Como ressurgir das cinzas, por Marilda

Fênix

Fênix
Engana-se quem pensa que não amo.
É que quando amo, não componho.
Ponho-me em estado de estupor,
como num sonho.
Sou um mata-borrão
que absorve a emoção do universo.
Nenhum verso escapa.
Inflo. Flutuo.
Vago prenha de extrato de poesia abstrata.
Mas, cuidado!
A embalagem é frágil.
Basta um só arranhão
para que eu rompa e me desmanche
em palavras duras e concretas.
Antes de cair, choro.
Vazo pelos poros.
Chovo.
Encho jarros de poemas desconexos.
Depois, espremo o coração até que rache
e da brecha, verta o veneno da raiva.
Ferida, torno-me nociva, peçonhenta.
Assumo: ninguém me aguenta.
Sumo.
Trato-me do meu jeito.
Rejeito antídotos e corpos estranhos.
Entranho-me pela fenda
e dreno meu próprio pecado.
Desbasto-me até que o cerne fique exposto.
Hiberno para que meu inferno queime o rosto.
Daí espero a primavera e renasço
inteira para um novo amor.

__________________

Veja mais poemas de Marilda Confortin neste blog. Clique em seu nome, no quadro de tags, ao lado. Ou vá até Iscapoética.

Ilustração: C. de A.

António Botto a Fernando Pessoa

À memória de Fernando Pessoa

xxxxxxxxxxAntónio Botto

antonio_botto2Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão –
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida – esta boêmia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo…
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
– Autênticos patifes bem falantes…
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver –
Sem estímulo, sem fé, sem convicção…
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar –
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

_______________________

António Tomás Botto (Concavada, Abrantes, 17 de Agosto de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) foi um poeta português.

A sua obra mais conhecida, e também a mais polêmica, é o livro de poesia Canções que, pelo seu caráter abertamente homossexual, causou grande agitação nos meios religiosamente conservadores da época. Foi amigo pessoal de Fernando Pessoa, que traduziu em 1930 as suas Canções para inglês, e com quem colaborou numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos. Homossexual assumido (apesar de ser casado com Carminda Silva), a sua obra reflete muito da sua orientação sexual e no seu conjunto será, provavelmente, o mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa. Morreu atropelado em 1959 no Brasil, para onde se tinha exilado
para fugir às perseguições homófobas de que foi vítima, na mais dolorosa miséria. Os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, em 1966. (Wikipédia)

Os caminhos de Antonio Machado

MachadoAntonio Machado, dramaturgo e poeta espanhol, fez parte do movimento literário conhecido como Geração do 98 (Generación del 98), que reuniu escritores, ensaístas e poetas espanhóis afetados pela crise moral, política e social vivida pela Espanha após a derrota militar na Guerra Hispano-Americana e a conseguinte perda de Porto Rico, Cuba e as Filipinas, em 1898. Todos os intelectuais reunidos neste grupo nasceram entre 1864 e 1875.

Machado nasceu em Sevilha a 26 de julho de 1875 e logo foi viver e estudar em Madri. Em 1893 publicou seus primeiros escritos em prosa e seus primeiros poemas apareceram em 1901.

Viajou a Paris en 1899, cidade que voltou a visitar em 1902, ano em que conheceu Rubén Darío, de quem se tornou grande amigo durante toda sua vida e que foi seu introdutor no movimento modernista. Em Madri, na mesma época, conheceu Miguel de Unamuno, Valle-Inclán, Juan Ramón Jiménez e outros destacados escritores, com os quais manteve estreita amizade. Foi catedrático de Francês e se casou com Leonor Izquierdo, falecida em 1912. Em 1927 foi eleito membro da Real Academia Espanhola da Língua.

Durante os anos vinte e trinta escreveu peças de teatro em parceria com seu irmão Manuel, também poeta, encenando várias obras. Quando estalou a Guerra Civil espanhola, estava em Madri.

O movimento pelo qual começou sua vida literária era modernista, Mas ele seguiria um caminho próprio, de depurada simplicidade. Principalmente em sua poesia, o destaque é a natureza do homem e sua interioridade, onde busca a origem de suas ações e paixões. Seus versos mais conhecidos e que se popularizaram como adágio universal, (Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar…) fazem parte de uma coleção de cantos poéticos denominada Proverbios y Cantares com 53 estâncias. Suas principais obras: PoesiaSoledades, 1903; Campos de Castilla, 1912; Nuevas Canciones, 1925; La Guerra, 1938. TeatroDom Juan de Mañara, 1927; La Prima Fernanda, 1929; La Lola se va a los Puertos, 1929; La Duquesa de Benamejí, 1931.

Já nos anos finais de sua vida, se mudou para a Valencia e Barcelona e, em janeiro de 1939, se exilou na cidade francesa de Colliure, onde morreu, a 22 de fevereiro.

Por ser um expressivo texto sobre o autor, publicamos, abaixo, um artigo do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho e, a seguir, uma seleção de poemas de Machado.

_____________________

Poesias de Antonio Machado — Poucas obras poéticas são dignas do nosso amor como a do espanhol Antonio Machado (1875-1939). Cabe num pequeno volume, e é do tamanho do mundo. Ali estão os problemas da metafísica ocidental e oriental, a fé e a dúvida, as paixões e a sabedoria, o sentido do tempo e da eternidade, tudo comprimido em versos de uma simplicidade fulgurante, cuja perfeição ninguém sabe dizer se é musical ou geométrica.

Don Antonio viveu humildemente num quarto de pensão e morreu num quarto de hotel, fugindo da polícia política sem jamais ter sido político. Abençoou a pobreza digna (“a mi trabajo acudo…”) e, vendo aproximar-se a morte, fixou num pedaço de papel seu último pensamento: “Estos días azules y este sol de la infancia.” O fluxo do tempo que pelo milagre da luz se transfigura em eternidade na presença é uma de suas visões recorrentes: “Tedio infantil, amor adolescente, / cómo esta luz de otono os hermosea! / ¡Agrios caminos de la vida fea / que también os doráis al sol poniente!” O ontem e o amanhã fundem-se no eterno presente: sob a claridade de Sevilha emerge do passado a imagem do pai que, passeando no jardim, lança um olhar no vazio e enxerga os cabelos brancos do filho poeta que no mesmo instante o evoca em seus versos. Um olmo seco, derrubado por um raio, renasce na imortalidade do poema antes que o serrem para queimá-lo nas lareiras. Amo tanto esse poema que, buscando nele dois versos para epígrafe de um capítulo, acabei por transcrevê-lo inteiro.

