Vera Lúcia em busca de notícias

Minha busca vã

Iluustração: C. de A.

Ilustração: C. de A.

Ao rouxinol que canta
Na noite que vai caindo
Marcado de triste dor,
Às nuvens que vão subindo
Em matizes d’esplendor,
Eu peço notícias de ti.
Ao vento que vai passando
À brisa que vem chegando,
Ao odor do mar e da flor,
Ao canto das praias varridas
Pelas ondas irritadas,
Eu peço notícias de ti.
Às gaivotas que vão deixando
Pelo ar, um risco branco,
Ao rumor leve dos búzios,
Às mil e uma coisas da terra,
Eu peço notícias de ti.
Aos homens que vem chegando,
Aos barcos, às fontes, aos rios,
Às estrelas que vão brilhando
Em risos, em frio desdém,
Eu peço notícias de ti.
Ninguém mas dá…
Só a chuva, sobre mim em pranto se cerra…
Há silêncio em toda a terra
Silêncio seco e ruim
De ventos vergando ramos
Como se dentro de mim
O mesmo silêncio se vaze.
Não há notícias de ti…
E neste anseio cansado
Nesta pergunta tão vã,
Apenas queria, vê lá,
Ser nuvem, ser ave, ter asas,
Ter algo mais do que sonhos,
Do que cantos, do que versos,
P’ra que pudesse voar
E poder assim saber,
Algo de ti, meu amor.

Vera Lúcia

Contas sentimentais de Marilda Confortin

Má temática

Matemática

Dá-lhe coração!
Quem mandou não estudar a lição?

Divisão é coisa simples,
complicado é o resultado.
Na verdade, um por dois
resulta sempre em metade.

Um inteiro não se faz
somando partes iguais
sub traídas de outro amor.

Quando um parte o outro
Os dois soçobram,
só sobra dor.

Na má temática da vida
não há como extrair
a raiz de uma equação
sem abrir uma ferida

Dá-lhe coração!
Quem mandou não estudar a tabuada?
Você não aprendeu nada,
Tem que ficar em recuperação.

Saramar saúda a Primavera

Teimosa Primavera

Saramar Mendes de Souza, setembro de 2009

<i>As Flores da Primavera</i>. <b>Arthur Hacker</b> - 1858-1919. Óleo s/tela

As Flores da Primavera. Arthur Hacker - 1858-1919. Óleo s/tela

Importa que nasça a flor
e sobre ela,
outras vidas,
em asas de dança,
encenem a colorida valsa
que, sapiens,
esquecemos de trançar.

Importa que venha a chuva,
e viajem as águas
sobre o rumo que traçam
a cada líquido passo.

Importa ainda o amor
e suas flores, suas águas
seus ridículos e rosas e doces tecidos
que teimam em ser,
queimando o ser
a cada primavera.

Miguel Torga faz um brinde aos Poetas

Aos Poetas

Miguel Torga

Nicolas Poussin (1594-1665) S Inspiração do Poeta - Óleo s/ tela, - C.1630 - 182.5 x 213 cm - Museu do Louvre, Paris

Nicolas Poussin (1594-1665) Inspiração do Poeta - Óleo s/ tela, - C.1630 - 182.5 x 213 cm - Museu do Louvre, Paris

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós, desde o tempo de Esopo conhecidos…
Nós,
Preguiçosos insetos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar!

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpítam.
Asas que morrem mas que ressuscitam
Da seputura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

MiguelTorga2007Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!

Do livro Odes – 4ª edição – edição do autor, s.d.

Ler mais sobre Miguel Torga: aqui, aqui e aqui

Nobel de Literatura 2009

Herta_Muller

Herta Müller nasceu em Niţchidorf, filha de agricultores da Suábia. Ela estudou Literatura alemã e romênia na Universidade de Timişoara. Sua família era parte da minoria alemã da Romênia e sua mãe foi deportada para um campo de trabalho na União Soviética, depois da Segunda Guerra Mundial.  Em 1976, Müller começou a trabalhar como tradutora para uma empresa de engenharia, mas foi demitida em 1979 por sua recusa em cooperar com a Securitate, polícia secreta do regime comunista de Nicolae Ceauşescu. Inicialmente, ela ganhava a vida como professora de um jardim de infância e com aulas particulares de alemão. Seu primeiro livro foi publicado na Romênia (em alemão) em 1982, e apareceu apenas em uma versão censurada, como ocorria com a maioria das publicações da época.

