Uma canção de Natal, por Alberto Caeiro

Nossa mensagem de Natal

Mais alguns dias e estaremos festejando, como todos os anos, o Natal cristão, hoje mais materialista do que nunca. Todo mundo disposto a torrar parte do décimo terceiro salário em comilanças e presentes e até de arriscar o acúmulo de dívidas para que nada falte durantes as comemorações natalinas. Claro que muitos continuarão olhando pelo lado de fora das vidraças, a esperar pelo Papai Noel dos Correios ou pelo gesto de solidariedade de qualquer pessoa.

Crentes ou não no espírito religioso do Natal, podemos todos concordar que a data, próxima ao final do ano, é por demais oportuna para comemorar o término de uma etapa de vida e carregar as pilhas da esperança no ano que se seguirá. Não deixa de ser apropriada para renovarmos a solidariedade com nossos próximos e até com os distantes ao nosso imediato convívio social. É o que chamamos de espírito natalino, que faz bem para a alma.

O Banco da Poesia, em seu primeiro Natal (nascemos em março deste ano) quer registrar os votos de um Bom Natal para seus colaboradores e leitores, bem como para todo o mundo, nesta época de globalização e de comunicação instantânea.

Mas não vamos utilizar as tradicionais mensagens, que se afastam da vida real e sonham só com coisas boas. Pois a realidade é feita de coisas boas e ruins. E há crianças que serão felizes, neste e nos próximos Natais, e há meninos e meninas que sofrerão frio, medo, sede e fome neste e em Natais vindouros. E se o Natal, simbolicamente, festeja o nascimento do Menino Jesus, um símbolo de pureza e felicidade para todas as crianças da Terra, por que não pensarmos em um menino Jesus mais humano, mais parecido com nossos filhos e com todas as crianças que brincam e se divertem a olhar a natureza e a vagar por ela sem sentir o peso de responsabilidades e censuras?

Historicamente, nada foi registrado sobre a infância de Jesus, desde que seus pais fugiram com ele de Belém, afastando-o das ordens sanguinárias de Herodes. Não sabemos se ele teve uma infância considerada, à época, normal; se frequentou escolas; se teve amigos e participou de jogos e brincadeiras de crianças. Sua vida pública só foi testemunhada, segundo os livros religiosos, a partir dos 30 anos de idade e, até aí, e principalmente em seus primeiros estágios de vida, só podemos contar com nossa imaginação para tentar recriar a história daquele menino.

Os três heterônimos, na imaginação de José de Almada-Negreiros. Caeiro está à esquerda.

Alberto Caeiro (Lisboa, 1889- 1915) imaginou o seu Menino Jesus. Bem diferente do que pintam os quadros religiosos clássicos. Admite que ele era filho de Deus, mas exprime sua discordância sobre os modos em que foi gerado. E imagina o seu menino como um amigo íntimo, com quem brinca, para quem conta histórias. Tão íntimo que se confunde com sua própria alma. Foi essa história, narrada no oitavo poema de O Guardador de Rebanhos, que escolhemos para comemorar o Natal do Banco da Poesia.

Alberto Caeiro nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, e educação quase nenhuma, só instrução primária, morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Morreu tuberculoso.

Este é o resumo biográfico que Fernando Pessoa faz de uma de suas criaturas. Quase inculto, ele usa uma linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês. pouco ilustrado. Por ser contra a metafísica ( “Há metafísica bastante em não pensar em nada”) é o poeta do realismo sensorial, o sensacionista por excelência, cuja atitude contraria as cogitações do Simbolismo.

Segundo Teresa Rita Lopes e Fabiana Santos, Caeiro “afirma que ‘pensar é estar doente dos olhos’, e quer apenas sentir a natureza. Em perfeita consonância com sua busca de simplicidade, escreve versos livres (sem métrica regular) e brancos (sem rimas). Agnóstico, escreve um poema ousado sobre o menino Jesus. Destituído de santidade, Cristo é representado como criança normal: espontânea, levada, brincalhona e alegre. Nisso está a religiosidade de Caeiro”.

