Idos de 1989: e o Muro foi ao chão

O Muro

Cleto de Assis

Berlim, 9 de novembro de 1989 – Aos brados de “Wie Sind ein Volk – Nós somos um só povo” – berlinenses do Leste e do Oeste derrubaram a vergonhosa barreira que, durante 28 anos, separou as famílias alemãs.

Queda do Muro

O Muro aparta e afasta
o irmão do próprio irmão.
O Muro, dura concretude,
vergonha suntuosa
da segregação.

O Muro divide cérebros
e cria fossas abismais onde vermificam as idéias unitárias,
malcheirosas, corrosivas, infectantes.
E os cérebros, necessariamente bilaterais,
dividem-se em hemisférios esquerdo e direito irreconciliáveis.

Oh, Muro sem qualquer estética,
Feito de pedras amontoadas às pressas pela ira e pelo medo,
de concreto armado pela tecnologia fratricida,
de arames coroados de espinhos lacerantes!

Oh, Muro estático, bélico, fanático,
ereto monumento da estupidez!
Oh, Muro que, uma vez construído, destróis e desconstróis…

Ah, muros nacionais do desentendimento,
muros internacionais a toda hora germinados,
Muro da Cisjordânia, Muro do México, Muro do Paralelo 38,
o projetado Muro das favelas cariocas,
filhos todos da parvoíce politicante,
não tendes direito a orações nem boas-vindas
porque, embora linhas inertes,
dividis, isolais, amedrontais e matais a vida e a liberdade.

Muro de Berlim, pai e mãe de todas as vergonhas,
ainda gerador de filhotes desavergonhados,
The Wall, Le Mur, Die Berliner Mauer,
poliglota e polinéscio, bendizemos a tua queda
e saudamos, com festas e más lembranças, a tua morte vintenária.
Pena que, uma vez no chão,
desfeito em cacos de memória,
transformado em preciosos souvenirs,
não calaste nos corações humanos
a energia do fraterno congresso.
Pena que o esforço gasto em tua construção
e na de teus bastardos filhos
não tenha sido usado para a ereção de templos do saber
e das idéias sem barreiras.
…………………………………………………………………….
Um dia, o martelo afastou-se da foice e desmantelou a rocha insensata.
Caiu o Muro. Mudou o Rumo?

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Nota histórica A queda do Muro de Berlim, como chegou à memória de nosso tempo, não foi um ato inesperado de demolição das paredes da vergonha. Já enfraquecida politicamente diante do governo soviético, à época governado pelo primeiro-ministro Mikhail Gorbachev, a República Democrática Alemã. Depois da passagem, por Berlim oriental, de Gorbachev, que deixou seu recado de abandono do protecionismo da Rússia à RDA, muitos alemães passaram a refugiar-se nas embaixadas da Alemanha ocidental em vários países do bloco soviético e a manifestar-se ostensivamente nas ruas de Berlim, exigindo livre passagem pelas rígidas barreiras construídas já havia mais de duas décadas. Mas a real queda do muro foi causada por um erro de comunicação de um membro do Politburo da RDA, Günter Schabowski, que, na tarde do dia 9 de Novembro de 1989, reuniu a imprensa para uma entrevista e anunciou a decisão do conselho de ministros de abolir de imediato as restrições de viagens ao Oeste. A entrevista, assistida pela televisão por milhares de habitantes de Berlim oriental, antes que a decisão fosse regulamentada, provocou uma corrida, naquela mesma noite, de milhares de berlinenses do Leste às fronteiras, principalmente ao posto da rua Bornholmer, a pedir a abertura dos portões onde nem as unidades militares, nem o pessoal de controle de passaportes haviam sido instruídos.

Formou-se o tumulto e muitos cidadãos rasgaram seus passaportes, em sinal de protesto. Outros pontos da fronteira também foram assediados e, diante das manifestações, os atônitos guardas tiveram que deixar passar as multidões.

Registra a história: “Os cidadãos da RDA foram recebidos com grande euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro espontaneamente serviram cerveja gratuita, houve uma grande celebração na rua Kurfürstendamm, e pessoas que nunca se tinham visto antes cumprimentavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental subiram no muro e passaram para as Portas de Brandenburgo, que até então não eram acessíveis a eles. O Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento e os deputados espontaneamente cantaram o hino nacional da Alemanha”.

O Muro havia caído. A sua demolição final, que prosseguiu, nos dias seguintes, em meio a festas de reencontro entre tantos alemães separados por força da estultícia política, foi um grande ato simbólico de um dos episódios mais marcantes do Séc. XX. Talvez o verdadeiro fim da segunda Guerra Mundial, pois a divisão de Berlim havia sido resultado da pilhagem dos vencedores do conflito mundial que, mais tarde, iriam separar-se em dois grandes blocos conflitantes e protagonistas da chamada Guerra Fria, também aniquilada com a derrubada do muro.

