Vida, Paixão e Morte de César Vallejo

César Vallejo, por Pablo Picasso - 1938

A poesia de César Vallejo, até onde consegui conhecê-la,  me parece dividida entre o culpar a sociedade pelas injustiças sociais e o assumir culpas produzidas por excessiva educação religiosa. Conta sua biografia que, membro de uma família com doze filhos, dos quais ele era o menor, estaria destinado a ser padre, o que era ou é comum nas famílias católicas da América Latina, em especial nos países hispanos, onde a tradição religiosa sempre foi mais arraigada. Ele mesmo teria admitido essa vocação, em sua infância, e deve ter recebido profunda influência no conhecimento bíblico e de toda a liturgia de sua crença, tanto que seus textos poéticos seriam, mais tarde, impregnados por essa mística, além do tema obsessivo da Vida e da Morte.

Vallejo viveu as contradições da sociedade européia da primeira metade do Séc. XX, contaminada e desgastada por duas grandes guerras e por acaloradas discussões ideológicas, notadamente pelo marxismo que organizara a União Soviética. Participou, como correspondente, dos conflitos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o que lhe serviu até mesmo como inspiração poética.

Sua vida e obra bem demonstram que seus principais conflitos foram existenciais, dividido entre uma santidade que seus pais haviam presumido para ele e a revolta ante a injustiça social, que o levou a extremos caminhos políticos. Entretanto, dentro dele viveu um homem íntegro e um poeta completo. Talvez não tenha visto a realização do que sua esperança desenhava como um mundo diverso daquele que testemunhava em vida, mas com certeza tornou o mundo melhor com sua poesia. C. de A.

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Dados biográficos

César Vallejo nasceu em 1892, em Santiago de Chuco, região andina localizada ao norte do Perú, no seio  de uma família com origens espanholas e indígenas. Desde pequeno conheceu a miséria, mas conheceu o benévolo o afeto familiar. Longe de sua família, nunca escondeu que sofria de um incurável sentimento de orfandade.

Estudou na Universidade de Trujillo, cidade onde descobriu a boemia, influenciado por jornalistas, escritores e políticos rebeldes. Em Trujillo, Vallejo publicou seus primeiros poemas antes de chegar a Lima no final de 1917. Nesta cidade lança seu primeiro livro: Los Heraldos Negros (impresso em 1918, lançado em 1919), um dos mais representativos exemplos de pós-modernismo.

Casa de Vallejo, em Santiago de Chuco, Perú

Em 1920 faz uma visita a sua cidade natal e acaba se envolvendo em confusões que o levaram a cadeia, onde permaneceu por cerca de três meses. Esta experiência teve uma profunda influência em sua vida e em sua obra, refletindo diretamente em vários poemas de seu segundo livro, Trilce (1922), considerada como uma obra fundamental da renovação da linguagem poética hispanoamericana. Em Trilce Vallejo se afasta dos modelos tradicionais que, até então, havia seguido, adotando uma linha mais modernista e realizando um angustiante e desconcertante mergulho nos abismos da condição humana, que nunca antes haviam sido explorados.

No ano seguinte parte para Paris, onde permanecerá (fazendo algumas viagens a União Soviética, Espanha e outros países europeus) até o fim de seus dias. Em París, viveu em extrema pobreza e grande sofrimento físico e moral. Participa com amigos como Huidobro, Gerardo Diego, Juan Larrea e Juan Gris de atividades de cunho vanguardista, renunciando a sua própria obra Trilce e, em 1927, aparece firmemente comprometido com o marxismo em sua atividade intelectual e política. Escreve artigos para jornais e revistas, peças teatrais, relatos e ensaios de intenção propagandistas, como Rússia, em 1931. Inscrito no Partido Comunista da Espanha (1931) e designado para ser correspondente, acompanha os acontecimentos da Guerra Civil e escreve o
seu poema mais político: España, aparta de mi este cáliz, que aparece em 1939, impresso por soldados do exército republicano.