Ainda: “Há dois Caeiro, o poeta e o pensador, sendo o primeiro que em teoria se desdobra no segundo. Segundo a imagem que dá dele próprio, vive de impressões, sobretudo visuais, e goza em cada impressão o seu conteúdo original. Não admite a realidade dos números e não quer saber de passado nem de futuro, pois recordar, é atraiçoar a Natureza”.

“No Poema dum Guardador de Rebanho se declara pastor por metáfora. O andar constante e sem destino, absorvido pelo espetáculo da inesgotável variedade das coisas. Os seus pensamentos não passam de sensações. Limita-se a existir, com um sorriso de existir e não de nos falar.”

“Caeiro surge, pois, como lírico espontâneo, instintivo, inculto (não foi além da instrução primária), impessoal e forte, mas muitas vezes, a simplicidade quase infantil do estilo, pobre de vocabulário, consegue exprimir a infinita diversidade, as incontáveis metamorfoses do mundo.”
Mas não se pense que Fernando Pessoa assumiu tudo o que Caeiro escreveu. Ele mesmo diz ter escrito “com sobressalto e repugnância o poema oitavo do ‘Guardador de Rebanhos’, com sua blasfêmia infantil e o seu antiespiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, como que vivo social e objetivamente, nem uso de blasfêmia, nem sou antiespiritualista. Alberto Caeiro, porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira, quer não, quer eu pense como ele ou não. Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem, que se saiba, histero-epilético, ou de lhe atribuir uma tendência alucinatória e uma ambição que não recua perante o crime. Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama.”

“Parece escusado explicar uma coisa de si tão simples e intuitivamente compreensível. Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.”

Como se nota. FP já fazia, na abertura de Ficções do Interlúdio (que abrigaO Guardador de Rebanhos) um defesa prévia aos possíveis ataques e desentendimentos que seu poema sobre o menino Jesus humano poderia provocar, após sua publicação.

E também traz, como advogado, seu outro heterônimo Ricardo Reis, este mais acostumado à linguagem clássica, que procura justificar a poesia de Caeiro dentro de uma “coerência intelectual (mais ainda que sentimental, ou emotiva)” e até “desconcertante”. Prossegue Reis: “Tudo isto, porém, é verdadeiramente o espírito pagão. Aquela ordem e disciplina que o paganismo tinha, e o cristismo nos fez perder, aquela inteligência raciocinada das coisas, que era seu apanágio e não é nosso, está ali. Porque, se falta na forma aqui está na essência. E não é forma exterior do paganismo — repito — que Caeiro veio reconstruir; é a essência que chamou de Averno, como Orfeu a Eurídice, pela magia harmônica (melódica) da sua emoção”. Ricardo Reis revela que alguns dos poemas/canções de O Guardador de Rebanhos foram escritos com Caeiro enfermo; daí as diferenças entre alguns dos poemas incluídos no livro.

E volta Pessoa a dizer que, em tais poemas, como em outros de seus heterônimos, “não há que buscar … ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler”.

É como se ele estivesse a dizer: eu os criei, mas não fui eu quem falou…

De qualquer modo, o poema oitavo de O Guardador de Rebanhos é um dos belos escritos de Fernando Pessoa, a interpretar o menino que fugiu do céu por puro aborrecimento e veio à Terra buscar o carinho que lá lhe faltava, como filho só de mãe, com pai postiço e espiritualmente gerado por seres metafísicos e distantes dos sentimentos humanos.

Mal sabia FP que, pouco depois de sua passagem por este planeta, existiriam milhares, talvez milhões de meninos e meninas sem pai, a depender só das mães e das andanças nas ruas, onde aprendem a roubar mais do que frutas em pomares e talvez nunca cheguem a perceber aquela “verdade / que uma flor tem ao florescer / e que anda com a luz do sol / a variar os montes e os vales”.

Mas, blasfemo ou não, o poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro é enorme em beleza e ternura, sentimentos que combinam com o espírito de Natal.

Poema Oitavo de O Guardador de Rebanhos

Fernando Pessoa com poucos meses, no colo de sua mãe

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Tríndade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu,
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou~se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Fernando Pessoa, um ano de idade

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estraadas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

A primeira cadeira de Fernando Pessoa

A primeira cadeira de Fernando Pessoa

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternídade a fazer meIa.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada das coisas que criou —
“Se é que ele as criou, do que duvido” —
Ele diz, por exemplo, que “os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

…………………………………………………………………………………………..