Momentos da História

A Queda do Muro de Berlim

Prossegue a mostra de cinema

Ainda não fui ver a Mostra Cinema e Direitos Humanos (ver post abaixo). Vou à noite. Mas para amanhã se anuncia uma produção premiada, que vale a pena ver. Refiro-me a Pro dia nascer feliz, de João Jardim (2006, 88 min). Transcrevo abaixo uma crítica bastante positiva, colhida no blog A Voz do Cidadão e publico o trailer do filme. Aproveitem.

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Sinopse

As adversas situações que o adolescente brasileiro enfrenta dentro da escola.
Meninos e meninos, ricos e pobres em situações que revelam precariedade, preconceito, violência e esperança. Em três estados brasileiros, em classes sociais distintas, adolescentes falam da vida na escola, seus projetos e inquietações numa fase crucial de sua formação. Professores também expõem seu cotidiano profissional, ajudando a pintar um quadro complexo das desigualdades e da violência no país a partir da realidade escolar. Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado, 2006. No mesmo festival: Prêmios da Crítica e do Juri Popular, além do prêmio de MelhorTrilha Sonora. Melhor Documentário na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (escolhido pelo Juri Oficial e pelo Juri Popular). Melhor Fotografia de Documentário, concedido pela Associação Brasileria de Cinematografia. Prêmio Especial do Juri do 10º Cine PE, Recife.

 

Pro dia nascer feliz

Documentário de João Jardim

Um dos mais impressionantes documentários sobre a realidade nacional. No caso, um rico, vasto e sensível painel do estado da educação no Brasil através de depoimentos emocionantes de jovens do ensino médio e de professores de três diferentes regiões brasileiras. Da menina Valéria que recitava poesias no longínquo sertão nordestino, lutando contra toda sorte de adversidade social, mas com um sentido de criação que chega a nos enrubescer.

Pois o que temos de reclamar por não realizar um projeto sem condições objetivas diante de tanta escassez de tudo? É emocionante o depoimento de Valéria, que afirma que ninguém na escola acreditava que era mesmo ela quem compunha seus poemas.

No extremo oposto da esquizofrênica pirâmide social brasileira, o diretor colhe, com admirável sensibilidade, as angústias dos jovens de classe média alta dos tradicionais colégios confessionais do Rio de Janeiro e São Paulo, superexigidos por pais, professores e amigos. Um painel de recursos
tecnológico-educacionais abundantes, muita expectativa de competição e muito pouco afeto.

Mas em meio a estas extremidades, o diretor João Jardim nos surpreende com a realidade mundo-cão das escolas das favelas das periferias do Rio e São Paulo. Escolas dantescas largadas à incúria das autoridades públicas, dentro do tradicional quadro de irresponsabilidade política e de ausência de
cidadania característico de nossa cultura de impunidade e de pastiche. Professores que fingem ensinar e alunos que fingem aprender, aqueles cativos do terror de alunos delinquentes e estes do narcotráfico que coabita muro a muro com a escola e alicia os jovens para o ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação consumista da mídia.

Os depoimentos que se seguem são de cortar o coração de qualquer cidadão que tenha um filho em idade escolar. Os jovens favelados, menores de idade, afirmam com escárnio que não tem lá muito problema roubar alguém ou até mesmo matar se for para livrar a cara, pois o máximo que vão pegar é três anos na Febem. Além do que sai na televisão todo o dia, que os políticos roubam muito mais e não são presos, o que justifica  a criminalidade geral da sociedade, são justamente seus políticos.Basta ligar a televisão e está lá: o crime no Brasil compensa!

Grande e dura aula de cidadania brasileira para tomarmos ciência o quanto antes que, se a educação e as instituições jurídico-políticas estão sucateadas no Brasil, só sobra mesmo a mídia para salvar o país da barbárie. Até por que o círculo vicioso da violação legal e da violência social não interessa mais a ninguém, sobretudo aos mais abastados que falam tanto dos entraves e gargalos da economia e se omitem do dever de dar o exemplo da iniciativa e da participação política.

Trata-se, pois, de um documentário imperdível para os cidadãos verem e recomendarem!

O trailer


Cinema e direitos humanos: mostra começa hoje

4ª. MostraCinema e Direitos Humanos

Hoje (3.nov.2009) tem início a 4ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. A programação vai abaixo. Para ver os filmes, é preciso chegar cedo, pois a Cinemateca de Curitiba, que sedia o evento, tem apenas 105 lugares.

O Banco da Poesia dá uma “mostrinha” da mostra, com o trailer de uma das produções brasileiras, O Signo da Cidade, filme de 2007 com direção de Carlos Alberto Ricelli e roteiro de Bruna Lombardi, exibição programada para quinta, 05/nov, às 14 horas. Drama com Bruna Lombardi, Juca de Oliveira, Eva Wilma, Denise Fraga, Graziella Moretto e Malvino Salvador.

