Brasil, parabéns pra você!

Ontem foi comemorado o Dia Mundial dos Bombeiros e hoje (22/04) teremos que convocá-los para apagar as 509 velinhas do bolo de aniversário do Brasil. Apesar de tantas, elas representam apenas cinco séculos de desenvolvimento cultural, com alguns apagões no meio. Já começamos atrasados: foi só em 1530 que a coroa portuguesa passou a se interessar por estas terras descobertas por Cabral. Há muito que falar sobre a Terra de Santa Cruz, a Pindorama que os primeiros brasileiros estão redescobrindo e loteando. Mas hoje é só dia de festa. Para comemorar, postamos um vídeo produzido pelo Sebrae, há dois anos, que mostra a nossa diversidade cultural, por meio do Hino Nacional. Parabéns, Brasilsão!

Dia de Gaia

Hoje (22/04) festejamos o Dia da Terra. E, pelo menos uma vez por ano, refletimos sobre nossas responsabilidades como inquilinos deste Planeta. A tradição cultural da humanidade parece, nos ter dado, tal qual James Bond, licença para matar. Se sociologicamente definimos cultura como tudo o que é aprendido e partilhado por membros de um determinado grupo, o que cria identidade ao grupo a que pertençam, filosoficamente a concebemos como o conjunto de ações humanas que contrastam com a natureza ou com o comportamento natural, isto é, tudo o que o ser humano faz para alterar a natureza e adaptá-la – material ou espiritualmente – às suas necessidades de sobrevivência. Esses conceitos podem ser interpretados de maneira a proteger somente a vida humana e menosprrezar noosa indispensável interação com a terra. Se entendêssemos, desde o princípio, que somos parte da natureza e não seus senhores, teríamos uma convivência mais harmônica com o meio ambiente e, por extensão, com nossos semelhantes.

Dois momentos de reflexão: um poema de Fernando Pessoa/Ricardo Reis e um trecho do livro de Robert Russel sobre nossa relação com o Planeta. C. de A.

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A

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde,
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos, pois, com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes,
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

A HUMANIDADE EM GAlA

Se a biosfera inteira evoluiu como um único sistema vivo, no qual todos os inúmeros subsistemas desempenham papéis diversificados, mas mutuamente dependentes, então a humanidade, sendo um subsistema desse sistema planetário maior, não pode ser dele apartada nem tratada isoladamente. Qual é, consequentemente, a função da humanidade em relação a Gaia?

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Há comumente duas respostas contrárias a esta pergunta. A primeira afirma que a humanidade é como um vasto sistema nervoso – um cérebro global, em que cada um de nós seria uma célula nervosa individual. A segunda possibilidade, mais pessimista, é a de que nós, seres humanos, somos semelhantes a algum tipo de câncer planetário.

No que tange à primeira resposta, a sociedade humana, da mesma forma como o nosso cérebro, pode ser vista como um enorme sistema de coleta de dados, comunicação e memória. Nós, seres humanos, nos juntamos em aglomerados de cidades e metrópoles de maneira semelhante à aglomeração de células nervosas em gânglios num vasto sistema nervoso. Para unir os “gânglios” e cada uma das “células nervosas” existem vastas redes de informação.

Na sociedade, os sistemas mais lentos de transporte – como os serviços postais, em que itens específicos são enviados a diferentes partes do sistema – assemelham-se às redes relativamente lentas de comunicação química do corpo, e.g., o sistema hormonal. Por sua vez, as redes muito mais rápidas de telecomunicação eletrônica (telefones, rádios, computadores etc.) são como os bilhões de minúsculas fibras que unem as células nervosas no cérebro.

