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João Manuel Simões deposita flores

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Guirlanda

O que preferes, meu amor? Magnólias
ou alvos, puros lírios virginais
vergados pelo som de harpas eólias
soltas nas longas tardes outonais?

Jasmins, hortências, rosas amarelas?
Cravos de sangue, meigas açucenas?
Girassóis da família das estrelas?
Agapantos beijados por falenas?

Crisântemos serão de teu agrado?
Que preferes, amor? Por que não falas?
Que outras flores há que não possuas?

Miosótis e gerânios, lado a lado?
Leves glicínias para as tuas salas?
Num ramo imenso, amor, são todas tuas…

xxxxxxxxxdo livro Suma Poética, 1979

A próxima atração: João Manuel Simões

As eventuais e temporárias separações nos espaços de nossas vidas têm suas compensações. Uma delas é a alegria do reencontro com amigos com os quais interrompemos a comunicação pessoal por largo tempo. Na semana que passou recebi um telefonema de uma dessas pessoas, que não confiou, em um primeiro momento, em minha memória e em meu afeto pelo reaparecido. Tentou desdobrar indícios de nossos encontros há cerca de quarenta anos para reavivar minha lembrança. Não foram necessárias as primeiras palavras tímidas que significavam “lembra de mim?”; jamais o esqueci ou deixei de admirá-lo, já que seu brilho literário sempre me dava notícias de suas constantes conquistas no mundo da palavra.

JMSRefiro-me ao meu amigo João Manuel Simões, luso-brasileiro que, à maneira de Cabral, também descobriu o Brasil na expedição de seu pai e escolheu este porto para ancorar definitivamente o navio de sua vida. Após palavras crismáticas de reafirmação de amizade e planos de próximos encontros ao vivo e em cores, a surpresa de receber, dia depois, exemplares de sua mais recente obra literária, com ensaios, contos e poesia.

Estou lendo os livros enviados e farei uma seleção de poemas para publicá-los em breve, apesar de já saber que o nosso escritor e poeta ainda é avesso à palavra eletrônica. Mas, sem dúvida alguma, seus escritos honrarão o Banco da Poesia. Muito obrigado, João Manuel Simões. Como seu também conterrâneo Fernando Pessoa costumava fazer, vamos revisitá-lo literariamente.

Aguardem as próximas atrações. Enquanto isso não ocorre, vai aí um poema antigo, publicado na revista Forma, em 1966, com a ilustração original. E emprestei dos arquivos de nosso saudoso Aramis Milharch o texto que segue, à guisa de apresentação.

JOÃO MANOEL SIMÕES é um exemplo de intelectual que trabalha a sua obra. Ensaísta, contista e, especialmente, poeta, desde 1959 vem publicando seus livros. E ao lado de premiações importantes, os livros de Simões têm merecido justos elogios de críticos e scholars na área da literatura. Na semana passada, por exemplo, Simões recebeu uma carta enaltecedora de Carlos Drummond de Andrade, a propósito de seu Sonetos  do Tempo Incerto ao lado de dois recortes que deixaram o bom Simões “simplesmente encantado e boquiaberto”. Um contendo um artigo de Dom Alberto Galdencio Ramos, arcebispo de Belém do Pará e presidente da Academia Paraense de Letras, focalizando entusiasticamente o ensaio Virgílio e Camões: Duas presenças Vivas, a mais recente obra do JMS. O outro, contendo um artigo do crítico Tito Filho, presidente da Academia Piauense de Letras no “Jornal do Piauí”, onde, além de frases do mesmo teor, diz o seguinte: “Sonetos  do Tempo Incerto: repositório de verdadeiras obras-primas feitas com sensibilidade, emoção e extraordinário poder criativo. A literatura paranaense a cada dia se enriquece com as produções espirituais desse poeta de linguagem pura, com sabedoria comunicativa. Gosto dos seus gestos artísticos, da forma literária dos seus versos magníficos, uns líricos, outros filosóficos, aqui e ali quatorze linhas de segura crítica, de inteligência notável. A poesia de João Manuel Simões é magistério.” Para completar, acaba de sair na revista de letras da Universidade Federal do Paraná um ensaio da professora Miguelina Soifer sobre a sua obra poética, com o título de O Estilo do Indizível.

O texto de Aramis Millarch foi publicado originalmente no Almanaque doEstado do Paraná, seção Tablóide, em 31/01/1982.

Completamos com informação retirada de um dos livros de JMS.

João Manuel Simões, brasileiro nascido em Portugal, filho de pai beirão, de Mortágua, e mãe paraense, de Belém, é autor de cerca de meia centena de livros de poesia, crítica, ensaios, contos, crônicas e pensamentos. Proferiu palestras e conferências e obteve diversos prêmios,entre os quais o Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, em o livro Suma Poética.É membro da Academia Paranaense de Letras, do Centro de Letras do Paraná, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e do Círculo de Estudos Bandeirantes.