SignoDaCidadeCartaz

O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Ricelli, com roteiro de Bruna Lombardi, promete ser um dos bons momentos da mostra de cinema e direitos humanos

Veja o trailer

 

e as entrevistas

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Cinemateca de Curitiba

(41) 3321-3252
R. Carlos Cavalcanti, 1174 – São Francisco
ENTRADA FRANCA

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Programação

03/11 – terça-feira

14h
YÃKWÁ, O BANQUETE DOS ESPÍRITOS – Virgínia Valadão (Brasil, 54 min, 1995, doc)
A ARCA DOS ZO’É – Dominique Tilkin Gallois, Vincent Carelli (Brasil, 22 min, 1993, doc)
O ESPÍRITO DA TV – Vincent Carelli (Brasil, 18 min, 1990, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
CRUELDADE MORTAL – Luiz Paulino dos Santos (Brasil, 92 min, 1976, fic)
ESTRELA DE OITO PONTAS – Fernando Diniz e Marcos Magalhães (Brasil, 12 min, 1996, fic/ani)
Classificação indicativa: 16 anos

18h
ESSE HOMEM VAI MORRERUM FAROESTE CABOCLO – Emilio Gallo (Brasil, 75 min, 2008, doc)
CONTRA-CORRENTE – Agostina Guala (Argentina, 9 min, 2008, fic)
PARTIDA – Marcelo Martinessi (Paraguai, 14 min, 2008, fic)
Classificação indicativa: 16 anos

20h– Sessão de Abertura
HISTÓRIAS DE DIREITOS HUMANOS – vários diretores (diversos países, 84 min, 2008, doc/fic)
Classificação indicativa: 16 anos

04/11 – quarta-feira

14h
PRO DIA NASCER FELIZ – João Jardim (Brasil, 88 min, 2006, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
NUNCA MAIS!!! COCHABAMBA, 11 DE JANEIRO DE 2007 – Roberto Alem (Bolívia, 52 min, 2007, doc)
DAYUMA NUNCA MAIS – Roberto Aguirre Andrade (Equador, 30 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

18h
TAMBÉM SOMOS IRMÃOS – José Carlos Burle (Brasil, 85 min, 1949, fic)
Classificação indicativa: livre

20h
GARAPA – José Padilha (Brasil, 110 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

05/11 – quinta-feira

14h – Audiodescrição
O SIGNO DA CIDADE – Carlos Alberto Riccelli (Brasil, 96 min, 2007, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual
Classificação indicativa: 16 anos

16h
DEVOÇÃO – Sergio Sanz (Brasil, 85 min, 2008, doc)
PHEDRA – Claudia Priscilla (Brasil, 13 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

18h
SENTIDOS À FLOR DA PELE – Evaldo Mocarzel (Brasil, 80 min, 2008, doc)
PUGILE – Danilo Solferini (Brasil, 21 min, 2007, fic)
Classificação indicativa: livre

20h – Audiodescrição
NÃO CONTE A NINGUÉM – Francisco J. Lombardi (Peru / Espanha, 120 min, 1998, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual
Classificação indicativa: 18 anos

06/11 – sexta-feira

14h
MOKOI TEKOÁ PETEI JEGUATÁ – DUAS ALDEIAS, UMA CAMINHADA – Arial Duarte Ortega, Germano Beñites, Jorge Morinico (Brasil, 63 min, 2008, doc)
DE VOLTA À TERRA BOA – Mari Corrêa, Vincent Carelli (Brasil, 21 min, 2008, doc)
PRÎARA JÕ, DEPOIS DO OVO, A GUERRA – Komoi Paraná (Brasil, 15 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

16h
À MARGEM DO LIXO – Evaldo Mocarzel (Brasil, 84 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: livre

18h
O SIGNO DA CIDADE – Carlos Alberto Riccelli (Brasil, 96 min, 2007, fic)
OS SAPATOS DE ARISTEU – René Guerra (Brasil, 17 min, 2008, fic)
Classificação indicativa: 16 anos

20h
CORUMBIARA – Vincent Carelli (Brasil, 117 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: livre

07/11 – sábado

13h30
O CAVALEIRO NEGRO – Ulf Hultberg, Åsa Faringer (Suécia / México / Dinamarca, 95min, 2007, fic)
Classificação indicativa: 14 anos
15h30
BAGATELA – A NECESSIDADE TEM CARA DE CACHORRO – Jorge Caballero (Colômbia / Espanha, 74 min, 2008, doc)
MENINO ARANHA – Mariana Lacerda (Brasil, 13 min, 2008, doc)
MENINOS – Gonzalo Rodríguez Fábregas (Uruguai, 14 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

Descartes ou Pessoa, eis a questão

Descartianas descartáveis

Cleto de Assis

Não há nada que dominemos inteiramente a não ser os nossos pensamentos. René Descartes
Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias. Fernando Pessoa

 

Descartianas

René Descartes - montagem de C. de A.

 

 

I

Penso logo. Existo?
Sentimos, logo existimos.

