Cardenal fala de amor e perda

Al perderte yo a ti

Ernesto Cardenal /Nicarágua

Al perderte yo a ti tú y yo hemos perdido:
yo porque tú eras lo que yo más amaba
y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
pero a ti no te amarán como te amaba yo.

Ao perder-te eu a ti

Ao perder-te eu a ti, tu e eu muito perdemos:
eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu, porque eu era o que te amava mais.
Mas, entre nós dois, tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como amava a ti
porém a ti não te amarão como te amava eu.

Versão: Cleto de Assis

Uma incelença entrou no Paraíso

Humor no céu

Walter Bezerra / de Alagoas

No translado para o céu, Chico Anysio ficou na dúvida sobre com qual caricatura iria se apresentar no paraíso. Silva, Popó, Coalhada, Haroldo, Salomé, Azambuja, Alberto Roberto, Painho, Bento Carreiro, Tavares, Gaspar, Canavieira, Quem, Quem… ou Justo Veríssimo, representante legítimo da corruptocracia?

Chico levava na bagagem a criação de 209 personagens memoráveis, entre os por ele interpretados e os que ele criou para outros humoristas, como o Seu Peru (Orlando Drummond), e o Seu Boneco (Lug de Paula). Com passagem pelo jornalismo esportivo, rádio, TV, teatro, literatura, música, dublagem, imitação e pintura, Chico fora, ainda em vida, idolatrado como ídolo, sábio, gênio, mito, fenômeno. Sociólogo do riso, iconoclasta, Deus do humor, Chico, porém, não se gabava com essas alusões ou – como diria ele – bajulações. Dizia-se simplesmente ”humorista do povo”.

Chegando ao céu, vestindo a camisa do Vasco, ele ouviu um background de risadas de auditório. Dava para distinguir inequivocamente a gargalhada inconfundível de boas-vindas de Nair Belo. Chico deparou logo com uma galera da pesada, donos também de um humor refinado e inteligente, segurando uma faixa: “Bem-vindo, Chico Total!” Era a bancada brasileira do riso no Planalto Celestial: Mazzaropi, José Vasconcelos, Ivon Curi, Costinha, Paulo Gracindo, Walter D’Ávila, Renato Corte Real, Grande Otelo, Golias, Mussum, Zacarias, Brandão Filho, Zezé Macedo, Rony Cócegas e Francisco Milani, liderados pela lendária Dercy Gonçalves, que, de cara, à sua maneira escrachada, quis confortar:

— Fica triste não, Pantaleão, a vida aqui não tem mentiras, não é lá muito engraçada, mas é melhor do que aquela porra lá embaixo!

Nesse ínterim, Chico ouve passadas vindo em sua direção. De súbito, à sua frente, surge um personagem histórico, dentro de uma túnica marrom. Era o seu xará Francisco, o de Assis, figura religiosa à esquerda do salafrário Tim Tones, ao qual Chico dedicara fiel adoração profissional. Devoto e seguidor de carteirinha do Protetor dos Animais, Chico acenou ajoelhar-se, no que foi repreendido:

— Não, não precisas, irmão. Somos da mesma estatura espiritual e intelectual. Vimos das mesmas origens e comungamos lutas, buscas e objetivos parecidos. Eu por minha opção pelos pobres e oprimidos e pela minha abnegação material. Tu pela generosidade humana e pela postura crítica da tua verve criativa e irreverente. Vamos por ali, ao encontro do Onisciente. Ele te espera para uma conversa informal. “É vapt-vupt!”- disse São Francisco, sorridente, ressuscitando a frase do velho Professor Raimundo, enquanto apontava para o Portão da Eternidade.

Chico apressou os passos e entrou no Recinto dos Justos. Deus, de cima de sua onisciência, saudou o humorista já com uma lisonja desnorteante, dessas que massageiam os mais despretensiosos e acanhados egos:

— É, Anysio, o Jô Soares tem razão. Tu realmente desmentes a frase “ninguém é insubstituível”.

