Vem lá de Angola

Conheci Vera Lúcia Kalahari por meio dos amigos J.B. Vidal e Manoel de Andrade. Disseram-me que ela, além de poeta, era uma agitada jornalista que se aventurava pelas terras da África e do Oriente Médio. Entrei em contato com ela pela Internet, mas sua resposta demorou a chegar, pois durante logo tempo ela esteve em lugares longínquos, onde nem sempre a modernidade da rede eletrônica está presente.

Dias atrás, recebi rápida comunicação, com a promessa de que maiores notícias logo viriam . E chegaram, em simpática mensagem na qual ela relembra amigos comuns brasileiros e aceita colaborar com o Banco da Poesia. Para sua estréia aqui, publicamos dois poemas seus.

Vera Lúcia Kalahari ou Vera Lúcia Pimentel Teixeira Carmona, jornalista, poeta e escritora portuguesa, nasceu no Namibe, em Angola. Trabalhou nos jornais “O País”, “O Dia” e “Diário de Notícias”, e nas revistas “África Hoje”, “Família Cristã”, “Gazeta das Aldeias” e “País Agrícola”. Foi também copywriter no Departamento Comercial da Rádio Renascença (Intervoz). Após alguns anos de dedicação à poesia e à literatura juvenil “refugiou-se” na aldeia de Sortelha, do conselho de Sabugal, onde, em ambiente pleno de serenidade e misticismo se inspirou para escrever o romance A Casa do Vento que Soa que concluiu recentemente. Terminou também a série juvenil Os Primos (O Diamante Real, O Incendiário Tenebroso, O Quadro Misterioso e O Enigma da Aldeia das Broas). Quem quiser conhecer melhor seus trabalhos, acesse http://infinito-kalahari.blogspot.com/

Bem vinda seja, Vera Lúcia!

Livre

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Ser livre…
Deixar para trás os meus desejos
e todos estes loucos preconceitos
e partir,
partir e ter o ensejo
de ser aquilo que não sou
e que sempre ansiei ser.
Poder caminhar sem um destino
como errante, pobre peregrino
tendo apenas como amigas as estrelas,
contando os meus sonhos só a elas.
Misturar-me com os negros nas sanzalas
comendo sem rodeios do seu pão,
ver dançar as chamas das fogueiras
e dormir na dureza duma esteira.
Poder saber por onde vou
e marcar a cada hora o meu dia
sem sentir a cada passo o grilhão
de se seguir apenas a razão.
Poder provar de cada fruto
que encontrasse nascendo nos pomares
e poder misturar-me com os miúdos
descalços, livres, vagabundos,
que vagueiam às portas dos casais
sem vãos temores e sem barreiras.
Por este vida simples mas verdadeira,
eu daria a minha vida só de incertezas
e todos os meus sonhos de grandeza.

Ilustração de Cleto de Assis

Ilustração de Cleto de Assis

Viagem

xxxxxxVera Lúcia Kalahari

Criei o meu mundo irreal e distante…
É lá que vivo, calma e sozinha,
isolada de tudo, no tempo que parou,
como se andasse pelos vales silentes da lua,
nas crateras d’algum astro ignorado,
nas vertigens dum meteoro
uu vagueasse nas paisagens submersas de Ís…
Não chegam lá o ruído, o movimento
dos mares e dos ventos, das cidades e dos campos.
Tudo é silencioso, calmo e sobrenatural,
na sombra do mistério que m’envolve e qu’esconde
como numa ilha de bruma, o meu mundo à parte…
Será terra? Ou céu? Ou mar? Ou astro? Ou nebulosa?
Não sei, não vejo, não sinto
o cenário impalpável e informe que me cerca.
Vivo em mim, tudo sou eu, em mim mesma…
só as minhas mãos estendidas, a minha boca muda,
meus cabelos esparsos que m’envolvem como algas,
como nuvens, e ocultam meus seios,
frementes d’amor, palpitantes e ardentes…
a ânsia duns braços num abraço sem fim…
Meu coração pulsando junto a outro, tão confundidos
como nosso hálito, nossa epiderme, nossas almas…
Tudo sou eu, nesse mundo que criei, perdido,
rolando pelo espaço, entre poeiras de astros,
turbilhões de estrelas, ondas de azul, harmonias…
O meu mundo fulgurante e longínquo
a milênios de luz da terra desprezível,
de onde sairei de mim, sozinha e forte
e pararei a vida, num instante imortal.