A sensação é caos,
O pensamento é ordem.

A sensação liberta,
O pensamento oprime.

O pensamento é linear.
A sensação é multidimensional.

A sensação é agora.
O pensamento é ontem e amanhã.

A sensação é nós.
O pensamento é eu.

A sensação expande.
O pensamento esconde.

O pensamento é inação.
A sensação é movimento.

O pensamento é humano.
A sensação é cósmica.

O pensamento prende.
A sensação transcende.

O pensamento é lógica.
A sensação é mágica.

A sensação é emoção.
O pensamento é razão.

II

Diga e não diga
atento siga
até a curva
que não existe.

Depois prossiga
vá ao limite
do passo incerto.
Pare, olhe, escute.
Se ouvir o silvo
ou o apito
esconda o grito
recolha o espanto
longe do pranto.

Não corra:
pé ante pé
percorra a rota
não decidida
na sua vida.

Não ponha em ordem
seus pensamentos
e nem logique
as sensações.
Há mil razões
pra se viver
na desrazão.

Tenha certeza
da incerteza
que tudo cerca.
Por isso, irmão,
não metodize
um céu brilhante
ou o instante
da flor singela.
A vida é bela,
não pense: exista.

Bakun, cem anos

BakunRetrato

Miguel Bakun

Início da década de 60. A arte paranaense entra em ebulição, após um longo período de trevas, onde só o academicismo tinha entrada permitida. Anos antes, Frans Krajcberg, polonês que vivia em Monte Alegre (atual Telêmaco Borba, no Paraná) expôs suas pinturas abstratas em Curitiba e foi duramente criticado. Desiludido, chegou a retalhar quase todos os seus quadros, após a exposição fracassada. Mas, em 61, apesar de Curitiba, participou da Bienal de São Paulo e foi premiado.

Claro que alguns artistas mais avançados, como Guido Viaro e Theodoro de Bona, ainda percorrendo as águas do impressionismo, eram respeitados por suas funções de mestres. Mas nenhuma colher de chá para expressões mais modernas.

Alguns artistas do Paraná já tentavam sair das amarras da academia. Havia a pintura de Loio Pérsio, de Alcy Xavier, de Fernando Veloso, de Domício Pedroso, os dois últimos com passagem pela França, onde foram aperfeiçoar sua arte. E uma nova geração invadia a velha Escola de Música e Belas Artes, onde também estudava Nilo Previdi, dono de uma pintura mais arrojada para a época. E Luiz Carlos de Andrade Lima, que também já mostrava um forte expressionismo. Da geração de 60, sairiam Fernando Calderari, João Osório Brzezinski e, logo a seguir, Juarez Machado, só para citar alguns exemplos.

É claro que havia outros “insurgentes”, que tentavam mostar outras formas de arte, abrindo caminho para uma renovação das artes plásticas paranaenses. Entre eles, quase à deriva, passava Miguel Bakun, a quem todos dirigiam encômios, mas não era reconhecido entre os mais consagrados. Porém ele insistia, quase teimosamente, em pintar e pintar e pintar. Com os luminosos amarelos vangoguianos, que também lhe traziam preocupações místicas.

Em um dia qualquer do início daquela década, estávamos, João osório Brzezinski e eu, na Confeitaria Schaffer, na rua Quinze, quando surgiu a figura simpática de Bakun, com quem encontrávamos, de quando em quando, nas raras ocasiões em que ele passava pela Galeria Cocaco, na rua Ébano Pereira. Fora até a confeitaria para comrpar alguma coisa e, em pé, falamos com ele por alguns minutos. Já o encontramos nervoso, sem sabermos que suas lutas interiores eram, então, mais intensas. E foi a última vez que o vi, que o ouvi. Algum tempo mais tarde, bem próximo àquele último encontro, Nelson Matulevicius, frequentador do Centro de Gravura do Paraná, que funcionava, sob a batuta de Nilo Previdi, no subsolo da EMBAP, passou pela escola, bastante nervoso, para nos dar a notícia da morte de Bakun, imolado em uma corda. Encontrou-se finalmente com Van Gogh? Só ele poderia nos dizer, se fosse possível.

Como toda pessoa que morre, de repente Miguel Bakun se transformou em um gênio. Todos procuraram esquecer a humilhação a ele involuntariamente infligida quando, ao buscar um galardão em um Salão Paranaense, foi contemplado com um prêmio quase de consolação – uma caixa de pintura oferecida por uma loja de produtos artísticos. Mas Bakun foi, logo após a sua dolorida morte, transformado em um gênio incomparável. Coisas da vida, recompensas da morte.

Hoje são festejados os cem anos do nascimento de Bakun. Muitas homenagens, todas justas, embora muitas tardias. Vamos a elas.