— “Nem tanto, Mestre!” – rebateu Chico, acuado, meio sem graça, citando um bordão de um dos tipos da Escolinha.

— Verdade! Tu só não foste considerado o melhor e o mais conhecido humorista do mundo porque eu não te batizei com uma língua inglesa. Se tu tiveste nascido norte-americano ou inglês, com certeza tua fama teria corrido o mundo. E pensar que tu querias ser jogador de futebol! Isso não aconteceu porque assim estava escrito. Seria uma perda para a infinita comédia humana. Não tinhas vocação para Pelé. Mas, no humor, foste, sim, um craque. “Queria ter um filho assim!” – revelou Deus, com soberba paternal.

— Mas, Divino, por que me deletasse? Eu não estava a fim de embarcar agora não. Tinha umas coisinhas ainda a fazer. Quando o Senhor convocou a Darcyr, ela tinha 1001 anos. Por que não me permitisse a mesma data de validade, pelo menos uns 95, 98 anos? – reclamou Chico.

— Cada caso é um caso, “meu garoto”! Aliás, essa conversa eu já tive com o Calcanhar de Ouro e com O Anjo das Pernas Tortas, entre outros. É aquela história da livre escolha. Eles escolheram o álcool; tu, o cigarro. Lembras que disseste que fumar foi o teu grande arrependimento?! “Saúde é o que interessa; o resto não tem pressa. Iiiissa!” “Bateu pra tu!?” – explanou Deus, homenageando o recém-chegado com bordões de sua intimidade.

O cearense de Maranguape meteu o rabo entre as pernas e se rendeu:

— É… fumar, sinceramente, foi…

— “Não precisa explicar. Eu só queria entender!” – satirizou Deus, invocando a frase predileta do Sócrates, personagem do Planeta dos Macacos e também da Escolinha.

— Digníssimo, e a corrupção, as tramóias, os escândalos?  Os pobres lá embaixo… como ficam? – quis saber Chico, preocupado.

Deus, em conspiração, piscou o olho para São Francisco, que ouvia o diálogo desde o início, e alfinetou, em alto e bom som:

— “Tenho horror a pobre! Quero que pobre se exploda!” Ser dono do mundo não é nada engraçado e nem gratificante. Eu faço tudo por aquele povo lá de baixo. Apesar de sua insistente gula material, suas babaquices egocêntricas, suas lambanças judiciais e trapaças políticas, dou oportunidades para arrependimentos e correções. Através de poucos homens probos, faço refletir, oriento, aponto os caminhos a trilhar. Vez em quando, só para alertar que ainda estou vivo, faço alguns milagrezinhos. Faço tudo que posso e até o que não devo. E só exijo uma bagatela: a FÉ! “E o salário, ó!”

Depois do desabafo irado, Deus saiu à francesa e às gargalhadas. Diante daquela cena ímpar, Francisco, seguindo o estilo do Eterno, despediu-se, espirituoso:

— “Beijinho, beijinho, pau, pau!”

Minutos depois, Rogério Cardoso – esperançoso – aproximou-se e murmurou para Chico:

— E aí, Amado Mestre, a Escolinha vai rolar aqui ma cobertura? Chico evocou um dos seus personagens preferidos e, amuado, prometeu:

—  “Bento Carneiro, vampiro brasileiro… Deixa eles, minha vingança será malígrina!”

Ainda relembrando Millôr Fernandes

Ainda surpresos com a viagem de Millôr (como alguém escreveu ontem: o Brasil ficou ainda mais sem graça), colhemos mais algumas flores que ele plantou em sua profícua vida. O gosto pela poesia e sua extrema capacidade de reduzir a algumas palavras uma quantidade enorme de pensamentos levou-o as estudar a técnica japonesa dos Hai-Kais, os pomes sintéticos que concentram ideias em apenas três versos. Sempre com as inefáveis leveza e sutileza do humor.  Em suas páginas da Internet ele deixou publicados muitos exemplos de hai-kais e um ensaio sobre essa forma poética, abaixo transcrito. (C. de A.)

