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Maurício Ferreira em dose dupla

Segunda-feira da ressaca de Saramago

Maurício Ferreira, Jaú, SP

Dever humano:
Perdoar o Judas
Eternamente.

Nenhuma culpa, nenhum rancor

Apenas gravidades de compaixão
Onde Jesus, Javé, e Alá
Batem bocha, pebolim e rock’n’roll.
Sem árbitro ou arbítrio,
Em alguma sauna da periferia do infinito.

Absolutamente inocentes
Da inesgotável estupidez
Tão nossa.

Pretensiosa pluma no nariz da metafísica.

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Uma pequena vitória do Mal

El gusto es la cualidad fundamental que resume
todas las otras. Es el nec plus ultra de la inteligencia.
Sólo por él residen en el genio la salud suprema y el
equilibrio de todas las facultades.
Isidore Ducassé – Conde de Lautreamónt – Maldoror


As lacerações do mundo distendidas em tripas noturnas
Unico livro lido por Jack the Ripper.
Becos de Londres
Pontes de Paris
Pampas do Uruguai.
Luar e lâmina.
Sempre.

Vai volta retorna
sangue profano,
sacristias blasfemas,
cuspo, gala, escarro
fio, linho, novena,
Sempre

Velas! A chama tremulando
rufadas de vento, doce pios de corujas, bicos sangrentos.
agonias de fome, estertores do devorado vivo.

Todas as belezas sanguíneas da natureza humana.

Rá-Rá Rá-Rá Rá-Rá Rá-Rá.
MaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldororMaldoror!!!!!!!

Sua prisão de papel não te bastou.
ERGUE-TE.

Nas montanhas de vidro, concreto e açO
Destila seu veneno novamente,
Verás que tudo está mais difícil,
o homem evoluiu de crueldade em crueldade
E não com bom gosto.
mas prá TI, amante de tubaroas,
como quem finaliza a última casa do paletó,
basta apertar um botão.

Tantos átomos para queimar, não é verdade.
Doces delícias de desintegração em massa.
Bilhões de seres esperando, doce êxtase,
uma simples flexão de Teu dedO

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Ilustração: C. de A.

Robert Doisneau, um poeta da fotografia

Em outubro de 2009 o Centro Cultural Fiesp, de São Paulo, exibiu uma exposição de de Robert Doisneau, famoso artista da câmera fotográfica nascido na França. O texto abaixo foi publicado no momento da mostra.
Duas décadas antes de fotografar o beijo mais famoso das ruas de Paris, Robert Doisneau (1912-1994) trabalhava na fábrica da Renault. Usava câmera sem obturador – uma boina fazia o serviço – para registrar a vida na linha de montagem e, de quebra, uns ensaios publicitários para a marca de carros.

Ficou provado mais tarde que O Beijo do Hotel de Ville, fotografia que fez em 1950, não foi um flagrante em frente à prefeitura, e sim uma cena posada com modelos. Do mesmo jeito que na fábrica da Renault arranjava e rearranjava os melhores operários em linha, mexia nas máquinas e fazia brilhar a carroceria dos carros para seus instantes, senão decisivos, calculados.

Toda a mise-en-scène em torno da indústria automobilística francesa aparece nas mais de cem fotografias reunidas agora no Centro Cultural Fiesp. Também surge nessas imagens traços formais da obra do fotógrafo que ganhariam expressão máxima só décadas depois.

“Ele tinha uma visão muito humanista, otimista”, afirma a curadora Ann Hindry. “Queria um mundo mais humano.”

Nesse ponto, seus retratos de gente comum se aproximam do estilo de Walker Evans. Mas enquanto o norte-americano esquadrinhava a miséria, Doisneau buscava certa leveza. “Suas imagens são mais cinematográficas”, diz Hindry. “Há uma agilidade, flexibilidade.”

É quando desengessa seus registros, então livres dos vícios formais que aprendeu com os modernistas, que Doisneau atinge essa espontaneidade. Retrata uma vitrine da Renault na Champs-Elysées com uma multidão se espremendo do lado de fora para observar os carros -contraponto entre o mundo real e o luxo lá dentro.

Mas faz isso sem qualquer panfletarismo. Ele enxerga o próprio colarinho branco e se recusa a fotografar as greves que abalaram a periferia parisiense. Depois registra belas donzelas com os automóveis: curvas de carne para vender curvas metálicas sobre rodas. (Silas Martí, da Folha de São Paulo)

Meu amigo Carlos Verçosa, poeta e novo baiano, me enviou, lá de Salvador, a apresentação abaixo. São notáveis poemas fotográficos. Clique no título abaixo para ver as fotos. (Necessário ter o programa Windows PowerPoint instalado em seu computador)

Robert Doisneau