Num dado instante qualquer, há milhões de mensagens zunindo pela rede global, assim como no cérebro humano incontáveis mensagens estão continuamente indo e vindo em altíssima velocidade. Nossas bibliotecas e diversos outros arquivos de informação, poderiam ser vistos como parte da memória coletiva de Gaia. Através da linguagem e da ciência, nós conseguimos entender muito do que ocorre ao nosso redor, monitorando o comportamento do planeta como o cérebro monitora o do corpo. Poderíamos ver as culturas do Oriente e do Ocidente como os dois hemisférios do cérebro de Gaia – o esquerdo mais racional/intelectual e o direito mais intuitivo. E a nossa busca de conhecimento poderia ser o modo de Gaia saber mais sobre si mesma e sobre o universo em que vive.

Muitos dos paralelos acima tratam das funções mentais superiores – pensamento, conhecimento, percepção, consciência. Estas funções estão associadas ao córtex do cérebro humano, uma fina camada de células nervosas que envolvem o cérebro por fora, de modo que talvez fosse mais exato assemelhar a humanidade ao córtex do planeta.

Em termos evolucionários, o córtex é um acréscimo relativamente tardio, tendo se desenvolvido principalmente nos mamíferos. Ele não é necessário para manter a vida; o córtex de um animal pode ser extirpado e seu coração, pulmão, sistema digestivo e metabolismo prosseguirão intactos. De maneira semelhante, o planeta Terra sobreviveu perfeitamente bem sem a humanidade por mais de quatro bilhões de anos, e poderia continuar muito bem sem ela.

Isso nos traz à segunda possibilidade, a de que a humanidade talvez seja alguma forma de tumor maligno de erupção recente e que o planeta estaria melhor sem ela. Esta possibilidade ocorreu a Edgar Mitchell* ainda na lua. Imediatamente após o sentimento de identidade com o planeta como um todo, veio-lhe o sentimento oposto, “de que debaixo daquela atmosfera azul e branca havia o crescente caos que os habitantes da Terra vinham gerando entre si. A população e a tecnologia estavam rapidamente fugindo do controle dos homens. A tripulação da ‘espaçonave Terra’ parecia ter virtualmente se amotinado contra a ordem do Universo”.

A analogia com o câncer não pode ser ignorada. A civilização moderna parece estar carcomendo indiscriminadamente a superfície do planeta, consumindo em décadas recursos minerais que a própria Gaia herdou bilhões de anos atrás. Ao mesmo tempo, a humanidade ameaça destruir a estrutura biológica que levou milhares de anos para ser criada. Grandes florestas, essenciais para o ecossistema, parecem devoradas por traças; espécies animais estão sendo caçadas até a extinção; rios e lagos tornam-se amargosos, e grandes áreas do planeta vão sendo transformadas em deserto pela mineração e pelo concreto das cidades. De fato, uma fotografia aérea de qualquer grande metrópole com seus subúrbios espraiados lembra muito o modo como certos cânceres crescem no corpo humano. A civilização tecnológica realmente assemelha-se a um virulento tumor maligno que devora cegamente a sua própria hospedeira ancestral num ato egoísta de consumpção.

Essa é uma visão que parece opor-se à idéia de que a humanidade constitui algum tipo de cérebro global. Todavia, é inteiramente possível que ambas as concepções do papel da humanidade em Gaia sejam válidas. Talvez nós sejamos parte de algum sistema nervoso global que atualmente atra¬vessa uma fase extremamente rápida de desenvolvimento; talvez sejamos para o planeta tudo o que nossos cérebros são para nós. Entretanto, num estágio extremamente crítico, este sistema nervoso parece ter se descontrolado, ameaçando destruir o próprio corpo que sustenta a sua existência.

Se, portanto, pretendemos desempenhar nosso papel como uma parte do cérebro planetário, teremos de sustar o nosso comportamento deletério e reverter nossas tendências negativas. Para tal, é imperativo que modifiquemos, da maneira mais radical concebível, as nossas atitudes perante nós mesmos, perante os outros e o planeta como um todo.