Hai-Kus ou Hokkus

(pequena introdução para os não iniciados)

Millôr Fernandes

O Hai-ku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira.

O segundo motivo do não uso da grafia Hai-ku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designando certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi – e não entro em detalhes para não alongar esta explicação – usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste saite.

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescida nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuô Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste saite foram compostos entre 1959 e 1986.

De: http://www2.uol.com.br/millor/haikai/intro/index.htm

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O veludo
Tem um perfume
Mudo.

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A imagem tua,
Amante, decai;
Como a da Lua.

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O pôr-do-sol, é certo
Já não me toca
Tão de perto.

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Nem é segredo;
Sou feito de pó, carência,
vaidade –  e muito medo.

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Não sei se mudo
A sexta-feira é um dia
Longe de tudo.

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À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.

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 Cuidado, Fernando,
Os horizontes
Estão se aproximando.

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Meio-dia e as sombras somem.
Eis uma escondida
Embaixo do homem.

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Morto de ciúme
Sob a luz da lua
Vaga-lume lume.

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Esta é a verdade:
Já sou um homem
Da minha idade.

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1923-2012

Morre Millôr. Viva Millôr!

Vai-se Milton Fernandes, Millôr por acidente ortográfico

Nasceu como Milton Viola Fernandes, mas foi registrado – graças a a um traço fora da linha ascendente do T, que virou um L e o traço um acento circunflexo –  como Millôr. Aos dez anos de idade vendeu o primeiro desenho para O Jornal, do Rio de Janeiro, por dez mil réis. Em 1938 começou a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro. No mesmo ano ganhou um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudônimo de “Notlim”). Assumiu a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicou a seção Poste Escrito,  já assinada por Vão Gogo.

Em 1941 voltou a colaborar com a revista O Cruzeiro, continuando a assinar como Vão Gogo na coluna Pif-Paf, com desenhos de Péricles. A partir daí passou a conciliar as profissões de escritor, tradutor (autodidata) e autor de teatro.

Em 1956 dividiu a primeira colocação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o desenhista norte-americano Saul Steinberg e, em 1957, ganhou uma exposição individual de suas obras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Dispensou o pseudônimo Vão Gogo em 1962,  passando a assinar Millôr em seus textos n’O Cruzeiro. Deixou a revista no ano seguinte, por conta da polêmica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica.

Em 1964 passou a colaborar com o jornal português Diário Popular. Em 1968 começou a trabalhar na revista Veja e, em 1969, tornou-se um dos fundadores do jornal O Pasquim, junto com Ziraldo, Jaguar, Prósperi, Claudius e Fortuna.

Millôr também for um dos criadores do jornal “O Pif-Paf” que, apesar de ter durado apenas oito edições, é considerado o início da imprensa alternativa no Brasil. Seu site publicava páginas da antiga publicação.

Nos anos seguintes escreveu peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio. Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.

Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retornou à Veja em setembro de 2004, de onde sairia, em 2009.

Na virada do século, lançou seu site oficial “Millôr Online”. Mesmo com a avançada idade, foi sempre ligado a internet, às redes sociais, e possuía conta no Twitter com mais de 360 mil seguidores.

Sua morte, ocorrida hoje, 28 de março de 2012, tomou o Brasil de surpresa, logo após o falecimento de outro grande humorista, Chico Anísio. Morreu como o Grande Millôr, outro da coluna dos insubstituíveis. Humoista, sim, mas também grande poeta satírico, na mesma dimensão de um Bocage ou de um Gregório de Matos. (C. de A.)

Poeminha de homenagem à preguiça universal

Que nada é impossível
não é verdade;
todo o mundo faz nada
com facilidade

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Poeminha da negação da afirmação

Sou um homem bem comum
sem nenhuma aspiração.
Não quero ser general
e muito menos sultão.
Sou moderado de gastos,
de ambição reduzida,
não sonho ser big-shot
estou contente da vida.
Nunca invejei o próximo
nem lhe cobiço a mulher,
pego o meu lugar na fila
e seja o que Deus quiser.
Não sou mau pai, nem mau esposo,
Grosseiro nem invejoso
– só um pouco mentiroso.

