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Atentai, senhoras e senhores de casacos quentes: há uma criança na rua

ATG01Armando Tejada Gómez nasceu em Mendoza, Argentina, no seio de uma família de trabalhadores rurais bastante pobre. Foi o penúltimo de 24 irmãos. Ficou órfão de pai, aos quatro anos, e sua mãe teve que dividir a família, colocando os filhos sob a guarda de parentes. Armando foi criado por uma tia, que se transformou em mãe e professora, ensinando-lhe a ler. Quase não frequentou a escola e começou a trabalhar aos seis anos como jornaleiro e, depois, como engraxate. Ele mesmo conta, de sua infância, que as outras crianças “não queriam brincar comigo, porque eu era a forma do pânico e da fome e da mais descarada miséria do mundo”.

Aos quinze anos comprou um exemplar de Martín Fierro (um poema narrativo de José Hernández, considerado exemplar do gênero gauchesco na Argentina e no Uruguai) que lhe despertou a paixão pela leitura e a poesia. Ao mesmo tempo, as injustiças sociais despertaram-lhe a inquietação e se tornou um ativista político.

Movimento do Novo Cancioneiro

Mais tarde, em 11 de fevereiro de 1963, no Círculo de Jornalistas de Mendoza, como integrante do trio Sosa-Matus-Tejada Gómez, associado a outros artistas como Eduardo Aragón e Tito Francia, participou da publicação do manifesto de fundação do Movimento do Novo Cancioneiro, que propõe a busca de uma música nacional de conteúdo popular, como um dos mais caros objetivos do povo argentino. Nesse contexto, o Manifesto questiona a falsa oposição tango-folclore. Sustenta, ainda, a necessidade de um cancioneiro integrado comum: há país para todo o cancioneiro. Somente falta integrar um cancioneiro para todo o país.

O MNC destaca, ainda, o auge que estava vivendo o folclore argentino e busca definir seu sentido: “Nós afirmamos que este ressurgimento da música popular nativa não é um fato circunstancial, mas uma tomada de consciência do povo argentino… Que não escamoteiem  esta tomada de consciência nem ao artista nem a seu povo, é o que propõe o Novo Cancioneiro”.

Nitidamente nacionalista, o movimento afirmou também defender “a integração da música popular na diversidade das expressões regionais do país… a participação da música típica popular e popular nativa nas demais artes populares… a recusa a todo regionalismo fechado…  a depuração de convencionalismos e tabus tradicionalistas sem concessões… a defesa do patrimônio musical… o descarte de toda produção grosseira e subalterna que, com finalidade mercantil, intente diminuir tanto a inteligência como a moral de nosso povo… a busca da comunicação, o diálogo e o intercâmbio com todos os artistas e movimentos similares do resto da América…”

Caminhada literária e musical

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

ATG -Desenho de Carlos Alonso, do livro Los Telares del Sol

En 1950, Armando Tejada obteve um emprego como locutor na Rádio de Cuyo, que alternou com seu trabalho como operário de construção. Comecou a compor canções com o músico Oscar Matus, também de Mendoza e futuro esposo da cantora Mercedes Sosa. Essa seria uma longa sociedade que produziria canções como Los hombres del río, Coplera del viento, Tropero padre (inspirada em seu pai), entre muitas outras.

En 1954, ganhou o segundo prêmio no V Concurso Literário Municipal de Mendoza, por seu primeiro livro de poemas Pachamama: poemas de la tierra y el origen, dedicado a sua mãe e inspirado na cultura huarpe de seus ancestrais. Sobre a obra, o poeta disse ser uma “cosmogonía americana do Universo; entre os conselhos dos adultos e dos índios huarpes, dos quais eu provenho, e das reuniões de fogão, aprendi  a cultura americana, porque não frequentei escolas. Aprendi a voz popular em que acreditávamos”. O prêmio e a edição do livro (ilustrado por Carlos de la Mota), lhe deram considerável reconhecimento, que começou a alargar-se desde então. Em 1957 conquistou o prêmio do 75º Aniversário do jornal diário Los Andes, com o poema La verdadera muerte del compadre.