Toda a obra poética escrita em Paris e que Vallejo publicou parcamente em diversas revistas, apareceria postumamente naquela cidade com o título: Poemas Humanos (1939). Nesta produção é visível seu esforço em superar o vazio e o niilismo de Trilce
e em incorporar elementos históricos e da realidade concreta (peruana, européia, universal) com os que pretendem manifestar uma apaixonada fé na luta dos homens pela justiça e solidariedade social.

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Los Heraldos Negros / César Vallejo

Hay golpes en la vida, tan fuertes … ¡Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma… Yo no sé!

Son pocos; pero son… Abren zanjas obscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán talvez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre… Pobre… pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes… Yo no sé!

Grafismo sobre gravura de Albrecht Dürer

Os Arautos Negros

Há golpes na vida, tão fortes … Eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles,
a ressaca de todo o sofrido
se empossara na alma… Eu não sei!

São poucos; mas são… Abrem valas obscuras
no rosto mais feroz e no dorso mais forte.
Serão, talvez, os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.

São profundas quedas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.

E o homem… Pobre… pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei!

Epístola a los Transeuntes / César Vallejo

Reanudo mi día de conejo
mi noche de elefante en descanso.

Y, entre mi, digo:
ésta es mi inmensidad en bruto, a cántaros
éste es mi grato peso,
que me buscará abajo para pájaro
éste es mi brazo
que por su cuenta rehusó ser ala,
éstas son mis sagradas escrituras,
éstos mis alarmados compañones.

Lúgubre isla me alumbrará continental,
mientras el capitolio se apoye en mi íntimo derrumbe
y la asamblea en lanzas clausure mi desfile.

Pero cuando yo muera
de vida y no de tiempo,
cuando lleguen a dos mis dos maletas,
éste ha de ser mi estómago en que cupo mi lámpara en pedazos,
ésta aquella cabeza que expió los tormentos del círculo en mis pasos,
éstos esos gusanos que el corazón contó por unidades,
éste ha de ser mi cuerpo solidario
por el que vela el alma individual; éste ha de ser
mi hombligo en que maté mis piojos natos,
ésta mi cosa cosa, mi cosa tremebunda.

En tanto, convulsiva, ásperamente
convalece mi freno,
sufriendo como sufro del lenguaje directo del león;
y, puesto que he existido entre dos potestades de ladrillo,
convalesco yo mismo, sonriendo de mis labios.

Epístola aos Transeuntes

Reinicio meu dia de coelho
minha noite de elefante em descanso.

E, entre mim, digo:
esta é minha imensidade em bruto, a cântaros
este é meu grato peso,
que me buscará abaixo para pássaro
este é meu braço
que por sua conta recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus alarmados testículos.

Lúgubre ilha me alumbrará continental,
enquanto o capitólio se apoie em meu íntimo desmoronamento
e a assembleia em lanças enclausure meu desfile.

Porém quando eu morra
de vida e não de tempo,
quando cheguem a duas minhas duas maletas,
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou por unidades,
este há de ser meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo onde matei meus piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa horripilante.

No entanto, convulsiva, asperamente e
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que existi entre duas potestades de obstinação*,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.

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NT – Percebi que, em algumas versões ao Português deste poema, o termo ladrillo foi traduzido literalmente por tijolo. Entretanto, o vocábulo tem outras acepções, em Espanhol, como coisa pessada ou aborrecida (quase equivalente a chatice em Português) ou, então, em termo regional peruano, qualidade de pessoa muito trabalhadora e estudiosa. Como não podemos saber, hoje, a exata intenção do poeta ao usar o termo, preferi, quase intuitivamente, utilizar uma idéia mais ligada a sentimentos, pois é disto que trata o poeta em seus versos.

