Iriene Borges singra e sangra em azul

Trilha / Iriene Borges


Na ponta da esferográfica
sangro azul
e singro realidades abissais

A amplitude é claustrofóbica
se não passa pelo funil
do saber empírico

Burilo lembretes em letras graúdas
Migalhas de agora
que não permitem voltar atrás

mas de longe estrelas miúdas
alumiando-me na noite afora
do meu labirinto onírico

fevereiro de 2009

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Ilustração: C. de A.

A insurgência de J.B. Vidal

Coma / j.b. vidal

nasço e inauguro em mim a trajetória da morte,
início e fim, siameses do útero à campa,

como fonte, me insurjo, resisto,
consciente de sua presença, prossigo
sepultado vivo na matéria,
com a alma esgarçada na miséria
de um momento que ela mesma desconhece,

não há passado para o início não haverá futuro para o fim,

o que será dos meus pensares?
da razão? o que ficará dos sentidos?
das agonias, dos sofreres,
dos sentimentos, penso profundos,
o que será dos meus saberes?

não me falem de exemplos,
experiências, conhecimentos,
como óbolos para quem vem a seguir,
para eles há futuro, esquecer.

não me venham com alegorias cenobitas,
relações de fé-imagem, palavras-reveladoras,
crenças obtusas oferecidas em sacras mansões, não!

digam apenas que estou louco,
que me debato em trevas,
que abreviei a trajetória,
que vivo morto por querer viver depois…

verão/2003

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Ilustração: C. de A.

Juana Inés, a Mulher que muito amou sem ter amado

Quando a segunda revolução industrial, ocorrida na última metade do Séc. XIX, passou a incorporar a mão-de-obra feminina, principalmente nas indústrias têxteis, as condições de trabalho insalubre e extensiva carga horária ficaram mais visíveis e protestos se originaram em todo o mundo, já carregado por inflamadas polêmicas políticas sobre a nova economia. No dia 8 de março de 1857, um movimento de operárias de Nova Iorque foi duramente reprimido. As mulheres revoltosas – que exigiam redução do tempo de trabalho de 16 para dez horas diárias e correções salariais – foram mantidas presas dentro de uma fábrica a seguir incendiada. Cerca de 130 tecelãs morreram carbonizadas.

A ocorrência, lastimável sob todos os ângulos, ficou apenas como registro histórico por mais de 50 anos, quando foi proposta na Dinamarca, em 1910, o seu posicionamento como marco do Dia Internacional da Mulher, que passou a ser comemorado praticamente em todo o mundo. Segundo palavras de Leon Trótski, um dos artífices da fase inicial da revolução russa de 1917, esse dia foi o verdadeiro estopim da revolução: “ Em 23 de fevereiro (8 de março no calendário gregoriano) estavam planejadas ações revolucionárias. Pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixaram o trabalho de várias fábricas e enviaram delegadas para solicitarem sustentação da greve. Todas saíram às ruas e a greve foi de massas. Mas não imaginávamos que este ‘dia das mulheres’ viria a inaugurar a revolução”.

Finalmente, em 1975 as Nações Unidas adotaram a data oficialmente, para celebrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, mas também para recordar as muitas discriminações e violências a que estão ainda sujeitas em várias partes do mundo.

Hoje o Dia Internacional da Mulher gera apenas reportagens especiais nas televisões, artigos nos jornais, discursos políticos nas tribunas, talvez sermões apropriados nos templos. As floriculturas venderão um pouco mais de flores e pronto: cumpridas as missões, esperaremos até o próximo ano para repetirmos as comemorações.

Mas estaremos realmente a refletir sobre o papel da mulher em nossa sociedade, a partir de sua função biológica mais sagrada, que é a de ser mãe de todos nós, e depois companheira de dores e alegrias, mestra das primeiras letras, objetivo quase único dos garotões adolescentes, figura complementar do homem no permanente jogo da vida?

Na sua egolatria, o homem chegou a pensar que a mulher fosse ser sem alma, criada apenas para servi-lo. E muitas mulheres, dentro dessa premissa mesquinha, foram sacrificadas, vilipendiadas, humilhadas. Com certeza, muitas vezes ainda assim são tratadas.