Em 1987, Müller foi para a Alemanha com o marido, o escritor Richard Wagner. Nos anos seguintes, ela atuou como lente em universidades da Alemanha e do exterior. Vive atualmente em Berlim. Müller foi recebida pela Academia Alemã de Literatura e Poesia, em 1995, e ganhou outros seguidos galardões. Em 1997, ela retirou-se do Pen Club da Alemanha, em protesto contra a fusão com a sua antiga filial da República Democrática Alemã.

Em julho de 2008, Müller enviou uma carta aberta à crítica Horia-Roman Patapievici, presidente do Instituto Cultural Romeno, em protesto ao apoio dado pela entidade a uma escola de verão romeno-alemã, que envolvia dois ex-informantes da Securitate.

A Fundação Nobel atribuiu o Prêmio Nobel da Literatura para Müller, “que, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos despossuídos”.

OCompromissoA escritora é praticamente desconhecida na língua portuguesa. Seu único livro publicado no Brasil é Heute wär ich mir lieber nicht begegnet, traduzido em inglês como The Appointment e aqui como O compromisso (Editora Globo, tradução Lya Luft). Este título ganhou o European Literature Prize. Em Portugal, foi publicado A Terra das Ameixas Verdes, pela editora Difel, e a editora Cotovia anuncia que colocará à venda, nos próximos dias, O Homem é um Grande Faisão sobre a Terra.

Bibliografia

(Os títulos foram vertidos livremente, uma vez que a maioria ainda não foi traduzida para o Português)

  • Niederungen, contos, versão censurada publicado em Bucareste, 1982.  Versão sem censura publicada na Alemanha, 1984. Publicado em Inglês como Nadirs (Nadires), em 1999.
  • Drückender Tango (Tango Opressivo), contos, Bucareste, 1984.
  • Der Mensch ist ein großer Fasan auf der Welt (O Homem é um enorme Faisão sobre o Mundo), Berlin 1986. Publicado em Inglês como The Passport, 1989.Publicado em Portugal como O Homem é um Grande Faisão sobre a Terra.
  • Barfüßiger Februar (Barefoot February, Fevereiro Descalço), Berlim, 1987
  • Reisende auf einem Bein (Viajando sobre uma Perna), Berlim 1989. Publicado em Inglês como Traveling on one Leg, 1992.
  • Wie Wahrnehmung sich erfindet (How Perception Invents Itself, Como a Percepção Inventa a si Mesma), 1990.
  • Der Teufel sitzt im Spiegel (The Devil is Sitting in the Mirror, O Diabo está sentado no Espelho), Berlin, 1991.
  • Der Fuchs war damals schon der Jäger (Even Back Then, the Fox Was the Hunter, A Raposa que Outrora foi o Caçador), Hamburgo, 1992.
  • Eine warme Kartoffel ist ein warmes Bett (A Warm Potato Is a Warm Bed, Uma Batata Quente é uma Cama Quente)), Hamburgo, 1992.
  • Der Wächter nimmt seinen Kamm (The Guard Takes His Comb, O Guarda Toma seu Pente), Hamburgo, 1993.
  • Angekommen wie nicht da (Arrived As If Not There, Chegar como Não Aqui), Lichtenfels, 1994.
  • Herztier (Coração Animal), Hamburgo, 1994. Publicado em Inglês como The Land of Green Plums, Nova Iorque, 1996. Editado em Portugal como A Terra das Ameixas Verdes.
  • Hunger und Seide (Hunger and Silk, Fome e Seda), ensaios, Hamburgo, 1995.
  • In der Falle (In a Trap, Em uma Armadilha), Göttingen, 1996.
  • Heute wär ich mir lieber nicht begegnet (Hoje, eu prefiro não me encontrar), Hamburgo, 1997. Publicado em Inglês como The Appointment; publicado em Português como  O Compromisso, Nova Iorque/Londres, 2001.
  • Der fremde Blick oder das Leben ist ein Furz in der Laterne (The Foreign View, or Life Is a Fart in a Lantern, A Visão Estrangeira ou a Vida é um Peido em uma Lanterna), Göttingen, 1999.
  • Im Haarknoten wohnt eine Dame (A Lady Lives in the Hair Knot, Em uma cabeleira mora uma dama), poesia, Hamburgo, 2000.
  • Heimat ist das, was gesprochen wird (Home Is What Is Spoken There, O lar é o que é falado ali), Blieskastel, 2001.
  • Der König verneigt sich und tötet (“The King Bows and Kills, O rei se Inclina e Mata), ensaios, Munique (e outros locais), 2003.
  • Die blassen Herren mit den Mokkatassen (The Pale Gentlemen with their Espresso Cups, O Homem Pálido com suas Xícaras de Café), Munique (e outros locais), 2005.

