Campeão de bilheteria

applaudingNosso Banco da Poesia está obtendo, a cada dia que passa, mais leitores. Estamos com uma média diária de mais de 80 visitas, o que é muito bom por se tratar de um blog especializado em poesia e afins. Umas das últimas postagens, o conto de Vera Lúcia Kalahari, atraiu muita gente e o diálogo que suscitou entre a autora e Manoel de Andrade, nos comentários, merece ser lido. Vejam abaixo.

Aliás, queremos concitar nossos leitores a enviar comentários, pois o blog só se justifica pela troca de idéias, das análises, peloo recebimento de sugestões e, se possível, de colaborações. C. de A.

Um conto de Vera Lúcia Kalahari

Nossa amiga e correntista Vera Lúcia Kalahari nos envia, de Angola, um conto de sua autoria, premiado em 1973 em Lourenço Marques, atual Maputo, Luanda, Huambo e Benguela.

Mãe

xxxxxEsse era o dia em que Saiengue, o soba de Camanongue, esperava a chegada de seu filho único, vindo da cidade.
xxxxxO rapaz partira há seis anos e agora todos aguardavam o seu regresso: o pai, a velha mãe, a mulher, o filho e a filha. Nesses seis anos nenhum deles o vira e assim cada um o esperava anciosamente.
xxxxxA cubata erguia-se a certa distância do povoado, longe da única estação, e por isso não podiam saber a hora exata da chegada. Era uma pequena casa muito limpa, no meio de um extenso mangueiral, alinhado nas margens do rio. Do outro lado erguiam-se verdejantes montanhas que se perdiam em picos altos e nublados. No tempo do frio, o rio corria remansoso e pouco profundo. Mas quando as chuvas chegavam das serranias, as águas cresciam assustadoramente, lamacentas e escuras.
Todos se haviam vestido mais cedo e ficaram sentados pacatamente à espera. Lá estava o velho pai, a barba branca destacando-se no rosto negro e grave. Era um homem respeitado naqueles lugares.
xxxxxHoje, porque seu filho único voltava, pusera o seu melhor pano, que comprara há anos na cidade.
xxxxxAo lado do velho, sentava-se a mulher, a única que tivera em toda a sua vida, porque havia sido uma boa companheira, dócil e trabalhadora. Numa pedra mais baixa, sentava-se a nora, companheira do seu filho. Segurava uma fita longa de missangas, e seus dedos hábeis iam tecendo um cinto largo de cruzes miúdas, em carmesim. O seu rosto, nem feio nem bonito, denotava a ansiedade febril que a tomava. De vez em quando baixava-se para dizer qualquer coisa à pequenita que lhe brincava aos pés. Mais longe, debaixo de uma grande mangueira, um rapazito esguio tentava colher um fruto dourado. O velho tinha os olhos fitos no rapaz, mas via-se que o seu pensamento estava distante.
xxxxxA velha mãe virou-se para a nora e perguntou:
xxxxx— Compraste o peixe na loja do Calonjere?
xxxx —Sim, minha mãe, tratei de tudo.
xxxxxNa obscuridade da porta os seus olhos brilhavam na face escura.
xxxxxO miúdo escorregou, caíu e começou a chorar desalmadamente. A jovem mulher levantou-se rapidamente e limpou-lhe os calções do pó.
xxxxx— Cala-te! Teu pai está prestes a chegar e não gostará de te encontrar assim!
xxxxxO rapaz limpou as lágrimas com as mãos e sentou-se calmamente no capim áspero. O velho olhou o neto, alisou a barba branca e, sorrindo, disse:
xxxxx— Calomanga ficará satisfeito por ter à sua espera dois filhos como estes.Ele te agradecerá a maneira como trataste seus velhos pais nestes longos anos. Foi um bom dia aquele em que te trouxe para esta casa.
xxxxxMal havia acabado de proferir estas palavras, ouviu-se uma voz na curva do caminho. Era bem a voz de que eles se lembravam e que tanto desejavam ouvir, mas agora bem diferente das suas recordações.
xxxxx— Aqui estou!
xxxxxA velha mãe uniu as mãos com força sobre o regaço. O velho levantou-se rapidamente do chão. Os passos do recém-chegado ressoavam mais perto, na terra avermelhada. A mulher, que se deixara ficar sentada, de olhos fitos no solo, pôde ver os pés calçados de grossas botas e ouviu-o gritar:
xxxxx— Meu pai! Mãe!
xxxxx— Filho…— disse o velho.
xxxxxA sua voz tremeu e suavemente começou a chorar. A mãe acercara-se timidamente e tocou no braço do filho.
xxxxx— Calomanga, estás diferente. Não pareces o mesmo!
xxxxx— Mãe, seis anos não deixam ninguém na mesma – disse o rapaz numa voz clara e rápida.
xxxxxDepois, acercou-se da jovem mulher que se mantivera imóvel.
xxxxx— Então, Fuvuca, estás boa?
xxxxx— Foi a melhor das filhas para nós,Calomanga-falou o velho.
xxxxx— Sim?— interrompeu o jovem. — E onde estão os meus filhos?
xxxxx—Estou aqui…
xxxxxO pequeno abeirou-se lentamente e olhou aquele desconhecido, de sapatos de cabedal e de calças que eram de um tecido grosso e escuro, uma fazenda dos brancos. Calomanga passou-lhe a mão pelos cabelos ásperos , rindo.
xxxxx— Então foi nisto que se transformou o pequeno choramingas que deixei?
xxxxxA jovem mulher olhava-o agora abertamente. Sim! Como estava mudado! Seis anos na cidade haviam modificado seu marido, cheio de juventude e energia. Sentiu-se muito tímida e começou a chorar.
xxxxxApós uma longa pausa, como se cada um tentasse adivinhar os pensamentos do outro, Calomanga começou a falar. Dir-se-ia que falava apenas para preencher o vácuo que se estendia sobre eles.
xxxxx— Como é bom estar de volta! É pena continuar tudo tão atrasado!
xxxxx— Estamos na mesma – respondeu o velho pai, permanecendo um pouco pensativo.
xxxxx— Pois é…Habituado como estou à cidade, tudo me parece bem diferente – estas últimas palavras foram ditas com um certo ar de troça -.
xxxxxFuvuca sentiu um leve aperto no coração e, silenciosamente, afastou-se.