Peter Russel**: O Despertar da Terra – o cérebro global. São Paulo: Cultrix, 2005
_________________
Notas

* Edgar Mitchell – astronauta norte-americano, piloto do módulo lunar Antares, na missão Apollo 14 (1971), foi o sexto ser humano a pisar na Lua.
** Peter Russell (1946) é um autor britânico e produtor de filmes sobre estudos da consciência, espiritualidade e o futuro da humanidade. Na Universidade de Cambridge, estudou Matemática e Física Teórica. Mas, em seguida, tornou-se fascinado pelos mistérios da mente humana e mudou seu interesse científico para a Psicologia Experimental. Perseguindo esse objetivo, viajou à Índia para estudar meditação e filosofia oriental, e, no seu retorno, iniciou uma extensa pesquisa sobre Psicologia e Meditação. Seus principais livros: The TM Technique, The Upanishads, The Brain Book, The Global Brain Awakens: Our Next Evolutionary Leap, The Creative Manager: Finding Inner Vision and Wisdom in Uncertain Times, The Consciousness Revolution, Waking Up in Time: Finding Inner Peace In Times of Accelerating Change, e From Science to God: A Physicist’s Journey into the Mystery of Consciousness.

21 de abril

Hoje é quase domingo. Feriado nacional, quando se enforca o trabalho. Mas não foi para gerar um feriado que Tiradentes foi enforcado.

Conforme cantou Sérgio Porto, o Estanislau Ponte Preta, “Joaquim José / que também é / da Silva Xavier / queria ser dono do mundo/ e se elegeu Pedro II”.

Embora o Crioulo Doido estivesse fora da razão (daí a razão para o epíteto), o certo é que um feriado quase no meio da semana é que é doido. O dia de ontem já foi enforcado em muitos lugares. Municípios fizeram ponto facultativo (você sabe, é aquela data em que assina o ponto quem quer e, por princípio, ninguém quer), escolas fecharam, para aborrecimento de muitos pais que tiveram que emendar sábado, domingo, segunda e terça com a presença das crianças em casa.

Mas não deixemos de relembrar a história de Tiradentes, em cujo dia também se comemora o Dia da Latinidade (quem lembrou dele? Só o Chávez, quando presenteou o já rançoso livro do Eduardo Galeano ao Barack Obama); o aniversário de Brasília (inaugurada em 21 de abril exatamente porque Juscelino queria homenagear um mineiro ilustre); o aniversário de Roma (que não tem nada a ver com Tiradentes, mas em Brasília, na Praça dos Buritis, bem em frente ao palácio do governo distrital, existe uma réplica da Loba com Remo e Rômulo, presente da capital da Itália à capital brasileira –Brasília e Roma são cidades irmãs, devido à coincidência natalícia); Dia Mundial do Bombeiro, homenagem mais que justa (mas sempre apagada – perdão pelo trocadilho – diante da homenagem ao protomártir da Independência), e, ainda no Brasil, onde habita um povo que adora heróicos feriados retumbantes, o Dia da Polícia Civil, o Dia da Polícia Militar (que, possivelmente, serão os únicos a trabalhar neste feriado),  Dia do Metalúrgico (terá Lula lembrado de seus companheiros de antanho?) e, finalmente, o  Dia do Têxtil (que, de certa forma, colabora com a confecção das bandeiras hasteadas no dia de hoje).

Brincadeiras à parte, parabéns a todos os homenageados. Como Tiradentes é o grande nome do dia, vamos homenageá-lo com poesia de sua maior cantora, Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964), em seu épico Romanceiro da Inconfidência, do qual reproduzimos um trecho (três fragmentos de falas). C. de A.

Do Romanceiro da Inconfidência

Cecília Meirelles
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ã

Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
– pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
– avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
– descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados …
– liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
e o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentiras e verdade estão.

ceciliameirfelesNão choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.
Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.
Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!