Miguel_Bakun

Migauel Bakun - Cais do Porto, Paranaguá

Homenagem ao centenário de Miguel Bakun

Miguel Bakun era filho de Pedro Bakun – natural da cidade de Sokal – Ucrânia e Juliana Maksymowicz – natural da aldeia de Ripniv – Ucrânia. O Embaixador da Ucrânia no Brasil Volodymyr Lakomov vira de Brasília a Curitiba para as solenidades organizadas em comemoração ao centenário de nascimento de Miguel Bakun.

No dia 27 de outubro, em razão das comemorações do centenário do artista paranaense Miguel Bakun (1909-2009), a Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Coordenadoria do Sistema Estadual de Museus (COSEM), promove uma série de atividades para celebrar a vida e obra do artista. Neste dia, acontecem na Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro) o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, apresentações de grupos folclóricos ucranianos, dos quais o artista descende, e a projeção de um filme sobre ao artista, de Sylvio Back.

Os eventos começam pela manhã, às 10h30, com uma solenidade póstuma no Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco). Lá, o público poderá assistir a apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno, uma missa em rito bizantino, além de visitar o túmulo de Bakun.

Na parte da tarde, às 16h, a Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915, centro) irá realizar o lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun, de vínculo com a rede do Sistema Estadua de Museus do Paraná. Durante o lançamento, o grupo folclórico ucraniano Poltava irá apresentar o espetáculo com banduristas, instrumento típico eslavo.

No final do dia, 18h, ainda na CAM, o público terá a oportunidade de assistir ao filme O Auto-Retrato de Bakun (1984), dirigido e produzido por Sylvio Back. Após a projeção, que terá a duração de 43 minutos, o cineasta irá participar de um bate-papo com a platéia. A produção foi contemplada com o prêmio Glauber Rocha de “Melhor Filme”, na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia.

Museu Virtual

Colocar as obras do artista na internet foi o caminho encontrado pela COSEM para divulgar e facilitar o acesso do público geral ao trabalho e legado artístico de Miguel Bakun. “Claro que não substituem um espaço museológico físico, mas complementam, apoiam a área da museologia por divulgar acervos e contribuir para o conhecimento”, explica Eliana Réboli, coordenadora da COSEM.

Os trabalhos que estarão em exposição na internet tiveram curadoria da equipe da própria COSEM, por intermédio de uma grande pesquisa bibliográfica em conjunto com grupos de estudos do Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC). “O Museu será sempre alimentado com outras obras e dados sobre Bakun”, garante Eliana.

Programação do Centenário do Nascimento de Miguel Bakun, dia 27 de outubro 2009

  • 10h30 – Solenidade Póstuma
  • Visita ao túmulo do artista
  • Oferta de flores
  • Apresentação do Coral da Paróquia Ucraíno – Católica N.S. Auxiliadora
  • Cerimonia Ucraniana em rito bizantino
  • Placa em homenagem ao centenário de nascimento do artista
  • Local: Cemitério Municipal de Curitiba (Praça Padre João Sotto Maior, s/n, São Francisco)
  • 16h – Espaço Miguel Bakun
  • Apresentação Capela de Banduristas Fialka do Grupo Folclórico Poltava
  • Lançamento do Museu Virtual Miguel Bakun vinculado à rede dos Sistema Estadual de Museus do Paraná (SEEC)
  • Local: Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)
  • 18h – Exibição do filme, O AUTO-RETRATO DE BAKUN (1984). Roteiro, direção e produção de Sylvio Back; participação do pintor, Nelson Padrella. Co-produção: Embrafilme, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Cultural de Curitiba. Prêmio “Glauber Rocha”, de “Melhor Filme” na XIII Jornada Brasileira de Curta-Metragem da Bahia. Duração: 43 min.; cor/PB. Após a projeção, conversa com o cineasta Sylvio Back. Local: Casa Andrade Muricy(Al. Dr. Muricy, 915 – Centro)