Retaro de Juana Inés de la Cruz – Séc. XVII – Autor desconhecido, assinado J. Sánchez

Por isso, neste cantinho dedicado à Poesia, fomos buscar uma rara mulher e poeta para homenagear a Mulher. Seu nome é Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana, entre tantas versões por aí existentes. Alguns a tratam apenas por Juana de Asbaje ou de Asuaje, pois há dúvidas sobre oi seu sobrenome. Popularmente, ela ficou conhecida como Sóror Juana Inés de la Cruz, após ter adotado a vida religiosa, primeiro com as rígidas Carmelitas, depois com as Jerônimas.

Parece evidente que a escolha pela vida do claustro não foi mais que uma proteção buscada em seu mundo barroco do Séc. XVII, na nascente colonização européia do México, entre os vestígios da civilização asteca e as limitações religiosas da sociedade espanhola. Juana teve a sorte de embrenhar-se, desde muito cedo, na leitura. Tinha apenas três anos quando aprendeu a ler e aos seis começou a escrever poemas. Por influxo de seu avô materno, com quem teve um intenso convívio na infância, entrou no reino do conhecimento como leitora voraz, passando a ler os clássicos gregos e romanos e a teologia daquele momento histórico. Aprendeu latim em vinte lições e praticamente sozinha dominou o idioma português, o que a tornou, mais tarde, leitora do padre Antonio Vieira e sua acérrima crítica. Conta-se que, ainda pequena, ficava escondida para ouvir as lições recebidas por sua irmã mais velha. Mas seu primeiro choque cultural foi quando descobriu que somente os homens podiam ingressar nas universidades. Ingenuamente, chegou a pedir para sua mãe que a vestisse com trajes masculinos para que pudesse continuar a estudar.

Por certo, sua adaptação cultural não foi fácil, mas ninguém conseguiu domar sua ânsia pelo saber: “Com a erudição acumulada durante anos de estudo, correspondia-se com os grandes nomes do mundo hispânico, tendo escrito até ao Papa. Sóror Juana escreveu literatura centrada na liberdade, o que era um prodígio naquela época. Em seu poema Hombres Necios ela defende o direito da mulher a ser respeitada como ser humano e critica o sexismo da sociedade do seu tempo, zombando dos homens que condenam a prostituição, ao mesmo tempo em que se aproveitam de sua existência. Além de livros religiosos como a Bíblia, que representavam certamente mais de 90 por cento dos livros que chegavam à América na época, há relatos de que ela possuía obras atípicas para um cidadão da América do século XVII, como escritos de Leibniz, dentre outros”.

“Seu confessor, o jesuíta Antonio Núñez de Miranda, recriminou-a por escrever, trabalho que acreditava ser vedado à mulher, o que, junto com o frequente contato com as mais altas personalidades da época, devido à sua grande fama intelectual, desencadeou a ira deste, diante da qual ela, sob a proteção da vice-rainha, Marquesa de Laguna, decidiu rejeitá-lo como confessor. Essa amizade com as vice-rainhas fica plasmada nos versos que, usando o código do amor cortês, levaram a uma interpretação errônea das mesmas a respeito de certas tendências homossexuais. Às duas que coincidiram temporalmente com ela escreveu poemas bastante inflamados e a uma dedicou um retrato e um anel. Foi precisamente uma das vice-rainhas a primeira a publicar poemas de Sóror Juana.”

Juana de la Cruz foi homenagada em seu país em cédulas de mil pesos. Após reforma monetária, passou a figurar nas notas de 200 pesos.

Ela mesma chegou a confessar assexuação ou androginia, tal devia ser a confusão que os preconceitos e os sentimentos religiosos de culpa lhe causavam na alma:

“Pues  no soy mujer que a alguno

de mujer pueda  servirle

y solo sé que mi cuerpo ,

Sin que a uno u otro se incline

Es neutro, o abstracto, cuanto

sólo el alma deposite”.

