Poema de João Batista do Lago

A concha e sua imensidão

Ilustração: C. de A.

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Da imensidão da concha
Recrio-me da pequenez
Invado minha floresta
À cata do rio mais limpo
Para garimpar a perola negra
A mais sublime pedra
Gerada pela concha
Que só revela seus segredos
À sua imensa floresta

No interior da floresta
Guardada pelas águas dum rio livre
A concha jamais aborta suas pérolas
Ela recria-se com tanta imensidão
Deixa de ser pequena habitação
Para se tornar palácio de todas as pérolas
E ser o ventre de toda natureza
No movimento mais sublime da criação
Do molusco perfeito que se arrasta pelo chão

Assim é a imensidão da minha concha
Quando se lha tem guardada pela floresta e pelo rio
Não há nada mais sublime; e nem divino
Nada maior existe que sua própria dimensão
Pérola e molusco vagam a mesma floresta
E navegam no mesmo rio de águas livres
Rompendo rochedos; furando pedras
Abrindo caminhos com a força do furacão
Rasgando a imensidão da terra para nova habitação

João Batista do Lago

Banco da Poesia repercute na Espanha

Pouco a pouco, vamos nos tornando conhecidos. O blog Asamblea de Palabras, editado pelo poeta Francisco Cenamor, publicou uma nota na coluna em que analisa os sites mais destacados.

Banco da Poesia es un blog que aún tiene poco recorrido pero cuyo objetivo comienza a ser visible en sus entradas: dar a conocer poetas en lengua portuguesa y española y servir de encuentro entre ambas culturas poéticas. Desde luego, un encomiable esfuerzo. Poco a poco va creando también su índice de categorías, lo que será de mucha ayuda a quienes se internen en esta interesante página. Es de agradecer que entre los primeros poetas elegidos para esta colección de poesía hayan incluido a nuestro editor.”

Feliz Páscoa, com Pêssankas

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Escolhi a Pêssanka como tema para esta Páscoa por dois motivos. O primeiro é sua integração à cultura do Paraná, por meio dos ucranianos que para cá vieram, a partir de 1895. O outro motivo é a sugestão que ofereço sobre esses aparentemente exóticos desenhos feitos com extrema delicadeza em ovos de galinha. Ou de codornas, gansas e até de avestruzes. Ao examinar variadas pêssankas e aprender sobre a rica simbologia que dá origem a suas formas e cores, penso em cada peça muito além de seu significado artesanal. Sugiro, sem exagero, que estamos diante de uma nova forma de poesia, ou seja, o POEMOVO. Ou, tomando a raiz grega, POEMÔON? Ou com a raiz latina – POEMOVUM? Pois se temos o poegrama, o poetrix, por que não o poemovo?

Pode parecer brincadeira, mas não é. Peguemos a etimologia do vocábulo pêssanka, originado no verbo pessaty, que significa escrever. E a arte da pêssanka consiste não só em pintar um ovo, mas, em primeiro lugar, escrever sobre o ovo uma mensagem promissora. Para isso, são utilizados grafismos variados, cada qual com seu significado, como pode ser visto no quadro abaixo. Cada forma, cada cor, está impregnada de um simbolismo que, por sua vez, quer gerar sentimentos positivos em quem os vê. Mas não são apenas símbolos plásticos. Há uma escrita simbólica usada para dizer algo: isto é poesia.

Aliás, essa tese já foi defendida até em trabalho apresentado em um encontro de pesquisadores de artes plásticas (Analu Steffen, mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ), no qual a autora chama as pêssankas de “ovos escritos ou poemas imagéticos”.

É claro que há ovos simplesmente decorados com figuras geométricas e cores escolhidas ao acaso, apenas para se conseguir uma composição agradável. Mas as legítimas pêssankas são cheias de simbolismo, tal como em um poema, no qual as metáforas abrem os poros da realidade e mostram – ou tentam mostrar – o dentro, o espírito, a essência. Isto é poesia.

O simbolismo começa no objeto utilizado para essa forma de expressão, o ovo. Ele é considerado um símbolo da perfeição, por sua forma geometricamente perfeita, cuja curvatura se estrutura para proteger a cria de fora para dentro e oferecer pouca resistência de dentrro para fora, poupando as forças do nascituro. E mais: a forma do ovo também se encaixa no conceito da Proporção Áurea, ou seja, a relação entre sua altura e sua largura se aproxima do número φ (phi), 1,618 (leia, abaixo, o interessante texto de Rubem Alves sobre o produto avícola). Mesmo que olhemos um ovo com olhos de glutão, imaginando as várias possibilidades gastronômicas que esse saboroso alimento oferece, é preciso, sobretudo, reconhecê-lo como portador de vida nova. Um ovo, portanto, simboliza o princípio de todas as coisas, a criação da vida. Ele está em todas as tradições religiosas, das mais antigas às contemporâneas.