De deuses, flores e cores mesclados a carnes

Os deuses não falam com pedras e flores

Artur Alonso Novelhe

olympian

Nós comemos carnes vermelhas
enquanto a rapariga de fome morre

e o mármore é praça,
o centro um círculo para comemorar
as velhas batalhas.
Em seu inicio fora pedra cerimonial

Comemos carne
para que o ventre das mães
não fique sem alimento
dado os medíocres serem insaciáveis

e os deveis, por descuido, ausentes.

Os deuses nos falam no Livro das Homenagens

Enquanto o sol avança pelo meio das pedras altas
E ridos ficam os braços com frio
de aqueles que arriscaram conquistar
um túmulo dormido no mármore

e precisamos todavia dum refúgio certo ao alcance,
na penúltima coluna, no penúltimo lugar sacro,
por onde a luz no solstício penetra
desde as primeiras madrugadas

daí que quando precisemos certezas
inventemos, oculto, um ninho sem ramos

mas os Deuses não precisam de cores imaginarias
nem reparam no sentido, das ramas entrelaçadas
sobre os peitos das musas
que amaram a espécie humana

Nós bebemos seu cálice
sonhamos seu sonho realizarem
e depois ao despertar tão só resta do mesmo o orvalho
Eles não apaziguam nossa dor
nem precisam sacrifícios ordinários,
no altar o cordeiro e na vida a reta palavra.

Pode a escolha errar, mas nunca é inevitável,
apesar de no seu nome se acumulem os cadáveres

Vera Lúcia Kalahari elogia a carta anômima

O encanto da carta anônima

xxxxxEu gosto de receber cartas anônimas. Não tenho, como muita gente, horror às mesmas. Liga-me a elas uma profunda e viva simpatia. Porque o que é uma carta anônima? É, de algum modo, a voz que teme ou odeia. De qualquer maneira, uma voz amiga que previne. Porque ela dá-nos a certeza que não estamos sós. Que podemos contar, pelo menos, com os nossos inimigos. Ora vejamos: Não são os nossos inimigos os nossos amigos mais sinceros? Porque todos sabemos que nas horas difíceis, os amigos abandonam-nos, desaparecem… Os nossos inimigos, não. Acompanham  passo a passo a nossa vida. Vivem a nosso lado, hiantes… Como espiões… Vivem espiando todos os nossos movimentos, as garras prontas a agatanharem. Que em boa verdade, os inimigos sinceros são os nossos únicos amigos. Geralmente, calam as nossas boas qualidades,  para  apresentarem só os defeitos. E nós, só lucramos com isto, porque, realmente, os bons que só têm qualidades, nunca se governaram.. Ao passo que os defeitos, impõem sempre respeito. E nós podemos aproveitar a oportunidade para os corrigir, aqueles que nos interessa corrigir, como é obvio.