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

Fernando Pessoa aos dois anos e meio

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro.
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Fernando Pessoa com cinco anos

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

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Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

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Ilustrações: de Fernando Pessoa – Uma Fotobiografia. Organizada por Maria José de Lencastre. Lisboa:Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1981

Hélio Puglieli, finalmente, abre sua conta

Hélio Fileno de Freitas Puglielli, Professor da UFPR (1971/96), da PUCPR (1967/78) e ex-editorialista dos jornais curitibanos O Estado do Paraná, Indústria & Comércio e Gazeta do Povo. Como poeta, oferece uma contribuição destinada a merecer os mais profundos estudos pela dimensão da proposta, no que contém de síntese-filosofia em palavras das mais trabalhadas em O Ser de Parmênides chama-se Brahma, livro de apenas 18 páginas. Hélio faz uma espécie de projeto literário, coincidentemente, em outro livro (Para Compreender o Paraná, 86 páginas, Secretaria da Cultura do Paraná), onde dá sua contribuição de crítico, com a visão de jornalista que nunca abandonou a profissão. Ao deixar o compromisso diário com o jornal, não deixou, porém, de escrever. Selecionou 93 textos curtos em sua forma, mas profundos em seu conteúdo – nos quais analisa desde o linguajar paranaense, como faz perfis de personalidades como Bento Munhoz, David Carneiro, Erasmo Pilotto, Ernani Reichman, Sérgio Sossella, Emiliano Perneta, Wilson Martins, Paulo Leminski, Plácido e Silva, Colombo de Souza, Samuel Guimarães da Costa, entre outros. Despretenciosamente, Para Compreender o Paraná, é um dos mais importantes volumes já editados, pois, numa forma rápida, simples e jornalística, mostra “Bichos do Paraná” que merecem – e devem – ser melhor estudados e, logicamente, admirados.

As informações acima, condensadas (e atualizadas) de um texto maior escrito há tempos por Aramis Millarch, são apenas breves pinceladas da figura do respeitado jornalista e poeta, que manda seu primeiro depósito ao Banco da Poesia. Um poema de certa forma provinciano, por se referir a personagens de um estrito cenário cultural curitibano –  que nossa geração conheceu muito bem – mas universal por tratar carinhosamente da lembrança de amigos queridos e da eterna perplexidade humana diante da ineludível viagem.

Bem vindo, Hélio! A casa é sua.

Pelos amigos mortos

ou

Guinsky, nós nos lembramos

Os anjos do poeta Colombo de Souza
estão lavando as nuvens no céu,
enquanto pelos caminhos da infância
foge a raposa azul de Armando Ribeiro Pinto.
Wilson Rodrigues Cordeiro sorri de soslaio
e só o Guinsky se lembra dele,
embora não consiga desenhar
a camisa azul e o terno cinza
ectoplasmáticos.
E muito menos será possível fixar
a cor do sorriso, flor do enfisema mortal.
Guinsky, Guinsky, onde se perdeu a chave
que abria fechaduras na testa de seus fantasmas?
Aqueles pontos de interrogaçâo que você semeava
atravessaram a ponte das lembranças.
(Sobre a superfície das águas
nem mais flutua o espírito de Deus.)
Por que era tão encabulado o poeta
Cristóvão Colombo de Souza?
Por que Armando amou o cinema tanto
e não arrancou das telas para a vida
sequer um hollywoodiano happy end?
Por que Wilson Cordeiro fumava tanto,
rivalizando com o juiz Sérgio Rubens Sossela?
Deste, milhares de poesias curtas vagam pelo espaço.
São petardos, ainda quentes das horas de insônia e desespero.
O famigerado juiz-rabo-de-cavalo,
agora sem Corregedor pra aporrinhar,
acelera a moto na mais sensata corrida de sua morte.
Jamil Snege, na esquina, dá aquela risada safada,
ele que fumou até a hora de morrer,
fino artesão de palavras,
olhar brilhante apagado,
cinzas de cigarro.
O caboclo Cardoso
há muito tempo se foi.
Está em Morretes, incógnito,
na gerência de bar invisível.
Por que, Guinsky, não há como desenhar
as inaudíveis rabecas?
Também se foi César Bond,
aquele dos “homens tão chapéus”,
mas Curitiba não sabe.
Curitiba global.
Valêncio calou a voz de falsete,
descalçou os sapatos de lona,
pé ante pé, procurando
infinitas vanguardas.
Walmor Marcelino acaba de partir,
com muxoxos de desdém,
intransigente sempre,
coerente sempre,
exceção à regra.
Quem vai gravar o sotaque catarina,
a figura quixotesca
com lances de prosápia e de rancor?
(Preferível tê-lo pouco amigo e debochado
a ter dez amigos desfibrados.)
Toda essa gente está nas estrelas, Guinsky.
mas, é claro, não dá pra ver
neste porra céu fosco de Curitiba.