Foi perseguido na última etapa do governo peronista (1946-1955). Tejada Gómez se opunha às tendências autoritárias do peronismo e, mesmo admirando a Eva Perón, negou-se a aceitar a ordem de usar luto no momento de sua morte, em 1952. Em 1954, devido a uma reportagem sobre o pintor Juan Carlos Castagnino, que havia regressado da China, então imersa em sua revolução comunista, Tejada foi sumariamente despedido da rádio e proibido de continuar trabalhando como locutor. Também se proibiu mencionar seu nome quando eram tocadas suas canções.

En 1955, escreveu seu segundo livro Tonadas de la piel. A obra ganhou um concurso organizado por Gildo D’Accurzio, esforçado  homem de imprensa de Mendoza, obtendo como prêmio a edição do livro, qure recebeu prólogo do poeta saltenho Jaime Dávalos. Nesse mesmo ano, em setembro, um golpe de estado derrubou Perón e Tejada Gómez foi readmitido na rádio.

“Hay un niño en la calle”

Logo depois da derrubada de Perón, Tejada Gómez deu uma volta tanto em sua arte como em sua posição política. Ele contou várias vezes que o elemento detonante para a mudança em sua maneira de escrever foi um comentário crítico de seu irmão, operário de construção, que lhe mencionou que seus companheiros de trabalho diziam que ele “escrevia coisas que ninguém entendia”. O comentário influiu notavelmente em Tejada Gómez, que decidiu, então, orientar sua poesia aos problemas sociais e aos temas populares. Um dos primeiros poemas desta nova etapa foi seu conhecido Hay un niño en la calle, que reproduzimos aqui.

Hay un niño en la calle


A esta hora, exactamente,
hay un niño en la calle.

Le digo amor, me digo, recuerdo que yo andaba
con las primeras luces de mi sangre, vendiendo
un oscura vergüenza, la historia, el tiempo, diarios,
porque es cuando recuerdo también las presidencias,
urgentes abogados, conservadores, asco,
cuando subo a la vida juntando la inocencia,
mi niñez triturada por escasos centavos,
por la cantidad mínima de pagar la estadía
como un vagón de carga
y saber que a esta hora mi madre está esperando,
quiero decir, la madre del niño innumerable
que sale y nos pregunta con su rostro de madre:
qué han hecho de la vida,
dónde pondré la sangre,
qué haré con mi semilla si hay un niño en la calle.

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate,
transitar sus países de bandidos y tesoros
poniéndole una estrella en el sitio del hambre,
de otro modo es inútil ensayar en la tierra
la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale si hay un niño en la calle.

Dónde andarán los niños que venian conmigo
ganándose la vida por los cuatro costados,
porque en este camino de lo hostíl ferozmente
cayó el Toto de frente con su poquita sangre,
con sus ropas de fé, su dolor a pedazos
y ahora necesito saber cuáles sonríen
mi canción necesita saber si se han salvado,
porque sino es inutil mi juventud de música
y ha de dolerme mucho la primavera este año.

Importan dos maneras de concebir el mundo,
Una, salvarse solo,
arrojar ciegamente los demás de la balsa
y la otra,
un destino de salvarse con todos,
comprometer la vida hasta el último náufrago,
no dormir esta noche si hay un niño en la calle.

Exactamente ahora, si llueve en las ciudades,
si desciende la niebla como un sapo del aire
y el viento no es ninguna canción en las ventanas,
no debe andar el mundo con el amor descalzo
enarbolando un diario como un ala en la mano,
trepándose a los trenes, canjeándonos la risa,
golpeándonos el pecho con un ala cansada,
no debe andar la vida, recién nacida, a precio,
la niñez, arriesgada a una estrecha ganancia,
porque entonces las manos son dos fardos inútiles
y el corazón, apenas una mala palabra.