Aos avós de ontem, de hoje e de sempre

Avós de alguém, em alguma parte do mundo, encontrados na Internet

Avós de alguém, em alguma parte do mundo, encontrados na Internet

Hoje comemoramos o Dia dos Avós, marcado pela Igreja Católica por ser o dia consagrado a São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. Independentemente da religião de cada um, sempre é bom relembrarmos a importância dos avós no seio familiar, em geral a significar renovação de carinho e solidariedade. Quem tem pais e avós vivos tem três mães e três pais para lhe proteger. Alguém já disse que neto é um filho com açúcar. Assim, avós são pais com açúcar, chocolate, sorvete, atenção, proteção extra e cumplicidade. Em homenagem a todos os vovôs e vovós do planeta, publicamos uma música (Return to Innocence) do grupo Enigma, gravada em 1994. O grupo foi criado pelo romeno Michael Cretu e sua esposa, a cantora Sandra Lauer. A música faz parte do seu segundo álbum, The Cross of Changes.

O Retorno à Inocência (homenagem a meus avós)

O Retorno à Inocência (Return To Innocence )

Amor — devoção
Sentimento — emoção
Não tenha medo por ser fraco
Não tenha tanto orgulho por ser forte

Apenas olhe dentro de seu coração, meu amigo
Esse será o retorno a você mesmo
O retorno à inocência

Se você quer, então comece a rir
Se você deve, então comece a chorar
Seja você mesmo, não se esconda
Apenas acredite no destino

Não se importe com o que os outros dizem
Apenas siga seu próprio caminho
Não desista e use a chance
Para retornar à inocência

Esse não é o começo do fim
Esse é o retorno a você mesmo
O retorno à inocência

Cleto que leu Deborah, que leu Marina…

Deborah O’Lins de Barros (http://mocadeitadanagrama.blogspot.com/)
diz que se inspirou em Marina Colasanti para escrever seus minicontos.
Eu me inspirei em Deborah. Qual gordota inspirou Fernando Botero?

Lia

xxxxDeborah O’Lins de barros

Com medo de lembrar, ela lia. Viajava por histórias diferentes das suas.
Até que um dia, a desatenção a fez cochilar. Dormindo, sonhou com sua
própria história. Acordou arrependida, mas não quis ir a um padre se confessar
só para não ter que lembrar tudo de novo. E voltou para sua eterna leitura.

Botero – Mujer leyendo - 1998 - Óleo sobre tela - 48,26 x 37,46 cm

Botero – Mujer leyendo - 1998 - Óleo sobre tela - 48,26 x 37,46 cm

Lia

xxxxCleto de Assis

Ler e viajar nas leituras. Eis Lia, a ledora. E a Lia por outros lida? Liam-na a
outras lidas, bem menos livrescas, bem mais livres. Liaisons dangereuses.
Liames libidinosos. Estripulias. Depois, melancolias.

Coisas de Lia…

A Lua e o Dia do Amigo

O dia de hoje tem dois significados e uma só origem. Comemoranos os 40 anos da chegada do homem à Lua, nosso satélite, que cirandeia solitariamente em torno da Terra e, à diferença das luas de outros planetas, não tem nome. Só é Lua. Mas quanta beleza espalha pelo mundo terrenal, não só por sua luz refletida em várias fases, como também pela força de sua atração magnética, capaz de realizar o milagre das marés. E — dizem — influir na paixão dos enamorados ou na fúria dos lobisomens.

Também comemoramos o Dia do Amigo (já lembrei dele no post de Anair Weirich, abaixo). E o que tem uma coisa a ver com a outra?

Ocorre que o Dia do Aimgo foi idéia do argentino Enrique Ernesto Febbraro. Quando, em 20 de julho de 1969, ele testemunhou a viagem da Apolo 11, viu no fato não apenas a vitória da ciência e da tecnologia, mas a ampliação da solidariedade humana e a possibilidade de se fazer amigos em outras partes do Universo. De 1969 a 1970 ele divulgou, em toda a Argentina, o lema “Meu amigo é meu mestre, meu discípulo e meu companheiro”. O Dia do Amigo, no país vizinho, foi instituído por decreto governamental e passou a ser comemorado a partir de 1970.

A idéia foi difundida em todo o mundo e, hoje, quase todos os países comemoram o Dia do Amigo. No Brasil também, mas há quem defenda o dia 18 de abril como a data oficial dos brasileiros para o Dia do Amigo. Assim, 20 de julho seria apenas o Dia Internacional da Amizade. Faz alguma diferença? Afinal, Dia do Amigo não deveria ser todos os dias do ano? Ou os demais são apenas Dias dos Inimigos ou dos Mais ou Menos Amigos?

Para reforçar ainda mais a data e as duas comemorações, escolhi um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre a inquietação do homem, sempre aventurando-se em suas viagens, alargadoras de fronteiras do planeta e, a partir de 1969, do próprio Cosmos. Para os amigos, republico um poeminha de minha lavra, dedicado a um amigo que também não via há 40 anos.

O homem, as viagens

xxxxxxxxxxxxxxCarlos Drummond de Andrade
Ilustração: C. de A.