Poeminha sobre as reações paradoxais numa sociedade

Na conversa sofisticada
a debutante, nervosa,
tem um problema bem seu:
fingir que entende tudo
ou fingir que não entendeu

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Poeminha sobre o Tempo

O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?

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Saudação aos que vão ficar

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?
Que lei impedirá,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?
Que lei de tráfego impedirá um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que não lhe pertence?
Haverá mais lágrimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?
E o que será loucura? E o que será juízo?
A propriedade, será um roubo?
O roubo, o que será?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo não passará então a ser feiura?
Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos)
não farão às ocultas, homens especiais
que, de repente,
possam duplicar o próprio tamanho?
Quem morará no Brasil,
no ano dois mil?
Que pensará o imbecil
no ano dois mil?
Haverá imbecis?
Militares ou civis?
Que restará a sonhar
para o ano três mil
ao ano dois mil?

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr era um grande frasista. Resumia, em poucas palavras, grandes reflexões, como esta:

Claro, sabemos muito bem que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?

Guardei, desde meu tempo de guri, uma outra famosa, publicada no Ministério de Perguntas Cretinas, do Pif-Paf da revista O Cruzeiro:

Por que se chama parto uma coisa que deveria se chamar chego?

Nesses veludos pálidos de Outono

Os Outonos de Emiliano Perneta

David Emiliano Perneta, considerado o Príncipe dos Poetas Paranaenses, teve vida relativamente curta: faleceu aos 54 anos, após ter construído uma biografia pendente entre o lirismo poético, a fervorosidade da política, a paixão profissional pelo Direito, pelo jornalismo e, finalmente, pela auditoria militar, função que cumpriu até sua morte. Mas foi à Poesia que entregou sua maior paixão, tornando-se célebre ainda em vida e aclamado entre os maiores de sua geração. Nasceu em Curitiba, a 3 de janeiro de 1866, em um sítio dos arredores da cidade, hoje pertencente ao município de Pinhais. Seu sobrenome era Antunes, do pai Francisco David, cujo apelido era Perneta, por seu jeito de andar. Adotou essa alcunha, dando origem a mais um ramo tradicional das famílias paranaenses. Desde cedo atraído pela poesia do francês Baudelaire, foi um dos condutos para a implantação do movimento simbolista no Brasil.

Segundo o crítico literário Wilson Martins, em texto publicado pelo jornal Gazeta do Povo, o movimento simbolista marca uma espécie de nascimento da literatura curitibana. “Foi um movimento organizado que produziu bastante e teve relevância nacional”. Os autores curitibanos produziram algumas das principais revistas literárias nacionais, entre elas a Cenáculo, Victrix, A República, Palium e Jerusalém. Para Martins, o principal autor do grupo é mesmo Emiliano Perneta. “É um grande poeta e o que teve, merecidamente, mais destaque nacional.”

No mesmo texto, a professora aposentada da Universidade Federal do Paraná, Cassiana Lacerda, uma das principais pesquisadoras do simbolismo brasileiro, diz que o culto a Perneta, no entanto, foi prejudicial ao poeta. “A província o idolatrou pelo que ele não merecia e não o idolatrou pelo que ele merecia”, explica. O melhor da produção do autor, segundo ela, foi feito quando ele estava longe de Curitiba, em contato com escritores de maior relevância. Mais do que pela obra em si, porém, Perneta era comemorado em Curitiba pelo seu reconhecimento nacional.

A influência dos simbolistas durou até a década de 30, quando o modernismo vindo de São Paulo e do Rio de Janeiro passou a ditar as regras na produção literária.

O simbolismo foi uma típica manifestação cultural da passagem do século. Teve como característica a sofisticação, o culto a valores aristocráticos, usados como uma reação ao pensamento racionalista, o misticismo e a influência de culturas orientais. (Gazeta do Povo, 09/08/2008)

O escritor e crítico José Cândido de Andrade Muricy, em um de seus estudos sobre o poeta, assinala que, de certa forma, Emiliano previu as circunstâncias de sua morte em um de seus últimos sonetos, Lá. E, em sua derradeira composição, datada de 1920, também se refere, como no outro, ao clima melancólico do Outono.Fazemos ao poeta a nossa homenagem, colocando-o entre os que saudaram a estação das folhas amarelecidas. (C. de A.)