________

Ilustração: C. de A.

Nova visita de Antonio Machado

Um dos posts mais lidos no Banco da Poesia é o que apresentou Os Caminhos de Antonio Machado.Encontrei outro belo poema do poeta espanhol (1875-1938) que trago à apreciação de nossos leitores.

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A la desierta plaza

A la desierta plaza
conduce un laberinto de callejas.
A un lado, el viejo paredón sombrío
de una ruinosa iglesia;
a otro lado, la tapia blanquecina
de un huerto de cipreses y palmeras,
y, frente a mí, la casa,
y en la casa la reja
ante el cristal que levemente empaña
su figurilla plácida y risueña.
Me apartaré. No quiero
llamar a tu ventana… Primavera
viene — su veste blanca
flota en el aire de la plaza muerta — ;
viene a encender las rosas
rojas de tus rosales… Quiero verla…

À deserta praça

À deserta praça
conduz um labirinto de ruelas.
A um lado, o velho paredão sombrío
de uma igreja em ruínas;
a outro lado, o muro esbranquiçado
de um horto de ciprestes e palmeiras,
e, frente a mim, a casa,
e na casa a grade
ante o cristal que levemente empana
sua figurinha plácida e risonha.
Vou ausentar-me. Não quero
chamar a tua janela… Primavera
vem — seu vestido branco
flutua no ar da praça morta — ;
vem acender as rosas
vermelhas de teus rosais… Quero vê-la…

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Versão e ilustração: C. de A.

Homenagem aos 15 anos de ausência de Tom Jobim

Há exatos quinze anos – 8 de dezembro de 1994 – morria em Nova Iorque o compositor, maestro, pianista, violonista , cantor e arranjador brasileiro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido como Tom Jobim. Tom foi músico e poeta. Na sua carreira, escreveu poemas musicados, associou-se a outros poetas – como Vinicius de Moraes – e deixou para a MPB obras imortais.

O Banco da Poesia presta sua homenagem a Tom com dois poemas seus carregados por músicas famosas: As Praias Desertas e Luiza. As duas músicas também completam a homenagem com vídeos do You Tube. Infelizmente não encontrei a melhor interpretação (diversas cantoras brasileiras a gravaram) de As Praias Desertas que, na minha opinião, é de Maysa. Para Luiza, vai o vídeo com a voz de Tom e a beleza da catarinense Vera Fisher, na novela Brilhante, para a qual Tom Jobim compôs a canção, em 1981.

As Praias Desertas – 1958


As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar

O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar

O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir

Porque tudo na vida há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois

Luiza – 1981

Lua,
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza

As Praias Desertas

com  Luciana Souza e Felipe Labate  ao violão

Luiza

Voz de Tom Jobim

Raul Pough envia um depósito

Pausa mortis

Raul Pough


de um lado

este meu infalível dom para
xxxxxxxxxxxentornar caldos

de outro

esta tua falta de talento para
xxxxxxxxxxxjuntar cacos

tinha tudo pra acabar mal
acabou mal

xxxx… (tempo ao tempo)

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Ilustração: Salvador Dalí Relógio Mole no Momento da Primeira Explosão, 1954 — Pintura sobre papel – 14 x 19.1 cm – Museu Salvador Dalí, St. Petersburg, Florida, EUA

Anjos de Francisco Cenamor

Francisco Cenamor (Asamblea de Palabras) nos conta que seu poema “Ángeles sin cielo”, que dá nome ao livro por ele publicado em Madrí (2003, Ediciones Vitruvio) misteriosamente desapareceu do conteúdo, na hora da impressão. Culpa, evidentemente, dos diagramadores e revisores. Por isso ele sobrevive aí, solto, sem as presilhas da prensa gráfica, como anjo sem céu e sem pátria. Vale a pena conhecê-lo.