………………………………………………………………………………………………………….

xxxxxCalomanga havia distribuído os presentes que trouxera.
xxxxxA jovem esposa retirara-se para um canto, olhando o marido e os filhos que o cercavam.
xxxxx— Pai…tenho uma coisa para lhe dizer…
xxxxxO velho estremeceu e puxou com força a manta que lhe escorregava nas pernas. A fogueira bruxuleava, pondo sombras grotescas nas mangueiras que se erguiam em copas cerradas.
xxxxx— O pai sabe… — continuou o filho . — Na cidade vêm-se muitas coisas. Já não poderei ficar aqui. Acostumei-me a outra vida. Vim, para levar os meus filhos, para metê-los na escola dos brancos.
xxxxxOs pequenos começaram aos pulos, a gritarem radiantes.-
xxxxx— Irei no comboio…Irei no comboio…
xxxxxA miúda agarrou-se ao pai e perguntou ansiosamente:
xxxxx— Eu também vou?
xxxxx— Sim, tu vais também, — respondeu o pai com energia.
xxxxx— E Fuvuca? – falou o velho mansamente.
xxxxx— Bem…ela…pensei mandá-la de volta para o pai. Dar-lhe-ei dinheiro e nada lha faltará.
xxxxxO pequeno Jamba virou-se para a mãe, os olhos brilhando de satisfação.
xxxxx— Então irei para a escola! Sempre desejei isso!
xxxxxNenhum deles pensava em Fuvuca, reparava na sua expressão. Ninguém notou como ela tremia, a não ser o velho, que continuava sentado, acariciando a barba branca.
xxxxxCalomanga, radiante com a alegria dos filhos, exclamou:
xxxxx— Irás para a escola, verás grandes ruas, automóveis , tudo o que nunca viste até agora.
xxxxxA criança não se pôde conter:
xxxxx— Quando vamos? Eu quero ir já!

old_hands
xxxxxFuvuca olhou para aquele filho que acalentara ao longo das noites, que bebera do seu leite. Lembrou-se de quando lhe limpava a boca gotejante de leite branco. Era então aquele o seu filho! Este, encontrando o olhar da mãe, confessou, pensativo:
xxxxx— Sempre quis ir para a cidade, mãe!
xxxxxCalomanga agarrava a filha, num gesto de posse. Então, a miúda encostando a cara ao pai, olhou, arrogante, para a mãe.
xxxxx— Está claro que nada te faltará – dirigiu-se o homem para a jovem mulher.

xxxxx— Nunca passarás necessidades.
xxxxxFuvuca olhou-o com dignidade, mas ele nem reparou, enlevado como estava com os filhos. E sem que ninguém se apercebesse, a mãe saíu de casa. Sentou-se na pedra onde se sentara por tantos anos com os dois filhos. Num instante pensou no que seria a sua vida dali para o futuro. Sim! Já sabia qual o caminho a tomar. Levantou-se e caminhou silenciosamente para o rio que brilhava ao luar. Ainda ouviu a voz do filho, gritando alegremente:
xxxxx— E posso também andar de carro?
xxxxxO velho tinha começado a falar, numa voz triste e implorativa.
xxxxxA água corria-lhe agora aos pés e sentiu o frio cortante do seu beijo. Lembrou-se por instantes que devia descer rapidamente e lançou-se convulsivamente para a frente.

xxxxxO rio abriu-se para a receber num abraço gélido. Como de muito longe, pareceu-lhe ouvir ainda a voz do filho, repetindo várias vezes, a rir:
xxxxx— Irei de comboio…Irei de comboio…
xxxxxEsta voz morreu ao longe e a jovem mãe nada mais ouviu.
xxxxxAs águas fecharam-se novamente e continuaram o seu serpentear tranquilo para o mar.