Ilustração: montagem de C. de A. - fotos recolhidas na Internet

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Amigos *

xxxxxxxxxxxxxxAo Manoel de Andrade, com a emoção do reencontro.
xxxxxxxxxxxxxxApós 40 anos de saudades.
xxxxxxxxxxxxxxO poema é de antes. A ilustração saiu agora do forno
xxxxxxxxxxxxxxda imaginação, com axmãozinha (ou mãozinhas…)
xxxxxxxxxxxxxxde Michelangelo.

xxxxxxxxxxxxxxCleto de Assis
Amigos1

Tem gente que a gente conhece e esquece.
Tem gente que é parte da gente e não merece.
Tem gente de todo tipo: perto da gente e tão longe,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxlonge da gente e bem perto.

Tem gente que ainda nem sabemos,
mas já deixou saudades.

Ai,ai, se eu pudesse escolher
esconderia a pouca gente que me deixa contente
no bolso de tesouros do piá que ainda corre dentro de mim
e que sempre pensou: ter amigos é a melhor coisa que existe.

xxxxxxxxxxxxxxCuritiba
xxxxxxxxxxxxxxJaneiro/2008
______________________
* Publicado anteriormente em Palavras, Todas Palavras

Atentai, senhoras e senhores de casacos quentes: há uma criança na rua

ATG01Armando Tejada Gómez nasceu em Mendoza, Argentina, no seio de uma família de trabalhadores rurais bastante pobre. Foi o penúltimo de 24 irmãos. Ficou órfão de pai, aos quatro anos, e sua mãe teve que dividir a família, colocando os filhos sob a guarda de parentes. Armando foi criado por uma tia, que se transformou em mãe e professora, ensinando-lhe a ler. Quase não frequentou a escola e começou a trabalhar aos seis anos como jornaleiro e, depois, como engraxate. Ele mesmo conta, de sua infância, que as outras crianças “não queriam brincar comigo, porque eu era a forma do pânico e da fome e da mais descarada miséria do mundo”.

Aos quinze anos comprou um exemplar de Martín Fierro (um poema narrativo de José Hernández, considerado exemplar do gênero gauchesco na Argentina e no Uruguai) que lhe despertou a paixão pela leitura e a poesia. Ao mesmo tempo, as injustiças sociais despertaram-lhe a inquietação e se tornou um ativista político.

Movimento do Novo Cancioneiro

Mais tarde, em 11 de fevereiro de 1963, no Círculo de Jornalistas de Mendoza, como integrante do trio Sosa-Matus-Tejada Gómez, associado a outros artistas como Eduardo Aragón e Tito Francia, participou da publicação do manifesto de fundação do Movimento do Novo Cancioneiro, que propõe a busca de uma música nacional de conteúdo popular, como um dos mais caros objetivos do povo argentino. Nesse contexto, o Manifesto questiona a falsa oposição tango-folclore. Sustenta, ainda, a necessidade de um cancioneiro integrado comum: há país para todo o cancioneiro. Somente falta integrar um cancioneiro para todo o país.

O MNC destaca, ainda, o auge que estava vivendo o folclore argentino e busca definir seu sentido: “Nós afirmamos que este ressurgimento da música popular nativa não é um fato circunstancial, mas uma tomada de consciência do povo argentino… Que não escamoteiem  esta tomada de consciência nem ao artista nem a seu povo, é o que propõe o Novo Cancioneiro”.

Nitidamente nacionalista, o movimento afirmou também defender “a integração da música popular na diversidade das expressões regionais do país… a participação da música típica popular e popular nativa nas demais artes populares… a recusa a todo regionalismo fechado…  a depuração de convencionalismos e tabus tradicionalistas sem concessões… a defesa do patrimônio musical… o descarte de toda produção grosseira e subalterna que, com finalidade mercantil, intente diminuir tanto a inteligência como a moral de nosso povo… a busca da comunicação, o diálogo e o intercâmbio com todos os artistas e movimentos similares do resto da América…”

Caminhada literária e musical

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

En 1950, Armando Tejada obteve um emprego como locutor na Rádio de Cuyo, que alternou com seu trabalho como operário de construção. Comecou a compor canções com o músico Oscar Matus, também de Mendoza e futuro esposo da cantora Mercedes Sosa. Essa seria uma longa sociedade que produziria canções como Los hombres del río, Coplera del viento, Tropero padre (inspirada em seu pai), entre muitas outras.

En 1954, ganhou o segundo prêmio no V Concurso Literário Municipal de Mendoza, por seu primeiro livro de poemas Pachamama: poemas de la tierra y el origen, dedicado a sua mãe e inspirado na cultura huarpe de seus ancestrais. Sobre a obra, o poeta disse ser uma “cosmogonía americana do Universo; entre os conselhos dos adultos e dos índios huarpes, dos quais eu provenho, e das reuniões de fogão, aprendi  a cultura americana, porque não frequentei escolas. Aprendi a voz popular em que acreditávamos”. O prêmio e a edição do livro (ilustrado por Carlos de la Mota), lhe deram considerável reconhecimento, que começou a alargar-se desde então. Em 1957 conquistou o prêmio do 75º Aniversário do jornal diário Los Andes, com o poema La verdadera muerte del compadre.