Quando eu fugir, na ponta duma lança,
Deste albergue noturno, em que me vês.
Não sei que sonho vão, nem que esperança
Vaga de abrir os olhos outra vez..
 
Porque a esperança doce, de criança,
D’inda os poder abrir na placidez
Duma nuança mansa que não cansa,
Lá, para além dos astros, lá, talvez?
 
Há de ser ao cair do sol. Ereto,
Tal como sou, rudíssimo de aspecto,
Mas tão humilde, e teu, e se te apraz,
 
Eu te verei entrar, suave sono,
Nesse veludos pálidos de Outono,
Ó Beatitude! Angelitude! Paz!

Ao cair da tarde

Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo.
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo…

Nem rosas, nem luar, nem damas… Não me iludo,
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no covil negro desse abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde!

Para que mais viver, folhas tristes de outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.

Saudação ao Outono

Ruínas

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…

Florbela Espanca

Crepúsculo de Outono

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito…
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale…o horizonte purpúreo…
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manoel Bandeira

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão…

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…

Cecília Meireles

No Ciclo Eterno

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.

Fernando Pessoa / Ricardo Reis

Poema de Outono

Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

Convite

Parabéns pra você, Juan Gris!

23 de março de 1887: nasce um grande artista

Juan Gris era o nome artístico do pintor e escultor espanhol José Victoriano (Carmelo Carlos) González-Pérez (Madri, 23 de março de 1887 – Boulogne-sur-Seine, Paris, 11 de maio  de 1927. Ele viveu e trabalhou na França na maior parte de sua vida, convivendo com os grandes da época, conectado com o novo movimento artístico que então surgia, o Cubismo.  Ainda como José Gonzales, Gris estudou, em 1902 e durante dois anos, na Escola de Artes e Ofícios de Madri e, logo após, teve aulas de pintura com o artista acadêmico José Maria Carbonero.

Passou a viver em Paris em 1906, onde se tornou amigo de outros pintores, como Henri Matisse, Georges Braque, Fernand Léger e Amedeo Modigliani, que pintou seu retrato em 1915. Mas foi seu encontro com outro artista e patrício, Pablo Picasso, que deu a Gris nova rota para sua arte. Também estreitou amizades com outros intelectuais, entre os quais os poetas Guillaume Apollinaire, André Salmon e Max Jacob. Para viver, continuou a fazer o que já havia feito na Espanha: colaborar,  como ilustrador, com jornais e revista. Mas seu casamento com a arte o dirigiu a desenvolver um estilo pessoal na nova escola cubista, da qual Picasso seria o líder. Seu retrato de Picasso, pintado em 1912 e que apresentamos aqui, tornou-se exemplo do cubismo inicial, mais do que as primeiras obras de outros importantes artistas do movimento, como Braque e o próprio Picasso.

Juan Gris morreu em 1927, com apenas 40 anos e saúde debilitada. Deixou sua mulher, Josette, e um filho, Georges. Sua obra não se restringiu às artes plásticas: deixou também escritos trabalhos sobre teorias estéticas, por volta de 1924 e 1925, entre os quais se sobressai o que entregou à Sorbonne, com o título Des possibilités de la peinture.

Para quem quiser saber mais sobre a vida e obra do aniversariante, vai aqui o endereço do Web Museum, de Paris, e da página do Google com boas informações. (C. de A.)