“Pois  não sou mulher que a alguém

de mulher possa  servir-lhe

e só sei que meu corpo ,

sem que a um ou outro se incline

é neutro, ou abstrato, quanto

só a alma deposite”.

Apesar das exegeses literárias e psicanalíticas que se fazem, atualmente, sobre sua vida e obra, a leitura de seus poemas torna nítida uma mulher ardente, ansiosa por amar e que tem que sublimar esse amor em fantasias poéticas e, a exemplo de outras religiosas, no amor místico a Deus e a Cristo.

Não foi à toa que escolheu a liberdade para tema de suas reflexões. Uma liberdade que se contrapunha à repressão social que lhe deve ter sido dolorosamente imposta.

A liberdade que a transformou, para os pósteros, na “Fênix Mexicana”, talvez a primeira feminista das Américas.

Amou a liberdade e o amor, sem nunca ter gozado realmente nenhum desses sentimentos em sua plenitude. Mas escreveu versos corajosos e enfrentou as contradições intelectuais, deixando um exemplo de vida de uma mulher que tudo tinha para apagar-se na mediocridade e na mentalidade machista de um tempo ainda com resquícios medievais, mas que ressurgiu do pó levantado pela ignorância.

Fama y Obras Posthumas del Fénix de México, Décima Musa, Poetisa Americana Sor Juana Inés de la Cruz. Biblioteca da Universidade Bielefeld, Alemanha

Com o abraço do Banco da Poesia a todas as mulheres do mundo, publico alguns poemas seus. Os dois sonetos foram extraídos do livro O Amor é mais que um Labirinto, organizado por Germán Dehesa V., múltiplo ativista cultural mexicano, com prólogo de Margo Glantz, professora e escritora mexicana, e publicado pela empresa de telecomunicações Impsat, em 1998 . Traz excelentes ilustrações do artista mexicano Jorge Marín, o que o insere na estante dos livro de arte, de apurado bom gosto. Os sonetos levam os números originais da publicação. Já o poema Hombres Necios foi recolhido na Internet. Como a publicação traz os poemas na língua original, tratei de atrever-me na sua versão ao português. Os organizadores da edição referida atestam que, apesar do muitos contatos que Juana Inés teve, em sua época, com Portugal e com a língua portuguesa, ainda não foi feita “uma tradução da Obra Completa da escritora”. (C. de A.)

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XXVI

¿Vesme, Alcino, que atada a la cadena

de amor, paso en sus hierros aherrojada

mísera esclavitud, desesperada

de libertad y de consuelo ajena?

¿Ves de dolor y angustia el alma llena,

de tan fieros tormentos lastimada

y entre las vivas llamas abrasada

juzgarse por indigna de su pena?

¿Vesme seguir sin alma un desatino

que yo misma condeno por extraño?

¿Vesme derramar sangre en el camino,

siguiendo los vestigios de un engaño?

¿Muy admirado estás? Pues ves, Alcino,

más merece la causa de mi daño.

Vês-me, Alcino, que atada à cadeia

de amor, vivo em seu aço aferrolhada

mísera escravidão, desesperada

de liberdade e de consolo alheia?

Vês de dor e angústia a alma plena,

de tão ferozes tormentos lastimada

e entre as vivas chamas abrasada

julgar-se por indigna de uma pena?

Vês-me seguir sem alma um desatino

que eu devo condenar por inumano?

Vês-me esparramar sangue no destino,

seguindo os vestígios de um engano?

Mui admirado estás? Pois vês, Alcino,

mais merece a causa de meu dano.

IV

Esta tarde, mi bien, cuando te hablaba,

como en tu rostro y tus acciones vía

que con palabras no te persuadía,

que el corazón me vieses deseaba.

Y amor, que mis intentos ayudaba

venció lo que imposible parecía.

pues entre el llanto que el dolor vertía

el corazón deshecho destilaba.

Baste ya de rigores, mi bien, baste:

no te atormenten más celos tiranos

ni el vil recelo tu virtud contraste

con sombras necias, con indicios vanos,

pues ya en líquido humor viste y tocaste

mi corazón deshecho entre tus manos.

