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Miniconto

Lex Mirtaceae

xxxxxxxxxCleto de Assis

Gabiromar

Tal qual o sábio inglês, ele repousava em baixo de uma árvore. Não uma vetusta macieira britânica, mas uma guabirobeira selvagem, que, provavelmente plantada por Deus ou um de seus jardineiros, há muito estava ali, a alimentar passarinhos, serelepes e meninos aventureiros.

Sem se importar com as leis da mecânica universal, seu pensamento gravitava em torno de memórias guardadas lá no fundo da cachola. De repente, um fruto caiu do galho mais alto e esborrachou-se em seu nariz.

O susto sempre faz a gente pensar em coisa maior. Ele imediatamente desviou sua cabeça para o lado, com medo de que mais petardos caíssem sobre ele. Cumpria a primeira parte da terceira lei de Newton: actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem. Mas nada mais trágico aconteceu.

Passou a mão em seu rosto e sentiu a massa fria e amarelada, que seria tomada como imp(r)udência de ave voadora não fosse o odor penetrante e inigualável do fruto maduro. Ao susto sobreveio a paz. Cheiro de infância. Gosto de meninice.

Fechou os olhos, sem limpar a face lambuzada e aspirou fortemente. Ah, a viagem movida a guabiroba… O sorriso dos olhos de Marisa a passar-lhe, um a um, os pequenos globos mirtáceos. Depois, as mãos de Marisa, a ternura de Marisa e o perfume suave de Marisa.  Ele pensou que se um perfumista afamado capturasse da fruta o aroma, teria que gravar no frasco o nome insubstituível: Marisa. Do mar das saudades. Do mar a brisa.

Estava criada a Lei da Afetividade.

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Ilustração: C. de A.