Foi perseguido na última etapa do governo peronista (1946-1955). Tejada Gómez se opunha às tendências autoritárias do peronismo e, mesmo admirando a Eva Perón, negou-se a aceitar a ordem de usar luto no momento de sua morte, em 1952. Em 1954, devido a uma reportagem sobre o pintor Juan Carlos Castagnino, que havia regressado da China, então imersa em sua revolução comunista, Tejada foi sumariamente despedido da rádio e proibido de continuar trabalhando como locutor. Também se proibiu mencionar seu nome quando eram tocadas suas canções.

En 1955, escreveu seu segundo livro Tonadas de la piel. A obra ganhou um concurso organizado por Gildo D’Accurzio, esforçado  homem de imprensa de Mendoza, obtendo como prêmio a edição do livro, qure recebeu prólogo do poeta saltenho Jaime Dávalos. Nesse mesmo ano, em setembro, um golpe de estado derrubou Perón e Tejada Gómez foi readmitido na rádio.

“Hay un niño en la calle”

Logo depois da derrubada de Perón, Tejada Gómez deu uma volta tanto em sua arte como em sua posição política. Ele contou várias vezes que o elemento detonante para a mudança em sua maneira de escrever foi um comentário crítico de seu irmão, operário de construção, que lhe mencionou que seus companheiros de trabalho diziam que ele “escrevia coisas que ninguém entendia”. O comentário influiu notavelmente em Tejada Gómez, que decidiu, então, orientar sua poesia aos problemas sociais e aos temas populares. Um dos primeiros poemas desta nova etapa foi seu conhecido Hay un niño en la calle, que reproduzimos aqui.

Hay un niño en la calle


A esta hora, exactamente,
hay un niño en la calle.

Le digo amor, me digo, recuerdo que yo andaba
con las primeras luces de mi sangre, vendiendo
un oscura vergüenza, la historia, el tiempo, diarios,
porque es cuando recuerdo también las presidencias,
urgentes abogados, conservadores, asco,
cuando subo a la vida juntando la inocencia,
mi niñez triturada por escasos centavos,
por la cantidad mínima de pagar la estadía
como un vagón de carga
y saber que a esta hora mi madre está esperando,
quiero decir, la madre del niño innumerable
que sale y nos pregunta con su rostro de madre:
qué han hecho de la vida,
dónde pondré la sangre,
qué haré con mi semilla si hay un niño en la calle.

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate,
transitar sus países de bandidos y tesoros
poniéndole una estrella en el sitio del hambre,
de otro modo es inútil ensayar en la tierra
la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale si hay un niño en la calle.

Dónde andarán los niños que venian conmigo
ganándose la vida por los cuatro costados,
porque en este camino de lo hostíl ferozmente
cayó el Toto de frente con su poquita sangre,
con sus ropas de fé, su dolor a pedazos
y ahora necesito saber cuáles sonríen
mi canción necesita saber si se han salvado,
porque sino es inutil mi juventud de música
y ha de dolerme mucho la primavera este año.

Importan dos maneras de concebir el mundo,
Una, salvarse solo,
arrojar ciegamente los demás de la balsa
y la otra,
un destino de salvarse con todos,
comprometer la vida hasta el último náufrago,
no dormir esta noche si hay un niño en la calle.

Exactamente ahora, si llueve en las ciudades,
si desciende la niebla como un sapo del aire
y el viento no es ninguna canción en las ventanas,
no debe andar el mundo con el amor descalzo
enarbolando un diario como un ala en la mano,
trepándose a los trenes, canjeándonos la risa,
golpeándonos el pecho con un ala cansada,
no debe andar la vida, recién nacida, a precio,
la niñez, arriesgada a una estrecha ganancia,
porque entonces las manos son dos fardos inútiles
y el corazón, apenas una mala palabra.

Cuando uno anda en los pueblos del país
o va en trenes por su geografía de silencio,
la patria sale a mirar al hombre con los niños desnudos
y a preguntar qué fecha corresponde a su hambre
que historia les concierne, qué lugar en el mapa,
porque uno Norte adentro y Sur adentro encuentra
la espalda escandalosa de las grandes ciudades
nutriéndose de trigo, vides, cañaverales
donde el azúcar sube como un junco en el aire,
uno encuentra la gente, los jornales escasos,
una sorda tarea de madres con horarios
y padres silenciosos molidos en la fábricas,
hay días que uno andando de madrugada encuentra
la intemperie dormida con un niño en los brazos.

Y uno recuerda nombres, anécdotas, señores
que en París han bebido
por la antigua belleza de Dios, sobre la balsa
en donde han sorprendido la soledad de frente
y la índole triste del hombre solitario,
en tanto, sus señoras, tienen angustia y cambian
de amantes esta noche, de médico esta tarde,
porque el tedio que llevan ya no cabe en el mundo
y ellos son los accionistas de los niños descalzos.