xxxxxE depois, o interesse, o tempo que perdem a saber da nossa vida… Já alguém teve um  amigo que se interessasse realmente por si?  Onde mora? O que faz? Com quem vive? Duvido… Mas estes outros, não. Até se dão ao cuidado de escrever cartas anônimas…Imaginem:. Na era da informática, quando já ninguém tem paciência para escrever à mão… Por nós, vejam bem, por nós, irem comprar um envelope… Papel… Selos… Ficarem ali sentados a pensarem, de caneta na boca, naquilo que vão escrever.Depois, saírem de propósito para irem ao correio mais próximo deitar a carta… Que consolador não é tudo isto para nós…

xxxxxA carta anônima é útil, sim senhor. Eu, por mim, acho-as interessantíssimas. E até bendigo a santa criatura que a escreveu, que tanto bem me quer.

xxxxxVejamos: A carta anônima para a mulher, a dizer que o marido a engana, poderá ser a melhor estratégia para o homem, se este não for parvo. Será como o sal na comida. Irrita, mas  depois de muita conversa, que,confessemos, em alturas destas os homens são muito convincentes, pode-se chegar à conclusão que há muita gente sem escrúpulos que perdem o seu tempo a escreverem coisas destas. E a mulher acredita e perdoa. E tal perdão é sempre uma pedra no charco no marasmo do casamento, traz uma  nova acção, outra novidade, a maior parte das vezes bem gostosa…

xxxxxA carta anônima para o homem, a dizer que não passa dum corno, tem as suas vantagens, sim senhor… Porque ou não sabia e ficou sabendo, ou já sabia e não se rala. Se o não sabia, foi um ótimo serviço, se o já sabia e não se rala até poderá exclamar, depois de a ler com um sorriso : “…Tão bem intencionado… coitado…”

xxxxxA carta anônima vale mesmo uma epopeia… Que venham mais…

xxxxxE pensar que há ainda quem abomine, as simpáticas, as maravilhosas cartas anônimas… Falta de gosto… (Vera Lúcia Kalahari)

Mercedes Sosa: adiós a la vida

Mercedes_Sosa

O site de Mercedes Sosa (http://www.mercedessosa.com.ar/), na Argentina, amanheceu com a seguinte notícia:

“Nesta data, na cidade de Buenos Aires, Argentina, temos que informar-lhes que a senhora Mercedes Sosa, a maior artista da música popular latino americana, nos deixou.
Haydé Mercedes Sosa nasceu no dia 9 de julho de 1935 na cidaden Miguel de Tucumán. Com 74 anos de idade e uma trajetória artística de 60 anos, ela transitou por diversos países do mundo, compartilhou cenários com inumeráveis e prestigiados artistas e  deixou, além disso, um enorme legado de gravações fonográficas.
Sua voz levou sempre uma profunda mensagem de compromisso social por meio da música de raiz folclórica, sem prejuízo de somar outras vertentes e expressões de qualidade musical.
Seu talento indiscutível, sua honestidade e suas profundas convicções deixam uma enorme herança para as gerações futuras. Admirada e respeitada em todo o mundo, Mercedes se constitui como um símbolo de nosso acervo cultural que nos representará por sempre e para sempre.
Talvez as palavras de sua grande amiga Teresa Parodi resumam o sentimento de muitos:

…Mercedes, salmo nos lábios

amorosa mãe amada

mulher da América ferida

tua canção nos põe asas e faz que a pátria toda

miudinha e desolada não morra todavia,

não morra porque sempre cantarás em nossas almas…

Seus restos serão velados no Salão dos Passos Perdidos, no Honorável Congresso da Nação, Avenida Rivadávia, 1864, a partir do meio dia de hoje. Sua familia, parentes e amigos agradecem profundamente o acompanhamento e o apoio expressado nestes dias.”