Ao lembrarmos as pêssankas, fazemos uma homenagem à colônia ucraniana que trouxe para o Paraná estas e tantas outras tradições bonitas. Aliás, um belo programa de Páscoa é visitar o Memorial da Ucrânia, erguido no Parque Tinguí, em Curitiba. Lá podem ser vistas peças do artesanato ucraniano e quadros com poemas da paranaense Helena Kolody (1912-2004), filha de imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil.

Conheça mais sobre as pêssankas e seu simbolismo em http://www.girafamania.com.br/europeu/materia_ucrania.htm .

Sigificados dos símbolos das Pêssankas

Pesquisa de Jeroslau Volochtchuk e Waldomiro Romero,Curitiba, 1984

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Feliz Páscoa para todos!

E releiam o belo poema de Manoel de Andrade  (clique aqui), publicado neste blog, sobre o momento doloroso que, segundo a tradição cristã, antecedeu o domingo da páscoa, naquele início de nossa era.

C. de A.


Reflexões sobre o Ovo

Rubem Alves

Em longo texto escrito para sua netas, o escritor e filósofo Rubem Alves fez as  observações seguintes.

“O corpo da galinha sabe muito de geometria. Foi o ovo que me contou. Porque o ovo é um objeto geométrico construído segundo rigorosas relações matemáticas. A galinha nada sabe sobre geometria, na cabeça. Mas o corpo dela sabe. Prova disso é que ela bota esses assombros geométricos.

rubem_alves5Sabe muito também sobre anatomia. O ovo não é uma esfera. Ele tem uma parte mais grossa e uma parte mais fina. Há uma razão físico-anatômica para isso. É a mesma razão por que os pregos têm uma ponta fina: para entrar melhor no buraco. Você já enfiou uma linha no buraco de uma agulha? Primeiro é preciso afinar a ponta da linha com saliva e dedo. É a ponta afinada da linha que entra no buraco da agulha. Depois que a ponta fina passa pelo buraco, é fácil puxar a linha, fazendo passar a parte grossa. Pois o ovo tem de ter uma ponta fina para facilitar a sua passagem pelo fiofó da galinha. Se não tivesse a ponta fina ia ser mais difícil, ia doer mais…

O corpo das galinhas é também um grande conhecedor de arquitetura. A forma do ovo dá resistência máxima aos seus frágeis materiais. Se o ovo fosse chato ele se quebraria quando a galinha se deitasse sobre ele, para chocar os pintinhos. Quando eu era pequeno eu e os meus amigos brincávamos de pegar um ovo, ponta fina na palma da mão, ponta grossa contra os dedos pai-de-todos e o seu-vizinho (espero que você tenha aprendido o nome dos dedos, minguinho, seu-vizinho, pai-de-todos, fura-bolo, mata-piolho) e apertar. Pois o ovo não quebrava. Mas não vá fazer essa experiência com esses ovos brancos, de granja. São ovos degenerados. Esses ovos se quebram, só de olhar. A forma do ovo faz com que as forças que sobre ele se exercem não o quebrem. É o mesmo princípio que os arquitetos usam para fazer arcos de janela, de portas e abóbadas gigantescas das catedrais em estilo românico, antes do concreto e do ferro. Se você não sabe o que é o estilo românico, pergunte ao seu professor de história. Aquilo que os arquitetos aprenderam depois de muito pensar, o corpo das galinhas sabe por nascimento, sem precisar pensar.

Mas há ainda um outro assombro: a casca do ovo não pode ser muito mole porque, se fosse, o ovo se quebraria quando a galinha pisasse nele. A casca tem de ser dura o suficiente para suportar o peso da galinha, sem quebrar. Mas a casca também não pode ser muito dura. Como vocês sabem, as galinhas “chocam“ os ovos. Deitam-se sobre eles por 21 dias para, com o seu calor, realizar a transformação da gema em pintinho. Quem foi que ensinou isso para a galinha? Ninguém. O corpo dela nasceu sabendo. A idéia já está lá. Ao cabo de 21 dias os pintinhos estão prontos para sair. Para isso eles têm de quebrar a casca do ovo com o bico. Ora, se a casca do ovo fosse muito dura o pintinho não conseguiria furar a casca e morreria. Como é que a galinha faz esse complicado cálculo físico de resistência de materiais, casca nem muito mole e nem muito dura? Não sei. Só sei que ela sabe. Há um saber no seu corpo que faz cálculos engenhariais exatos.”