Ellos han olvidado
que hay un niño en la calle,
que hay millones de niños
que viven en la calle
y multitud de niños
que crecen en la calle.

A esta hora, exactamente,
hay un niño creciendo.

Yo lo veo apretando su corazón pequeño,
mirándonos a todos con sus ojos de fábula,
viene, sube hacia el hombre acumulando cosas,
un relámpago trunco le cruza la mirada,
porque nadie proteje esa vida que crece
y el amor se ha perdido
como un niño en la calle…

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Há uma criança na rua


Nesta hora, exatamente,
há uma criança na rua.

Digo-lhe,  amor, me digo, recordo que eu andava
com as primeiras luzes de meu sangue, vendendo
uma escura vergonha, a história, o tempo, jornais,
porque é quando recordo também as presidências,
urgentes advogados, conservadores, asco,
quando subo à vida juntando a inocência,
minha meninice triturada por escassos centavos,
pela quantidade mínima de pagar a estadia
como um vagão de carga
e saber que a esta hora minha mãe está esperando,
quero dizer, a mãe da criança inumerável
que sai e nos pergunta com seu rosto de mãe:
o que fizeram da vida,
onde porei o sangue,
que farei com minha semente se há uma criança na rua?

É dever dos homens proteger o que cresce,
cuidar que no haja infância dispersa pelas ruas,
evitar que naufrague seu coração de barco,
sua incrível aventura de pão e chocolate,
transitar seus países de bandidos e tesouros
colocando-lhe uma estrela no lugar da fome,
de outro modo é inútil ensaiar na terra
a alegria e o canto,
de outro modo és absurdo
porque de nada vale se há uma criança na rua.

Onde andarão as crianças que vinham comigo
ganhando a vida pelos quatro costados,
porque neste caminho do hostil ferozmente
caiu o Toto de frente com seu pouquinho sangue,
com suas roupas de fé, sua dor feita pedaços
e agora necessito saber quais sorriem
minha canção necessita saber se se salvaram,
porque senão é inútil minha juventude de música
e há de doer-me muito a primavera neste ano.

Importam duas maneiras de conceber o mundo,
uma, salvar-se sozinho,
empurrar cegamente os demais da balsa
e a outra,
um destino de salvar-se com todos,
comprometer a vida até o último náufrago,
não dormir esta noite se há uma criança na rua.

Exatamente agora, se chove nas cidades,
se desce a névoa como um sapo do ar
e o vento não é nenhuma canção nas janelas,
não deve andar o mundo com o amor descalço
ondeando um jornal como uma asa na mão,
subindo aos trens, trocando-nos o riso,
golpeando-nos o peito com uma asa cansada,
não deve andar a vida, recém nascida, a preço,
a meninice, arriscada a um estreito lucro,
porque então as mãos são dois fardos inúteis
e o coração, apenas uma má palavra.

Quando a gente anda nas cidades do país
ou vai por trens em sua geografia de silêncio,
a pátria sai a olhar o homem com as crianças desnudas
e a perguntar que data corresponde à sua fome
que história lhes diz respeito, que lugar no mapa,
porque a gente  do Norte adentro e do Sul adentro encontra
as costas escandalosas das grandes cidades
nutrindo-se de trigo, videiras, canaviais
onde o açúcar sobe como um junco no ar,
encontramos com as pessoas, os jornais escassos,
uma surda tarefa de mães com horários
e pais silenciosos moídos nas fábricas,
há dias que a gente, andando de madrugada, encontra
a intempérie adormecida com uma criança nos braços.

A gente recorda nomes, anedotas, senhores
que beberam em Paris
pela antiga beleza de Deus, sobre a balsa
onde surpreenderam a solidão de frente
e a índole triste do homem solitário,
no entanto, suas senhoras têm angústia e mudam
de amantes esta noite, de médico esta tarde,
porque o tédio que carregam já não cabe no mundo
e eles são os acionistas das crianças descalças.

Eles esqueceram
que há uma criança na rua,
que há milhões de crianças
que vivem na rua
e uma multidão de crianças
que crescem na rua.

A esta hora, exatamente,
há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
olhando-nos a todos com seus olhos de fábula,
vem, vai até o homem que acumula coisas,
um relâmpago truncado cruza seu olhar,
porque ninguém protege essa vida que cresce
e o amor se perdeu
como uma criança na rua…

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Versão em Português: Cleto de Assis
Mais informações sobre o autor: clique aqui

Novos poemínimos de Raul Pough

Minipoemas

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Ver trabalhos anteriores em Raul Pough

Anair Weirich: livros, livros à mão cheia*

Escritora AnairSegundo a própria Anair Weirich, ela nasceu ” em 02/11/51, na cidade de Chapecó, SC, onde sempre residiu. Escreve desde 1987, mas (sobre)vive de seus livros desde 1996″. Ela é casada com um livreiro e colocou nos livros seus grandes objetivos vitais.