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El entierro del poeta / Luis Rogelio Nogueras*

A Víctor Casaus

Dijo de los enterradores cosas francamente
impublicables.
Blasfemaba como un condenado
y a sus pies un par de águilas lloraban pensando
en las derrotas.
En el entierro estaba Lautréamont,
yo lo vi desde mi puesto en la cola:
dejaba el sombrero al borde de la tumba
y cantaba algo triste y oscuro
(lloraba honradamente, ya lo creo, y los
caballos devoraban higos en silencio).
Hubo discursos,
sonrisitas de Rimbaud junto a la cruz,
paraguas abiertos a la lluvia como
a él le hubiera gustado.
Hubo más:
hubo viernes y
canciones funerarias,
palomas que volaban sin sentido, como niños,
versos oscuros,
la hermosa voz de Aragón,
suicidios deportivos de Georgette y nunca más
y hasta siempre.
A la hora más triste del asunto
no quería bajar porque decía que allí estaba
oscuro.
Pero estaba muerto y hubo que bajarlo.
Los sombreros abandonaron las cabezas,
se alzaron copas, adioses, letreros de nunca te
olvidamos.
(Un joven poeta a mi derecha le mesaba las
rodillas a la muerte).
Lo bajaron.
Se aplaudió en forma delirante;
la gente corría como loca asumiendo lo grave
del momento.
Lo bajaban.
Las mujeres lloraban en silencio
porque bajaban las águilas, los sueños, países
enteros a la tierra.
Se intentó una última sentencia:
Nerval se acercó con una tiza y escribió con
letra temblorosa:
Su cadáver estaba lleno de mundo.
Desde el fondo, Vallejo sonreía sin descanso
pensando en el futuro,
mientras una piedra inmensa le tapaba el
corazón y los papeles.

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* Poeta cubano (14.11.1944 – 06.07.1985)


O enterro do poeta

A Víctor Casaus

Disse dos coveiros coisas francamente
impublicáveis.
Blasfemava como um condenado
e a seus pés um par de águias choravam pensando nas derrotas.
No enterro estava Lautréamont,
eu o vi desde meu possto na fila:
deixava o chapéu na borda da tumba
e cantava algo triste e obscuro
(chorava honradamente, isso eu creio,
e os cavalos devoravam figos em silêncio).
Houve discursos,
risadinhas de Rimbaud junto à cruz,
guarda-chuvas abertos à chuva como ele teria gostado.
Houve mais:
houve indulgências e canções funerárias,
pombas que voavam sem sentido, como crianças,
versos obscuros,
a formosa voz de Aragón,
suicídios desportivos de Georgette
e nunca mais e até sempre.
Na hora mais triste do assunto
ele não queria baixar porque dizia que ali estava escuro.
Mas estava morto e houve que baixá-lo.
Os chapéus abandonaram as cabeças,
levantaram-se taças, adeuses, faixas de nunca te esquecemos.
(Um jovem poeta à minha direita arrancava os
joelhos da morte.)
O baixaram.
Aplaudiu-se em forma delirante;
as pessoas corriam como loucas, assumindo o grave
do momento.
O baixavam.
As mulheres choravam em silêncio
porque baixavam as águias, os sonhos, países
inteiros à terra.
Tentou-se uma última sentença:
Nerval se proximou com um giz r escreveu com
letra tremida:
Seu cadáver estava pleno de mundo.
Lá no fundo, Vallejo sorria sem descanso
pensando no futuro,
enquanto uma pedra imensa lhe tapava o
coração e os papéis.

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Masa / César Vallejo

Al fin de la batalla,
y muerto ya el combatiente, vino hacia él un hombre
y le dijo: “No mueras, te amo tanto!”
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.

Se le acercaron dos y repitiéronle:
“No nos dejes! ¡Valor! ¡Vuelve a la vida!”
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.

Acudieron a él veinte, cien, mil, quinientos mil,
clamando: “¡Tanto amor y no poder nada contra la muerte!”
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.

Le rodearon millones de individuos,
con un ruego común: “¡Quédate, hermano!”
Pero el cadáver ¡ay! siguió muriendo.

Entonces, todos los hombres de la tierra
le rodearon; les vió el cadáver triste, emocionado;
incorporóse lentamente,
abrazó al primer hombre; echóse a andar…

Massa

Ao fim da batalha,
e morto já o combatente, veio até ele um homem
e lhe disso: “Não morras, amo-te tanto!”
Mas o cadáver, ai, seguiu morrendo.

Acercaram-se-lhe dois e repetiram:
“Não nos deixeis! Ânimo! Volta à vida!”
Mas o cadáver, ai, seguiu morrendo.