________________

Ilustração: Detalhe do Painel Tiradentes, de Cândido Portinari – Memorial da América Latina, São Paulo

Um poema de Dunya Mikhail

dunyamikhailNascida em Bagdá em 19 de Março, Dunya Mikhail tem quatro coleções de poesia publicadas em árabe e uma em Inglês. Elas incluem Os Salmos da Ausência, Quase Música, e A Guerra trabalha duro. O seu livro Diário de uma Onda Fora do Mar está programado para sair na Primavera de 2009, pela editora New Directions. Em 2001, ela foi premiada com o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas para a Liberdade de Escrita. A Guerra trabalha duro, New Directions, 2005, (Carcanet,Londres, 2006) ganhou o Prêmio PEN de Tradução , foi seleccionado para o Prêmio Griffen de Poesia e pela Biblioteca Pública de Nova Iorque como um dos 25 melhores livros de 2005. Dunya tem Mestrado em Estudos do Oriente Médio pela Wayne State University, de Michigan, e  é Bacharel em Inglês e Letras da Universidade de Bagdá. Trabalha atualmente como coordenadora de recursos árabes em escolas públicas e na Dearborn Michigan State University. http://www.dunyamikhail.com/

The War Works Hard

How magnificent the war is!
How eager
and efficient!
Early in the morning,
it wakes up the sirens
and dispatches ambulances
to various places,
swings corpses through the air,
rolls stretchers to the wounded,
summons rain
from the eyes of mothers,
digs into the earth
dislodging many things
from under the ruins…
Some are lifeless and glistening,
others are pale and still throbbing…
It produces the most questions
in the minds of children,
entertains the gods
by shooting fireworks and missiles
into the sky,
sows mines in the fields
and reaps punctures and blisters,
urges families to emigrate,
stands beside the clergymen
as they curse the devil
(poor devil, he remains
with one hand in the searing fire)…
The war continues working, day and night.
It inspires tyrants
to deliver long speeches,
awards medals to generals
and themes to poets.
It contributes to the industry
of artificial limbs,
provides food for flies,
adds pages to the history books,
achieves equality
between killer and killed,
teaches lovers to write letters,
accustoms young women to waiting,
fills the newspapers
with articles and pictures,
builds new houses
for the orphans,
invigorates the coffin makers,
gives grave diggers
a pat on the back
and paints a smile on the leader’s face.
The war works with unparalleled diligence!
Yet no one gives it
a word of praise.

guerra

A guerra trabalha duro

Quão magnificente é a guerra!
Quão ávida
e eficiente!
Cedo, pela manhã
ela desperta as sirenes
e despacha ambulâncias
a vários lugares,
estende macas aos feridos,
reune chuva
nos olhos das mães,
e desentoca coisas
de baixo das ruinas…
Algumas são exangues e cintililantes,
outras são pálidas e ainda palpitantes…
Isso produz muitas perguntas
nas cabeças das crianças,
entretém os deuses
com tiros de fogos de artifício e mísseis
em direção ao céu,
semeia minas nos campos
e colhe buracos e pústulas,
estimula famílias a emigrar,
poisiciona-se ao lado dos sacerdotes
enquanto eles amaldiçoam o diabo
(pobre diabo, ele permanece
com a mão no ferro em brasa)…
A guerra continua seu trabalho, dia e noite.
Ela inspira tiranos
a oferecer longos discursos
premia com medalhas os generais
e com temas os poetas.
Ela contribui com a indústria
de membros artificiais,
provê comida às moscas,
acrescenta páginas aos livros de história,
permite igualdade
entre assassinos e assassinados,
ensina amantes a escrever missivas,
acostuma jovens mulheres a esperar,
enche os jornais
com artigos e fotografias,
constrói casas novas
para os órfãos,
estimula os fabricantes de ataúdes,
dá aos coveiros
um tapinha nas costas
e desenha um sorriso no rosto do líder.
A guerra trabalha com incomparável diligência!
E, no entanto, ninguém lhe destina
uma só palavra de louvor.