Esta tarde, meu bem, quando te falava,

como em teu rosto e tuas ações eu via

que com palavras não te persuadia,

que o coração me visses desejava.

E amor, que meus intentos ajudava

venceu o que impossível parecia.

pois entre o pranto que a dor vertia

o coração desfeito destilava.

Baste já de rigores, meu bem, baste:

não te atormentem mais zelos malsãos

nem vil receio teu puro ser contraste

com sombras néscias, com indícios vãos,

pois já em líquido humor viste e tocaste

meu coração desfeito entre tuas mãos.

Hombres necios

Arguye de inconsecuentes el gusto

y la censura de los hombres que en

las mujeres acusan lo que causan

Hombres necios que acusáis

a la mujer sin razón,

sin ver que sois la ocasión

de lo mismo que culpáis:

si con ansia sin igual

solicitáis su desdén,

¿por qué queréis que obren bien

si las incitáis al mal?

Combatís su resistencia,

y luego con gravedad

decís que fue liviandad

lo que hizo la diligencia.

Queréis con presunción necia

hallar a la que buscáis,

para pretendida, Tais,

y en la posesión, Lucrecia.

¿Qué humor puede ser más raro

que el que falta de consejo,

él mismo empaña el espejo

y siente que no esté claro?

Con el favor y el desdén

tenéis condición igual,

quejándoos, si os tratan mal,

burlándoos, si os quieren bien.

Opinión ninguna gana,

pues la que más se recata,

si no os admite, es ingrata

y si os admite, es liviana.

Siempre tan necios andáis

que con desigual nivel

a una culpáis por cruel

y a otra por fácil culpáis.

¿Pues cómo ha de estar templada

la que vuestro amor pretende,

si la que es ingrata ofende

y la que es fácil enfada?

Mas entre el enfado y pena

que vuestro gusto refiere,

bien haya la que no os quiere

y quejaos enhorabuena.

Dan vuestras amantes penas

a sus libertades alas,

y después de hacerlas malas

las queréis hallar muy buenas.

¿Cuál mayor culpa ha tenido

en una pasión errada,

la que cae de rogada

o el que ruega de caído?

¿O cuál es más de culpar,

aunque cualquiera mal haga:

la que peca por la paga

o el que paga por pecar?

Pues ¿para qué os espantáis

de la culpa que tenéis?

Queredlas cual las hacéis

o hacedlas cual las buscáis.

Dejad de solicitar

y después con más razón

acusaréis la afición

de la que os fuere a rogar.

Bien con muchas armas fundo

que lidia vuestra arrogancia,

pues en promesa e instancia

juntáis diablo, carne y mundo.

Homens néscios

Argúi como inconsequentes o gosto

e a censura dos homens que

nas mulheres acusam o que causam.

Homens néscios que acusais

à mulher sem ter razão,

sem ver que sois a ocasião

do mesmo que vós culpais:

se com ânsia sem igual

solicitais seu desdém,

por que quereis que obrem bem

se as incitais sempre ao mal?

Combateis sua resistência

e logo com gravidade

dizeis que foi leviandade

o que fez a diligência.

Quereis com presunção néscia

achar a que perseguis,

para pretendida, Taís,

e para a posse, Lucrécia.

Que humor pode ser mais raro

que o que falta de conselho

o mesmo que empana o espelho

e sente que não está claro?

Com o favor e o desdém

tendes a condição igual,

queixando-vos, se vos tratam mal,

burlando-vos, se vos tratam bem.

De opinião incongruente

pois a que mais se recata

se não vos admite, é ingrata

se vos admite, é impudente.

Sempre tão néscios andais

que com balança infiel

a uma culpais por cruel

e a outra por fácil culpais.

Pois como há de ser temperada

a que vosso amor pretende

se a que é ingrata ofende

e a fácil vos enfada?

Mas entre o enfado e a pena

que vosso gosto difere

bem haja a que não vos prefere

e queixai-vos em cantilena.

Dão as amantes apenadas

asas a tais liberdades

e enchei-as de bondades

após julgá-las malvadas.