CastillaLaManchaO espaço, por sua vez, se transfigura em memória e profecia. O poeta caminha pelos campos de Castela. As paisagens em sucessão tornam-se glórias e misérias da Espanha histórica (“Castilla miserable, ayer dominadora, envuelta em sus andrajos desprecia cuanto ignora”) e despertam a antevisão do castigo: “Al declinar la tarde, sobre um remoto alcor, / veréis agigantarse la forma de um arquero, / la forma de um inmenso centauro flechador.” Mas nem tudo é perdição e morte. Sobre os campos paira, ante os olhos de Deus, “Castilla la gentil, humilde y brava”.

E, quando passam os anos, Don Antonio, que já era a clareza e a simplicidade encarnadas, torna-se ainda mais simples e claro, condensando sua mágica sabedoria em epigramas:

xxxxx“Caminante, no hay camino,
xxxxxse hace camino al andar.”
xxxxx“Todo pasa y todo queda,
xxxxxpero lo nuestro es pasar,
xxxxxpasar haciendo caminos,
xxxxxcaminos sobre la mar.”

Jamais serei grato o bastante ao poeta que inundou de luz tantos momentos sombrios da minha vida. (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor brasileiro, 2004)

_____________________

A Don Miguel de Unamuno

unamuno-smEste donquijotesco
don Miguel de Unamuno, fuerte vasco,
lleva el arnés grotesco
y el irrisorio casco
del buen manchego.

Don Miguel camina,
jinete de quimérica montura,
metiendo espuela de oro a su locura,
sin miedo de la lengua que malsina.

A un pueblo de arrieros,
lechuzos y tahúres y logreros
dicta lecciones de Caballería.
Y el alma desalmada de su raza,
que bajo el golpe de su férrea maza
aún durme, puede que despierte un día.

Quiere enseñar el ceño de la duda,
antes de que cabalgue, el caballero;
cual nuevo Hamlet, a mirar desnuda
cerca del corazón la hoja de acero.

Tiene el aliento de una estirpe fuerte
que soñó más allá de sus hogares,
y que el oro buscó tras de los mares.
Él señala la gloria tras la muerte.
Quiere ser fundador, y dice: Creo;
Dios y adelante el ánima española…
Y es tan bueno y mejor que fue Loyola:
sabe a Jesús y escupe al fariseo.

A Dom Miguel de Unamuno

Este donquixotesco
dom Miguel de Unamuno, forte basco,
leva o arnês grotesco
e o irrisório casco
do bom manchego.

Dom Miguel caminha,
ginete de quimérica montadura,
riscando espora de ouro na vã loucura,
sem receio da língua mais mesquinha.

A um povo de arrieiros,
farsantes, jogadores, trapaceiros,
dá lições de Cavalaria.
E a alma desalmada de sua raça,
que sob o golpe de sua férrea maça
ainda dorme, pode despertar-se um dia.

Quer ensinar o olhar sisudo
antes de que cavalgue, o cavaleiro;
qual novo Hamlet, a mirar desnudo
perto do coração o aço do armeiro.

Tem o alento de uma estirpe forte
que sonhou além de seus lares,
e que o ouro buscou por trás dos mares.
Ele assinala a glória atrás da morte.
Quer ser fundador, e diz: meu
é o amor a Deus e à alma espanhola…
E é tão bom ou melhor do que Loyola:
sabe a Jesus e cospe ao fariseu.

_____________________

O poeta nicaraguano Rubén Darío (1867-1916), que marcou sua vida literária na Espanha, antecedeu Antonio Machado nas lides da poesia. Oito anos mais velho que Machado, morreu antes de seu amigo, mas lhe deixaria uma oração ainda em vida. Quando Rubén Darío partiu, foi a vez de Antonio Machado lhe dedicar uma oração poética. Transcrevemos as duas, em Espanhol e em Português.

_____________________

Oración por Antonio Machado

Misterioso y silencioso
iba una y otra vez.
Su mirada era tan profunda
que apenas se podía ver.
Cuando hablaba tenía un dejo
de timidez y de altivez,
y la luz de sus pensamientos
casi siempre se veía arder.
Era luminoso y profundo
como hombre de buena fe.
Fuera pastor de mil leones
y de corderos a la vez.
Conduciría tempestades
o traería un panal de miel.
Las maravillas de la vida
y del amor y del placer
cantaba en versos profundos
cuyo secreto era de el.
Montado en un raro Pegaso
un día al imposible fue.
Ruego por Antonio a mis dioses.
Ellos le salven siempre.

Amén.

Oração por Antonio Machado

Misterioso e silencioso
ia uma ou outra vez.
Seu olhar era tão profundo
que apenas se podia ver.
Quando falava tinha um jeito
de timidez e de altivez,
e a luz de seus pensamentos
quase sempre se via arder.
Era luminoso e profundo
como homem de boa fé.
Foi pastor de mil leões
e ao mesmo tempo de ovelhas.
Conduziria tempestades
ou traria um favo de mel.
As maravilhas da vida
e do amor e do prazer
cantava em versos profundos
cujo segredo era dele.
Montado em um raro Pégaso
um dia ao impossível foi.
Rogo por Antonio a meus deuses.
Que eles sempre o protejam.

Amém.

A la muerte de Rubén Darío

RubeDarioSi era toda en tu verso la armonía del mundo,
¿dónde fuiste, Darío, la armonía a buscar?
Jardinero de Hesperia, ruiseñor de los mares,
corazón asombrado de la música astral,

¿te ha llevado Dionysos de su mano al infierno
y con las nuevas rosas triunfantes volverás?
¿Te han herido buscando la soñada Florida,
la fuente de la eterna juventud, capitán?

Que en esta lengua madre la clara historia quede;
corazones de todas las Españas, llorad.
Rubén Darío ha muerto en sus tierras de Oro,
esta nueva nos vino atravesando el mar.

Pongamos, españoles, en un severo mármol,
su nombre, flauta y lira, y una inscripción no más:
Nadie esta lira pulse, si no es el mismo Apolo,
nadie esta flauta suene, si no es el mismo Pan.