Juan Gris – Retrato de Picasso – óleo sobre tela, 93×74 cm – Instituto de Arte de Chicago, Illinois, EUA

A água inerte de Gabriela

Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, nascida em Vicuña, Chile, a 7 de abril de 1889, escolheu um nome mais curto para assinar seu belo trabalho poético. Gabriela Mistral foi o nome que se notabilizou e alcançou o prêmio Nobel de Literatura de 1945, antes mesmo de seu patrício e colega Pablo Neruda, que o ganhou em 1971. E Mistral por quê? É o nome de um vento típico do sul da França, também chamado de vento de Outono, que transporta ar de alta densidade pelas colinas abaixo. Um vento catabático (do grego katabatikos, descendo colinas). Gabriela soube domá-lo e com ele cavalgar pelo reino da Poesia, ora a fazer emergir o amor, outras vezes a extrair emoções da memória, cheias de dor e mágoa. Mas Gabirela Mistral também cantou os elementos vitais e a própria água. Neste Dia Internacional da Água, lembramos um de seus belos poemas, em que observa a chuva, “este fino pranto amargo” que verte sobre a terra.

LA LLUVIA LENTA

Esta agua medrosa y triste,
como un niño que padece,
antes de tocar la tierra
……….desfallece.

Quieto el árbol, quiero el viento,
¡y en el silencio estupendo,
este fino llanto amargo
……….cayendo!

El cielo es como un inmenso
corazón que se abre, amargo.
No llueve: es un sangrar lento
……….y largo.

Dentro del hogar, los hombres
ni sienten esta amargura,
este envío de agua triste
……….de la altura.

Este largo y fatigante
descender de agua vencida.
hacia la Terra yacente
……….y transida.

Bajando el agua inerte,
callada como un ensueño,
como las criaturas leves
……….de los sueños.

Llueve… y como chacal lento
La noche acecha en la tierra.
¿Qué va a surgir, en la sombra,
……….de la Tierra?

¿Dormiréis, mientras afuera
cae, sufriendo, esta agua inerte,
esta agua letal, hermana
……….de la Muerte?

A CHUVA LENTA

Trad. de Ruth Sylvia de Miranda Salles

Esta água medrosa e triste,
como criança que padece,
antes de tocar a tierra,
……….desfalece.

Quietos a árvore e o vento,
e no silêncio estupendo,
este fino pranto amargo,
……….vertendo!

Todo o céu é um coração
aberto em agro tormento.
Não chove: é um sangrar longo
……….e lento.

Dentro das casas, os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
……….da altura;

este longo e fatigante
descer de água vencida,
por sobre a terra que jaz
……….transida.

Em baixando a água inerte,
calada como eu suponho
que sejam os vultos leves
……….de um sonho.

Chove… e como chacal lento
a noite espreita na serra.
Que irá surgir na sombra
……….da Terra?

Dormireis, quando lá foram
sofrendo, esta água inerte
e letal, irmã da Morte
……….se verte?

Dia Internacional da Síndrome de Down

Um Príncipe sonhador

Hoje também se faz homenagem aos portadores da síndrome de Down, desde 2006, após proposta da Down Syndrome International, uma organização filantrópica inglesa. Em suas vidas de permanente superação, embora limitados por sua condições congeniais, essas encantadoras criaturas, as quais sempre associo com o afeto natural e a permanente alegria, nasceram para nos dar lições. Seus grandes esforços e sensibilidade têm revelado dotes artísticos que podem ser invejados por muitos daqueles que se consideram “normais”. Como o poeta escolhido pelo Banco da Poesia, aluno de uma APAE, que percebe o que é a linguagem poética e com ela se expressa no singelo poema aqui publicado. O autor tem, hoje, mais de 30 anos, embora seu desenvolvimento mental, segundo seus professores, seja comparável ao de uma pessoa de 15 anos. E não é fantástico e invejável ter sempre 15 anos?

Ilusões do Amanhã

Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você.
Eu quero apenas viver, se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar, sem nem ao menos me olhar,
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr.
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um,
o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão,
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho.
Na procura de te esquecer,
Eu fiz brotar a flor.
Para carregar junto ao peito,
E crer que esse mundo ainda tem jeito.
E como príncipe sonhador…
Sou um tolo que acredita, ainda, no amor.

Príncipe Poeta (Alexandre Lemos – APAE)