Cântico de Guerra

xxxxxxxxJoão Manuel Simões

Ilustração: C. de A. - 1966

Ilustração: C. de A. - 1966

Rufam tambores na planície verde
Onde os cadáveres grávidos de sangue em silêncio
Desabrocham.

Sós, com as flâmulas erguidas,
Caminhamos dentro da larga noite de basalto.
Astros existem para lá de nós,
Sonhos palpitam além do eco ensurdecido dos passos
Que escrevem na terra o segredo terrível
Do nosso itinerário absurdo.    .
Buscamos algo na penumbra indecisa
Que se estende ao longe,
Erguendo cada vez mais alto
As flâmulas.
Sós, com o rastro anônimo que deixamos sobre
Os longos caminhos que nos trazem onde
O câncer da náusea se avoluma.

Rufam tambores na. planície verde.

Quem disse paz quando os canhões clamaram?
Quem disse paz enquanto as bombas desenhavam
Lírios de fogo e sangue e morte no horizonte azul?
Sós cada vez mais sós, com as flâmulas
Cada vez mais altas,
Esquecidos para sempre de que o sonho existe,
Inútil, áspera ficção de bárbaros.
Sós, sim, com as flâmulas
Rasgadas.

Enfiemos, irmãos, as baionetas cúmplices,
Na bainha sangrenta do remorso.
E choremos,
Choremos todos porque as rosas brancas do Vietnã
Estão florindo cada vez mais rubras.

A Revista Forma

Manoel de Andrade
formaneco

Não me esquecera da Revista Forma e do impacto cultural que causou na época, acenando-nos, naquele janeiro de 1966, com um espaço onde pudéssemos semear nossas ideias e nossos sonhos.

Forma chegava no momento certo. Os tempos sinalizavam para a nossa emancipação intelectual e, na década de 60, apesar do quartelaço de 64, o Paraná passava por um estado de graça em termos de cultura, e Curitiba, como centro polarizador dessa conjuntura, demandava uma publicação que expressasse ao país aquela realidade e partilhasse suas inquietudes com a inteligência nacional.. Vivia-se numa agradável atmosfera do espírito, marcada pela relevância das artes plásticas na presença do Juarez Machado, cartunista, na imprensa nacional; pelos prêmios do João Osório Brzezinski; pelas gravuras do Fernando Calderari e pelo destaque do Salão Paranaense de Belas-Artes. A literatura ainda buscava seu espaço marcado com a presença de novos poetas e contistas, pelo destaque de prosadores como o Dalton Trevisan e Jamil Snege e pela emocionante Noite da Poesia Paranaense, em 65, no Teatro Guaira. A dramaturgia mostrava sua presença com o talento de Cláudio Correia e Castro na direção do Teatro de Comédia do Paraná e, pelo apoio oficial, foi criado no Teatro Guaíra a Escola de Arte Dramática,  promovendo-se um intercâmbio com grandes companhias nacionais que colocaram Curitiba no roteiro dos grandes espetáculos. A música também ensaiava, por aqui, os seus melhores passos e instituições como a Pró-Música e a Scabi estiveram à frente de cursos e festivais de música realizados na Capital. Tudo isso partilhado com a regência do grande trabalho do maestro Roberto Schnorremberg no comando do Curso Internacional de Música do Paraná. Muitos de nós líamos o Cahiers du Cinéma e acompanhávamos também o pionerismo de Sylvio Back que já anunciava seu grande talento em vários curta-metragens, lançando em 1968, o filme Lance Maior.A crítica cinematográfica surge com o talento prematuro e de vanguarda de Lélio Sotomaior e Sérgio Rubens Sossélla, –que em setembro de 1963 me presenteou seu primeiro livro, 9 Artigos de Crítica  –marcou sua  indelével passagem por aqueles anos, como poeta, como crítico  – um dos maiores entendidos na obra de Fialho de Almeida, no Brasil  – e como colaborador e membro do Conselho de Redação da revista Forma. Naquela mesma época, publicava o ensaio sobre Milton Carneiro e sua Procissão de Eus. Na imprensa, a cultura era veiculada através da incansável atividade de Aramis Millarch e, sobretudo, pelo respeitável trabalho de Aroldo Murá Haigert, cuja coluna Vernissage, no Diário do Paraná, era a caixa de ressonância da melhor expressão da arte e da cultura paranaense. Quiséramos falar de outras sementes, de flores que desabrochavam e de frutos que começavam a amadurecer. Quiséramos falar  das tantas luzes que iluminaram aquela aurora cultural – marcada também pela arquitetura e a importância superlativa do nosso urbanismo –, mas tudo isso ou quase tudo, mal conseguiu chegar intacto até o fim de 68. E toda esta  primavera curitibana  –  abortada pela repressão e o trágico silêncio cultural que se seguiu ao AI-5 –  a Forma se propunha abarcar em seu espaço, mas fechou suas páginas prematuramente e não conseguiu retratar a integralidade daquele fenômeno.