O que dizem, agora, de Miguel Bakun

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Miguel Bajun - autoretrato

Com uma pintura de acentos pós-impressionistas e expressionistas, Miguel Bakun é considerado um dos pioneiros da arte moderna no Paraná. Filho de imigrantes eslavos, ingressa na Escola de Aprendizes da Marinha, em Paranaguá, no ano de 1926. É transferido para a Escola de Grumetes do Rio de Janeiro em 1928, onde conhece o jovem marinheiro e artista ainda desconhecido José Pancetti (1902 – 1958). Estimulado pelo amigo, começa a desenhar, seguindo sua inclinação de infância. Realiza desenhos nos diversos períodos em que precisa ficar de repouso por causa de acidentes. Em 1930 é desligado da Marinha por incapacidade física, em conseqüência de uma queda do mastro do navio. Transfere-se para Curitiba, onde trabalha como fotógrafo ambulante. Logo conhece os pintores Guido Viaro (1897 – 1971) e João Baptista Groff (1897 – 1970), que o incentivam a pintar. Autodidata, dedica-se profissionalmente à pintura até o fim de sua vida. Em busca de um ambiente cultural mais propício, volta ao Rio de Janeiro em 1939. Reencontra Pancetti e realiza uma série de paisagens da cidade, principalmente no morro Santa Tereza. Mas diante das dificuldades encontradas em se estabelecer como pintor, retorna em definitivo para Curitiba no início de 1940. Instala ateliê em prédio cedido pela prefeitura e passa a conviver com outros artistas avessos ao academismo, como Alcy Xavier (1933), Loio-Pérsio (1927), Marcel Leite e Nilo Previdi (1913 – 1982). Esse contato permite que Bakun conheça os valores plásticos da pintura. A surpreendente emotividade dos quadros que pinta supera as deficiências de sua formação, sendo logo notado pela crítica. Em texto de 1948, o crítico Sérgio Milliet (1898 – 1966), após visita à cidade, aponta para o espírito van-goghiano de Bakun, ressaltando que lhe falta noção da tela como um todo e há excesso de empastamento. Contudo, conclui sua crítica dizendo: “o entusiasmo do pintor, sua participação intensa na obra tornam, entretanto, simpáticos os seus próprios defeitos”. A partir de então a comparação com o artista holandês se torna recorrente, tanto com relação à pintura de Bakun quanto por seu temperamento melancólico e depressivo. O próprio artista a aceita, reconhecendo sua admiração por Vincent van Gogh (1853 – 1890), cujos quadros conhecia em reproduções ou pessoalmente. Outro ponto de semelhança entre ambos é uma certa religiosidade mística em conflito com um sentimento de profunda solidão, que de modo e intensidade diversos manifestam-se em suas obras. A década de 1950 é a mais produtiva de Bakun, que se dedica à pintura de retratos, naturezas-mortas, marinhas, mas, sobretudo, à pintura de paisagem, cuja temática mais recorrente são os arredores de Curitiba, com suas matas e casas simples e a intimidade dos fundos de quintal. É nesse último gênero que encontra seu melhor desempenho artístico. O desconhecimento das leis canônicas da perspectiva para a construção do espaço pictórico faz com que o artista invente de modo prático e intuitivo suas próprias soluções.

MarinhaBakun

Miguel Bakun - Marinha

A elaboração de um espaço quase sem profundidade e pontos de fuga, construído pela corporeidade da tinta, singulariza suas paisagens. Apesar de utilizar esboços a lápis na tela ou no papel, o desenho não comparece em suas pinturas. As formas são criadas mediante o manejo da própria matéria pictórica. Sua paleta restringe-se a tons de azul, verde, branco, por vezes laranja e vermelho e, a cor preferida, amarelo. A variação entre áreas densas e outras ralas, chegando às vezes à ausência de tinta, constitui a espacialização rítmica de suas obras. Os ambientes, em geral familiares e cotidianos como árvores no fundo do quintal, cercas, portas de madeira gastas em casas simples, beiras de estrada, bosques, adquirem um ar de mistério. O misticismo panteísta de Miguel Bakun leva-o a uma profunda vinculação com a natureza. Para ele, Deus está presente em todos os elementos vivos, animais ou vegetais, e as cores podem revelar esse componente sagrado. É nesse sentido que se devem fazer restrições aos críticos que vêem em seus trabalhos um viés puramente expressionista. Se por um lado seu olhar singular manifesta-se com liberdade, por outro o respeito pela natureza não o afasta da vontade de representação do real. O que vemos é um envolvimento entre o artista e a paisagem, no qual homem e natureza são permeáveis um ao outro. Isso se revela na sensação de proximidade espacial proporcionada por suas telas. Em fins do anos 1950 o artista introduz estranhas criaturas no quadro, numa visão animista da natureza ainda que alguns críticos, equivocadamente, vejam influência do surrealismo em seu trabalho. No início dos anos 1960 realiza obras de temática religiosa. Sente-se marginalizado com a chegada do abstracionismo, que começa a dominar as poucas exposições em Curitiba. Sua situação econômica também se torna cada vez mais precária. Esses fatores contribuem para o agravamento de sua depressão, apegando-se como nunca à religião. Em fevereiro de 1963 suicida-se em seu ateliê.

Fonte: ItaúCultural

Gloria Kirinus ministra Oficina de Crônicas

Raul Pough manda um recado:

Na próxima quarta-feira, dia 28/10, no Paço da Liberdade
(Praça Generoso Marques), terá início uma Oficina de Crônicas,
ministrada pela escritora Gloria Kirinus. Terá duração de quatro semanas (qatro quartas-feiras), no horário das 19:00 às 21:00. Sem custos!
Inscrições no local ou por telefone, 3234-4207, com Elisson ou Liliam.

GloriaKirinusGloria Kirinus é peruana, mas vive no Brasil há muitos anos. Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e mestra em Literatura Brasileira pela PUC-RJ. É autora de diversos livros bilíngües de literatura
infantil e juvenil, entre eles O galo cantou por engano/El gallo cantó equivocado e Tartalira/Tortulira, publicados pela Paulinas na coleção Dobrando a língua. Também publicou o livro Criança e poesia na Pedagogia Freinet.