À morte de Rubén Darío

Se era toda em teu verso a harmonia do mundo,
onde foste, Darío, a harmonia buscar?
Jardineiro de Hespéria, rouxinol dos mares,
coração assombrado da música astral,

levou-te Dionísio por sua mão ao inferno
e com as novas rosas triunfantes voltarás?
Feriram-te buscando a sonhada Flórida,
a fonte da eterna juventude, capitão?

Que nesta língua mãe a clara história fique;
corações de todas as Espanhas, chorai.
Rubén Darío morreu em suas terras de Ouro,
esta nova nos veio atravessando o mar.

Gravemos, espanhóis, em um severo mármore,
seu nome, flauta e lira, e não mais que uma inscrição:
Ninguém esta lira pulse, se não é o mesmo Apolo,
ninguém esta flauta soe, se não é o mesmo Pã.

Sueño

Desde el umbral de un sueño me llamaron…
Era la buena voz, la voz querida.

— Dime: ¿vendrás conmigo a ver el alma?…
Llegó a mi corazón una caricia.

— Contigo siempre… Y avancé en mi sueño
por una larga, escueta galería,
sintiendo el roce de la veste pura
y el palpitar suave de la mano amiga.

Henri Rousseau (1844-1910) – O Sonho (1910) – óleo sobre tela - 204 × 298 cm – Museu de Arte Moderna, Nova Iorque

Henri Rousseau (1844-1910) – O Sonho (1910) – óleo sobre tela - 204 × 298 cm – Museu de Arte Moderna, Nova Iorque

Sonho

Lá do umbral de um sonho me chamaram…
Era a suave voz, a voz querida.

— Diz-me: virás comigo a ver a alma?…
Veio a meu coração uma carícia.

— Contigo sempre… E segui em meu sonho
por uma larga, precisa galeria,
sentindo o roçar da veste pura
e o palpitar suave da mão amiga.

Una noche de verano…

Una noche de verano
– estaba abierto el balcón
y la puerta de mi casa –
la muerte en mi casa entró.
Se fue acercando a su lecho
– ni siquiera me miró –,
con unos dedos muy finos,
algo muy tenue rompió.
Silenciosa y sin mirarme,
la muerte otra vez pasó
delante de mí. “¿Qué has hecho?”
La muerte no respondió.
Mi niña quedó tranquila
dolido mi corazón,
¡Ay, lo que la muerte ha roto
era un hilo entre los dos!

el-angel-y-el-rayo-de-la-muerte

Uma noite de verão…

Uma noite de verão
– estava aberta a varanda
e a porta de minha casa –
a morte na casa entrou.
Foi-se acercando a seu leito
– nem sequer me percebeu –,
com uns dedos muito finos,
algo mui tênue rompeu.
Silenciosa e sem me olhar,
a morte outra vez passou
ante a mim. “O que fizeste?”
A morte não respondeu.
A filha ficou tranquila
sofrido meu coração,
Ai, o que a morte quebrou
era um fio entre nós dois!

Proverbios y cantares

xxxxxxxxxxI

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse.

Nunca persegui a glória
ou colocar na memória
dos homens minha canção;
Eu amo os mundos sutis,
ingrávidos e gentis
como bolhas de sabão.
Gosto de vê-los pintar-se
de sol e púrpura, voar
sob o céu azul,tremular
subitamente e quebrar-se.

xxxxxxxxxxII

¿Para qué llamar caminos
a los surcos del azar?…
Todo el que camina anda,
como Jesús, sobre el mar.

Para que chamar caminhos
A tais sulcos do azar?…
Todo o que caminha anda,
como Jesus, sobre o mar.

xxxxxxxxxxIII

A quien nos justifica nuestra desconfianza
llamamos enemigo, ladrón de una esperanza.
Jamás perdona el necio si ve la nuez vacía
que dio a cascar al diente de la sabiduría.

A quem nos justifica nossa desconfiança
chamamos inimigo, ladrão de uma esperança.
Jamais perdoa o néscio se vê a noz vazia
que descascou o dente da sabedoria.

xxxxxxxxxxIV

Nuestras horas son minutos
cuando esperamos saber,
y siglos cuando sabemos
lo que se puede aprender.

Nossas horas são minutos
quando esperamos saber,
e séculos quando sabemos
o que se pode aprender.

xxxxxxxxxxV

Ni vale nada el fruto
cogido sin sazón…
Ni aunque te elogie un bruto
ha de tener razón.

De nada vale o fruto
colhido sem madurez…
Nem ainda que te elogie um bruto
há de ter sisudez.
…………………………………………………..

xxxxxxxxxxXXIX

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

Caminhante – Foto: Loretahur - Flickr

Caminhante – Foto: Loretahur - Flickr

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar.
Caminhante não há caminho
senão esteiras no mar.

…………………………………………………..

xxxxxxxxxxLI

Luz del alma, luz divina,
faro, antorcha, estrella, sol…
Un hombre a tientas camina;
lleva a la espalda un farol.

Luz da alma, luz divina,
lanterna, tocha, estrela, sol…
Um homem às cegas caminha;
leva nas costas um farol.

…………………………………………………..

Versão ao Português: Cleto de Assis

Mais um fotopoema de Vicente Gerbasi

FotopoemaCaballoCósmico

La sombra de un caballo cósmico pintado
por Loncho González me lleva
a la infancia de Beatriz que llevaba
al mar su caballo de juguete.
Vicente Gerbasi

Veja mais sobre Vicente Gerbasi em nossa página O Poeta de Canoabo

A próxima atração: João Manuel Simões

As eventuais e temporárias separações nos espaços de nossas vidas têm suas compensações. Uma delas é a alegria do reencontro com amigos com os quais interrompemos a comunicação pessoal por largo tempo. Na semana que passou recebi um telefonema de uma dessas pessoas, que não confiou, em um primeiro momento, em minha memória e em meu afeto pelo reaparecido. Tentou desdobrar indícios de nossos encontros há cerca de quarenta anos para reavivar minha lembrança. Não foram necessárias as primeiras palavras tímidas que significavam “lembra de mim?”; jamais o esqueci ou deixei de admirá-lo, já que seu brilho literário sempre me dava notícias de suas constantes conquistas no mundo da palavra.