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes Sosa se tornou amiga de medalhões da MPB

O auge da popularidade de Mercedes Sosa no Brasil foi nas décadas de 1970 e 1980, quando se tornou amiga de medalhões da MPB, que chamaram a atenção para a sua importância e para a beleza contundente de seu canto. Amiga de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Fagner, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Beth Carvalho, Mercedes fez duetos em shows e gravações com vários deles. Numa de suas últimas vindas a São Paulo, em 2007, dividiu o palco com Maria Rita. Registrou em discos também canções de Vitor Ramil, Djavan, Marcos Valle e Kleiton Ramil.

Milton é o brasileiro mais presente no repertório da cantora, que também fez duetos históricos com ele em Volver a los 17 (Violeta Parra) e Sueño con Serpientes (do cubano Silvio Rodriguez). Em 1985, os dois dividiram o palco com o argentino León Gieco num grande show em Buenos Aires, que virou disco: Corazón Americano. Procurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, Milton, segundo sua empresária, não quis dar declarações por estar muito abalado com a morte da amiga.

Outros encontros marcantes de Mercedes com brasileiros foram com Beth Carvalho, em Solo le Pido a Diós (León Gieco) e com Fagner em Años (Pablo Milanés). Um compacto com O Cio da Terra (Chico Buarque/Milton Nascimento) e San Vicente (Milton/Fernando Brant) é outro registro que merece destaque.

“Éramos bastante amigas desde que vi um show dela no Scala, no Rio. Depois convidei-a para gravar em 1986. Foi uma gravação muito feliz, muito bonita”, lembra Beth Carvalho. Depois ela me convidou para fazer um espetáculo no Luna Park, em Buenos Aires, chamado Sin Fronteras, em 1988. Ela estabeleceu que era uma reunião das rainhas de cada lugar. Do Brasil fui eu, do México tinha Amparo Ochoa, da Venezuela foi uma outra. Foi muito lindo, eu encerrava o show com ela”, lembra Beth.

Em 1980, Mercedes gravou o álbum Ao Vivo no Brasil e em 1982 teve um outro disco montado só para o mercado brasileiro, Gente Humilde, puxado pela faixa-título de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Garoto. O álbum também incluía Viola Enluarada (Marcos/Paulo Sérgio Valle) e o dueto com Fagner em Años. Em 1986. ela fez uma participação no programa Chico & Caetano, da Rede Globo, cantando Volver a los 17, com os anfitriões mais Milton Nascimento e Gal Costa. O encontro saiu em CD numa coletânea brasileira.

Recentemente, Vitor Ramil, de quem Mercedes gravou Semeadura, a tinha convidado para participar de seu novo álbum, mas ela já estava doente. O produtor Ricardo Frugoli tinha um projeto de gravar um novo álbum de Mercedes no Brasil ainda este ano. “Seriam 14 canções, sete com cantores brasileiros consagrados e sete canções com cantores brasileiros de várias gerações com enorme talento e menor visibilidade”, conta Frugoli.

Mercedes também estaria no projeto que Beth Carvalho vem alimentando há anos, que se chama Beth Carvalho Canta as Músicas Revolucionárias Latino-Americanas. “Ela topou na hora quando falei desse projeto. Iria cantar com ela, com Silvio Rodríguez, cada um representante de cada lugar desse tipo de música, revolucionária, que acho linda. Queria fazer uma coisa grandiosa, gravar em Cuba. Mas eu vou fazer, pena que não vou ter mais a Mercedes.” (A.E.)

Mercedes canta Gracias a la Vida, de Violeta Parra,

Marilda, multicolorida, reclama do frio e clama pela Primavera

Primavera

Ipês do Alto São Francisco -Curitiba (foto de Lina Faria, 2009)

Ipê do Alto São Francisco – Curitiba (foto de Lina Faria, 2009)

(Não aguento mais esse tempo frio e chuvoso de Curitiba.
Cadê a primavera???? Marilda Confortin

Que me venha esse setembro
pleno de troncos e membros
e prima viril me devore
com sua boca de leão
e se demore onze-horas
cobrindo-me de amoras
amores e heras.

Que deveras venha
e que ainda tenha no olhar
um ar de cão sem dono
e uma fome de outono
a saciar.

E que traga tatuado
no peito
um amor-perfeito
para me dar.