(versão: C. de A.)

O lançamento de Poemas para a Liberdade

Cerca de 200 pessoas foram cumprimentar Manoel de Andrade no lançamento do livro Poemas para a Liberdade, na última quarta-feira, dia 15 de abril. Na ocasião, além das palavras de agradecimento do poeta, os convidados ouviram a declamação de seus poemas, pelo próprio autor e pela poetisa Marilda Confortin. Renovamos nossos parabéns ao autor e desejamos uma caminhada de pleno sucesso a sua nova obra.

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Outra maneira de olhar a arte

A indicação é do Google: Ver um Velasquez ou um Rembrandt em um lugar como o Museu do Prado, da Espanha, é uma experiência única. Agora você pode usar a tecnologia do Google Earth para navegar entre as reproduções de obras primas do Prado, penetrando ainda mais profundamente naquela coleção. No Google Earth, você pode se aproximar o suficiente para analisar as pinceladas de um pintor ou o craquelê sobre o verniz de uma pintura. As imagens dessas obras têm resolução de cerca de 14.000 milhões de pixeis, 1.400 vezes mais detalhadas que a imagem de uma câmera digital de 10 megapixeis pode conseguir. Além disso, você será capaz de ver uma espectacular reprodução em 3D do museu. Experimente a arte dentro uma nova maneira. Abra o Google Earth, habilite a camada 3D buildings (Construções em 3D na versão em português) no painel esquerdo inferior; escreva Museu do Prado na caixa equerda superior (Voar para), clique na lupa ao lado, inicie a sua visita e veja em detalhes quase microscópicos as obras de arte selecionadas. Com visão superior à dos que visitam o museu pessoalmente e são obrigados, por questões de segurança, a se manter a uma certa distância dos quadros. Veja uma amostra nos vídeos indicados abaixo (uma dica: clique no botão HQhigh quality, para ver em alta resolução).

O Jornal da Globo de hoje (16/04/09) explicou a novidade.

“Uma manhã de primavera em Madrid e um dos museus mais fascinantes do mundo, aberto só para mim. Bom, não é bem assim. Dia fechado ao público, a imprensa pode entrar e gravar. Mas é uma maravilha poder ver tudo sem gente na frente, sem barulho. Para quem gosta de arte, o Prado é um banquete visual. A gente pode se demorar diante de um quadro como o Jardim das Delícias, de El Bosco, Hieronimus Bosch. Poder ficar observando cada traço, cada toque do pincel. É claro que esse é um privilégio para poucos. Mesmo tendo dinheiro, quantos museus uma pessoa consegue visitar ao longo de uma vida? Mas e se essa experiência, com a riqueza dos detalhes de uma visita ao vivo, estivesse disponível na tela do seu computador?

O passeio virtual, em super alta definição, começa pelas ruas de Madri. Chegando ao Prado, o museu pode ser visto em 3D. Um estudo da arquitetura do palácio, antes de romper porta adentro e ver 14 obras-primas como nunca foram antes vistas. Voltemos ao Jardim das Delícias. O tríptico, cheio de detalhes minúsculos, está afastado do público, questão de segurança. A gente vê as cenas fantásticas de pecados e prazeres que El Bosco criou no começo dos anos 1.500, um surrealismo bem precoce. Mas só no passeio virtual conseguimos ver a expressão do próprio artista, num cantinho da tela, se deliciando com as cenas que criou.