JMSRefiro-me ao meu amigo João Manuel Simões, luso-brasileiro que, à maneira de Cabral, também descobriu o Brasil na expedição de seu pai e escolheu este porto para ancorar definitivamente o navio de sua vida. Após palavras crismáticas de reafirmação de amizade e planos de próximos encontros ao vivo e em cores, a surpresa de receber, dia depois, exemplares de sua mais recente obra literária, com ensaios, contos e poesia.

Estou lendo os livros enviados e farei uma seleção de poemas para publicá-los em breve, apesar de já saber que o nosso escritor e poeta ainda é avesso à palavra eletrônica. Mas, sem dúvida alguma, seus escritos honrarão o Banco da Poesia. Muito obrigado, João Manuel Simões. Como seu também conterrâneo Fernando Pessoa costumava fazer, vamos revisitá-lo literariamente.

Aguardem as próximas atrações. Enquanto isso não ocorre, vai aí um poema antigo, publicado na revista Forma, em 1966, com a ilustração original. E emprestei dos arquivos de nosso saudoso Aramis Milharch o texto que segue, à guisa de apresentação.

JOÃO MANOEL SIMÕES é um exemplo de intelectual que trabalha a sua obra. Ensaísta, contista e, especialmente, poeta, desde 1959 vem publicando seus livros. E ao lado de premiações importantes, os livros de Simões têm merecido justos elogios de críticos e scholars na área da literatura. Na semana passada, por exemplo, Simões recebeu uma carta enaltecedora de Carlos Drummond de Andrade, a propósito de seu Sonetos  do Tempo Incerto ao lado de dois recortes que deixaram o bom Simões “simplesmente encantado e boquiaberto”. Um contendo um artigo de Dom Alberto Galdencio Ramos, arcebispo de Belém do Pará e presidente da Academia Paraense de Letras, focalizando entusiasticamente o ensaio Virgílio e Camões: Duas presenças Vivas, a mais recente obra do JMS. O outro, contendo um artigo do crítico Tito Filho, presidente da Academia Piauense de Letras no “Jornal do Piauí”, onde, além de frases do mesmo teor, diz o seguinte: “Sonetos  do Tempo Incerto: repositório de verdadeiras obras-primas feitas com sensibilidade, emoção e extraordinário poder criativo. A literatura paranaense a cada dia se enriquece com as produções espirituais desse poeta de linguagem pura, com sabedoria comunicativa. Gosto dos seus gestos artísticos, da forma literária dos seus versos magníficos, uns líricos, outros filosóficos, aqui e ali quatorze linhas de segura crítica, de inteligência notável. A poesia de João Manuel Simões é magistério.” Para completar, acaba de sair na revista de letras da Universidade Federal do Paraná um ensaio da professora Miguelina Soifer sobre a sua obra poética, com o título de O Estilo do Indizível.

O texto de Aramis Millarch foi publicado originalmente no Almanaque doEstado do Paraná, seção Tablóide, em 31/01/1982.

Completamos com informação retirada de um dos livros de JMS.

João Manuel Simões, brasileiro nascido em Portugal, filho de pai beirão, de Mortágua, e mãe paraense, de Belém, é autor de cerca de meia centena de livros de poesia, crítica, ensaios, contos, crônicas e pensamentos. Proferiu palestras e conferências e obteve diversos prêmios,entre os quais o Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, em o livro Suma Poética.É membro da Academia Paranaense de Letras, do Centro de Letras do Paraná, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e do Círculo de Estudos Bandeirantes.

Cântico de Guerra

xxxxxxxxJoão Manuel Simões

Ilustração: C. de A. - 1966

Ilustração: C. de A. - 1966

Rufam tambores na planície verde
Onde os cadáveres grávidos de sangue em silêncio
Desabrocham.

Sós, com as flâmulas erguidas,
Caminhamos dentro da larga noite de basalto.
Astros existem para lá de nós,
Sonhos palpitam além do eco ensurdecido dos passos
Que escrevem na terra o segredo terrível
Do nosso itinerário absurdo.    .
Buscamos algo na penumbra indecisa
Que se estende ao longe,
Erguendo cada vez mais alto
As flâmulas.
Sós, com o rastro anônimo que deixamos sobre
Os longos caminhos que nos trazem onde
O câncer da náusea se avoluma.

Rufam tambores na. planície verde.

Quem disse paz quando os canhões clamaram?
Quem disse paz enquanto as bombas desenhavam
Lírios de fogo e sangue e morte no horizonte azul?
Sós cada vez mais sós, com as flâmulas
Cada vez mais altas,
Esquecidos para sempre de que o sonho existe,
Inútil, áspera ficção de bárbaros.
Sós, sim, com as flâmulas
Rasgadas.

Enfiemos, irmãos, as baionetas cúmplices,
Na bainha sangrenta do remorso.
E choremos,
Choremos todos porque as rosas brancas do Vietnã
Estão florindo cada vez mais rubras.

Do outro lado da Terra, no Timor Leste

Timor Leste ocupa apenas metade da área total da ilha, a parte oriental, além de um enclave na metade oeste, que é ainda dominada pela Indonésia

Timor Leste ocupa apenas metade da área total da ilha, a parte oriental, além de um enclave na metade oeste, que é ainda dominada pela Indonésia

Já publiquei um poema sobre o Timor Leste, escrito pela poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andressen (leia aqui). Agora chegou a vez dos timorenses da gema, nossos mais recentes irmãos lusófonos. Eles vivem em uma pequena ilha do Oriente, em território menor que Sergipe, que é o nosso menor estado. Seu nome oficial é República Democrática de Timor-Leste. É um dos países mais jovens do mundo e ocupa a parte oriental da ilha de Timor, na Ásia, além do enclave de Oecussi, na costa norte da banda ocidental de Timor. Pertencem ainda à nova república a ilha de Ataúro, a norte, e o ilhéu de Jaco, ao largo da ponta leste da ilha. As únicas fronteiras terrestres que o país tem ligam-no à Indonésia, a oeste da porção principal do território, e a leste, sul e oeste de Oecussi-Ambeno, mas tem também fronteira marítima com a Austrália, no Mar de Timor, a sul. Sua capital é Díli, situada na costa norte.Possui cerca de 1 milhão e 200 mil habitantes

Timor já era habitada há cerca de 12 mil anos a.C. Os portuguesses aportaram na ilha em 1512 e passaram a explorá-la em razão de seus produtos naturais, principalmente o sândalo, madeira utlizada inclusive para a perfumaria. Depois de passar quatro séculos como possessão portuguesa, Timor foi invadida pela Indonésia, em uma temporada histórica conturbada e destruidora, que durou praticamente de 1975 a 1999. Mas o território é agora propriedade de uma gente brava e sensivel, onde a poesia sempre foi tradição.