Cuando uno anda en los pueblos del país
o va en trenes por su geografía de silencio,
la patria sale a mirar al hombre con los niños desnudos
y a preguntar qué fecha corresponde a su hambre
que historia les concierne, qué lugar en el mapa,
porque uno Norte adentro y Sur adentro encuentra
la espalda escandalosa de las grandes ciudades
nutriéndose de trigo, vides, cañaverales
donde el azúcar sube como un junco en el aire,
uno encuentra la gente, los jornales escasos,
una sorda tarea de madres con horarios
y padres silenciosos molidos en la fábricas,
hay días que uno andando de madrugada encuentra
la intemperie dormida con un niño en los brazos.

Y uno recuerda nombres, anécdotas, señores
que en París han bebido
por la antigua belleza de Dios, sobre la balsa
en donde han sorprendido la soledad de frente
y la índole triste del hombre solitario,
en tanto, sus señoras, tienen angustia y cambian
de amantes esta noche, de médico esta tarde,
porque el tedio que llevan ya no cabe en el mundo
y ellos son los accionistas de los niños descalzos.

Ellos han olvidado
que hay un niño en la calle,
que hay millones de niños
que viven en la calle
y multitud de niños
que crecen en la calle.

A esta hora, exactamente,
hay un niño creciendo.

Yo lo veo apretando su corazón pequeño,
mirándonos a todos con sus ojos de fábula,
viene, sube hacia el hombre acumulando cosas,
un relámpago trunco le cruza la mirada,
porque nadie proteje esa vida que crece
y el amor se ha perdido
como un niño en la calle…

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Ilustração: grafismo sobre imagem de http://img395.imageshack.us/i/img7916h9rg.jpg/

Há uma criança na rua


Nesta hora, exatamente,
há uma criança na rua.

Digo-lhe,  amor, me digo, recordo que eu andava
com as primeiras luzes de meu sangue, vendendo
uma escura vergonha, a história, o tempo, jornais,
porque é quando recordo também as presidências,
urgentes advogados, conservadores, asco,
quando subo à vida juntando a inocência,
minha meninice triturada por escassos centavos,
pela quantidade mínima de pagar a estadia
como um vagão de carga
e saber que a esta hora minha mãe está esperando,
quero dizer, a mãe da criança inumerável
que sai e nos pergunta com seu rosto de mãe:
o que fizeram da vida,
onde porei o sangue,
que farei com minha semente se há uma criança na rua?

É dever dos homens proteger o que cresce,
cuidar que no haja infância dispersa pelas ruas,
evitar que naufrague seu coração de barco,
sua incrível aventura de pão e chocolate,
transitar seus países de bandidos e tesouros
colocando-lhe uma estrela no lugar da fome,
de outro modo é inútil ensaiar na terra
a alegria e o canto,
de outro modo és absurdo
porque de nada vale se há uma criança na rua.

Onde andarão as crianças que vinham comigo
ganhando a vida pelos quatro costados,
porque neste caminho do hostil ferozmente
caiu o Toto de frente com seu pouquinho sangue,
com suas roupas de fé, sua dor feita pedaços
e agora necessito saber quais sorriem
minha canção necessita saber se se salvaram,
porque senão é inútil minha juventude de música
e há de doer-me muito a primavera neste ano.

Importam duas maneiras de conceber o mundo,
uma, salvar-se sozinho,
empurrar cegamente os demais da balsa
e a outra,
um destino de salvar-se com todos,
comprometer a vida até o último náufrago,
não dormir esta noite se há uma criança na rua.

Exatamente agora, se chove nas cidades,
se desce a névoa como um sapo do ar
e o vento não é nenhuma canção nas janelas,
não deve andar o mundo com o amor descalço
ondeando um jornal como uma asa na mão,
subindo aos trens, trocando-nos o riso,
golpeando-nos o peito com uma asa cansada,
não deve andar a vida, recém nascida, a preço,
a meninice, arriscada a um estreito lucro,
porque então as mãos são dois fardos inúteis
e o coração, apenas uma má palavra.