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Manoel de Andrade navega em um mar de memórias

Travessia

 Manoel de Andrade, com seus bigodes zapatianos da juventude, passeia nas memórias marítimas de

Manoel de Andrade, com bigodes zapatianos, moldura de sua juventude, passeia nas recordações marítimas

A praia quase deserta
a manhã despertando na luz dos elementos
o céu e o mar buscando os seus azuis
as águas que se iluminam lentamente
o vôo preguiçoso das gaivotas
a serenidade de uma vela na distância
as ondas que se quebram mansamente
o enigma dessa paz que só o mar nos concede.

Meus olhos perscrutam o impossível
na invisível beleza marítima da vida.
Minha alma penetra no âmago majestoso da paisagem
e viaja longamente pelo instante mágico do tempo.

Mar, imenso mar
meu olhar flutua na imobilidade do teu corpo iluminado
nestas canoas batidas pela luz ao largo da baía
nestes pescadores curtidos pelo sol e pelo azul
a recolher, de longe em longe, seus frutos de escamas coloridas.
Beijo-te na salgada madeira destes barcos recolhidos,
te abraço no velho homem remendando sua rede.

Caminho neste estuante cenário de água e areia
recordo-me menino neste banquete de espumas flutuantes
na frescura das ondas que morrem aos meus pés
mergulho no teu ritmo
e danço contigo no encanto desta valsa milenar.

Atlântico, meu Atlântico
águas que não conheço nas distâncias do horizonte
esse mar visto apenas das areias
da foz exuberante das correntes
da barra destes rios que tu acolhes
águas fundas, águas rasas
águas doces que cruzei.

Recortados litorais do sul
meu norte
minha praia
meu idioma açoriano
meu salgado fruto
minha fritura, meu peixe, meu pirão
roteiro prematuro dos meus passos
itinerário incansável em meus pés descalços
íntimos recantos de baías e enseadas
antigo esconderijo dos corsários
história nas estórias de velhos habitantes.

Mar, imenso mar
planície total e palpitante
miragem e sedução
misteriosa superfície nos caminhos do destino
o mar de todas as proas
esse território dos meus sonhos.

Navegar, não naveguei…
as águas do Titicaca foram minha gota de oceano no alto da Cordilheira.
Navegar, como quisera navegar, nunca naveguei…
Rota costeira de Quayaquil a Callao,
minha única travessia
meu mar sem horizontes
minha comovida migalha de aventura.

Curitiba, março de 2004
Do livro Cantares, editora Escrituras, 2007


De Hermann Hesse aos poetas

Andy Warhol - Hermann Hesse - serigrafia a partir de uma foto de Martin Hesse - Museu Leopold – Viena - 60cm x 80cm

Andy Warhol - Hermann Hesse - serigrafia a partir de uma foto de Martin Hesse - Museu Leopold – Viena - 60cm x 80cm

Na poesia, como na prosa, Hermann Hesse,suíço (1877-1962) de língua alemã (Prêmio Nobel em 1946), mostrou-se permanentemente
preocupado com a busca de um sentido para a vida, levando-o essa busca a preferir a solidão, longe das aglomerações urbanas que lhe eram penosas de suportar. Poesia e prosa parecem ter andado sempre de mãos dadas, em toda a existência de Hermann Hesse – que se dizia, ele mesmo, um poeta das nuvens, sem raízes e sem pátria-lar: a ausência da pátria-lar (Heimat) é uma constante na obra desse autocondenado ao degredo perpétuo no mundo dos homens.

Parece tê-lo marcado muito uma viagem à Índia, em 1913, e a mística do Oriente aparece ou transparece em várias das suas páginas em verso e
prosa. Em 1918, Hermann Hesse publicou um ensaio, Uber Gedichte,
dando a entender que não existem poesias boas ou más, porém autênticas
ou falsas (um juízo intempestivamente romântico). Seu primeiro volume de poesias foi publicado, por sua conta, em 1899, com o título de Romantische
Lieder
(Canções românticas) e influências de Novalis, Heine e Eichendorf.

Em 1902 saiu do prelo o seu segundo livro de versos, intitulado simplesmente Gedichte (Poesias), já comparando as mutações da natureza com as do ser humano. Seu terceiro livro de poesias, Interwegs (A caminho), circulou em 1911.

Em 1913 publicou um volume de poemas de sua viagem pela India, Aus Indien. Já com menos rigores formais, com menos apego ao metro e à rima, sai em 1915, em verso e prosa, Musik der Einsamen (Música do solitário).

