu corpo”. E era.

No oriente, um mundo de Sophia

Sophia

Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podem ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis. Isso foi uma descoberta.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919 e faleceu em Lisboa a 2 de Julho de 2004. Da infância aristocrática e feliz passada no Porto ficaram imagens e reminiscências que povoam, de forma explícita ou alusiva, a sua obra poética e ficcional, particularmente os contos para crianças: a casa do Campo Alegre, o jardim, a praia da Granja (sobre a qual escreveria, em 1944, em carta a Miguel Torga: “A Granja é o sítio do mundo de que eu mais gosto. Há aqui qualquer alimento secreto”), os Natais celebrados segundo a tradição nórdica (também evocados por Ruben A. na sua autobiografia O Mundo à Minha Procura) foram lugares e vivências que marcaram de forma determinante o imaginário da autora. Clara Rocha (ler mais no site do Instituto Camões).

São suas obras de poesia:Poesia, Coimbra, ed. Da Autora, 1944; Dia do Mar, Lisboa, Edições Ática, 1947;  Coral, Porto, Livraria Simões Lopes, 1950; No Tempo Dividido, Lisboa, Guimarães Editores, 1954; Mar Novo, Lisboa, Guimarães Editores, 1958; O Cristo Cigano, Lisboa, Minotauro, 1961; Livro Sexto, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962; Geografia, Lisboa, Ática, 1967; Dual, Lisboa, Moraes Editores, 1972; O Nome das Coisas, Lisboa, Moraes Editores, 1977; Navegações, Lisboa, IN-CM, 1983, Ilhas, Lisboa, Texto Editora, 1989; Musa, Lisboa, Editorial Caminho, 1994; O Búzio de Cós e Outros Poemas, Lisboa, Editorial Caminho, 1997.

No poema que publicamos, Sophia sintetiza parte da saga da libertação do Timor Leste, o representante da lusofonia no Oriente.

PoemaTimor