Qual maior culpa há tido

em uma paixão errada

a que cai por ser rogada

ou o que roga por caído?

Ou qual é mais a culpar

com o sinal de uma chaga:

s que peca pela paga

ou o que paga por pecar?

Pois para que vos espantais

da culpa que mereceis?

Querei-as qual as fazeis

ou fazei-as tal as buscais.

Deixai de solicitar

e depois com mais razão

acusareis a aflição

da que os fora a rogar.

Bem com muitas armas fundo

que luta vossa arrogância

pois em promessa e em instância

juntais diabo, carne e mundo.

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Resumo biográfico

1648 (presumivelmente)– Juana Inés Ramírez nasce como filha ilegítima de uma família pobre  da região rural de San Miguel Nepantla, México;

1656 – É mandada para a Cidade do México, parta viver com uma tia do lado materno; aprende Latim;

1664 – Ingressa na Corte, aos 16 anos, em virtude de sua prodigiosa inteligência e por sua beleza física;

1668 – Entre no Convento de San Jerónimo, aos 20 anos,; escreve muitos poemas, peças de teatro, estuda filosofia, música e ciências;

1691 – Escreve a famosa Respuesta a Sor Filotea, pseudônimo de um bispo católico com quem polemizou, defendendo o direito da mulher a estudar e escrever; recebe pressão da hierarquia eclesiástica para abandonar seus estudos;

1694 – Abjura, sob grande pressão, e é forçada a vender seus livros e instrumentos musicais e científicos;

1695 – Uma praga atinge seu convento; ela adquire a doença e morre a 17 de abril, com a idade presumida de 46 anos.

Nova página: Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Hoje inauguramos mais um departamenrto deste Banco, a página dedicada a Gilberto Mendonça Teles, poeta goiano  de quem falou Drummond:

Repito aqui — repetição
é meu forte ou meu fraco?— tudo
que floresce em admiração
no itabirano peito rudo
(e em grata amizade também)
ao professor, melhor, ao poeta
que de Goiás ao Rio vem,
palmilhando rota indireta,
mostrar – com um ou com dois eles
no nome – que ciência e poesia
em Gilberto Mendonça Teles
são acordes de uma harmonia.

Para mim, um orgulho tê-lo entre os correntistas do Banco da Poesia. Para os nossos leitores, tenho certeza que será um continuado prazer acompanhar a nova página.

Robert Doisneau, um poeta da fotografia

Em outubro de 2009 o Centro Cultural Fiesp, de São Paulo, exibiu uma exposição de de Robert Doisneau, famoso artista da câmera fotográfica nascido na França. O texto abaixo foi publicado no momento da mostra.
Duas décadas antes de fotografar o beijo mais famoso das ruas de Paris, Robert Doisneau (1912-1994) trabalhava na fábrica da Renault. Usava câmera sem obturador – uma boina fazia o serviço – para registrar a vida na linha de montagem e, de quebra, uns ensaios publicitários para a marca de carros.

Ficou provado mais tarde que O Beijo do Hotel de Ville, fotografia que fez em 1950, não foi um flagrante em frente à prefeitura, e sim uma cena posada com modelos. Do mesmo jeito que na fábrica da Renault arranjava e rearranjava os melhores operários em linha, mexia nas máquinas e fazia brilhar a carroceria dos carros para seus instantes, senão decisivos, calculados.

Toda a mise-en-scène em torno da indústria automobilística francesa aparece nas mais de cem fotografias reunidas agora no Centro Cultural Fiesp. Também surge nessas imagens traços formais da obra do fotógrafo que ganhariam expressão máxima só décadas depois.

“Ele tinha uma visão muito humanista, otimista”, afirma a curadora Ann Hindry. “Queria um mundo mais humano.”

Nesse ponto, seus retratos de gente comum se aproximam do estilo de Walker Evans. Mas enquanto o norte-americano esquadrinhava a miséria, Doisneau buscava certa leveza. “Suas imagens são mais cinematográficas”, diz Hindry. “Há uma agilidade, flexibilidade.”