Vamos saudá-la com cinco de seus poetas.

Poema Ancestral

xxxxxxCrisódio T. Araújo
babdok-woman
Lembra os dias antigos
Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe…

Meninos e Meninas

xxxxxxFernando Sylvan
Childen at war
Todos já vimos nos livros,
nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

Menino de Timor

xxxxxxJorge Barros Duarte

Foto de Hakan Ugurlu – Turquia (publicação autorizada)

Menino do Timor – Foto de Hakan Ugurlu – Turquia (publicação autorizada)

Menino de Timor, estás triste?!…
Porquê?!… — Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!… Já nem posso falar!…
A minha terra correste e viste

Como só há silêncio e tristeza!…
Assim é na palhota que habito!…
Já nem oiço na várzea um só grito!…
Só vejo gente que chora e reza!…

Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!…
O “La’o-rai”, que a memória esperta,
Co’as pocinhas na terra, ora a fogos

Mil sujeita!… O “caleic” também era
jogo apreciado da pequenada:
“Hana-caleic”!… de tudo já nada
Resta agora!… Só vejo essa fera

De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!…

Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E co’a alma cheia só de maldade!…
Jesus, tem pena deste meu pranto!…

Jesus Menino, dá-me alegria!…
Se na minha terra é tudo tão triste!…
Gente tão má neste mundo existe?!…
Coisas assim tão ruins?!… Não sabia!…

Não mais sob a árovore de Bô

xxxxxxJorge Lauten

Foto de Hakan Ugurlu - Turquia (publicação autorizada)

Paisagem Timor – Foto de Hakan Ugurlu - Turquia (publicação autorizada)

Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo

enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô

Linha de Rumo

xxxxxxRuy Cinatti

Paisagem Timor – Foto de Hakan Ugurlu - Turquia (publicação autorizada)

Paisagem Timor – Foto de Hakan Ugurlu - Turquia (publicação autorizada)

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado…
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido…
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas…

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

Perdoem-me, mas é preciso relembrar o pavor e a dor

Em 1945, eu tinha apenas quatro anos. Um menininho, um little boy, como se diz em inglês. Nos Estados Unidos da América do Norte, havia milhares de little boys iguais a mim. E lá no Japão, no outro lado da Terra, também existiam milhares de little boys e little girls. Todos, como eu, germinando para a vida e dispostos a crescer e fazer parte dessa imensa massa de gente a que chamamos humanidade.

Mas eis que alguns pais desses menininhos e menininhas daquele país e do Japão estavam brigando. E o pai de todos os estadunidenses mandou um avião até a Terra do Sol Nascente para jogar uma bomba ironicamente batizada de Little Boy e matar menininhos e menininhas e adultos e idosos de uma só vez. Era o 6 de agosto daquele ano.

Como se não bastasse a horrível carnificina, três dias depois, no dia 9 de agosto, o mesmo paizão mandou mais um avião jogar outra bomba em um cidade próxima à primeira destruída. Dessa vez o artefato bélico foi batizado com outro irônico nome, Fat Man. E matou e aleijou muitos homens gordos, homens magros, mulheres e mais menininhos e menininhas.

Aí os homens da época – que se diziam adultos, inteligentes e sérios – festejaram porque aquela imensa imolação fizera com que a guerra mundial finalmente acabasse, embora outros adultos, também considerados sérios e inteligentes, tenham dito que a guerra iria logo acabar, de qualquer jeito, mesmo que Little Boy e Fat Man não tivessem interpretado o papel sujo  naquela tragédia.

O que os meninos e meninas não conseguiam entender era o porquê daquela briga e de tantas mortes causadas. Os adultos não ensinavam que brigar era coisa feia? Então, por que faziam tanta coisa feia?

Eu, mesmo depois que deixei de ser menino, jamais consegui compreender.

………………………………..

Mas os poetas nos ajudam a não esquecer e a tentar entender. Por isso, pedimos a dois poetas brasileiros – Manoel de Andrade e Vinicius de Moraes – a energia poderosa de suas palavras para homenagear os que sentiram a dor e o pavor de Hiroshima e Nagasaki naqueles dias trágicos, de forma definitiva ou arrastados até os dias finais pelas sequelas físicas e espirituais. Ao final deste post, um dos poemas de Vinicius, musicado por João Apolinário e Gerson Conrad, do grupo Secos & Molhados, com a voz de Ney Matogrosso.

Hiroshima

xxxxxxxxxManoel de Andrade

Hiroshima, Hiroshima
rosa rubra do oriente
fragrância de cerejeira
céu de anil no sol nascente.

Farol de luz no estuário
remanso dos vendavais
porto e escala dos juncos
roteiro dos samurais.

Verão de quarenta e cinco
no dia seis de agosto.
Clareando as águas do delta
a aurora beija o teu rosto.

Surge o Sol, se abre o dia
na luz e no movimento.
Tudo era paz e alegria
e nenhum pressentimento.

Teus colibris revoavam
no fresco azul dos teus ares
eram os casais, eram os ninhos
carícias, trino e cantares.

O arroz na água e na espiga
talo e seiva a palpitar
os rosais desabrochando
e os girassóis a girar.

Vidas… teu rosto eram vidas
nos campos e nos quintais
nos jardins, na verde relva
na algazarra dos pardais.

Folguedos, danças, cantigas
tua infância sem receios
teus escolares em flor
correndo pelos recreios.

As horas cruzavam o dia
os pais e os filhos na praça
o povo cruzava as ruas
cruzava o céu a desgraça.

De repente nos teus ares
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares,
gritos, fogo, turbilhão.

O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia.
Hiroshima
No céu… um avião se afasta
na voz… a missão cumprida
no chão… a dor que se arrasta
e a cidade destruída.

