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Renovação de depósito de Artur Alonso Novelhe, direto da Galícia

Intuito

IntuitoIlustração: C. de A., com uma ajudazinha de Francisco José de Goya y Lucientes

No prazer dos dias e das noites
procurei teu corpo

no perdido recanto da memória
achava tua sombra vigorosa

Ficava admirado a cada instante
que eles teu nome nunca adivinhassem

em cada fragrância,
em cada aroma estendido
como palma duma mão
que em milhares de rosas progredisse

estavas
sentada no mais amplo silencio,
contemplando os murmúrios do planeta

insinuando teus perfumes
a luz de todos os aconteceres,
clara e consciente

como quem conserva por dentro
aromas a feno, a cravo, loureiro,
num imenso campo, sempre a céu aberto

estavas
qual essas almas grandes que humildes se reconhecem
entre a paciência de quem aguarda
uma vida do inverno renascer
e a vertigem das palavras na boca do adulador,
falseadas por tanta soberba

Habitavam também
teus lábios frescos querendo apoderar-se
na lua clara de março
quando há quarto minguante,
do primeiro movimento, livre de rotação

ou do ocaso duma borboleta,
que três continentes atravessara,
antes mesmo de no vento ser parte
do candor mais suave, dos campos primaveris

aqueles que na tua pele escrevem segredos,
ou navegam florestas
nas que outros inventam mistérios
como veias que orvalham as fragas
para obter alguma lagrima aderida a sua folhagem

onde também limpa te encontras,
bem sei,
no local onde eu sempre aguardo
a chegada das noites
prazeres que em mim atrasas

com a esperança de que abra o espírito
aprenda ouvir, escute
e dentro de teus olhos meninos
possa ao final saborear,
por primeira e única vez, a essência do amanhecer…

Outra maneira de olhar a arte

A indicação é do Google: Ver um Velasquez ou um Rembrandt em um lugar como o Museu do Prado, da Espanha, é uma experiência única. Agora você pode usar a tecnologia do Google Earth para navegar entre as reproduções de obras primas do Prado, penetrando ainda mais profundamente naquela coleção. No Google Earth, você pode se aproximar o suficiente para analisar as pinceladas de um pintor ou o craquelê sobre o verniz de uma pintura. As imagens dessas obras têm resolução de cerca de 14.000 milhões de pixeis, 1.400 vezes mais detalhadas que a imagem de uma câmera digital de 10 megapixeis pode conseguir. Além disso, você será capaz de ver uma espectacular reprodução em 3D do museu. Experimente a arte dentro uma nova maneira. Abra o Google Earth, habilite a camada 3D buildings (Construções em 3D na versão em português) no painel esquerdo inferior; escreva Museu do Prado na caixa equerda superior (Voar para), clique na lupa ao lado, inicie a sua visita e veja em detalhes quase microscópicos as obras de arte selecionadas. Com visão superior à dos que visitam o museu pessoalmente e são obrigados, por questões de segurança, a se manter a uma certa distância dos quadros. Veja uma amostra nos vídeos indicados abaixo (uma dica: clique no botão HQhigh quality, para ver em alta resolução).

O Jornal da Globo de hoje (16/04/09) explicou a novidade.

“Uma manhã de primavera em Madrid e um dos museus mais fascinantes do mundo, aberto só para mim. Bom, não é bem assim. Dia fechado ao público, a imprensa pode entrar e gravar. Mas é uma maravilha poder ver tudo sem gente na frente, sem barulho. Para quem gosta de arte, o Prado é um banquete visual. A gente pode se demorar diante de um quadro como o Jardim das Delícias, de El Bosco, Hieronimus Bosch. Poder ficar observando cada traço, cada toque do pincel. É claro que esse é um privilégio para poucos. Mesmo tendo dinheiro, quantos museus uma pessoa consegue visitar ao longo de uma vida? Mas e se essa experiência, com a riqueza dos detalhes de uma visita ao vivo, estivesse disponível na tela do seu computador?