É quando desengessa seus registros, então livres dos vícios formais que aprendeu com os modernistas, que Doisneau atinge essa espontaneidade. Retrata uma vitrine da Renault na Champs-Elysées com uma multidão se espremendo do lado de fora para observar os carros -contraponto entre o mundo real e o luxo lá dentro.

Mas faz isso sem qualquer panfletarismo. Ele enxerga o próprio colarinho branco e se recusa a fotografar as greves que abalaram a periferia parisiense. Depois registra belas donzelas com os automóveis: curvas de carne para vender curvas metálicas sobre rodas. (Silas Martí, da Folha de São Paulo)

Meu amigo Carlos Verçosa, poeta e novo baiano, me enviou, lá de Salvador, a apresentação abaixo. São notáveis poemas fotográficos. Clique no título abaixo para ver as fotos. (Necessário ter o programa Windows PowerPoint instalado em seu computador)

Robert Doisneau

Maurício Ferreira em parceria com Van Gogh

I

Ainda que alvorada,
Cinzenta.

Os pássaros iniciam sua cantoria no escuro
Não se viu o primeiro raio de sol.
Tudo é vento e incolor
Tudo ameaça a transparência do dia.

Hoje, as luzes serão internas.
Esperança de calor e sorrisos,
Numa tristeza de inverno

Vincent van Gogh - Campo de trigo com corvos - Auvers, julho de 1890 - óleo sobre tela 50,5 x 100,5 cm - Museu Van Gogh, Amsterdã

II

Meu quarto:
XXXXXXXFragmentos de destruição,
XXXXXXXTudo que fui e explodiu.

Meu quarto,
XXXXXXXEste naco de mim a que me agarro
XXXXXXXTão meu, destroçado e mar,
XXXXXXXBrilhando em chiaro-escuro
Verde-azul sob um sol exótico
Enquanto não vem o Tsunami.

Vincent van Gogh - Quarto em Arles (1ª versão) - outubro de 1888 - óleo sobre tela 72 × 90 cm - Museu Van Gogh, Amsterdã

III

Ontem vomitei angústias,
XXXXXXXAmarguei o crepúsculo,
XXXXXXXDestilei lágrimas.
XXXXXXXA manhã me encontrou seco.

Folha de outono levada pelos ventos

Vincent van Gogh - No limiar da eternidade – 1890 - óleo sobre tela 80cm X 64cm, Museu Kröller-Müller - Holanda

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Nota

O quadro Quarto em Arles foi assim descrito por Van Gogh: “Desta vez é muito simplesmente o meu quarto, aqui tem de ser só a cor a fazer tudo; dando através da simplificação um maior estilo às coisas, deverá sugerir a idéia de calma ou muito naturalmente de sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor, a fantasia”.

Homenagem aos 71 anos de morte de Antonio Machado

No último dia 22 de fevereiro completaram-se 71 anos da morte de Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz, mais conhecido como Antonio Machado (nascido em Sevilha, Espanha, a 26 de julho de 1875 e morto em Collioure, França, a 22 de fevereiro de 1939). Poeta, pertencente ao modernismo espanhol, Machado é hoje um poeta universal. (Veja mais em Os caminhos de Antonio Machado e em Nova visita de Antonio Machado ).

O poema que hoje publico, em sua homenagem, foi lembrado por Manoel de Andrade, há algum tempo. E ele permaneceu no computador, em sua versão original, desafiando meu atrevimento de versejador que temia não encontrar uma versão ao português apropriada a essa confissão biográfica do célebre poeta espanhol. Afinal, tradução ou versão poética não é apenas transliteração. Na realidade, traduzir poesia é quase um ato mediúnico, no qual o tradutor busca incorporar o espírito do poeta e sentir minimamente como ele, viver em suas paisagens, respirar o mesmo ar, abraçar pessoas queridas. Pressupõe, como diz Geir Campos, um íntimo diálogo com o “autor da obra traduzida, ao qual se credita o que possa a obra ter de positivo e belo”.