Acorreram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: “Tanto amor e não poder nada contra a morte!”
Mas o cadáver, ai, seguiu morrendo.

Rodearam-lhe milhões de indivíduos,
com um rogo comum: “Fica, irmão!”
Mas o cadáver, ai, seguiu morrendo.

Então, todos os homens da terra
o rodearam; viram o cadáver triste, emocionado;
incorporou-se lentamente,
abraçou o primeiro homem; pôs-se a andar…

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Versão em Português: Cleto de Assis

Desabafo d’além mar

Vera Lúcia Kalahari, nossa correntista de duas pátrias – Portugal e Angola – faz seu desabafo sobre a atual situação política e econômica de Portugal, em um texto a que chamou Crônica do nosso descontentamento. Quase no epicentro da crise econômica da União Europeia, a pátria lusa compõe, com mais quatro países, o grupo problemático curiosamente chamado de PIGS: Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain em inglês). O acrônimo foi criado pela imprensa britânica e, por vezes, inclui também a Irlanda. A situação econômica agravou-se nas primeiras semanas de 2010 e criou  excessivos níveis de endividamento em alguns países da UE, com reflexos danosos para a saúde do euro, principalmente na Irlanda e da Grécia a Portugal, Espanha e Itália.

Mas há, em Portugal, intensa discussão sobre a situação política e social comandada pelo primeiro ministro e presidente do Partido Socialista, José Sócrates, com retumbância no parlamento português, já que Portugal é um país parlamentarista. Clique aqui e leia a crônica de Vera.

Exposição Zimmermann & Lipmann

Artur Alonso Novelhe diz o que é Poesia

Novo depoimento recebido. Desta vez é de Artur Alonso Novelhe, da Galícia – Espanha, correntista do Banco da Poesia. Leia sua opinião aqui.

Mulheres aquareladas de Murilo Mendes

Aquarela / Murilo Mendes

Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,
o mundo parece que nasceu agora,
mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,
talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas
pra namorar o sol, garotos jogam bola.
A baía arfa, esperando repórteres…
Homens distraídos atropelam automóveis,
acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,
meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,
estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos
saídos do banho e pensam longamente na forma
do vestido de noiva: que pena não ter decote!
Arrastarão solenemente a cauda do vestido
até a alcova toda azul, que finura!
A noite grande encherá o espaço
e os corpos decotados se multiplicarão em outros.

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Ilustração: C. de A.

O que é Poesia — mais três depoimentos

Mais três correntistas do Banco da Poesia encaminharam depoimentos sobre para a mnossa página especial de aniversário. Leia aqui.

Nova crônica: O Poder do X

Postei nova crônica na página apropriada. Divagações político-filológicas para suavizar o cenário eleitoral. Pequena diversão para mim, talvez para os leitores do Banco.

Leia aqui.

Flores silvestres de Lina

Minha amiga Lina Faria é, sem dúvida alguma, uma artista da imagem fotográfica. Já escrevi sobre ela no Banco da Poesia, já “poetei” sobre suas fotos sempre inspiradoras. Ela tem a capacidade de gravar o simples, aquilo que as pessoas em geral não percebem a seu redor. Os bons fotógrafos, eternizadores do instante, do momento quase invisível aos olhos das pessoas comuns, têm a capacidade de fazer, na vida que corre, o corte do tempo infinitamente pequeno, porém enorme na beleza.

Do seu blog Não Lugar, retirei uma foto de flores rasteiras. Quase grudadas no chão. Expostas ao espezinho imediato. Mas, como parte do encanto telúrico, sempre vivas, sempiternas.

Foto Lina Faria

É o chão, mas poderia ser o universo,
chão inverso, onde nascem estrelaflores.
É o chão, cantochão, canto da terra, florescência permanente.
Veja, elas estão a brincar, embora aparentemente imóveis.
Trocam piscadelas, suspiros, ilusões, alusões, confidências.
Violetam-se sem violentar-se, cada qual com sua áurea íntima.
Não importa se, de repente, uma passada errante as pisotear,
aplastando-as e transformando-as em massa orgânica
para adubar a cama onde nasceram.
Um dia elas foram o cosmo, com estrelas brancas
em suas carinhas risonhas,
como almas vigilantes
e de perene beleza.