Em julho de 2003 enviei uma carta a Fabio Campana parabenizando-o pelo primoroso lançamento da Revista Et Cetera e dizendo-lhe que, apesar de não ter notícia de que no Paraná se tenha publicado uma revista de cultura com um requinte visual e uma escolha tão criteriosa dos textos quanto a sua, houve, contudo, em Curitiba, uma honrosa exceção, tentada no bem intencionado projeto da revista Forma, lançada pela originalidade e a sensibilidade gráfica de Cleto de Assis e com carismática intelectualidade de Philomena Gebran.

Hoje, 43 anos depois, compulsando com saudade suas páginas, abro o meu nº 01  – autografado pela Philomena, pelo Cleto e pelo João Osório – e releio o primeiro artigo: Cultura no Paraná, uma bela matéria sobre a primeira metade da década de 60. Escrito com  elegância  e inteligência por Ennio Marques Ferreira (a quem o Paraná também muito deve por sua passagem, naquela época, pelo Departamento de Cultura da Secretaria da Educação e Cultura e, mais recentemente, na Casa Andrade Muricy), o texto delineia toda a paisagem cultural do Estado, na primeira década de 60, enfatizando o papel da arquitetura e das artes plásticas. Seguem outras tantas expressões da cultura paranaense e pontificam neste número os desenhos litografados de Poty, a pintura de João Osório, um estudo sobre uma partitura de Bach feita pelo regente José de Almeida Penalva (o famoso Padre Penalva, da época), um belíssimo poema do poeta e estadista senegalês Léopold Sedar Senghor e textos de Sylvio Back, Elias Farah e Nelson Padrella.

A nota de abertura do segundo número comenta da receptividade e do alcance nacional da Revista. Enfatiza seus propósitos como instrumento de diálogo com a intelectualidade brasileira e como instrumento de divulgação de uma cultura democrática. Não vou declinar, nos limites desta nota, toda a seleta galeria dos nomes que integraram os dois números da revista Forma. Contudo, quero ressaltar, no segundo número, a saudosa presença de Guido Pellegrino Viaro contando, num texto autobiográfico, as passagens marcantes de sua vida, desde sua origem simples e provinciana na cidadezinha italiana de Badia Polesina, onde nasceu em 1897. Destaca as dificuldades dos primeiros estudos, seus sonhos com terras distantes, seu alistamento, aos 16 anos, sua participação na 1ª Guerra Mundial, depois a tristeza e os horrores. Mais tarde, os estudos em Veneza e a busca de um caminho para a sua arte…, “a linha – sempre a linha  – os espaços, a cor.”  Da Europa para a América. Do Rio para São Paulo. A chegada fortuita a Curitiba. “Procurei me manter em pé sem fazer concessões. (…). Tratei com carinho a composição, após ter estudado a paisagem e a criatura. Só assim consegui não soçobrar, permanecendo assim mesmo, o pintor figurativo de ontem.”  O  segundo número tem sequência com um estudo arquitetônico de Cleon Ricardo dos Santos; um recheado BAÚ de notícias culturais, o poema Cântico de Guerra, de João Manuel Simões e um interessantíssimo artigo sobre Literatura: Regional & Universal, de Hélio de Freitas Puglielli. Este número fala ainda de teatro e promove  um DEBATE sobre Orson  Welles,  através de textos de Sergio Rubens Sossella, Sylvio Back e Luiz Geraldo Mazza. Entre outras matérias, este segundo e último número da Revista se encerra com dois contos: Lamentações de Curitiba, de Dalton Trevisan e Noite/Nove,  de Jamil Snege.

Forma teve um nascimento deslumbrante, mas, infelizmente, morreu ainda infante. Tinha tudo para ser nossa aldeia, nosso mágico território. Gestada pelas idéias de um tempo melhor, teve um parto cultural luminoso. Filha de tantos anseios e dos legítimos sonhos de cultura do Cleto e da Philomena, todos acompanhamos seus primeiros passos, e por isso  ela foi o nosso mimo, nosso relicário e agonizou em nossas lágrimas. Nestes dias, em que a memória da década de 60 abre as portas para tantos visitantes, registramos aqui nosso saudoso sentimento e uma esperançosa alegria por sabermos que o Cleto de Assis, que navega com destreza nas águas da informática, pretende publicar na Internet todo o rico conteúdo das duas únicas edições.