Não é à toa que os italianos brincam sobre a questão: traduttore, traditore. Como não podemos transferir para a nova língua a perfeição buscada pelo idioma original, quase sempre uma tradução fica apenas no nível de interpretação. Paulo Rónai lembra que o tradutor poético trabalha como um artesão e, por esta mesma razão, sempre acaba buscando justificações para seu trabalho complementar, pedindo o perdão do autor…

Não estou a me justificar, posto que o trabalho de ler e reescrever Machado sempre é um exercício enriquecedor. Apenas digo que para dar clareza à versão, sem macular em demasia a intenção e o sentimento do autor, muitas vezes alteramos a métrica, o ritmo e o pior entrave do poema, a rima. No caso de Retrato, poema construído em versos alexandrinos, busquei o mesmo comportamento estrutural (com alguns resvalos, por certo). Mas a maior preocupação foi de conteúdo, uma vez que não se trata de uma composição ilusória, mas de um relato autobiográfico. Portanto, sob o ferrolho da rima, procurei sentimentos assemelhados quando fui obrigado a utilizar outros substantivos, verbos e adjetivos.

O poema busca mostrar o íntimo do poeta. Na primeira estrofe, a sua origem, o seu pouso sobre a terra. Na segunda estrofe, uma definição de sua personalidade – afasta-se de características mundanas, mas qualifica-se como um homem apaixonado. Na terceira, assume uma posição política e define sua principal qualidade, como ser humano.

Nas três estrofes seguintes dispõe sobre sua condição de poeta e esboça crítica sobre a cultura literária de seu tempo. Sua confissão estética; a recusa ao modernismo reinante, para ele superficial e oco; sua independência em relação a movimentos ou classificações literárias.

Finalmente, nas três últimas estrofes a preocupação com o final e a finalidade. A grande viagem, quiçá recompensada pela paz e o diálogo com o eterno.

Nove estrofes que sintetizam uma vida. Corpo, espírito e alma. Um retrato por inteiro que se dispõe a responder as três perguntas fundamentais: de onde vim, quem sou eu e para onde vou? Corpo distante de nós há 71 anos, espírito e alma de Antonio Machado sempre presentes. (C. de A.)

Retrato

Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierras de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.

Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
– ? ya conocéis mi torpe aliño indumentario? –
más recibí la flecha que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.

Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y, más que un hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.

Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;
mas no amo los afeites de la actual cosmética,
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.

Desdeño las romanzas de los tenores huecos vazio
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.

¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso, como deja el capitán su espada:
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.

Converso con el hombre que siempre va conmigo
– ¿ quien habla solo espera hablar a Dios un día? –
mi soliloquio es plática con ese buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.

Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.

Y cuando llegue el día del último vïaje,
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,
me encontraréis a bordo ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar.

Túmulo de Machado, em Collioure, França

Retrato

Minha infância são memórias de um pátio de Sevilla,
e um claro pomar onde matura o limoeiro;
a juventude, vinte anos em terras de Castilla;
minha história, casos que não lembro por inteiro.

Sequer Manãra fui, nem Bradomín eu sou
– já conheceis meu torpe alinho costumeiro? –
mas recebi a flecha que Cupido me atirou,
e amei quanto elas possam ter de hospitaleiro.

Em minhas veias corre sangue jacobino,
porém meu verso brota de manancial copioso;
e, mais que simples homem que segue seu destino,
no bom sentido da palavra, sou bondoso.

Adoro a formosura, e na moderna estética
cortei as velhas rosas do horto de Ronsard;
mas não amo os enfeites da atual cosmética,
nem sou uma ave dessas do novo gay-trinar.

Desdenho as romanças dos vazios tenores
e o coral de grilos que para a lua canta.
Fico a distinguir nas vozes os cantores
E, entre as vozes, somente uma encanta.

Sou clássico ou romântico? Não sei. Deixar queria
meu verso, como deixa o capitão sua espada:
famígera pela mão varonil que a brandia
não pelo douto ofício do forjador prezada.

Converso com o homem que sempre vai comigo
– quem fala só espera falar com Deus um dia? –;
meu solilóquio é prática com esse bom amigo
que me ensinou segredos da filantropia.