River

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Ilustrações: Cleto de Assis

Paraná na final do Prêmio Jabuti de Poesia

PremioJabutiFoi divulgada a relação dos finalistas do Prêmio Jabuti 2009, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Os vencedores serão conhecidos apenas em setembro. Mas chegar à final já é consagração. Os três vencedores de cada categoria serão anunciados no dia 29 de setembro, exceto os ganhadores das categorias Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção, que serão revelados na cerimônia de premiação, no dia 4 de novembro, na Sala São Paulo.

O Paraná está honrosamente representado por Alice Ruiz, que concorre com seu livro Dois em Um, editado pela Iluminuras. Se ela vencer, será o seu segundo Jabuti, pois já foi premiada em 1989, com seu livro Vice Versos.

São estes os livros finalistas do Jabuti 2009:

Dois em Um (Iluminuras), Alice Ruiz (Paraná)
Chocolate Amargo (Brasiliense), Renata Pallotini (São Paulo)
Antigos e Soltos: Poemas e Prosas da Pasta Rosa (Instituto Moreira Salles), Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro)
Cinemateca (Schwarcz), de Eucanaã Ferraz (Rio de Janeiro)
A Letra da Ley (Annablume), Glauco Mattoso (São Paulo)
Homem Ao Termo – Poesia Reunida [1949-2005] (Editora UFMG),  Affonso Ávila (Minas Gerais)
Outros Barulhos (Reynaldo Bessa), Reynaldo Bessa (Rio Grande do Norte)
Geometria da Paixão (Anome Livros), Dagmar de Oliveira Braga (Minas Gerais)
Os Corpos e Os Dias (Editora de Cultura), Laura Erber (Rio de Janeiro)
Ferreira Gullar: Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Fronteira), Ferreira Gullar (Maranhão)
Réquiem (Contra Capa), Lêdo Ivo (Alagoas)
Uma Hora Por Dia (7letras), Maria Helena Azevedo (Rio de Janeiro)

Dois em Um
Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR, em 22 de janeiro de 1946. Começou a escrever contos com 9 anos de idade, e versos aos 16. Foi “poeta de gaveta” até os 26 anos, quando publicou, em revistas e jornais culturais, alguns
poemas. Mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos.

Aos 22 anos casou com Paulo Leminski e, pela primeira vez, mostrou a alguém o que escrevia. Surpreso, Leminski comentou que ela escrevia haikais, termo que até então Alice não conhecia. Mas encantou-se com a forma poética japonesa, passando então estudar com profundidade o haikai e seus poetas, tendo traduzido quatro livros de autores e autoras japonesas, nos anos 1980.

Teve três filhos com o poeta: Miguel Ângelo Leminski, Áurea Alice Leminski e Estrela Ruiz Leminski. Estrela também é uma grande poeta: acabou de lançar um livro, junto com o Yuuka de Alice: Cupido: Cuspido e Escarrado (pela Editora AMEOP, de Porto Alegre) – provando que, filha de duas feras, essa Estrela tem luz própria.

Alice publicou, até agora, 15 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil, que você pode conhecer clicando em Bibliografia [no site da autora].

Compõe letras desde os 26 anos – a primeira parceria foi uma brincadeira com Leminski, que se chamou “Nóis Fumo” e só foi gravada em 2004, por Mário Gallera. A poeta tem mais de 50 músicas gravadas por parceiros e intérpretes. Está lançando, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, pela Duncan Discos, com as participações especialíssimas de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes. Para conhecer
essas gravações e os parceiros da poeta, dê uma olhadinha em Discografia [também no site da autora].

Antes da publicação de seu primeiro livro, Navalhanaliga, em dezembro de 1980, já havia escrito textos feministas, no início dos anos 1970 e editado algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos.

Alguns de seus primeiros poemas foram publicados somente em 1984, quando lançou Pelos Pêlos pela Brasiliense. Já ganhou vários prêmios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro Vice Versos.

Já participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Exposição Transcriar – Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótica, em 1985, SP; do Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, SP, em 1984; Poesia em
Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991; da XVII Bienal, arte em Vídeo Texto e também integrou o júri de oito encontros nacionais de haikai, em São Paulo.

As aulas de haikai são uma experiência única para quem já fez – Alice convence a gente que no fundo de cada um existe um poeta louco pra despertar, e descobrimos surpresos que sim, é possível!

Quer saber mais sobre Alice Ruiz? Então passeie pelas páginas do [seu] site – e depois não se esqueça de escrever pra ela, contando o que você descobriu aqui! Carô Murgel – Historiadora (s.d.)

Chico de Assis, uma estréia no Banco e na rede

Conheci Chico de Assis recentemente. Fui apresentado a ele por uma amiga que o conhece há mais tempo. Pelo que entendi, ambos tiveram um namorico na juventude e nunca mais deixaram de ser amigos. Chamou-me a atenção o seu nome, pois pensei logo em um possível parentesco. Mas ele me informou que foi batizado como Francisco de Assis Xavier. O sobrenome era do pai, que resolveu fazer uma homenagem a dois dos santos de sua devoção.