Publicado no Correio Popular, Caderno C, 03/02/2002.Ler mais: http://www.rubemalves.com.br/oovo.htm

Dia 15 está chegando

Falta só uma semana para o lançamento do livro Poemas para a Liberdade (Poemas para la Libertad) , em edição bilingue, do  poeta Manoel de Andrade, sobre o qual já  escrevemos neste blog, dias atrás. Anotem em suas agendas. Não dá para perder.

lancamentolivro

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Escrituras Editora
e Espaço Cultural Alberto Massuda
convidam para o lançamento do livro

POEMAS PARA A LIBERDADE

de Manoel de Andrade

4ª feira, 15 de abril de 2009
a partir das 20 horas, no Espaço Cultural Alberto Massuda
Rua Trajano Reis, 453
Centro Histórico – Curitiba – Fone (41)3076-7202

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Com quatro edições no exterior, o livro Poemas para la Libertad estreou em junho de 70 na Bolívia. A 2ª edição surgiu em setembro de 70, na Colômbia, e esgotou-se em algumas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá. A 3ª edição, publicada em abril de 71, em San Diego , espalhou-se pela Califórnia e pelo sudoeste dos E.U.A., levada pelos estudantes e intelectuais chicanos. Suas primeiras edições panfletárias, lançadas pelas Federações Universitárias de Cuzco e Arequipa, em janeiro de 1970, ficaram conhecidas em todo o meio estudantil do Peru e percorreram a América nas mochilas de dezenas de estudantes latino-americanos.

Nascido em Rio Negrinho, SC, e radicado no Paraná, onde se formou em Direito, Manoel de Andrade deixou o Brasil em março de 69, por razões políticas, quando sua poesia começava a ser conhecida nacionalmente através de jornais e revistas, como a Civilização Brasileira.

Poesia & História

Evidentemente, a publicação de um livro com referências do tempo em foi escrito insere-se também em um contexto histórico importante para o Brasil, que surpreendeu toda uma geração de jovens idealistas que pretendiam novos caminhos para a vida nacional. O próprio poeta reconhece que sua obra não pertence somente ao reino da Poesia, embora se possa sentir, em sua leitura, marcantes frases poéticas de ternura, saudade e amor, em meio a punhos levantados pela ira política que alimentava a alma do jovem caminhante. Talvez Manoel de Andrade não tenha alcançado seu objetivo mais flamante, que era a luta guerrilheira ao lado de outros jovens bolivianos, seus primeiros companheiros de vida no exílio. Mas seu lábaro poético também foi usado nas marchas daquele tempo.

E servirá, por muito mais tempo, como bandeira para apontar a liberdade como valor maior da sociedade humana, contrário à prepotência dos regimes autoritários que não permitem a livre expressão até mesmo na arte. A liberdade de Manoel de Andrade, portanto, se mescla à arte poética e à história de seu país. C. A.

Um dia, não sei de que ano

Cleto de Assis

anjoinfinxxxxxxxIlustração: C. de A.

Um dia, não sei ao certo de que ano,
passei o dorso de minha mão em um rosto ferido
e meu gesto foi recebido como um imenso ato de ternura.
Assim foram muitos dos outros dias seguintes
até que o dia se tornou noite,
a ternura transmutou-se
em atos de extrema rudeza, quase morte.

O dorso de minha mão, minha mão inteira
e meu espírito todo
receberam a capa do tempo e incontáveis calos e cicatrizes.
De quando em quando, o consolo de um sonho melífluo, mas fugaz,
a reproduzir a ternura e os sabores e os perfumes
da intensa alegria de encontros furtivos
com direito a cantiga de roda.

xxxxxxxxNesta rua, nesta rua mora um anjo
xxxxxxxxque não veio, que não veio iluminar
xxxxxxxxa janela, a janela da esperança
xxxxxxxxe impediu, e impediu o amor de amar.

Quem dissecará comigo as sensações pessoanas
e olhará o mar com a certeza de que, além do horizonte,
há milhões de outros horizontes mais belos?
Quem aceitará voar comigo no céu sem fim
e catar estrelas, uma a uma,
para montar um grandioso colar de esperanças?
Quem conseguirá fazer-me companhia
para deslizar na suavimensa curva do infinito?

xxxxxxxxTinha um anjo, tinha um anjo nessa casa
xxxxxxxxque eu deixei, que eu deixei esvoaçar.
xxxxxxxxFoi-se a casa, o amor e mais o anjo
xxxxxxxxSó restou uma história pra contar.

E no fim da história
uma ternura tão suave e imensa
como o dorso de minha mão antiga.