Quem eras tu, Hiroshima
naquele dia distante…?
Eras sonhos e esperanças
incendiados num instante…

Quantos projetos de vida
mil sonhos acalentados
quantas mil juras de amor
nos lábios dos namorados.

Eras filhote no ninho
eras fruto no pomar
canteiro de brancas rosas
e toda a vida a cantar.

Eras mãe, eras criança
e no útero eras semente
ontem eras a esperança
e agora o braseiro ardente

Por que Hiroshima, por quê…?
o punhal de fogo, a explosão…?
Por que cem mil corações
ardendo sem compaixão…?

Tua inocência cremada
na fogueira do delírio.
Tua imagem retratada
na estampa do martírio.

Teu sangue vive na história
nas cicatrizes ardentes
nas lágrimas, na memória
na dor dos sobreviventes.

Quem previu tua agonia?
Quem explodiu tua paz?
Quem tatuou nos teus lábios
as palavras: nunca mais!?

Comandantes, comandados…
quem são os donos da guerra…?
e em que tribunal se julgam,
os genocídios da Terra…?

Por tanta dor, rogo a Deus
na minha prece tardia
que guarde no seu amor
os mártires daquele dia.

Hiroshima, flor da vida,
semente, ressurreição.
Fênix, face renascida.
PAZ, santuário, canção.

xxxxCuritiba, Julho de 2005.
xxxxDo livro CANTARES, editado por Escrituras

A Bomba Atômica

xxxxxxxxxVinicius de Moraes

xxxxxxxxxxIxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxe=mc2xxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxEinstein

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
xxxxxxxxxxxxDeusa, visão dos céus que me domina
xxxxxxxxxxxxxx… tu que és mulher e nada mais!

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx “Deusa”, valsa carioca

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
xxxxxxDos céus descendo
xxxxxxMeu Deus eu vejo
xxxxxxDe paraquedas?
xxxxxxUma coisa branca
xxxxxxComo uma forma
xxxxxxDe estatuária
xxxxxxTalvez a forma
xxxxxxDo homem primitivo
xxxxxxA costela branca!
xxxxxxTalvez um seio
xxxxxxDespregado à lua
xxxxxxTalvez o anjo
xxxxxxTutelar cadente
xxxxxxTalvez a Vênus
xxxxxxNua, de clâmide
xxxxxxTalvez a inversa
xxxxxxBranca pirâmide
xxxxxxDo pensamento
xxxxxxTalvez o troço
xxxxxxDe uma coluna
xxxxxxDa eternidade
xxxxxxApaixonado
xxxxxxNão sei indago
xxxxxxDizem-me todos
xxxxxxÉ A BOMBA ATÔMICA.
CogumeloAtômico

xxxxxxVem-me uma angústia.

xxxxxxQuisera tanto
xxxxxxPor um momento
xxxxxxTê-la em meus braços
xxxxxxA coma ao vento
xxxxxxDescendo nua
xxxxxxPelos espaços
xxxxxxDescendo branca
xxxxxxBranca e serena
xxxxxxComo um espasmo
xxxxxxFria e corrupta
xxxxxxDo longo sêmen
xxxxxxDa Via-Láctea
xxxxxxDeusa impoluta
xxxxxxO sexo abrupto
xxxxxxCubo de prata
xxxxxxMulher ao cubo
xxxxxxCaindo aos súcubos
xxxxxxIntemerata
xxxxxxCarne tão rija
xxxxxxDe hormônios vivos
xxxxxxExacerbada
xxxxxxQue o simples toque
xxxxxxPode rompê-la
xxxxxxEm cada átomo
xxxxxxNuma explosão
xxxxxxMilhões de vezes
xxxxxxMaior que a força
xxxxxxContida no ato
xxxxxxOu que a energia
xxxxxxQue expulsa o feto
xxxxxxNa hora do parto.

xxxxxxxxxxII

xxxA bomba atômica é triste
xxxCoisa mais triste não há
xxxQuando cai, cai sem vontade
xxxVem caindo devagar
xxxTão devagar vem caindo
xxxQue dá tempo a um passarinho
xxxDe pousar nela e voar…
xxxCoitada da bomba atômica
xxxQue não gosta de matar!

xxxCoitada da bomba atômica
xxxQue não gosta de matar
xxxMas que ao matar mata tudo
xxxAnimal e vegetal
xxxQue mata a vida da terra
xxxE mata a vida do ar
xxxMas que também mata a guerra…
xxxBomba atômica que aterra!
xxxPomba atônita da paz!

xxxPomba tonta, bomba atômica
xxxTristeza, consolação
xxxFlor puríssima do urânio
xxxDesabrochada no chão
xxxDa cor pálida do hélium
xxxE odor de rádium fatal
xxxLoelia mineral carnívora
xxxRadiosa rosa radical.

xxxNunca mais, oh bomba atômica
xxxNunca, em tempo algum, jamais
xxxSeja preciso que mates
xxxOnde houver morte demais:
xxxFique apenas tua imagem
xxxAterradora miragem
xxxSobre as grandes catedrais:
xxxGuarda de uma nova era
xxxArcanjo insigne da paz!

xxxxxxxxxxIII

Bomba atômica, eu te amo! És pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! Alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

Rosa de Hiroshima

xxxxxxxxxVinicius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

______________

Ilustrações: C. de A.

Cora Coralina: um modo diferente de contar velhas histórias

CoraAna Lins do Guimarães Peixoto Brêtas (20-08-1889) era o nome civil de Cora Coralina, a grande, a enorme poeta de Goiás. A primeira se foi em 10 de abril de 1985, mas nos deixou eternizada a sua criatura poética. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano e criou, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos A Rosa. Em 1910, seu primeiro conto, Tragédia na Roça, é publicado no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, já com o pseudônimo de Cora Coralina.
Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP).

Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Em 1976, é lançado Meu Livro de Cordel, pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

Dizia Drummond: “Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( …).” (dados extraídos do livro Estórias da Casa Velha da Ponte, Global Editora)

Pedi à minha amiga e também poeta goiana Saramar Mendes de Souza licença para publicar um belo texto que ela escreveu sobre Cora. Vai abaixo, como apresentação nobre dos poemas que se seguem, com meu agradecimento.