Na escola, ainda pequeno, muitos caçoavam, como informou, de seu nome,
chamando-o de São Francisco de Assis Xavier, ou simplesmente São Francisco Xavier. Mais tarde, para livrar-se das brincadeiras patronímicas, retirou o apelido paterno e passou a usar apenas Francisco de Assis. Emenda pior que o soneto, só mudou de santo. Como sempre foi uma pessoa simples, sem vaidades físicas, e costumava usar sandálias mais confortáveis que apertados sapatos – e, durante algum tempo de sua juventude contestatória, uma barba à cubana –  as semelhanças com o frade italiano eram ainda mais evidentes. Daí decidiu reduzir para Chico de Assis. Contou-me que só usa o nome verdadeiro em documentos e na conta bancária, quando sobra algum para depositar.

Minha amiga falou de suas qualidades de poeta e ele rapidamente emendou:
“De vez em quando…”, denotando certa timidez em falar de suas virtudes.
Mas, após uns três bons copos de vinho, destramelou a língua e nos brindou com alguns trabalhos seus, os que sabia de cor.

Ao final da conversa, depois de muita insistência minha, pediu meu e-mail para enviar alguns textos. Revelou que sempre se manteve longe da divulgação eletrônica de seus versos. Primeiro, porque nunca considerou seus poemas acabados, definitivos. “A cada passo que damos na vida, sempre há o que acrescentar”, falou, filosófico. Segundo, porque, no fundo, não se julgava um verdadeiro poeta, digno de espalhar suas palavras por aí. Jamais quis publicar livros e o máximo a que chegou foi à distribuição de trabalhos xerocados a amigos muito íntimos.

Como faço sempre com os novos colaboradores do Banco da Poesia, pedi a ele que enviasse, junto com os poemas, um resumo biográfico e uma foto. Aí ele reagiu e, quase seco, disse-me que os poemas já eram enorme concessão que fazia, em consideração à amiga comum. Mas biografia e foto, de jeito nenhum.

Mas por quê? — saiu-me a pergunta instintivamente. Ele simplesmente pegou um guardanapo de papel e escreveu, em um só lance, e, em seguida, entregou-me o produto, com o esclarecimento de que a primeira quadra é de Machado de Assis:

xxxxx“Ante as sandálias furadas
xxxxxQue entre cascalhos gastei,
xxxxxNão culpo o chão das estradas,
xxxxxCulpo os maus passos que dei.”

xxxxxNão tenho biografia
xxxxxSó poeira recolhida
xxxxxEm cada dura porfia.
xxxxxResumo assim minha vida.

xxxxxJá a foto reclamada
xxxxxnão a tenho, nem desejo
xxxxxter a cara publicada.
xxxxxEvito assim o gracejo

xxxxxQue me zangava de fato
xxxxxdesde os tempos de baixinho:
xxxxxquando viam meu retrato
xxxxxfalavam que era “santinho”…

Justifica-se, portanto, o quase anonimato. Dias depois, recebi sua mensagem, enviada de uma lan house. Ele havia dito que, como gosta muito de viajar, não tem computador. Sempre que precisa, estaciona em uma loja de Internet e escreve seus versos, ou transcreve os já rabiscados em uma caderneta. A máxima aproximação com o mundo eletrônico de exclusiva propriedade é um pen drive doado por um amigo, que levou tempo para aceitar; foi incluído em sua parca bagagem material porque não ocuparia lugar de nenhum par de meias – informou também o seu sempre presente bom humor.

Publico um primeiro poema, agradecendo a Chico de Assis, com as boas vindas do Banco da Poesia ao poeta estreante na rede eletrônica.

Promessa

Oferta

Não, não: não quero encontrar o amor dentro de uma receita de bolo.
Esta virá depois, metaforicamente, como requer a poesia.
Mas agora, neste momento mágico,
quando eu já pensava que tinha perdido as conexões cardíacas
tão próprias de almas mais jovens e aventureiras,
deixe-me entregue às metáforas e às imaginações.

Quando eu fizer perguntas, deixe-me navegar no mar das dúvidas
que só se apaziguará com o tempo.
Talvez nós dois, juntos, o levaremos à bonança
sem usar palavras, só com atos de ternura.

Por isso, quando ainda a sinto arredia,
atenta a atos e palavras com científico rigor,
juro, solene, junto ao altar do deus Amor:
preencherei sua alma com flores e poesia.

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Ilustração: Tratamento gráfico de imagem recolhida na Internet, sem indicação de autor

Artur Alonso Novelhe (da Galícia) imerso em pensamentos

Mulher formosa, olhada na distância

MulherFormosa

Serão, pois pensamento, os tristes olhos da mulher que eu amei por um segundo?
E não por ingenuidade seria a irmã mais velha da lua que já possuí
alguma que outra vez, como sempre com a torpeza da casualidade; seu espelho.
Aquele que tantas vezes se pergunta que demos fazes tu ai, interrompendo,
interpretando a desoras as horas do mundo.

Será o meu pensamento que sonha um corpo perfeito, e não repara
porque nunca tampouco reparamos, nas inúmeras dificuldades,
que estão ai a volta e formam o impedimento.

