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A festa de Aramis

Marilene e Francisco Millarch, os anfitriões da festa e guardiões do precioso acervo de Aramis

Compareci ao evento de lançamento dos DVDs com entrevistas gravadas por Aramis Millarch ao longo de sua intensa carreira de investigador do fato cultural e de personalidades que produzem cultura (ver post abaixo). De certa forma, além de marcar um momento de intensa saudade de nosso amigo querido, o encontro foi como uma reunião ampliada das muitas que Aramis promovia, em sua residência ou no estúdio da rua 24 de maio, onde os ambientes foram batizados com nomes de personalidades escolhidas por seu coração. Marilene – sempre atenta ao trabalho de seu marido e gentil com os convidados –, e Francisco – que, desde cedo, acompanhou, com orgulho, a incessante caça de seu pai por pessoas e fatos que rodeavam as atividades culturais– comandaram a reunião, levada a efeito no pequeno auditório da Universidade Positivo.

Como nas antigas tertúlias, lá encontrei muitos amigos e conversamos fartamente sobre nosso companheiro comum. A mesa redonda programada foi transformda em uma sessão de depoimentos elogiosos à figura do homenageado. Nenhuma polêmica, uma única grande concordância: Aramis faz falta, ninguém ainda conseguiu substituí-lo na imprensa do Paraná, com aquele seu vigor, sua curiosidade, sua maneira otimista de ver a vida e os protagonistas de seus textos, apesar da visível ansiedade interior que também o marcava. Acertei, pois, no meu breve texto de ontem, quando dele lembrei exatamente sob o ângulo do Aramis insubstituível.

Hemínio Bello de Carvalho não veio a Curitiba. Na véspera, comunicou a Francisco que seu pavor pelas máquinas voadoras vencera a vontade de estar aqui para homenagear seu grande amigo. Mas a mesa estava poderosa: Maí Nascimento Mendonça, jornalista (e minha companheira em uma primeira mesa redonda realizada no Solar do Rosário, há alguns anos – juntamente com Dante Mendonça, seu marido, e Aroldo Murá Haygert – também sobre Aramis);  Elói Zanetti, publicitário, que lembrou o longo período em que ambos fizeram um programa inesquecível da rádio Ouro Verde, o famoso Domingo sem Futebol; Constantino Viaro, um dos primeiros a conhecer o Aramis jornalista, desde o dia em que ele foi contratado pelo jornal O Estado do Paraná, então com sua redação dirigida pelo também saudoso João Dedeus Freitas Neto, e Marden Machado, crítico de cinema, que eu ainda não conhecia, pois sua migração do Nordeste para Curitiba ocorreu em uma época em que eu estava ao desabrigo da sombra dos pinheirais. Marden recordou os esparsos mas assíduos encontros com Aramis nos festivais de cinema por este Brasil afora e, não sem tristeza, lembrou que sua vinda para Curitiba ocorreu exatamente no ano em que Aramis nos deixou, privando-os de um contato mais constante. Francisco interpolou comentários afetivos, comprovando ou acrescentando  detalhes aos depoimentos dos participantes da mesa.

A coleção: valeu a pena Aramis Millarch ter conversado com tanta gente

O material apresentado  é de primeiríssima qualidade. Ao amontoar dezenas, centenas de fitas de áudio e vídeo, ao lado, por cima e por baixo dos milhares de textos e publicações colecionados, Aramis talvez não imaginasse que seu trabalho teria um suporte tão bem acabado. São oito DVDs (portanto, horas e horas de gravação) com entrevistas e depoimentos de muita gente boa já falecida ou ainda atuante na vida cultural e social brasileira. Uma verdadeira relíquia, digna do talento e da tenacidade de Aramis, o segundo filhote do trabalho de preservação tomado pelas rédeas por sua família, uma vez que o poder público ainda não reconheceu devidamente a obra meritória de Aramis Millarch.(O primeiro rebento é o excelente site em sua homenagem, que preserva o seu valioso acervo, também obra de Francisco e Marilene: o Tablóide Digital , que lembra a coluna assinada por Aramis, durante muitos anos, n’O Estado do Paraná.)

Um pequeno livro encima a coleção, com projeto gráfico de Oscar Reisntein e direção de Arte de Oswaldo Miranda (Miran) E não podemos esquecer da ficha técnica completa, como fazia Aramis ao comentar os filmes que via e aconselhava. Além dos já mencionados, registra-se:

Organizadores
Samuel Ferrari Lago
Luiz Antonio Ferreira
Rodrigo Barros Homem d’El Rei

Equipe
Coordenação: Samuel Ferrari Lago
Fotos e ilustrações: Acervo Família Millarch
Fotos equipe: Paulo Lago
Revisão: Renata Sklaski
Consultoria: Francisco Millarch

Foi uma festa para se guardar no lado esquerdo do peito, como costumava dizer Aramis, assumindo os versos de Fernando Brant, musicados por Milton Nascimento.