Cleto de Assis/março 20010

Amanhã tem Dante no Passeio Público

A edição é da  Bernúncia Editora, de Florianópolis, do nosso amigo Vinicius Alves.

E chegamos ao dia 12 de março de 2010

Há exatamente um ano, apertei o comando publicar na área de administração do novo blog, nascido da vontade de colaborar com a divulgação da Poesia. Apresentado sob a forma de um poema, o Banco da Poesia partia de um capital em branco para tentar acumular, ao longo do tempo, em suas projeções de lucros, o tesouro inestimável da comunicação e da sensibilidade humana.

Por isso, caros senhores,
vamos fundar nosso banco:
não obrará em vermelho
mas ainda está em branco.
Trabalhará vanguardeiro
sem pensar só em dinheiro
neste tempo de consumo.
E terá como seu prumo
a palavra desprezada
pelos praxistas do dia.

Hoje, ao fazermos o nosso primeiro balanço anual, notamos que passamos todo o tempo da crise financeira mundial sem contabilizar prejuízos. Ao contrário, os correnstistas foram crescendo e, juntamente com nomes já consagrados na história da literatura, novos poetas foram se juntando, pouco a pouco, em torno da idéia de comemorar permanentemente a boa poesia. Que, em resumo, assume a gratíssima missão de fazer fluir os melhores ideais de busca da beleza e do contínuo aperfeiçoamento espiritual.

Seja a Poesia lapidada por pensamentos sublimes, seja fortemente talhada por dores e desilusões, o certo é que ela abre a alma das pessoas e aponta para a harmonia do espírito. Assim é a Arte, assim todas as artes.

Por sorte minha, de forma espontânea, o querido amigo e poeta Manoel de Andrade amenizou as minhas preocupações de prestador de contas obrigado a um balanço anual, mandando-me um artigo minucioso que mostra o panorama que se desenhou ao longos destes doze meses. Ver abaixo.

De minha parte, olhando para o que passou, concluo que valeu a pena. Sem alarde, divulgando o blog primeiramente entre os amigos, depois recebendo adesões espontâneas de outras cidades, estados e de outros países, alargamos o nosso círculo de amizades. Nos primeiros seis meses, contabilizamos uma média de 40 visitações diárias. Nos últimos seis meses, a média subiu para 100 e continua aumentando a cada dia que passa. Ainda é pouco, diante dos gigantecos números da Internet, mas consideremos que o tema escolhido não é dos mais populares. E é exatamente para isso que estamos a trabalhar: para fazer da Poesia um hábito rotineiro na vida das pessoas. Um dia a gente chega lá.

Para comemorar o primeiro ano, procurei reunir um bom grupo de colaboradores em uma página especial. Fiz a eles um simples convite: para você, O que é a Poesia? (clique nos links anteriores ou no título do menu à direita)

Quase todos os convidados mandaram suas colaborações ainda em tempo para podermos soprar a velinha. Outros se excusaram e prometeram enviar suas palavras em seguida, Como estamos em uma ambiente virtual, não há portas inteiramente fechadas e, assim, todas as colaborações poderão ser publicadas a qualquer tempo.

Agradeço aos amigos, colaboradores e visitantes  a confiança e o permanente incentivo a este trabalho. (C. de A.)

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Minha Aldeia

Manoel de Andrade/Curitibaxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Há um ano o Banco da Poesia abriu suas portas honrando-me com o crédito do primeiro depósito.  Quero pedir licença ao seu editor para chamar –  dramatizando meu enredo neste texto –, essa bela instituição pelo mágico nome de Aldeia da Poesia. Na verdade, é com essa imagem, poética e despojada, que eu sinto este site. E é pra esse recanto que  viajo todo dia.

É também minha Pasárgada, onde, literalmente, sou amigo do rei. Gosto de andar, pra cima e pra baixo, ao longo desse território virtual  de líricas alamedas,   galerias de arte,  parques e jardins construídos genialmente com formas e cores cletianas e densamente povoado de versos.