Será que a paixão cega ao homem que reparte bondades pelas ruas além, tiradas a volta,
antes dela, muito antes dela na tarde esquecer-lhe os deveres, zunir-lhe a paciência
só para respirar, ao longe, aquele sinuoso perfume de fêmea voraz
tão distante tão impossível, que é simples invento nosso
e por cima nos encoraja a embrenhar num profundo, escuro mar,
onde a luz sempre depende de aquela penúltima paisagem: ela olhando a lua nossa.

Ela que domina e tu nunca sabes, aonde pode seu engenho conduzir
no país dos surdos, do outro lado do quarto minguante, nas caras sempre ocultas.

Será o pensamento, a sentir-se já na sua magia escravo
ou simplesmente o nosso próprio ego estúpido, que orgulhoso nos prepara
à derrota mais completa e iminente, nessa batalha que nunca poderemos ganhar
por que o amor que perdura é para o débil um impossível

Mesmo antes de ser dela, já fomos vitimas do nosso infinito desejo:
ficamos admirando a mais profunda das belezas. Sempre, a ela, nos rendemos.

Serão, pois seus tristes olhos ou o medo a ruir, instintos que dela me afastam,
me matam por dentro, me impelem, ir na sua procura e
perder-me… Perder-me com ela por sempre.

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Leia mais poemas de Artur Alonso Novelhe aqui, aqui e aqui.

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Ilustração: Cleto de Assis

Miniconto

Lex Mirtaceae

xxxxxxxxxCleto de Assis

Gabiromar

Tal qual o sábio inglês, ele repousava em baixo de uma árvore. Não uma vetusta macieira britânica, mas uma guabirobeira selvagem, que, provavelmente plantada por Deus ou um de seus jardineiros, há muito estava ali, a alimentar passarinhos, serelepes e meninos aventureiros.

Sem se importar com as leis da mecânica universal, seu pensamento gravitava em torno de memórias guardadas lá no fundo da cachola. De repente, um fruto caiu do galho mais alto e esborrachou-se em seu nariz.

O susto sempre faz a gente pensar em coisa maior. Ele imediatamente desviou sua cabeça para o lado, com medo de que mais petardos caíssem sobre ele. Cumpria a primeira parte da terceira lei de Newton: actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem. Mas nada mais trágico aconteceu.

Passou a mão em seu rosto e sentiu a massa fria e amarelada, que seria tomada como imp(r)udência de ave voadora não fosse o odor penetrante e inigualável do fruto maduro. Ao susto sobreveio a paz. Cheiro de infância. Gosto de meninice.

Fechou os olhos, sem limpar a face lambuzada e aspirou fortemente. Ah, a viagem movida a guabiroba… O sorriso dos olhos de Marisa a passar-lhe, um a um, os pequenos globos mirtáceos. Depois, as mãos de Marisa, a ternura de Marisa e o perfume suave de Marisa.  Ele pensou que se um perfumista afamado capturasse da fruta o aroma, teria que gravar no frasco o nome insubstituível: Marisa. Do mar das saudades. Do mar a brisa.

Estava criada a Lei da Afetividade.

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Ilustração: C. de A.

Iriene em dois poemas

Iriene

Ainda não conheço Iriene Borges pessoalmente. Quase por acaso, passei em seu blog e li seus versos. Gostei: com certeza estamos diante de uma nova e promissora poeta paranaense. Para supresa minha, notei que ela colocou o Banco da Poesia em seus links, o que já nos torna amigos virtuais. Em rápida comunicação, pedi licença para publicar seus poemas e solicitei algumas referências biográficas.  Ela vive em Curitiba, estuda artes plásticas na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Poeta, participa do livro Pó &Teias – Antologia de Poemas, crônicas e Contos, edição de 2006, e de Balela, a ser publicado ainda em 2009. Estreia hoje no Banco da Poesia. Espero que seja nossa constante correntista. Bem vinda seja, Iriene.

Práticas antigas

PráticasAntigas

Eu dançarei sobre teu túmulo
Paganismo inerte
Música que aprendi de ouvido
no pulsar envenenado
que me perverte
mas sustenta o fôlego

Desfarei no giro dos quadris
A mandinga e a modorra
que lançaste-me sobre a libido
Terei teu jazigo revolvido
e até o verme cuidarei que morra
sob coreografias febris

Ocorre que as hordas infernais
são palavras esmurrando minha porta
e as logro no encanto das cantigas
E entre ritos novos e práticas antigas
vislumbro-te carne exposta
nas manchetes dos jornais

Breve dançarei sobre teu túmulo

Alquimia

Alquimia
Adorno-me com falsas pepitas
que brilham no breu

Ardil que ante os espelhos
desvia-me de ver

Ouro de tolo sou eu

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Ilustrações: C. de A.

O imortal Emílio de Menezes

emilio de menezesEmílio de Menezes nasceu em Curitiba, a 4 de julho de 1866 e faleceu no Rio de Janeiro,  em 6 de junho de 1918). Foi jornalista e poeta. Imortal da Academia Brasileira de Letras, mestre dos sonetos satíricos, humorista, fazia de seus versos instrumento de publicidade para os produtos de consumo de sua época.