Que me dê flores,
me deflore, dê lírios,
antúrios, beijos,
e me deguste agosto
da copa ao piso,
do riso ao choro
e sem decoro me decore
com cores de madressilva
e matize os meus seios
com entremeios de renda preta
e sobre o espartilho vermelho
derrame um copo-de-leite violeta.

Até mais, Walmor

Conheci Walmor Marcelino, que nos deixou na manhã de hoje, há mais de trinta, quarenta anos. Quando ele era um entusiasta teatrólogo, em uma época que Curitiba ainda era conhecida como uma espécie de Cemitério das Artes. Também conheci o jornalista ativo e ativista, o escritor e poeta, o utopista, sempre a defender, com veemência e extrema coerência, os seus pontos de vista. Podíamos até discordar dele, mas o respeitávamos inteiramente por sua honestidade intelectual.

Quando, há poucos anos, retornei a Curitiba, Walmor foi uma das primeiras pessoas que encontrei, em um domingo pela manhã, quando fazíamos compras no Mercado Municipal. Um papo descontraído e rápido — Onde você andava?E você, o que está fazendo? — mas era mais uma amizade recuperada, apesar dos anos de separação.

Mais recentemente, estivemos juntos em um encontro de poetas no Bar Stuart, junto com Manoel de Andrade, J.B. Vidal, Marilda Confortin, Vinicius Alves e o artista plástico Attila Wensersky. Em meio aos ruídos de palavras e música, ainda tivemos um momento de conversa paralela e trocamos informações para atualizar nossas vidas. Ele, então, me deu um CD com o texto do primeiro caderno de sua novela Ulciscor (“Não chega a ser ensaio, porque lhe falta o convencimento das origens: definir objeto, clareza expositiva, argumentação dialógica, pertencimento científico, ainda que insinue referências e pretenda indicar fatos. Não chega a ser ‘ficção’, porque a sua escritura, conquanto sobreleve pessoas e momentos, é de verificação basilar e a exponência narrativa não se dispõe inteiramente ao ficcional. Não é obra de história, porque os fatos organizados estão dispostos muitas vezes em algaravia e carentes de informações, com cortes e flashbacks ao sabor de um cruzeiro de memória e sentido. E como poderia este excerto de biografia analítica ainda assim despertar atenção e interesse dos leitores – amigos, confrades e consócios na reconstrução ideológico-política da realidade – constrangidas na ação e mais estendidos na comunicação de cada um, eu me socorro deste artifício, ademais me apresentando humilde conviva nesta sociedade do espetáculo”.

A última reunião com Walmor – Da esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Fonto de J.B. Vidal.

A última reunião com WalmorDa esquerda para a direita: Walmor Marcelino, Cleto de Assis, Marilda Confortin, Attila Wensersky e Vinicius Alves. Manoel de Andrade é aquele que não aparece, atrás de Attila. Foto de J.B. Vidal.

Walmor pretendia iniciar um diálogo com seus leitores/amigos sobre seu texto e, ao mesmo tempo, associar-se a eles na futura publicação da novela. Não sei a quantas andava seu projeto, até o momento em que nos deixa. Daquele texto retiro a epígrafe, uma frase de Seth Báratro: “Não tenho todo o tempo do mundo, mas quanto é esse tempo?”. Hoje Walmor Marcelino conseguiu medir, como todos nós faremos um dia, a dimensão do tempo que nos é dado para viver.

Faço a homenagem do Banco da Poesia com um texto de um amigo comum, Aramis Milarch (que deve estar na comissão de recepção a Walmor, lá do outro lado), publicado no dia 1º de maio de 1986. E, abaixo, um poema de sua lavra, que consta no texto de Ulciscor. C. de A.