E ao fim, nada vos devo; deveis-me todo o escrito.
A meu trabalho acudo, com meu dinheiro ajeito
o traje que me cobre e a mansão que habito,
o pão que me alimenta e a cama onde me deito.

E ao chegar o dia da última viagem,
e esteja pronta a nave que nunca há de tornar,
me encontrareis a bordo livre de equipagem,
quase desnudo, tal os filhos deste mar.

______________

Notas

  • Os topônimos Sevilla e Castilla foram conservados na grafia original em benefício da rima.
  • A expressão gay-trinar não tinha, à época em que o poema foi escrito, qualquer significado sexual; provavelmente o autor se referia a sua recusa a um modernismo mais ousado. Nas primeiras estrofes da quadra, ele aceita a beleza da arte e afirma que, na estética de seu tempo e de sua arte, abandonou os velhos conceitos do poetas renascentistas, como a simbolizar sua ruptura com artistas mais antigos. Mas nem tão modernista assim, ele se opõe à cosmética de seu tempo, provavelmente se manifestando contra os artifícios de linguagem então usados pelos mais modernos. E o gay-trinar seria o canto belo, alegre, mas sem conteúdo.
  • Miguel Mañara, filantropo nascido em Sevilha (1627- 1679), filho de destacada família local.
  • Marquez de Bradomín, figura mítica da literatura espanhola, era um refinado e decadente Don Juan

Paisagem nupcial de Solivan Brugnara

Casamento / Solivan Brugnara


Minha noiva entrou
com um véu de névoa branca e fria
vinda do sul.
A grinalda feita com o calor
verde da Amazônia
e flores de maçãs mordidas.
Vestia plumagens
de um pavão branco orvalhado de pérolas.
O seu útero era adornado pelo nosso filho.
Os violinos espalharam um canto nupcial
e bandos de andorinhas evoluíram na nave
para se alimentar das notas musicais.
Os convivas cresceram, como jardins na primavera
e floriram sorrisos.
As alianças estavam
num estojo de veludo azul
sobre um pedacinho de nuvem
atadas com tranças
que eu mesmo fiz
com trinados de canários e sanhaços selvagens
colhidos em um domingo silencioso.
Gérberas vermelhas, rosas alvas
brotaram em buquês no cedro dos bancos.
Então a cerimônia juntou nossos corações
e nos deu pão com gosto de vôo de pomba.
Depois viajamos.
Era noite,
ramalhetes de raios decoravam o céu
e pedaços de nuvens
caíram sobre o carro
até nosso quarto
de mobílias feitas de perfumes
e música.
Deitamos sobre almofadas
preenchidas com sombras de gansos
e com odor róseo de sua pele,
tingimos sete dias de prazer.

Novo livro de Dante Mendonça

Àqueles que buscam a Paz

Aos combatentes de todo o mundo/Vera Lúcia Kalahari


Àqueles
cujos olhos se erguem confiantes fitando sem medo
os reinos distantes da morte,
eu venho… Com a aurora esperançosa
dos meus olhos luminosos de crente
envolvê-los
em mantos radiosos de amor.
Àqueles
de cujo peito uma onda de amargor
se espalha cruelmente,
àqueles
que procuram paz
através de nuvens de pó e trevas
levantando as mãos aos céus
numa prece a um Deus, seja ele qual for,
eu dou os meus sonhos:
todo um bosque em flor.
Àqueles
que são menos do que ovelhas
seguindo sem pastor,
que estão sentados
mirando o ar sem fazer nada,
como sacerdotes a recordar
o drama da redenção.
Àqueles que têm coração,
têm olhos florescendo
como um garoto
e lábios trementes
a ensaiar
um sorriso esperançoso,
eu dou a minha alma,
aberta como os pórticos duma catedral,
onde vós todos, homens,
amados e não amados,
conhecidos, desconhecidos,
desfilareis cantando,
bandeiras multicores
passando lado a lado,
brilhando sob as cores de mil arco-íris diferentes,
jogando fora as cargas dos canhões,
no olhar levando a alegria duma aurora,
Cabeças erguidas de entusiasmo e orgulho,
sãos e salvos
na senda dos vossos lares.

Vera Lúcia