Era filho do também poeta Emílio Nunes Correia de Menezes e de Maria Emília Correia de Menezes, único homem dentre oito irmãs. Fez seus estudos iniciais com João Batista Brandão Proença, e depois no Instituto Paranaense. Sem ser de família abastada, trabalha na farmácia de um cunhado e, ainda com dezoito anos, muda-se para o Rio de Janeiro, deixando em Curitiba a marca de uma conduta já distoante ao formalismo vigente: nas roupas, no falar e nos costumes.

Boêmio, na capital do país encontra solo fértil para destilar sua fértil imaginação, satírica como poucos. A amizade com intelectuais, entretanto, fez com que tivesse seu nome afastado do grupo inicial que fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897. Mais tarde, em 1914, teve seu nome aprovado para suceder Salvador de Mendonça, na cadeira nº 20. Designado para saudá-lo no ato de posse, o acadêmico Luís Murat adoeceu e a cerimônia foi adiada. Emílio, então, escreveu um discurao e se propôs a fazer sua leitura em substituição à saudação de praxe. Mas eram tantas as impropriedades, no entender da Academia, que o poeta foi orientado a mudar palavras e conceitos, “aberrantes das praxes acadêmicas”. Emílio protelou o quanto pôde para fazer as emendas sugeridas e, quando faleceu, quatro nos depois de ter sido eleito, ainda não havia tomado posse de sua cadeira.

Em sua vida carioca, Tornou-se jornalista e, por intercessão do escritor Nestor Vítor, trabalha com o Comendador Coruja, afamado educador. Em 1888 casa-se com uma filha deste, Maria Carlota Coruja, em 1888, com quem tem no ano seguinte seu filho, Plauto Sebastião.

Sua verve bem humorada levou-o a ser convidado a fazer pequenos versos publicitários para produtos da época, como se vê abaixo.

Mas Emílio não estava fadado para a vida doméstica: neste mesmo ano separa-se da esposa, mantendo um romance com Rafaelina de Barros.

Autor de versos mordazes, eivados de críticas das quais não escapavam os políticosda época, Emílio de Menezes seguia a tradição iniciada no Brasil com Gregório de Matos e também se notabilizou como mestre dos sonetos.

Nomeado, em 1890, para o recenseamento, como Escriturário do Departamento da Inspetoria Geral de Terras e Colonização, Emílio aposta na especulação da falácia econômica do Encilhamento*, criada pelo Ministro da Fazenda Rui Barbosa: como muitos, fez rápida fortuna, esbanjou e, terminada a febre ilusória,  foi à falência como quase todos os demais investidores. Não muda, entretanto, seus hábitos. Continua o mesmo boêmio de sempre, a povoar os jornais da época com suas percucientes anedotas.

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* O encilhamento ocorreu durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891). O Minístro da Fazenda, Rui Barbosa, na tentativa de estimular a
industrialização do Brasil, adotou uma política baseada em créditos livres aos
investimentos industriais garantidos pelas emissões monetárias. A especulação
financeira desencadeada, a inflação e os boicotes através de empresas-fantasmas
e ações sem lastro desencadearam, em 1890, a Crise do Encilhamento. O ato de
encilhar refere-se às apostas que seriam o modo com que os especuladores
atuavam na Bolsa de Valores com as empresas fantasmas. Esta crise causou
o aumento da inflação, crise na economia e aumento da dívida externa. A política
econômica executada por Joaquim Murtinho conteve a emissão da moeda
e procurou estimular o crescimento industrial do país.

Noite de Insônia

Insônia
Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!…

Louco e só! Desvairado! — A noite vai sem termo
E estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas, talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!…

Germinal

Germinal
Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.

Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.

Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.

Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!

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Poesia satírica

Os jornais da época noticiaram: Em Roma, S. S. Pio X resolveu suprimir sete dias
santificados e criar um para o dia de São Pedro. Emílio interpretou a boa nova
em um soneto.

Sem ter ofício certo, o nosso papa
Matuta agora em que passar o dia.
Da prisão que o envolve não se escapa
E, de Veneza, sofre a nostalgia.

Do mundo crente dominando o mapa
E, exercendo a maior soberania,
Vê, entretanto, que o mundo se lhe escapa
E, não conhece o que dirige e guia.

Para se distrair, o prisioneiro,
Os dias santos, impiedoso, corta
Mas um concede ao celestial porteiro!

E não fizesse que, de cara torta,.
Quando soltasse o alento derradeiro,
São Pedro, à face, lhe trancava a porta !

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Propaganda em versos

Emílio de Menezes - Caricatura de K. Lixto

Emílio de Menezes - Caricatura de K. Lixto

I

Quem pelas chuvas não se molha e enloda,
Quem da vida possui toda a fortuna,
Tudo que ao savoir-vivre se acomoda
Num requinte, trabalho e formosura;

Quem na mais elevada e grande roda
Não quer representar triste figura,
Usa sempre um chapéu de última moda
E um guarda-sol de rara formosura.

E é por isso que a fina-flor mundana
Procura a novidade e a fantasia
Na casa que em chapéus é soberana.