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Conheça detlhes sobre esse tríptico em http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Jardim_das_Del%C3%ADcias_Terrenas

O Prado é o primeiro grande museu a botar suas principais obras em altíssima definição na rede. O trabalho foi encomendado para uma pequena empresa sediada no centro de Madrid. Foi tão inovador, que eles documentaram bem o processo. Uma máquina fotográfica poderosa, fazendo milhares de fotos, muito bem calibradas, de cada pedacinho do quadro. Um imenso quebra-cabeças, depois montado no computador. A base tecnológica foi a mesma usada, por exemplo, para a já célebre foto panorâmica da posse de Barack Obama. Mas tratando-se de obras-primas, foi preciso desenvolver novas ferramentas, e terminar ajustando alguns encaixes manualmente. Foi um pouco de tecnologia e um pouco de artesanato?

“Um pouco de artesanato, sim. Fizemos máquinas especiais, aqui, à mão ali, para pode levar a cabo o projeto. Foi uma combinação de elementos”, diz Fernando Garcia Lerma, chefe do projeto. O resultado é que a gente pode ver detalhes que só especialistas em arte, com acesso a examinar as obras de perto, e com lupa, sabiam que existiam. As Três Graças, de Rubens, a olho nu, pode-se ver, sim, que uma delas tem uma espinha na derriére. Mas e esta abelha, no meio da guirlanda de flores sobre as graças? “Os visitantes do museu e mesmo os entendidos que não podiam pegar uma escada e espiar acima das três graças, não poderiam saber que a abelha existia”, afirma Fernando.

Maravilhas de detalhes. A costura feita por restauradores passando pela face de Velazques no imenso quadro As Meninas. A lágrima ainda se formando nos olhos de João, que apóia Maria, uma mãe que perde os sentidos ao ver o filho morto na cruz.

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Roger van der Weyden, "A Descida da Cruz"

Os diferentes estilos, marcados profundamente. Se em um quadro a proximidade espanta pela perfeição, em outro, de perto tudo parece abstrato. Os olhos espantados do homem prestes a ser fuzilado, não mais que uma pincelada negra.

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Francisco Goya, "O 3 de maio em Madri"

Desde o início da internet, os museus entenderam o poder dessa ferramenta para divulgar seu acervo, mas este é um novo passo. Viajar pela tela do computador fica cada vez mais real. Se antes você podia procurar um endereço, digamos, em Paris, pela foto de satélite do Google Earth, o Google Street View agora te põe em frente ao prédio, uma espiadinha na janela, ali, no sexto andar.

O programa começou em São Francisco, na Califórnia, e já inclui muitas cidades ao redor do mundo. Não sem controvérsia. Em uma vila inglesa, o carro com a câmera que faz as imagens foi barrado por moradores enraivecidos que veem o programa como quebra da privacidade. Em Londres, as imagens de um rapaz bêbado, vomitando na sarjeta, de um marido saindo de um sex shop, causaram polêmica e processos e foram retiradas do programa. Mas a maioria dos usuários vê o Google Street como um passeio virtual. Como eu vou da Torre Eifell até a Praça da Concorde? Como é o trânsito na área da Notre-Dome de Paris? Onde tem aquele sorvete maravilhoso, no coração da Ille de Saint Louis? É claro que essa experiência não vem acompanhado dos barulhos, os cheiros, os sabores que fazem uma viagem uma experiência tão única. Mas talvez seja só uma questão de tempo.”

Vale a pena fazer a viagem virtual. Uma fantasia dentro da realidade, com detalhes ainda mais realistas. Mais um avanço do milagre internetiano. C. de A.

Cinco Haikais de Erly Welton

Erly Welton Ricci nasceu em 1955, em Londrina, PR. Graduado em Psicologia (UFES/ES)  e Letras (UEM/PR). Jornalista, atuou em jornais (Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Brasiliense, Folha de Londrina) e revistas (Planeta, Isto É e Em Tempo – como editor). Foi correspondente da Agência Folha na África do Sul, Bósnia e Afeganistão, na década de 80. Desde os 14 anos, dedica-se à poesia, com publicação em diversas revistas e jornais literários, e na produção de documentários sobre cultura e ciência. Tem dois livros publicados: Poeisi Y Auteridade e Imagética In Fine, e dois inéditos, Mitofobia, uma série de cem poemas para serem lidos em voz grave, e Zona Desconhecida (aliteração dos signos).  Atualmente trabalha como assessor de comunicação da Prefeitura de Antonina, onde reside desde 2002.