Ángeles sin cielo

las personas que en el metro nos venden pañuelos
las que alegres nos regalan con su música
las que vienen de lejos las de hablar extraño
las que con el hijo en brazos
nos exageran su dolor al oído
las que nunca sabremos si acaban de salir de la cárcel
yo sé que son ángeles
ángeles sin cielo
ángeles que tienen sexo y pecan
que se rascan la pierna si les pica
que nos distraen de nuestra diaria pesadilla terrenal
que nos transportan con canciones lloradas al paraíso

schiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis
ahí vienen
miradles a los ojos
son ángeles
yo les he visto las alas

Anjos sem céu

as pessoas que no metrô nos vendem lencinhos
as que alegres nos brindam com sua música
as que vêm de longe as de falar estranho
as que com o filho nos braços
nos exageram sua dor ao ouvido
as que nunca sabemos se acabam de sair da prisão
eu sei que são anjos
anjos sem céu
anjos que têm sexo e pecam
que coçam as pernas se são picadas
que nos distraem de nosso diário pesadelo terrenal
que nos transportam com canções choradas ao paraíso

schiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis
aí vêm
mirai-os nos olhos
são anjos
eu vi suas asas

______

Versão e ilustração: C. de A.

A resignação de Vera Lúcia Kalahari

Estranhei o silêncio de Vera Lúcia Kalahari, a poeta portuguesa que escolheu Angola como um de seus ninhos de arribação. Ela me informa que esteve às voltas com problemas de saúde de sua filha, felizmente já superados. E manda ao Banco da Poesia mais um depósito, segundo ela produzido sob o efeito da emoção dolorosa por que passou. Agradeço e desejo plena saúde para sua filha e felicidade total para as duas.

Vontade de Deus


Se é vontade de Deus
Eu ser um pingo de chuva
Na esquecida sonolência
Dum rastro d’onda perdida
Eu ser eco ou ser brisa
Ser suspiro ou ser grito
Ou ser uma estrela cadente
Morrendo no infinito…
Se é vontade de Deus
Eu ter de lutar, de gemer,
E de sentir o que sente
O dia fugindo desfeito
Nos dedos frios da noite…
Se é vontade de Deus
Eu ser una ou ser múltipla…
Ser segundo, hora ou dia…
Ser raiz feita flor
Ou ser um caminho aberto
Por onde os pobres desfilam,
Esse será o meu destino
E será minha ventura…
Porque aquele que procura
E anseia por um além
Encontra sempre um bem
No mal que a vida tem.

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Ilustração: Cleto de Assis

Parabéns, J.B. Vidal, o Palavreiro de dois anos!

Há um ano, eu tive a oportunidade de cumprimentar meu amigo João Bosco Vidal, poeta e editor de  Palavras, Todas Palavras, pelo primeiro aniversário de seu blog. Estávamos sem comunicação, pois Vidal, recém migrado para a Ilha de Nossa Senhora do Desterro, popularmente conhecida como Floripa, enfrentava as chuvas torrenciais que alagaram Santa Catarina, naqueles meses de novembro e dezembro de 2008. Nosso receio era que a iniciativa do poeta gaúcho se perdesse também nas lágrimas da intempérie. Um bando de amigos passou a procurá-lo na nuvem intenetiana, mas nem o Vidal físico, nem o virtual apareciam.

Felizmente tudo foi esclarecido, sem que tivéssemos necessidade de pedir os préstimos da Scotland Yard, do FBI ou da Interpol, uma vez que Palavras, Todas Palavras já não era assunto nacional, pois em apenas um ano de vida já havia extrapolado as fonteiras brasileiras.