E a nossa principal chapelaria
É a ideal “Chapelaria Americana“:
Carvalho, Portugal e Companhia.

II

Velho é o conselho do cherchez la femme
Para tudo que existe neste mundo!
Verdade que resiste a todo o exame.
Conceito entre os profundos, mais profundo!

Quer o que a atos violentos nos inflame
E do homem calmo faça um iracundo;
Quer o que nos humilhe até o vexame,
E de um Deus faça um diabo num segundo,

Tudo há de vir dessa divina origem
Desse princípio em tudo dominante
Que nos leva de rastros à vertigem.

Para que seja sempre triunfante
Os próprios deuses trêmulos transigem
E isso “A Saúde da Mulher” garante!

Quadras encomendadas pela Cervejaria Brahma

I

A José Bonifácio se insulava
Nessa ilha pitoresca, Paquetá!
Lugar que a água de coco dominava
E a Brahma-Porter dominando está.

II

O pintor Victor Meireles,
Que faleceu nesta data,
Dizia que ao próprio
Zoeller já era a cerveja grata.

III

Nesta data morreu nosso Macedo,
Autor do Moço Loiro e Moreninha.
Quando o releio penso assim em segredo:
Um chope loiro e um copo da Negrinha.

Quadras sobre os cigarros Odalisca e Excelsior

I

Quando a tempestade aumenta
O raio no espaço risca
Esta sentença: “A tormenta”
Cede a um cigarro Odalisca.

II

Do alto céu demande o rumo
O aroma que o cigarro tem.
Porém o odoroso fumo
Do Excelsior vai muito além!

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Anedotário

Emílio de Menezes deixou um rastro de anedotas, ainda não recolhidas com o devido cuidado histórico. É possível que algumas nem tenha sido criadas ou vividas pelo poeta e a comunicação oral já tenha aumentado mais alguns pontos nas sucessivas narrações. Mas as que aqui transcrevemos têm o sabor do humor emiliano.

I

Emílio de Menezes estava em um bonde, no Rio de Janeiro, quando entrou uma conhecida atriz que não lhe erra muito simpática, mas que sempre o assediava, quando se encontravam. Ela procurou sentar no lugar vago a seu lado, mas o poeta lhe desencorajou com uma pronta observação, após verificar que havia lugares disponíveis mais atrás:

— Atriz atroz, atrás há três!

II

Em um de seus prediletos pontos de observação – a mesa de um bar – Emílio bebia com amigos quando vê passar uma pessoa com fama de conquistador, de nome Penha. Os amigos comentaram que Penha estava, no momento, sofrendo de males de amor não correspondido por uma mulher de duvidosa reputação. O poeta saiu-se com esta:

— Um homem que se diz Penha sofrendo por uma mulher que se disputa…

III

Manhã de sexta-feira santa. As famílias de Curitiba saem das missas de rememoração da morte de Cristo. Algumas passam pela Praça Osório e encontram Emílio embriagado, amparando-se em uma das palmeiras do logradouro. Imediatamente reconhecido, vão até ele e o censuram.

— Emílio, mas nem o dia de hoje, em que todos se recolhem para lembrar a morte de Nosso Senhor, você respeita?

Nem sua visível embriaguez não o impede de uma tirada inteligente:

— Não foi no dia de hoje que se cometeu o maior crime da humanidade, em que mataram o Filho de Deus feito homem?

— Foi, é claro!… — responderam os piedosos conhecidos. E ele completou:

— Pois quando a divindade sucumbe, a humanidade cambaleia…

IV

Mesmo cenário: Praça Osório, no centro de Curitiba. Postado em sua mesa, em um bar, com vista para a praça, Emílio vê uma senhora bastante obesa a tentar acomodar sua massa corporal em um banco de madeira. Mas o assento não suporta o peso e cede, para susto da untuosa dama. Emilio não demora a fazer sua observação:

— É a primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos…

V

Perguntam-lhe:

— Emílio, sabes qual a parte mais bonita do corpo da mulher?

— Sei-o!

VI

O poeta visitava uma exposição agrícola e deteve-se a examinar alguns exemplares de espigas de milho, no pavilhão de cereais. Aparece a seu lado um amigo espirituoso que, sabendo das qualidades de Emílio como trocadilhista, quis antecipar-se e disse:

É milho!…

Emílio nem sequer sorriu pela blague a ele dirigida e logo respondeu:

— Hum, estás com a veia, hoje?

O humorista improvisado percebeu que não poderia concorrer com a veia cômica de Emílio e fez menção de despedir-se e sair de fininho. Mas o poeta o interceptou:

— Não, não se evada.

E puxou-o até uma cadeia próxima, colocando-o sobre o assento.

— Pronto: sentei-o. Mas não te preocupes. A ti não intrigo, somente humilho.

VII

Apertado para aliviar a bexiga, correu até um terreno baldio. Muito gordo, estava terminando de desafogar-se quando um menino grita:

— Ih, eu vi seu negócio!