Quando a gente anda nas cidades do país
ou vai por trens em sua geografia de silêncio,
a pátria sai a olhar o homem com as crianças desnudas
e a perguntar que data corresponde à sua fome
que história lhes diz respeito, que lugar no mapa,
porque a gente  do Norte adentro e do Sul adentro encontra
as costas escandalosas das grandes cidades
nutrindo-se de trigo, videiras, canaviais
onde o açúcar sobe como um junco no ar,
encontramos com as pessoas, os jornais escassos,
uma surda tarefa de mães com horários
e pais silenciosos moídos nas fábricas,
há dias que a gente, andando de madrugada, encontra
a intempérie adormecida com uma criança nos braços.

A gente recorda nomes, anedotas, senhores
que beberam em Paris
pela antiga beleza de Deus, sobre a balsa
onde surpreenderam a solidão de frente
e a índole triste do homem solitário,
no entanto, suas senhoras têm angústia e mudam
de amantes esta noite, de médico esta tarde,
porque o tédio que carregam já não cabe no mundo
e eles são os acionistas das crianças descalças.

Eles esqueceram
que há uma criança na rua,
que há milhões de crianças
que vivem na rua
e uma multidão de crianças
que crescem na rua.

A esta hora, exatamente,
há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
olhando-nos a todos com seus olhos de fábula,
vem, vai até o homem que acumula coisas,
um relâmpago truncado cruza seu olhar,
porque ninguém protege essa vida que cresce
e o amor se perdeu
como uma criança na rua…

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Versão em Português: Cleto de Assis
Mais informações sobre o autor: clique aqui

Indelével imagem do começo

Infância

por Manoel de Andrade

PaiA meu pai

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xxxxxLá vai a Dona Biloca levando uma corvina…
xxxxxLevei uma surra porque peguei um ovo no galinheiro dela
xxxxxe disse pra minha mãe que achei na rua…

Bilocaxxx

xxxxxLá vem a Odair e o Udinho…
xxxxxEu sei que eles querem brincar na piscina que eu fiz sooozinho…
xxxxx Ei Lelo, lá vem o Seu Badico lavar os cavalos na praia…
xxxxxEu sei, mas depois ele vai encher a carroça de tainhas,
xxxxxvai pôr folhas de bananeira em cima e vai vender lá em Medeiros.
xxxxx Paaaai!… deixa eu ir com o senhor lá em Medeiros???
xxxxxComo eu gosto de lavar o Sanho… ele é tão mansinho…
xxxxx Pai… o senhor já nadou até a ilha?
xxxxx Pai… depois o senhor me leva até o fundo?
xxxxx Pai… eles vão pôr de novo a rede hoje?
xxxxx Pai… depois vamos tomar garapa lá no Seu Bebé?

Infância… a indelével imagem da vida
o território mágico da alma
lembrança viva e peregrina que flutua pelo tempo.
Ah! Essa salgada saudade dos braços fortes de meu pai
a levar-me sobre os ombros entre as ondas.
O salto, o mergulho, o torvelinho das águas
minha festa, meu delírio.
Meu mar, meu céu, meu pão de liberdade
meus sete anos correndo atrás das gaivotas
perambulando entre as canoas que chegavam
meus pés vestidos com pantufas de espuma
a chutar seus densos flocos pelo ar.
As estrelas-do-mar semeadas ao longo dos meus passos
os siris entrando em seus buracos
os maçaricos andando ligeirinhos pela praia
as redes chegando lentamente com o cardume aprisionado
arraias, bagres, cações
espadas, águas-vivas, caranguejos
os pescadores repartindo os peixes agonizantes
os baiacus mortos na areia
os restos do arrastão espalhados sobre a praia
meu samburá repleto de peixinhos.