E mais um ano se passou. Com o seu blog revigorado, Vidal somente é lamentado pelos amigos curitibanos por não estar mais por aqui. Mas isso também se transforma em incentivo para que, de vez em quando, o procuremos em sua nova residência na Praia dos Ingleses, onde ele e Rosângela recebem os amigos com fidalguia e iguarias dignas de ceias de cardeais.

Como homenagem aos dois anos de trabalho cultural do poeta, publico um dos poemas de seu próximo livro, Ofertório, ainda sem data marcada para lançamento, em que o paganismo místico de Vidal se revela com toda a força. Tive o privilégio de ser convidado para verter seus poemas ao Espanhol, pois a edição será bilíngue.

Eis, portanto, uma amostra do livro, com uma ilustração minha (a contragosto do poeta: segundo ele, as imagens gráficas distraem os leitores do conteúdo das palavras; como aqui ele não manda…). E repito o abraço que já mandei hoje pela manhã, em um comentário no seu blog. (C. de A.)

Ofertório – Dor

a dor que ofereço não foi provocada
nem   apascentada por mim e a solidão
veio com a chuva, c’os raios
com os anéis de saturno, na cauda do meteoro
fez poeira de lágrimas
e instalou-se nesta podridão

soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’lma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu

quero então oferecer
esta dor maior  que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação

ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
ofereço a dor da ânsia divina de morrer

Ofertorio – Dolor

el dolor que ofrezco no fue provocado
ni apacentada por mi y la soledad
vino con la lluvia, con los radios
con los anillos de saturno, en la cola del meteoro
hizo polvo de lágrimas
y se instaló en esta podredumbre

supe entonces del dolor de parir
y parido fui,
del dolor del hambre y hambre sentí
del dolor de la sangre y la sangre corrió
en mi alma gnóstica
el dolor asumió y sobrevivió

quiero pues ofrecer
este dolor mayor que el cuerpo
más que desprecio y humillación
más que guerras y exploración
más que almas tullidas
más que humanos en guiñaposa degradación

ofrezco el dolor del amor que he amado
de la partida sin adiós
de la nostalgia sin sentir
de la espera inquietante
del futuro irrelevante
ofrezco el dolor de la ansiedad divina de morir

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Versão e ilustração: Cleto de Assis

Marilda Confortin convida

Perdi ontem. Mas hoje e amanhã tem mais.

Erly Welton quase apocalíptico

Poema feito e refeito

Erly Welton Ricci


Será necessária a queda do sol
Marte explodindo sobre new york
Chuva de pedras da lua

Serão necessários mares fervendo
O gelo dos árticos encobrindo céus
Esfoliação da pele dos ritos

Será necessário o sangue nas gruas
A merda espalhada nos condomínios
A praga de mil bestas rugindo

Será necessário plastificar o dia
A unanimidade do grito no escuro
Queimar as florestas nos meses pares

Serão necessárias moendas de carne
Gases venenosos na superfície
Baixar a cognição ao zero

Será necessária a acidez dos planos
Satanizar deuses e gênios
Tornar cinza todo amarelo

Será necessário uivar novamente
Estriquinina jogada na fonte
Sacrificar todo ente in vitro

Será necessário copiar os ossos
Desfragmentar portas e janelas
Ferir a noite permanentemente

Será necessária a massa dos muros
O inferno que faz suar muitos sonhos
Acumular dejetos na mesa

Será necessário inventar tantos mitos
Comer a alma atirada na lida
A filosofia do ouro e do sal

Serão necessários caminhos tortos
Pedra na fronte e no sapato
Transpor palavras com subescrituras

Serão necessárias as dores alheias
Ouvir o ruído da fome e da sede
Incendiar cidades e aldeias

Serão necessários alguns anos ainda
Engravidar a mulher do próximo
O sangue vulcânico nas veias

Será necessário um punhal no pescoço
Mais de três bailarinas nuas
Fumar raiz de jurema

Será necessário risível piedade
muito gás carbônico na veia
auras cheias de escamas

Será necessário cancelar as lendas
a mente enredada na teia
para criar novo plano

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Ilustração: C. de A.