A Casa de Cora

xxxxxxxxxxSaramar Mendes Souza

Escrevi este pequeno texto, a pedido de minha amiga, a poeta Graça Graúna.

xxxxxxxxxxHumildade
xxxxxxxxxxSenhor, fazei com que eu aceite
xxxxxxxxxxminha pobreza tal como sempre foi.
xxxxxxxxxxQue eu possa agradecer a Vós
xxxxxxxxxxminha cama estreita,
xxxxxxxxxxminhas coisinhas pobres,
xxxxxxxxxxminha casa de chão,
xxxxxxxxxxpedras e tábuas remontadas.
xxxxxxxxxxE ter sempre um feixe de lenha
xxxxxxxxxxdebaixo do meu fogão de taipa,
xxxxxxxxxxe acender, eu mesma,
xxxxxxxxxxo fogo alegre da minha casa
xxxxxxxxxxna manhã de um novo dia que começa.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxCora Coralina

A cidade de Goiás, mais conhecida por Goiás Velho, foi fundada às margens do Rio Vermelho, em 1722, pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera (palavra indígena que significa “diabo velho”). Foi capital de Goiás (o Estado) até 1933.

Hoje, tombada pela Unesco, principalmente pela arquitetura característica da época colonial, é um dos principais atrativos turísticos da regição centro-oeste. Suas ruas, seu casario, os prédios públicos e as igrejas, conservados, recebem milhares de visitantes todos os anos. Neste cenário, às margens do Rio Vermelho, foi construída, na segunda metade do século XVIII, uma casa em pedra e adobe destinado a ser o escritório da cobrança do Quinto, imposto sobre todo o ouro extraído na região. Há aproximadamente 200 anos, esta casa foi comprada por antepassados de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), poetisa e doceira, conhecida como Cora Coralina, que a cantou em verso e prosa.

Casa da Ponte, por Fiume, julho 2005

Casa da Ponte, por Fiume, julho 2005

Atualmente, a casa de Cora, também chamada de Casa da Ponte, abriga um museu permanente com objetos pessoais da poetisa, além de um miniauditório. A casa apresenta características típicas da arquitetura colonial brasileira. Composta por duas residências unidas por um único telhado, a construção de madeira tem paredes de pau-a-pique e adobe, usadas como proteção das enchentes do Rio Vermelho.

Por falar em enchentes, em 31 de dezembro de 2001, dezoito dias depois do seu tombamento pela Unesco, a cidade de Goiás foi inundada pelo Rio Vermelho que destruiu parte do seu patrimônio, vitimando também a Casa da Ponte, danificando os móveis, o piso e muro, mas que, felizmente, manteve sua estrutura.Porém, como diz o ditado popular, há males que vêm para o bem. Foi o que se deu com a casa de Cora.Depois da enchente, a parte física, o mobiliário e os documentos iconográficos foram restaurados, a um custo de R$150 mil, pagos inteiramente por uma operadora de telefonia. Os governos, de qualquer esfera, não destinaram um centavo para a reconstrução (*).

Após a recuperação, o museu instalado na Casa da Ponte passou a adotar os conceitos sugeridos pelo Conselho Internacional de Museus visando à valorização da personalidade de Cora Coralina.Neste sentido, estão em evidência os objetos pessoais de Cora, como os manuscritos e as fotografias (recuperados por técnicos da Imprensa Nacional no Rio de Janeiro), a mobília original, a máquina de datilografia, a máquina de costura, os registros fotográficos e os prêmios.

Além da parte interna, o quintal de Cora também foi renovado, com a recuperação das hortas, das árvores (resedá, mangueira, cuité, jabuticabeira, guariroba, jaqueira, laranja-da-terra, cajazinha) e da pequena bica d’água existente no porão da Casa Velha.

Foto: Márcio Couto

Foto: Márcio Couto

Localização: Rua Dom Cândido (Rua dos Mercadores), n.º 20
Telefone: (62) 3371-1990
Visitação: terça a sábado, de 09h às 17h, e domingo de 9h às 16h.

Minha casa velha da ponte… assim a vejo e conto, sem datas e sem assentos.
Assim a conheci e canto com minhas pobres letras. Desde sempre. Algum dia cerimonial foste casa nova, num tempo perdido do passado, quando mãos escravas a levantaram em pedra, madeirame e barro. Esquadrejaram tua ossatura bronca, traçaram teus barrotões na cava certa e profunda dos esteios altos, encaixaram teus linhamentos, cumeeiras, pontaletes, freixais, arrochantes e empenas, duras aroeiras, lavradas a machado, com cheiro de florestas, arrastadas em carretões de bois.

xxxxxxxxxxCora Coralina
________________________
(*) Correio Braziliense

Eu Voltarei

PalmeiraGuariroba

Palmeira Guariroba

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.

Eu voltarei…

A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei…

Conclusões de Aninha

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
“A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

Velho

Cuité

Cuité

Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.

A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.

Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.

Ressalva

Versos… não
Poesia… não
um modo diferente de contar velhas histórias

Assim eu vejo a vida

Resedá

Resedá

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Mascarados

Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranqüilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

O Cântico da Terra

Jabuticabeira

Jabuticabeira

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

O Passado…

Jaqueira

Jaqueira

O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
“Clube Literário Goiano”.
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.

Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.

Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.

D.Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.

O Passado…

Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
— Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?…
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas…
Que importam?

E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera
das obscuras!

_____________________

Observação necessária

As desorientações da Internet

Eu estou entre aqueles a achar que a Internet foi uma das maiores – senão a maior – invenções das últimas décadas. É responsável pela democratização da informação e do conhecimento. E, apesar do que pensam alguns, aproxima pessoas e constrói comunicação universal.

Mas, de vez em quando, vemos como ela também é mal utilizada. Um exemplo recolhi enquanto preparava o material sobre Cora Coralina. Verifiquei que um poema a ela atribuído tem mais de 19 mil registros no Google. É um campeão de visualização. Entretanto, uma pequena nota em um blog dá conta de que tal obra não é da poeta goiana. Vejam:

Não Sei ou Saber Viver não é de Cora Coralina. Após contato com Célia Bretas Tahan, jornalista, escritora e neta de Cora Coralina, esta confirmou que todos os poemas inéditos de Cora se encontram em poder de sua mãe, Vicência Brêtas Tahan (única filha de Cora ainda viva e autora da biografia romanceada Cora Coragem Cora Poesia) e o poema vinculado pela mídia como Não Sei, O que dá sentido a vida ou Saber Viver, não faz parte deste acervo.”