Os haikais que publicamos foram classificados em concurso de poesia do Japão (2007). Compostos originalmente em inglês, dentro dos padrões exigidos pelo concurso com as temáticas próprias dos haikais – referência a uma estação do ano, natureza e com três versos de 5,7 e 5 sílabas. Segundo o autor, foi feita “uma tradução praticamente literal preservando a métrica, mas não soam tão caligráficos como o pretendido originalmente”.

haikais em cinco estações


1.

primaveraprimavera só
enquanto cor o dia
arco-íris tem flor

xxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxx

2.

outonominha calma vai
folha que voa livre
no azul céu outonal

xxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxx

3.

temposolo tempo é sol
presente em só quatro
estações sentimentais

xxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxx

4.

icecristalcobre o mundo
branco sobre o prado
neve de cristal

xxxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxx

5.

colibribeija-flor bebe
doce orvalho branco
fina flor de luz

xxxxxxxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxx

_____________________

Ilustrações: C. de A.

Hoje, os Poemas para a Liberdade

Hoje, 15 de abril,  a partir das 20 horas, no Espaço Cultural Alberto Massuda (Rua Trajano Reis, 453 – Centro Histórico de Curitiba), Manoel de Andrade lança a edição bilingue de seu livro Poemas para a Liberdade.

Publicamos, abaixo, um dos poemas do livro, em suas duas versões. A primeira, no idioma espanhol, como foi publicado originalmente.

mensagem

Mensaje

Vosotros que aguardáis la vida en el vientre de los siglos,
que sois la gestación de la nueva raza todavía por venir
hoy es para vosotros que yo canto
hoy que vivimos en un tiempo de mártires
granadas floreciendo veloces
mil panteras hambrientas rondando nuestro vientre
puñales azuzados en todos los puños.

Hombres del futuro
es para vosotros mi esperanza mi certeza ardiente
las rosas rojas de mis labios; vosotros que sois las uvas
y el pan de la justicia en nuestros sueños calci¬nados
vosotros que vendréis para justificar nuestra san¬gre
y nuestro dolor.

Va mi verso, va…
porque hoy es triste cantar en las tinieblas
cantar con el hambre de mi pueblo
con el murmullo de los oprimidos;
y con mi hablar hecho de llantos,
hecho de pájaros torturados,
cantar el destino demente de mi patria,
cantar con los cuerpos de los que caen,
y sentir que muero tantas veces
y saber que tantos ya murieron
para que vosotros piséis un día
el suelo de la libertad.

Va velero, va…
mis versos transformados en un solitario barco
a buscaros más allá de muchas lunas.
Me voy de aquí
para no ver mi canción marchitando.
Me voy de aquí
porque el poeta tiene que mendigar por una rosa infinita
por un suburbio qualquiera de la eternidad.

Generaciones futuras,
es para vosotros que hoy canto
para un tiempo de hermanos y camaradas.
Me voy de aquí
a morar con vosotros en la eternidad de la vida.

Va velero, va…
y no encalles la poesía en las aguas bajas de estos años
porque aquí los poetas ya no son oídos.
Navega en busca de los que aún vendrán,
lleva mi sueño por el inmenso mar del tiempo,
llévame bien lejos de mis lágrimas.

Mensagem

Vós que aguardais a vida no ventre dos  séculos,
vós que sois a gestação da grande raça ainda por vir,
gerações futuras,
hoje é para vós que eu canto
porque hoje nós vivemos num tempo de mártires
granadas desabrochando  velozes
mil panteras famintas rondando nosso ventre
punhais atiçados em todos os punhos.