Emílio recompõe-se, chama o pirralho e lhe dá uma moeda:

— Tome, você merece! Há anos não o vejo…

VIII

Certo médico. muito conceituado na profissão, há muito se candidatara a uma vaga na Academia
Brasileira de Letras.. Em uma roda, comentava-se sobre se ele conquistaria a cadeira.

—  É mais que certo, — opinou Emílio; — Vocês compreendem: há muito tempo, que F. está fazendo uma cabala única para entrar para a Academia! Não há acadêmico que adoeça, mesmo levemente, que ele não se ofereça para ser seu médico assistente e de graça…

— Cavando o voto!… —  interrompe um dos circunstantes.

E Emílio explica:

— Qual voto! Cavando a vaga…

IX

Ainda estudante, Emílio se aborrecia com os discursos certo Professor Saboya, na sala de aula. Percebendo seu desinteresse, o mestre lhe pergunta:

— Senhor Emílio, defina a Sabedoria!

Resposta rápida:

— A sabedoria, professor, é algo que tem efetivamente muito peso… se colocada n’água, ela afunda.

— E a ignorância, então?

— A ignorância? Ora, essa bóia!

Nada como um belo depósito bancário

Vera Lucia Kalahari, de Angola, nos envia um depósito especial.

Nada

Nada

Amanhã, como agora
Estarei a pensar no Nada.
Nada: O absolutismo total, o esquecimento,
O vazio, o coisa nenhuma.
Nada: O ponto de partida e de chegada.
Nada: A interrogação, a resposta, a negação.
Nada: A crença, o cepticismo.
Nada: Aquilo que fomos, que somos, que seremos.
Nada: O gostar, o desprezar, o odiar.
Nada: A centelha fugaz da vida,
A eternidade real da morte.
Nada: O sonho, a realidade, o sobreviver.
Nada: Nós… Átomos perdidos do Nada
Na busca incessante do Nada.

xxxxxxP.S. Escrito por nada, num dia sem nada.
___________________
Ilustração: C. de A.

E vamos por aí

Poesia e Internet. Uma linguagem e um instrumento de comunicação. Talvez os poetas mais antigos, em suas solidões nos autoconfessionários da alma, nunca imaginaram que, um dia, estariam tão próximos de seus leitores. Sem preconceitos e sem barreiras geográficas. O Banco da Poesia registra depoimentos de pessoas simples, a manifestar seu gosto pela poesia. E, nesta interação instantânea, nosso blog, assim como milhões de sites publicados na rede, percorre os caminhos das estrelas e atinge habitantes de qualquer parte do planeta sensíveis ao mundo da poesia.

Começamos, em nossos primeiros dias, a travar contato com o poeta espanhol Francisco Cenamor, que edita o blog Asamblea de Palabras. Ele já é nosso correntista e registrou por lá a entrada do Banco da Poesia na rede. Depois publicamos poemas de Vera Lucia Kalahari, que vive em Angola e percorre as sendas da África ainda misteriosa e sofrida. Imediatamente ela nos chama de amigo e se corresponde conosco como se fôssemos vizinhos de janela. Mas outro português, lá na cabeça da Europa, lê seus poemas e os republica em seu blog. E nos manda um simpático recado:

Olá, Cleto de Assis
Parabéns pelo seu bonito e útil blogue.Tomei a liberdade de republicar um poema da Vera Lúcia  publicado no seu blogue.

Rui Moio.” http://sentirsentidos.blogspot.com/2009/08/viagem.html

Nosso mais recente amigo de infância foi mais longe: reproduziu o texto publicado no Banco da Poesia no Google Reader, ampliando ainda mais a leitura do que publicamos. E nos abre um relicário de belos poemas de vasto panorama da lusofonia.

Também já não quer dizer nada imaginar que o Timor Leste está lá do outro lado da Terra. Logo após à publicação de cinco poemas de poetas timorenses, obtivemos respostas amoráveis, a primeira já consignada no post específico, que nos recomenda outros poetas timorenses: “Este Banco de Poesia (está de parabéns pela iniciativa e assim é mais um a divulgar Timor Leste) que não esqueça esses que sentem Timor de uma forma tão sensível. Sem egoísmos,  publiquem os seus trabalhos, porque eles são arte genuína de Timor do Sol Nascente”, nos diz J. Rodrigues Sarmento, lá do outro lado da Terra, editor do blog Aqui é Timor-Leste.

E também de imediato nos vem a notícia de que o Banco da Poesia foi recomendado ao leitores do blog Uma Lulik , também do Timor Leste, como “um blog em destaque – Visite o blogue Banco da Poesia e leia poesias de Crisódio T. Araújo, Fernando Sylvan, Jorge Barros Duarte, Jorge Lauten e Ruy Cinatti ilustradas com belas imagens representativas”.

Já o responsável pelo site social Portugalmaresias, João Raimundo Goçalves, de Costa de Caparica, Portugal, nos dá conta que criou “um espaço de amizade onde se cruzam a poesia e a prosa, os cheiros e os sabores da Lusofonia”. E nos convida a participar (convite aceito!) do seu recanto eletrônico.

E por aí vamos. A encurtar os mares e aproximar as terras à vista. A criar amizades e fortalecer solidariedades. Graças à poesia. (C. de A.)