Ah, a canção intermitente das ondas
o poético itinerário das velas levadas pelo vento
o vôo vagabundo das aves litorâneas
o dorso escuro dos botos surgindo de quando em quando sobre as águas.
A maré alta da tarde apagando as marcas da manhã
a minha lagoinha lá perto da ponte
o meu mangue povoado de siris-goiá
meu pai tirando ostras
o rio desembocando lá na barra
a chegada das tainhas no inverno.

PesacaTainha

Ali morava minha infância
ali, e na imensurável morada do horizonte…
Meus olhos despertavam nas pálpebras entreabertas da aurora
e partiam com os mastros que sumiam na distância.
Vagavam no caminho melancólico do crepúsculo
no ocaso das tardes e na penumbra
na sedução da lua cheia sobre o mar.
Ah, Piçarras!… Piçarras!………………………
Não eras ainda esse moderno balneário
e a tua praia era somente minha o ano inteiro.

………………………………………………………………………………………………………………….
xxxxxAs velas da minha infância,
xxxxxarriadas pelo tempo, já não saem pra pescar.
xxxxxAs redes daqueles anos,
xxxxxabertas qual flor nas águas, chegam vazias do mar.
xxxxxOs cardumes de tainhas,
xxxxxligeiras como corisco, já não chegam pra invernar.
xxxxxAs águas vivas do rio,
xxxxxhoje carregam chorando, seu veneno para o mar.


Infancia
xxxxxMeu manguezal de menino,
xxxxxberçário de tantas vidas, foi inteiro loteado.
xxxxxMinhas canoas à vela,
xxxxxpoemas soltos ao vento, hoje navegam roncando.
xxxxxO lago era um ovário
xxxxxcujo canal dava ao rio, e tudo foi aterrado.
xxxxxProgresso… que desencanto!!!
xxxxxsou um estranho nesse ninho, sou uma infância chorando.

………………………………………………………………………………………………………………….

Ó mar, ó mar
procuro em vão meus rastros na areia
e por isso meus passos já não serão como um regresso…
Me restará, contudo, sempre a tua eterna imagem,
tua beleza amanhecida e retocada pelo sol e pela brisa,
tuas verdes planícies que espraiam o mundo.
Resta-me o teu sabor primordial
“o sal da vida”
linfa incorruptível
ventre profundo que dia a dia reinaugura a maternidade planetária.
Restam-me tuas noites pontilhadas pelos faróis do mundo
por Sírius, Antares, Aldebarã…
por todo o firmamento constelado
e pelo esplendor dos plenilúnios.

Volto, saudoso, a meus mares
porque sempre haverá um leste e um sul magnético no meu peito
apontando-me o encanto desses íntimos recantos.
Aqui, uma pequenina praia entre pedras e penhascos,
ali, a visão imensa da baía com seus barcos e canoas,
além, o grito alado das plumagens que voam lentamente sobre as ondas
ao longe, o pesqueiro solitário que demanda as águas fundas.
Relembro este molhe de pedra que avança sobre o mar
do farol da barra e desta paisagem soberana
e da minha adolescência, cruzando a nado esta corrente.
É o meu Itajaí-Açu desembocando calmamente no oceano
neste mar tão verde desta manhã de sol.
Meu olhar ancora ao longe, nos navios fundeados
e navega, mais além, pousado no mastro esbelto de um veleiro.

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FozdoItajaí
Mar, ó mar
restará sempre o teu murmúrio a embalar o mundo
a voz inaudível das profundidades orientando a rota dos cardumes
a tua gestação incessante de criaturas
a força imponderável das correntes
a pontualidade das marés
os teus ciclos arquétipos que sustentam a vida.

Mar, ó mar
basta-me hoje o que já me deste desde sempre…
a tua imensidão tatuada nos meus olhos,
verde enseada onde aportou meu lírico destino.
Esses teus encantos, as tuas extensões, essa totalidade…
todas as tuas medidas eu quisera ter na suprema síntese dos meus versos,
para dá-la ao mundo na expressão mais bela da poesia:
a face deslumbrante da esperança.

xxxxxxxxxxxxxxxxPiçarras – Itajaí, fevereiro de 2005.