Escreve, faz poesia, vende livros de porta em porta, recita em escolas e em qualquer lugar onde os livros sejam bem recebidos. É uma espécie de cavaleira andante da palavra escrita, cruzada da literatura, troubatrice não errante das feiras de poesia, escudeira dos guerreiros de papel. Nosso breve encontro ocorreu há pouco tempo, em Curitiba, quando Marilda Confortin (sua prima) reuniu em Curitiba um grupo de poetas organizado virtualmente e que, de vez em quando, resolvem se reunir em carne e osso para comprovar suas existências reais.

De Chapecó, lá no oeste catarinense, ela envia seus depósitos ao Banco da Poesia.

Amigos

PANCETTI, José - 1902 - 1958 Ciranda óleo s/ papel, 1942 - 23,4 x 32,5 cm

PANCETTI, José - 1902 - 1958 - Ciranda - óleo s/ papel, 1942 - 23,4 x 32,5 cm

Amigos vêm e vão.
Amigos são uma nação
de corações leais.
Amigos são demais!
Amigos são trigos ao sol.
São cama e lençol
para deitar-se tranqüilo.
Amigos são aquilo
de tudo o que contas.
Amigos são contas
de um colar de diamantes.
São vogais e consoantes
do alfabeto do amor.
Amigos são abrigos
da maldade e da dor.
São a segurança das pontes,
e a água das fontes!
Amigos são artigos de luxo.
Amigos são bruxos
da distância e do tempo.
Amigos são o elemento
que conta na hora H…
Amigos são maná!
São faróis no nevoeiro.
São arco e arqueiro
na precisão do alvo.
Amigos estão a salvo
das tempestades da vida.
Amigos são guarida
nas horas incautas.
Amigos são flautas
que anunciam companheirismo.
Amigos são o muro seguro
que nos protegem do abismo!

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PostScriptum

Peço licença a Anair para colar aqui um recado. Ontem, ao postar seu poema Amigos, eu não me lembrei que hoje, 20 de julho, se comemora o Dia do Amigo. Sei que a autora não se aborrecerá se utilizarmos seu trabalho para homenagear todos os amigos, os meus e os amigos de todos os que são amigos e cultivam amigos como se cultiva flores: com carinho e dedicação. Amigos que, como diz Anair, “são vogais e consoantes do alfabeto do amor.

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Fruto do prazer

Ilustração: C. de A.

Ilustração: C. de A.

Minha meia maçã
deixa-me inteira
massa sã,
que se deita e se deleita
no suculento lento suco
do prazer que escorre.
Trono escarlate,
volátil enleio,
esvai-se ao seio
dos lençóis e morre!

_____________

*  Oh! Bendito o que semeia
 Livros... livros à mão cheia...
 E manda o povo pensar!
 O livro caindo n'alma
 É germe — que faz a palma,
 É chuva — que faz o mar. 

xxxxxxxxxxxxxxxxAntônio Frederico de Castro Alves
xxxxxxxxxxxxxxxxde O Livro e a América (Espumas Flutuantes, 1870)

Verbo vaticinado de Erly Welton Ricci

Vate

Vate

essa língua minha
linha que sempre esqueço
é a única que desconheço

essa minha língua estranha
só fala mesmo o que minto
pois quando meu verbo assanha
não consegue dizer o que sinto

não é viva a minha língua
nem morta ou moribunda
ela volta se digo siga
arreia as calças e mostra a bunda

teimosa em confundir a rima
essa minha língua vagabunda
de impronunciáveis dialetos
áreas amplas, vales profundos

signo-língua minha
de consoantes no papel
são vogais de muitas tribos
onde a palavra ainda morreu

ruas violentas, arquivos secretos
se insiste e exige a verdade
o resultado é sempre sangrento
ou vate

xxxxxxxxxxxxxErly Welton Ricci

_______________________

Vate
substantivo de dois gêneros
1 indivíduo que faz vaticínio, predição; profeta, vidente
2 aquele que cria ou escreve poesia; poeta
Etimologia
lat. vátes ou vátis,is - adivinho, oráculo; agoureiro; profeta, vidente;
poeta, vate; mestre (em uma arte)

Indelével imagem do começo

Infância

por Manoel de Andrade

PaiA meu pai

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

xxxxxLá vai a Dona Biloca levando uma corvina…
xxxxxLevei uma surra porque peguei um ovo no galinheiro dela
xxxxxe disse pra minha mãe que achei na rua…

Bilocaxxx

xxxxxLá vem a Odair e o Udinho…
xxxxxEu sei que eles querem brincar na piscina que eu fiz sooozinho…
xxxxx Ei Lelo, lá vem o Seu Badico lavar os cavalos na praia…
xxxxxEu sei, mas depois ele vai encher a carroça de tainhas,
xxxxxvai pôr folhas de bananeira em cima e vai vender lá em Medeiros.
xxxxx Paaaai!… deixa eu ir com o senhor lá em Medeiros???
xxxxxComo eu gosto de lavar o Sanho… ele é tão mansinho…
xxxxx Pai… o senhor já nadou até a ilha?
xxxxx Pai… depois o senhor me leva até o fundo?
xxxxx Pai… eles vão pôr de novo a rede hoje?
xxxxx Pai… depois vamos tomar garapa lá no Seu Bebé?