Homens do  futuro
é para vós minha esperança
minha certeza ardente
as rosas rubras dos meus lábios.
Vós que sois as  uvas
e o pão da justiça em nossos sonhos calcinados.
Vós que vireis para justificar o nosso  sangue
e a nossa dor.

Vai meu verso, vai…
porque hoje é triste demais cantar nas trevas
cantar com os gritos do meu povo
com o murmúrio dos oprimidos…
e com minha fala feita em prantos,
feita de pássaros torturados,
cantar com os corpos dos que tombam,
e sentir que morro tantas vezes
e saber que tantos já morreram
para que vós  piseis um dia  o chão da liberdade.

Vai veleiro, vai…
meus versos transformados num solitário barco
a vos buscar além de muitas luas.
Vou-me daqui
para não ver minha canção murchando.
Vou-me daqui
porque o  poeta tem que mendigar por uma rosa infinita
por um subúrbio qualquer da eternidade.

Gerações futuras
hoje é para vós que eu canto
para um tempo de irmãos e camaradas.
Vou-me daqui
para morar convosco na imortalidade da vida.

Vai veleiro, vai…
e não encalhes a poesia nas águas rasas destes anos
porque aqui os poetas já não são ouvidos.
Navega em busca dos que virão ainda,
leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,
leva-me para bem longe das minhas lágrimas.

xxxxxxxxxxxxxxxCuritiba, novembro de 1968
______________________
Ilustração: montagem de C. de A.

Conta nova para Erly Welton Ricci

Nosso Medo

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Não usa sapatos novos
Nem assoma na janela
O uivo de sete paredes
Nosso medo

Ruas mal-iluminadas
Pedra assentada no ombro
O que espreita na lida
O nosso medo

Signo de nenhuma estrela
Crucificada no erro
Em vestes corruptíveis
Nosso medo

Fala pelos cotovelos
Entre ossos e lama e aço
Cerra olhos e punhos
Nosso medo

Não tem a morte no rosto
Não oferece a outra face
Ferro e fogo do verso
O nosso medo

Cálice de vinho e veneno
Inverno de mitos sangrentos
Desperta mil vezes em cena
O nosso medo

É uma montanha de pedra
Ciência e deuses no Olimpo
Rosário de cal e areia
Nosso medo

Punhado de sal na têmpora
O dia que ainda não veio
Barco na névoa espessa
Nosso medo

Cova rasa do julgamento
A linha de qual horizonte
Minúcias de cal e areia
Nosso medo

São farpas e ferpas na unha
Estrada longa e estreita
Reza pra todos os santos
O nosso medo

Ferrugem no pó e nos pelos
O sangue de metal e fungos
A certeza de não sabermos
O nosso medo

Em doze motes de cera
Ferro de muros e cercas
Arame em torno do punho
O nosso medo

Erly Welton Ricci
________________________
Ilustração:
A Tempestade (1893), de Edward Munch (1863-1944)
Óleo sobre tela
91,5 x 131 cm
Museu de Arte Moderna, Nova Iorque

Mais um percurso curitibano de Marilda Confortin

Curitibar

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Gosto muito dos bares
às terças e quintas.
Nesses dias,
todos os pares são ímpares.

Aos sábados,
Todos os gatos são pardos
E as gatas, persas.
Si, siamo tutti perduti, gracia Dio!

Segunda é dia de amantes.
Diamantes… até os falsos, são brilhantes.

As quartas são todas de cinzas.
Curitibanos ranzinzas.

Sexta é extensão de expediente.
Gente barulhenta,
fingindo que está se divertindo.

Das feiras da semana
gosto mesmo das de domingo:
Feira de artesanato,
feira de frutos do mar,
feira de livros,
feira livre
pra ficar dormindo.

Marilda Confortin

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Ilustração:
Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901)
No Moulin Rouge, 1893-95
Óleo sobre tela, 123 x 141 cm
Acervo do Instiituto de Arte de Chicago, EUA