Por último, a recordação da última foto que tiramos juntos. Foi em Brasília, em frente ao Kubitschek Plaza Hotel, quando fui visitá-lo, junto com Teresa e Pablo, por ocasião de uma de suas idas ao Festival de Cinema. Não lembro o ano exato,  mas ambos estávamos mais magros e menos grisalhos. Com certeza, no século passado…

A última foto

Mercedes Sosa: adiós a la vida

Mercedes_Sosa

O site de Mercedes Sosa (http://www.mercedessosa.com.ar/), na Argentina, amanheceu com a seguinte notícia:

“Nesta data, na cidade de Buenos Aires, Argentina, temos que informar-lhes que a senhora Mercedes Sosa, a maior artista da música popular latino americana, nos deixou.
Haydé Mercedes Sosa nasceu no dia 9 de julho de 1935 na cidaden Miguel de Tucumán. Com 74 anos de idade e uma trajetória artística de 60 anos, ela transitou por diversos países do mundo, compartilhou cenários com inumeráveis e prestigiados artistas e  deixou, além disso, um enorme legado de gravações fonográficas.
Sua voz levou sempre uma profunda mensagem de compromisso social por meio da música de raiz folclórica, sem prejuízo de somar outras vertentes e expressões de qualidade musical.
Seu talento indiscutível, sua honestidade e suas profundas convicções deixam uma enorme herança para as gerações futuras. Admirada e respeitada em todo o mundo, Mercedes se constitui como um símbolo de nosso acervo cultural que nos representará por sempre e para sempre.
Talvez as palavras de sua grande amiga Teresa Parodi resumam o sentimento de muitos:

…Mercedes, salmo nos lábios

amorosa mãe amada

mulher da América ferida

tua canção nos põe asas e faz que a pátria toda

miudinha e desolada não morra todavia,

não morra porque sempre cantarás em nossas almas…

Seus restos serão velados no Salão dos Passos Perdidos, no Honorável Congresso da Nação, Avenida Rivadávia, 1864, a partir do meio dia de hoje. Sua familia, parentes e amigos agradecem profundamente o acompanhamento e o apoio expressado nestes dias.”

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes com artistas brasileiros: Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa

Mercedes Sosa se tornou amiga de medalhões da MPB

O auge da popularidade de Mercedes Sosa no Brasil foi nas décadas de 1970 e 1980, quando se tornou amiga de medalhões da MPB, que chamaram a atenção para a sua importância e para a beleza contundente de seu canto. Amiga de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Fagner, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Beth Carvalho, Mercedes fez duetos em shows e gravações com vários deles. Numa de suas últimas vindas a São Paulo, em 2007, dividiu o palco com Maria Rita. Registrou em discos também canções de Vitor Ramil, Djavan, Marcos Valle e Kleiton Ramil.

Milton é o brasileiro mais presente no repertório da cantora, que também fez duetos históricos com ele em Volver a los 17 (Violeta Parra) e Sueño con Serpientes (do cubano Silvio Rodriguez). Em 1985, os dois dividiram o palco com o argentino León Gieco num grande show em Buenos Aires, que virou disco: Corazón Americano. Procurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, Milton, segundo sua empresária, não quis dar declarações por estar muito abalado com a morte da amiga.

Outros encontros marcantes de Mercedes com brasileiros foram com Beth Carvalho, em Solo le Pido a Diós (León Gieco) e com Fagner em Años (Pablo Milanés). Um compacto com O Cio da Terra (Chico Buarque/Milton Nascimento) e San Vicente (Milton/Fernando Brant) é outro registro que merece destaque.

“Éramos bastante amigas desde que vi um show dela no Scala, no Rio. Depois convidei-a para gravar em 1986. Foi uma gravação muito feliz, muito bonita”, lembra Beth Carvalho. Depois ela me convidou para fazer um espetáculo no Luna Park, em Buenos Aires, chamado Sin Fronteras, em 1988. Ela estabeleceu que era uma reunião das rainhas de cada lugar. Do Brasil fui eu, do México tinha Amparo Ochoa, da Venezuela foi uma outra. Foi muito lindo, eu encerrava o show com ela”, lembra Beth.

Em 1980, Mercedes gravou o álbum Ao Vivo no Brasil e em 1982 teve um outro disco montado só para o mercado brasileiro, Gente Humilde, puxado pela faixa-título de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Garoto. O álbum também incluía Viola Enluarada (Marcos/Paulo Sérgio Valle) e o dueto com Fagner em Años. Em 1986. ela fez uma participação no programa Chico & Caetano, da Rede Globo, cantando Volver a los 17, com os anfitriões mais Milton Nascimento e Gal Costa. O encontro saiu em CD numa coletânea brasileira.

Recentemente, Vitor Ramil, de quem Mercedes gravou Semeadura, a tinha convidado para participar de seu novo álbum, mas ela já estava doente. O produtor Ricardo Frugoli tinha um projeto de gravar um novo álbum de Mercedes no Brasil ainda este ano. “Seriam 14 canções, sete com cantores brasileiros consagrados e sete canções com cantores brasileiros de várias gerações com enorme talento e menor visibilidade”, conta Frugoli.

Mercedes também estaria no projeto que Beth Carvalho vem alimentando há anos, que se chama Beth Carvalho Canta as Músicas Revolucionárias Latino-Americanas. “Ela topou na hora quando falei desse projeto. Iria cantar com ela, com Silvio Rodríguez, cada um representante de cada lugar desse tipo de música, revolucionária, que acho linda. Queria fazer uma coisa grandiosa, gravar em Cuba. Mas eu vou fazer, pena que não vou ter mais a Mercedes.” (A.E.)

Mercedes canta Gracias a la Vida, de Violeta Parra,