Infância… a indelével imagem da vida
o território mágico da alma
lembrança viva e peregrina que flutua pelo tempo.
Ah! Essa salgada saudade dos braços fortes de meu pai
a levar-me sobre os ombros entre as ondas.
O salto, o mergulho, o torvelinho das águas
minha festa, meu delírio.
Meu mar, meu céu, meu pão de liberdade
meus sete anos correndo atrás das gaivotas
perambulando entre as canoas que chegavam
meus pés vestidos com pantufas de espuma
a chutar seus densos flocos pelo ar.
As estrelas-do-mar semeadas ao longo dos meus passos
os siris entrando em seus buracos
os maçaricos andando ligeirinhos pela praia
as redes chegando lentamente com o cardume aprisionado
arraias, bagres, cações
espadas, águas-vivas, caranguejos
os pescadores repartindo os peixes agonizantes
os baiacus mortos na areia
os restos do arrastão espalhados sobre a praia
meu samburá repleto de peixinhos.

Ah, a canção intermitente das ondas
o poético itinerário das velas levadas pelo vento
o vôo vagabundo das aves litorâneas
o dorso escuro dos botos surgindo de quando em quando sobre as águas.
A maré alta da tarde apagando as marcas da manhã
a minha lagoinha lá perto da ponte
o meu mangue povoado de siris-goiá
meu pai tirando ostras
o rio desembocando lá na barra
a chegada das tainhas no inverno.

PesacaTainha

Ali morava minha infância
ali, e na imensurável morada do horizonte…
Meus olhos despertavam nas pálpebras entreabertas da aurora
e partiam com os mastros que sumiam na distância.
Vagavam no caminho melancólico do crepúsculo
no ocaso das tardes e na penumbra
na sedução da lua cheia sobre o mar.
Ah, Piçarras!… Piçarras!………………………
Não eras ainda esse moderno balneário
e a tua praia era somente minha o ano inteiro.

………………………………………………………………………………………………………………….
xxxxxAs velas da minha infância,
xxxxxarriadas pelo tempo, já não saem pra pescar.
xxxxxAs redes daqueles anos,
xxxxxabertas qual flor nas águas, chegam vazias do mar.
xxxxxOs cardumes de tainhas,
xxxxxligeiras como corisco, já não chegam pra invernar.
xxxxxAs águas vivas do rio,
xxxxxhoje carregam chorando, seu veneno para o mar.


Infancia
xxxxxMeu manguezal de menino,
xxxxxberçário de tantas vidas, foi inteiro loteado.
xxxxxMinhas canoas à vela,
xxxxxpoemas soltos ao vento, hoje navegam roncando.
xxxxxO lago era um ovário
xxxxxcujo canal dava ao rio, e tudo foi aterrado.
xxxxxProgresso… que desencanto!!!
xxxxxsou um estranho nesse ninho, sou uma infância chorando.

………………………………………………………………………………………………………………….

Ó mar, ó mar
procuro em vão meus rastros na areia
e por isso meus passos já não serão como um regresso…
Me restará, contudo, sempre a tua eterna imagem,
tua beleza amanhecida e retocada pelo sol e pela brisa,
tuas verdes planícies que espraiam o mundo.
Resta-me o teu sabor primordial
“o sal da vida”
linfa incorruptível
ventre profundo que dia a dia reinaugura a maternidade planetária.
Restam-me tuas noites pontilhadas pelos faróis do mundo
por Sírius, Antares, Aldebarã…
por todo o firmamento constelado
e pelo esplendor dos plenilúnios.

Volto, saudoso, a meus mares
porque sempre haverá um leste e um sul magnético no meu peito
apontando-me o encanto desses íntimos recantos.
Aqui, uma pequenina praia entre pedras e penhascos,
ali, a visão imensa da baía com seus barcos e canoas,
além, o grito alado das plumagens que voam lentamente sobre as ondas
ao longe, o pesqueiro solitário que demanda as águas fundas.
Relembro este molhe de pedra que avança sobre o mar
do farol da barra e desta paisagem soberana
e da minha adolescência, cruzando a nado esta corrente.
É o meu Itajaí-Açu desembocando calmamente no oceano
neste mar tão verde desta manhã de sol.
Meu olhar ancora ao longe, nos navios fundeados
e navega, mais além, pousado no mastro esbelto de um veleiro.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
FozdoItajaí
Mar, ó mar
restará sempre o teu murmúrio a embalar o mundo
a voz inaudível das profundidades orientando a rota dos cardumes
a tua gestação incessante de criaturas
a força imponderável das correntes
a pontualidade das marés
os teus ciclos arquétipos que sustentam a vida.