O passeio virtual, em super alta definição, começa pelas ruas de Madri. Chegando ao Prado, o museu pode ser visto em 3D. Um estudo da arquitetura do palácio, antes de romper porta adentro e ver 14 obras-primas como nunca foram antes vistas. Voltemos ao Jardim das Delícias. O tríptico, cheio de detalhes minúsculos, está afastado do público, questão de segurança. A gente vê as cenas fantásticas de pecados e prazeres que El Bosco criou no começo dos anos 1.500, um surrealismo bem precoce. Mas só no passeio virtual conseguimos ver a expressão do próprio artista, num cantinho da tela, se deliciando com as cenas que criou.

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Conheça detlhes sobre esse tríptico em http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Jardim_das_Del%C3%ADcias_Terrenas

O Prado é o primeiro grande museu a botar suas principais obras em altíssima definição na rede. O trabalho foi encomendado para uma pequena empresa sediada no centro de Madrid. Foi tão inovador, que eles documentaram bem o processo. Uma máquina fotográfica poderosa, fazendo milhares de fotos, muito bem calibradas, de cada pedacinho do quadro. Um imenso quebra-cabeças, depois montado no computador. A base tecnológica foi a mesma usada, por exemplo, para a já célebre foto panorâmica da posse de Barack Obama. Mas tratando-se de obras-primas, foi preciso desenvolver novas ferramentas, e terminar ajustando alguns encaixes manualmente. Foi um pouco de tecnologia e um pouco de artesanato?

“Um pouco de artesanato, sim. Fizemos máquinas especiais, aqui, à mão ali, para pode levar a cabo o projeto. Foi uma combinação de elementos”, diz Fernando Garcia Lerma, chefe do projeto. O resultado é que a gente pode ver detalhes que só especialistas em arte, com acesso a examinar as obras de perto, e com lupa, sabiam que existiam. As Três Graças, de Rubens, a olho nu, pode-se ver, sim, que uma delas tem uma espinha na derriére. Mas e esta abelha, no meio da guirlanda de flores sobre as graças? “Os visitantes do museu e mesmo os entendidos que não podiam pegar uma escada e espiar acima das três graças, não poderiam saber que a abelha existia”, afirma Fernando.

Maravilhas de detalhes. A costura feita por restauradores passando pela face de Velazques no imenso quadro As Meninas. A lágrima ainda se formando nos olhos de João, que apóia Maria, uma mãe que perde os sentidos ao ver o filho morto na cruz.

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Roger van der Weyden, "A Descida da Cruz"

Os diferentes estilos, marcados profundamente. Se em um quadro a proximidade espanta pela perfeição, em outro, de perto tudo parece abstrato. Os olhos espantados do homem prestes a ser fuzilado, não mais que uma pincelada negra.

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Francisco Goya, "O 3 de maio em Madri"

Desde o início da internet, os museus entenderam o poder dessa ferramenta para divulgar seu acervo, mas este é um novo passo. Viajar pela tela do computador fica cada vez mais real. Se antes você podia procurar um endereço, digamos, em Paris, pela foto de satélite do Google Earth, o Google Street View agora te põe em frente ao prédio, uma espiadinha na janela, ali, no sexto andar.

O programa começou em São Francisco, na Califórnia, e já inclui muitas cidades ao redor do mundo. Não sem controvérsia. Em uma vila inglesa, o carro com a câmera que faz as imagens foi barrado por moradores enraivecidos que veem o programa como quebra da privacidade. Em Londres, as imagens de um rapaz bêbado, vomitando na sarjeta, de um marido saindo de um sex shop, causaram polêmica e processos e foram retiradas do programa. Mas a maioria dos usuários vê o Google Street como um passeio virtual. Como eu vou da Torre Eifell até a Praça da Concorde? Como é o trânsito na área da Notre-Dome de Paris? Onde tem aquele sorvete maravilhoso, no coração da Ille de Saint Louis? É claro que essa experiência não vem acompanhado dos barulhos, os cheiros, os sabores que fazem uma viagem uma experiência tão única. Mas talvez seja só uma questão de tempo.”

Vale a pena fazer a viagem virtual. Uma fantasia dentro da realidade, com detalhes ainda mais realistas. Mais um avanço do milagre internetiano. C. de A.