Em 1920, Hermann Hesse, que dois anos antes começara a pintar aquarelas, como um derivativo talvez, ilustra cada um dos dez poemas do seu novo livro Gedichte des Malers (Poemas do pintor), grande sucesso de venda: daí por diante, não faltaram admiradores que lhe encomendassem poemas manuscritos e ilustrados, naturalmente muito bem remunerados. Em 1942 publica-se em Zurique um volume com Die Gedichte (Os poemas) de Hermann Hesse, com mais de seiscentos títulos, incluindo reflexos da guerra e da esperança de paz: o pacifismo de Hesse reponta em várias páginas da presente antologia*. Em 1963, no ano seguinte ao da morte do poeta, a Editora lnsel publica um volume póstumo com Die spaten Gedichte (Os derradeiros poemas) de Hermann Hesse, dos quais o último realmente escrito, com data de 8 de agosto de 1962, véspera do passamento do poeta, foi Knarren eines geknickten Astes, incluído no presente volume* sob o título Ranger de galho rachado.

Geir Campos

Geir Campos

Na tradução de textos versificados de um idioma conciso e preciso, como o alemão, para um idioma neolatino qualquer, uma das licenças permitidas
sine qua non ao tradutor, para um trabalho justalinear, há de ser a de alongar, em alguns casos, as medidas dos versos, para não lhes aumentar o número, de modo a caberem nas linhas traduzidas as denotações e conotações das linhas originais. Também precisou ser contornado o problema da rima, presente na maioria dos poemas de Hermann Hesse: a rima, “ce bijou d’un sou, qui sonne creux et faux sous la lime“, como diria Verlaine, outro grande rimador, e que deveria ser, como queria Du Bellay, “reçue, non appeIée“.

Toda vez que a rima teria de ser “convocada”, tivemos o cuidado de abrir mão dela, aproveitando apenas as que em boa hora se faziam dadivosas, como sói acontecer em pleno jogo de palavra-puxa-palavra ou idéia-puxa-idéia. (*Geir Campos, excerto de Da Poesia e da Tradução, introdução ao livro Andares – Antologia Poética, de Hermann Hesse, Editora Nova Fronteira, 1976)

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O Poeta e seu tempo

Herman Hesse

Pablo Picasso - O Poeta - 1911 - óleo sobre tela - 131,2 x 89,5 cm - Museu Peggy Guggenheim, Veneza, Itália

Pablo Picasso - O Poeta - 1911 - óleo sobre tela - 131,2 x 89,5 cm - Museu Peggy Guggenheim, Veneza, Itália

Fiel a imagens eternas, firme na contemplação,
tu estás pronto para o ato e para o sacrifício;
falta-te ainda, no entanto, um tempo desassombrado
de ofício e púlpito, confiança e autoridade.

Há de bastar-te, num posto perdido,
ante o deboche do mundo, compenetrado da fama que tens,
renunciando ao brilho e aos prazeres do mundo,
guardar aqueles tesouros que não azinhavram nunca.

Não te faz mal a zombaria das feiras,
enquanto ouves a voz sagrada, ao menos:
se ela entre incertezas cala, te sentes um renegado
do próprio coração – feito um bobo na terra.

Pois é melhor, por uma realização futura,
servir sofrendo, ser sacrificado,
do que ter grandeza e reino pela traição
ao sentido do teu sofrer – tua missão.

Do livro Andares – Antologia Poética, tradução de Geir Campos

Mais um achado arqueológico de Lina Faria

Em seu blog Não lugar,  Lina Faria postou uma foto incomum, quase sem perspectiva. Ela informa que se trata de um trabalho “da série de cicatrizes de casas que já se foram, mas mantiveram sua silhueta impregnada na parede do lado. Prova de que a forma supera a utilidade das coisas”.

Roubei a foto de lá (deixando a original, é claro) e pago com um comentário poematizado. Como prometi que faria (sem trocadilho) sobre fotos de Lina.

Fatia do Passado

Cleto de Assis, sobre foto de Lina Faria

ParedeFatia

A velha casa se foi
transformada em cacos,
talvez em restos de depósito de demolição,
talvez em entulho de construção
talvez em saudade de alguém que lá viveu.

A velha casa partiu
e logo, logo nem restará
a fatia impressa na parede lateral que virou muro
e alguém recolherá as esmolas nela encostadas,
a ex-porta, a ex-janela, a ex-parede de madeira
a centena de tijolos desgastados
e quem sabe os ladrilhos brancos do ex-banheiro.

A ordem e o progresso urbanos retirarão de cena
o quadro mondriânico amarelo-branco-preto
dividido em áurea proporção
onde alguém grafitou um homem deitado
e um (talvez) rabo de galo.

Ainda bem que Lina passou por ali
e seu olho mágico tornou imortais os restos mortais da velha casa.

Quer escrever minicontos? José Marins diz como é

O poeta e escritor José Marins, colaborador do Banco da Poesia, convida para um evento sob sua orientação, que se realizará na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. Veja abaixo os detalhes.

Curiosity

O F I C I N A   D E   M I N I C O N T O S

na

Biblioteca Pública do Paraná

Rua Cândido Lopes, 133 – Centro

Auditório Paul Garfunkel

de 26 a 29 de outubro (de segunda a quinta-feira)

das 14 às 17 horas