Mar, ó mar
basta-me hoje o que já me deste desde sempre…
a tua imensidão tatuada nos meus olhos,
verde enseada onde aportou meu lírico destino.
Esses teus encantos, as tuas extensões, essa totalidade…
todas as tuas medidas eu quisera ter na suprema síntese dos meus versos,
para dá-la ao mundo na expressão mais bela da poesia:
a face deslumbrante da esperança.

xxxxxxxxxxxxxxxxPiçarras – Itajaí, fevereiro de 2005.

Exéquias midiáticas

Hoje, 07 de julho de 2009, o mundo inteiro, enlaçado pela TV e pela Internet, viu um espetáculo meticulosamente produzido, dentro da tecnológica mise-en-scène de Hollywood, precisamente na terra do cinema, Los Angeles.

Compreendo: a indústria do entretenimento, ao transformar cantores e jogadores de futebol em semideuses, cativa milhões de mentes que também buscam, por meio de seus ídolos, alcançar extática plenitude, embora uma felcicidade engastada em fantasias. Mas não pude deixar de sentir como somos nutridos por sentimentos paradoxais.

Ao mesmo tempo em que perdemos dias a velar e a chorar um distante personagem sabidamente produzido pela fábrica de ilusões – e que já foi causticamente imolado por erros e desencontros, em passado recente, pela mesma mídia que agora o coloca em altar mais alto do que os dos santos – conseguimos não perceber o desafortunado que passa por nosso lado e esquecer rapidamente a criança que morre de fome ou frio, a mãe que mingua por não ter como socorrer seus filhos.

Hoje uma família (os Jackson’s Five, que já devem ser Jackson’s Ten, Twenty or more) fez o seu espetáculo lacrimejante e, muito possivelmente, douradamente tilintante, capaz de fazê-los gastar 25 mil dólares em uma urna mortuária banhada a ouro. Hoje Stevie Wonder, um dos amigos do menor dos Jackson que cantaram em sua homenagem, disse singelamente que Deus precisou de Michael antes de findar seu tempo de permanência na Terra. E todos choraram e aplaudiram. Mas também hoje a mesma CNN, que transmitiu segundo por segundo as cenas do fantástico funeral,  noticiou que os Taliban, lá no Paquistão, estão comprando crianças para treiná-las em ataques suicidas. Quantos de nós protestamos e choramos por isso? Que deus está chamando prematuramente as crianças paquistanesas? C. de A.

Desculpem-me os fãs de Michael Jackson, mas tive que recorrer à poesia para fazer meu contrachoro.

Memorial a Peter Pan

Foto: CNN

Foto: CNN

Aprendi a rezar pequenininho, ajoelhado ao pé da cama.
xxxxxx“Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador…”
Aprendi sem saber o que era zeloso
e nem piedade divina.

Depois conheci outras orações
xxxxxxas decoradas e ditas sem sentimentos
xxxxxximprovisadas e cheias de sensações
xxxxxxrezas medicinais de curandeiras
xxxxxxpreces de urgência socorrista
xxxxxxsúplicas de desespero de última hora
xxxxxxladainhas repetitivas e sem sentido
xxxxxxapressadas jaculatórias
xxxxxxladários corta-tempestades
xxxxxxlitanias por amores perdidos
xxxxxxpadre-nossos e ave-marias de carpideiras incontritas
xxxxxxreza braba e despachos de encruzilhada.

Desaprendi a rezar depois de pequenininho.

Aprendi a buscar dentro de mim
na vida e na viva deusa Gaia
energias mais próximas,
nem por isso distantes da energia cósmica,
nem por isso menos miraculosas, menos reconfortantes.

Mas não conhecia ainda a oração que hoje,
pasmo ser vivente do terceiro milênio,
testemunhei no mega-espetáculo, no mega-funeral,
na mega-encomenda fúnebre sacramentada por hinos profanos,
na produzida despedida do Peter Pan midiático
saído prematuramente da terra do agora
em busca de uma sonhada terra do nunca.

No adeus televisivo, vinte mil curiosos
inauguradores dos funerais com bilhetes e lugares marcados
representantes de milhões de órfãos e viúvas
do cantor bailarino de mil faces e de uma só e terrível solidão.

Ao ver, em cores e ao vivo,
diretamente da cidade dos anjos
as exéquias do agora outro arcanjo Miguel,
son of Jack, o predador,
pensei no esquecimento constante imposto por seus milhões de órfãos e viúvas
a milhares de mães e filhos anônimos
que ontem, hoje e amanhã
sofreram e penarão a dor e a solidão da morte,
sem ter ao menos uma pequena criança a rezar por eles
para pedir a um anjo menos holiudiano
que os reja, os guarde, os governe, os ilumine,
amém.

xxxxxxxxxxCleto de Assis