Outras fontes o reproduzem como de “autor desconhecido”. Isso tem ocorrido com outros autores. Luiz Fernando Veríssimo, Jorge Luiz Borges e Gabriel García Márquez já foram alvo de tais brincadeiras literárias. Se os autores dos trotes internetianos têm qualidades para escrever, por que não seguem as próprias trilhas, enquanto ainda se mantêm sobre duas patas?

(Cleto de Assis)

O espólio de Fernando Pessoa

Ontem, 30.07.2009, foi aprovado pelo Conselho de Ministros de Portugal o decreto de classificação do Espólio Documental de Fernando Pessoa, tornando-o  bem de interesse nacional.

Na exposição de motivos encaminhada ao Ministro da Cultura, o diretor geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Jorge Couto, propôs a classificação do espólio como bem de interesse nacional ou Tesouro Nacional, “compreendido como a universalidade de fato composta por todos os documentos produzidos ou reunidos por Fernando Pessoa, seja na forma de manuscritos autógrafos, isolados ou integrados em documentos de terceiros, assinados ou não, de datiloscritos ou tiposcritos, com ou sem intervenção autógrafa, assinados ou não, bem como todos os documentos biográficos de Fernando Pessoa, assinados ou não, e os documentos impressos que se reconheça terem pertencido à sua biblioteca e ostentem marcas autógrafas de utilização pelo Poeta”.

O fato é importante porque, até há pouco tempo, o espólio literário de Fernando Pessoa, em sua maior parte por ele arquivado em um baú , em páginas manuscritas ou datilografadas e guardadas em envelopes sem nenhuma classificação ou ordem, estavam sob a guarda dos herdeiros de FP ou espalhado entre amigos ou estudiosos. Agora, além da guarda material, a Biblioteca nacional poderá estabelecer uma classificação mais rigorosa, apesar de ser difícil determinar datas de documentos que o poeta não datou e outros que não assinou.

A famisa arca de Fernando Pessoa. O móvel foi vendido, recentemente, em leilão, para um admirador desconhecido, por mais de 50 mil euros. Ao fundo, a estante delivros de sua biblioteca. Sobrepus as assinaturas dos princpais heterônimos, mais a dele mesmo e a de Alxader Searh, um semi=heterônimo de sua juventude.

A famosa arca de Fernando Pessoa. O móvel foi vendido, recentemente, em leilão, para um admirador desconhecido, por mais de 50 mil euros. Ao fundo, a estante de livros de sua biblioteca. Sobrepus as assinaturas dos principais heterônimos, mais a dele mesmo e a de Alexander Searh, um semi-heterônimo de sua juventude.

O conhecimento mundial em um clique


Biblioteca Digital Mundial

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lançou no último mês de abril a Biblioteca Digital Mundial, que permite consultar gratuitamente pela internet o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países, entre eles o Brasil.

Dezenas de milhares de livros, imagens, manuscritos, mapas, filmes e gravações de bibliotecas em todo o mundo foram digitalizados e traduzidos em diversas línguas para a abertura do site da Biblioteca Digital da Unesco (www.wdl.org). A nova biblioteca virtual terá sistemas de navegação e busca de documentos em sete línguas, entre elas o português, e oferece obras em várias outras línguas.

O mapa 'Uma descrição moderna e bastante precisa da América', feito por Diego Gutierrez em 1562, está no acervo da BDM (O Globo)

O mapa 'Uma descrição moderna e bastante precisa da América', feito por Diego Gutierrez em 1562, está no acervo da BDM (O Globo)

Entre os documentos, há tesouros culturais como a obra da literatura japonesa O Conde de Genji, do século 11, considerado um dos romances mais antigos do mundo, e também o primeiro mapa que menciona a América, de 1507, realizado pelo monge alemão Martin Waldseemueller e que se encontra na Biblioteca do Congresso estadunidense.

Entre outras preciosidades do novo site estão as primeiras fotografias da América Latina, que integram o acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, o maior manuscrito medieval do mundo, conhecido como a Bíblia do Diabo, do século 12, que pertence à Biblioteca Real de Estocolmo, na Suécia, e manuscritos científicos árabes da Biblioteca de Alexandria, no Egito.

Até o momento, o documento mais antigo da Biblioteca Digital da Unesco é uma pintura de oito mil anos com imagens de antílopes ensanguentados, que se encontra na África do Sul.

Manteremos o link da BDM em nossa página de Bibliotecas Digitais de Poesia.

Clique no logo abaixo e veja uma apresentação da BDM no Youtube

20090421_biblioteca_mundial_digital

Biblioteca Digital da Europa

LogoEuropeanaA biblioteca multimidia online da Europa, Europeana, está acessível desde o dia  20 de novembro de 2008. Por meio da Internet, podemos acessar a mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia. A biblioteca virtual conta com livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos Estados-membros, como, por exemplo, a Carta plana de parte da Costa do Brasil, um mapa de 1784 arquivado em Portugal.

Acessível em todas as línguas da UE, a biblioteca multimidia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objetos das suas coleções.

Segundo a Comissão Europeia, que lançou esta iniciativa em 2005, este é “apenas o começo”, pois a ideia é expandir a biblioteca, envolvendo também o setor privado, e o objetivo é que, em 2010, a Europeana dê acesso a pelo menos dez milhões de obras” representativas da riqueza da diversidade cultural da Europa. Ela terá zonas interativas, principalmente para comunidades com interesses especiais”.

“Com a Europeana, conciliamos a vantagem competitiva da Europa em matéria de tecnologias da comunicação e de redes com a riqueza do nosso patrimônio cultural. Os europeus poderão agora acessar com rapidez e facilidade, num único espaço, os formidáveis recursos das nossas grandes coleções”, comentou o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

Segundo dados da Comissão, já no início de seu funcionamento, no ano passado, foram registrados cerca de dez milhões de visitas por hora, o que fez cair o sistema e obrigou seus adminstradores a duplicar imediatamente a capacidade do portal.

Incluímos a Europeana em nossa página de Bibliotecas Digitais de Poesia.

]