Ao longo deste ano quase uma centena de poetas ali chegaram para ficar. Pela leitura e pelos traços biográficos, já conheço a todos. Quero citar aqui os seus nomes e desde já peço perdão por minhas palavras não poderem  se referir a cada um, diante de tanta qualidade literária.

Minha renovada alegria é estar convivendo nessa aldeia com tantos amigos fraternos: Cleto, Vidal, Walmor, Marilda, Hélio, Simões, João Batista, Solivan, Débora O’Lins

Sob as luzes da memória, em seus caminhos   transitam  Neruda, Garcia Lorca, Fernando Pessoa e Benedetti e os  nossos  Castro Alves, Gregório de Matos, Vinícius, Drummond, Quintana, Augusto dos Anjos, Ferreira Gullar. Mais adiante  me  surpreendo com a presença de Otávio PazEmily DickinsonAntonio Machado e, mais ao longe, vejo com tristeza Alfonsina Storni caminhando solitária para o mar.

Retomo outros caminhos dessa Aldeia, atravesso seus jardins  e vejo sob um caramanchão quatro poetas que falam e gesticulam. São eles e elas:  Verlaine e Cora Colalina e, no  banco em frente,  Helena Kolody e Baudelaire. A poucos metros,  numa tenda com bom vinho português,  confraternizam  Miguel Torga, Antonio GedeãoAgostinho da Silva, José Dias Egipto, Eugênio de Andrade e Sophia Andressen.

Detenho-me, aqui e ali, “ouço” seus versos e sigo adiante  porque quero conhecer a todos. Chego a um pequeno bosque, frondoso e perfumado  onde se reúnem tantas nacionalidades da poesia e ali ganho meu dia.  São os  que vieram de além mar: Vera lúcia Kalahari, amiga querida que só conheço na saudade e na distância de Angola e Portugal; o grande Mia Couto, de Mocambique;  Sarah Carrère, do Senegal, que conheci recentemente;  Crisódio Araujo, Fernando Sylvan, José Barros Duarte, Jorge Lanten, Ruy Cinatti e Sophia Andressen, essa pleiade de ótimos poetas que enriquecem a literatura do Timor; e, bem assim,  Armênio Vieira e Corsino Fortes de Cabo Verde; e também Emmelie Prophète e Rodney Saint-Eloi, do Haiti.

Vem da poética Espanha os cantos  de Francisco Cenamor e Artur Alonso. Da pátria de Goethe, de Schiller e de Hölderlin chegam os versos de Herman Hesse e da lendária Bagdá, a poesia de Dunya Mikail.

Os hispano-americanos estão chegando e aqui já estão  Vicente Gerbasi, da Venezuela, e Guadalupe Amor, do México,  Álvaro Miranda, da Colômbia e Tejada Gomez, da Argentina, além da quase mitica mexicana Sóror Juana de La Cruz.

Há, nessa aldeia,  um nicho construído pela  saudade e pela esperança de um soldado russo que partiu para a guerra. Espera-me,   escreveu comovido  Konstantin Simonov à  sua amada. Creio ser um dos mais belos poemas,  nesse rastro de belezas que encontro nessa aldeia, e que Hélio do Soveral genialmente imortalizou na língua portuguesa.

No fundo de um vale há uma pequena pedreira disposta de forma circular, formando, naturalmente,  um teatro de arena. Chego até lá e encontro poetas brasileiros de todas as partes do país para um grande  festival de poesia. Sou um dos convidados para partilhar meus versos com   Maurício Ferreira, Isaias de Faria, Rafael Nolli, Saramar Mendes de Souza, Anair Weirich, Raul Pough, Erly Welton, José Marins, Luiz Adolfo Pinheiro, Murilo Mendes, Domingos Pellegrini, Oswald de Andrade, Juca Zokner, Oscar Alves, Iriene Borges, Mauricio Ferreira, Cássio Amaral, Rafael Nolli e possivelmente mais alguns que ainda não encontrei por aqui.

Esta a Minha Aldeia, já global pela magia tecnológica, mas ainda acolhedora e solidária pela graça da Poesia.

Curitiba- março de 2010