Quem diria, Walmor Marcelino, um romântico?

walmor marcelinoJornalista dos mais atuantes na imprensa paranaense há 30 anos, merecedor da admiração e respeito pela coerência e honestidade de seus pontos de vista, de seu comportamento como homem e profissional, Walmor nunca foi de fazer concessões. Em 1964, poucas semanas após o golpe militar de 1º de abril, publicava um corajoso livro de poesias, cujo título já traduzia o nojo que sentia pela ditadura que começava no Brasil: Tempo de Fezes e Traições. Quase que simultaneamente, em outro livro crítico sobre o golpe dos militares (Sete de Amor e Violência), incluía um texto amargo, cruel e profundamente político sobre aqueles dias cinzentos.

Intelectual do maior gabarito, apaixonado pelo teatro e literatura, primeiro encenador a dar uma montagem realmente dialética e política a textos de Camus (Os Justos) e Jean Paul-Sartre (A Prostituta Respeitosa) nos palcos do Guaíra, ao mesmo tempo que se integrava ao então nascente Centro Popular de Cultura, defendendo uma política cultural destinada a levar a arte as camadas mais pobres, Walmor nunca deixou de fazer sua poesia. Uma poesia honesta, verdadeira – mas sempre voltada ao lado político, a razão, a reflexão – escondendo, assim, muitas vezes, o seu lado lírico, amoroso, suave –que também raros viram atrás de sua fisionomia séria, hostil aos chatos e inoportunos –inimigo claro dos coniventes com o poder.

Hoje, sem arredar um pé de suas convicções, mas por certo com a sabedoria que o virar da casa dos cinqüenta traz, nas 28 páginas de seu mais recente livro (Confabulário, Dom Quixote, Edição do Autor), deparamos, já na primeira página, com um Walmor otimista – a partir do próprio título do poema – Esperança .

xxxxEu não sei por que não somos
xxxxdesbravantes, caminheiros.
xxxxPassageiros da utopia
xxxxmãos dadas, companheiros

Em cada novo poema de Walmor Marcelino, há um encontro com uma sensibilidade extrema, que, anos atrás, não seria comum em ler em sua obra. Como neste Um Verso:

xxxxO verso ai
xxxxEu e tu, ai
xxxxNos cruzamos
xxxxBailando ao vento
xxxxO verso escreve
xxxxnão fala, ai
xxxxque nos amamos
xxxxUm verso vive só
xxxxo que pensamos
xxxxO verso vem depois
xxxxque nós vivemos

Walmor nunca buscou aplausos ou elogios em sua obra extremamente pessoal. Nunca se filiou a escolas ou gerações. Faz e trabalha a poesia como trabalha e age em sua vida: uma coerência extremamente pessoal. Possivelmente, não quer interpretações críticas a este seu Confabulário (aliás, nem há críticos em Curitiba para tanto). O que importa é que, a sua maneira, ele dá um recado de força, vigor e integridade poética – numa realização plena, trabalhando com as palavras como o melhor entalhador o faz com a madeira. Aramis Milarch

Walmor, segundo Marcelino

Político insciente, poeta menor, teatrólogo sem nomeada, promotor sem significância expressiva e “maestro” convicto de comunicações sociais e debates políticos, ainda que em difusos opúsculos, cadernos e livros de edição própria. Itinerário jornalístico: Diário da Manhã (SC), Correio do Povo (RS), Diário do Paraná (PR), Última Hora (PR), Tribuna da Luta Operária (BR). Presença em livros e peçasPoesia Quixote (Porto Alegre); no Paraná, Os Fuzis de 1894, Os Idos e os Ódios de Março (teatros); Fráguas, Mágoas e Maçanilhas (Travessa dos Editores), Toda a Poesia, Próximas Palvras (poesias); A Guerra Camponesa do Contestado, Contribuição ao Estudo da AP no Paraná (esboços críticos); etc.

Nós acrescentamos: extrema humildade, valor de um homem bom e grande.

Memorial

xxxxxxxxWalmor Marcelino

Memorial

Assim um estilete no ouvido
furando o pensamento
e seu fio de memória exposto
ao tempo. Fosse dor atravessada,
nunca no curso interrompida
e consecutiva; roída morte
movendo-se em corpo,
entropia perdida no espaço.
Perfurante itinerário
até a luz nascente das coisas
com a escuridão
de seus propósitos.