Curitiba/setembro/2008

Dante lança Curitiba em Floripa

Não ao mar, evidentemente. Será o lançamento de seu livro Curitiba – melhores defeitos, piores qualidades, sobre o qual já registramos os merecidos encômios do Banco da Poesia. O editor Vinicius Alves (Bernúncia Editora) mandou o convite, que vai abaixo publicado. Sucesso, Dante Mendonça!

capalivro

convitedantefpolis

Mais outonos franceses

Assim como Charles Baudelaire, Paul Verlaine foi considerado um poeta maldito. Poeta francês (1884-1896) de biografia considerada “atribulada e escandalosa”, Verlaine nasceu em Metz e fez seus estudos secundários em Paris. Depois, foi funcionário da prefeitura de Paris, mas, com,o quase todos os intelectuais franceses da época, frequentava os cafés boêmios da Cidade Luz. Sua vida de funcionário público não foi nada exemplar, mas a a paixão pela poesia começava a crescer em oposição à falta de assiduidade ao trabalho.

Descobri na rede um excelente texto do escritor e poeta goiano Gilberto Mendonça Teles, reperoduzido abaixo, a propósito da Arte Poética de Verlaine. Na realidade, esse é o título de um poema de Verlaine – Art Poétiquededicado a seu amigo Charles Morice. O poema também vai publicado e o texto de Gilberto Mendonça Teles lhe serve como apresentação. C. de A.

A Arte Poética de Verlaine

gilbertomendoncatelesPaul Verlaine (1844-1896) estreou com sete poemas no primeiro número do Parnasse Contemporain (1866), coleção que inaugurou o parnasianimo. No mesmo ano publicou seu primeiro livro, Poèmes saturniens, em que, apesar da acentuada influência de Baudelaire, a
começar pelo título do livro, já se pressentiam alguns traços que, posteriormente desenvolvidos, iriam contribuir para a definição do simbolismo. Pois é na direção do simbolismo que se vai produzir a melhor poesia de Verlaine, como a de Fêtes galantes (1869), Romances sans paroles (1874), Sagesse (1881) e Jadis et Naguère (1884).

A década 1870-80 foi de grande importância para a definição de sua poesia. Ao lado da crescente ascendência de Baudelaire, considerado mestre pela nova geração, houve o aparecimento de Rimbaud. Ainda que a glória de Rimbaud só apareça a partir de 1855, é inegável que ele teve decisiva influência na poesia de Verlaine. Foi durante o ano de prisão em Bruxelas que Verlaine conseguiu imprimir novos rumos espirituais e estéticos à sua produção poética, procurando uma linguagem que não ficou apenas na poesia, chegando também a manifestar-se criticamente em metalinguagem, como no poema Art poétique, escrito em 1874 e só publicado dez anos depois em Jadis et Naguère, título aliás bastante sugestivo para a nova dimensão estética que seu livro iria auxiliar a construir.

Parece que a gênese da Art poètique foi, além da reviravolta espiritual de Verlaine, o artigo que Brémont escreveu sobre o Romances sans paroles, editado quando o poeta cumpria a sua pena em Bruxelas. O referido artigo, severo mas atencioso, intitulava-se C’est encore la musique (É ainda sobre música), frase que teria motivado o verso inicial do poema de Verlaine (“De la musique avant toute chose”), o qual se repete, ligeiramente modificado, no início da penúltima estrofe (“De la musique encore et toutjours!”). Na verdade, a Art poétique, antes da edição em livro foi publicada pela primeira vez em novembro de 1882, no Paris-moderne. Recebeu dura crítica de Charles Morice, o que valeu a resposta de Verlaine que se defendia da acusação de hermetismo e de menosprezo à rima, numa polêmica que serviu para tornar conhecido o nome do poeta, cujas Fêtes galantes haviam passado despercebidas do público, entusiasmado na época com o sucesso de um livro de François Coppée. Logo depois o poeta passa a colaborar na revista onde havia saído a crítica (La nouvelle rive gauche), tornando-se amigo de Morice e, em agradecimento talvez pela agitação agora em torno do seu nome, dedica-lhe a Art poétique ao publicá-la em livro dois anos depois.

Na opinião de Verlaine, num artigo de 1890, a sua Art poétique deveria ser vista apenas como uma canção . Não se sabe se o poeta estava sendo irônico, tal como o nosso Carlos Drummond de Andrade quando disse que o seu poema No meio do caminho era apenas uma repetição de vocábulos. Sabe-se que dentro do espírito da época, a palavra canção possuía sua conotação musical inteiramente de acordo com as tendências expressionistas que se queriam implantar. Daí porque o seu poema foi o ponto de partida da funda aventura simbolista. Superando os padrões parnasianos e desenvolvendo o legado inventivo de Rimbaud, seu texto passou imediatamente a ser estudado e assimilado por jovens poetas, repartidos nessa altura entre Verlaine e Mallarmé, mas todos dentro do pessimismo decadentista que já começava a se definir na direção do simbolismo.

Gilberto Mendonça Teles (foto acima), goiano, é escritor, poeta e professor de Lingua Portuguesa

Arte poética

A Charles Morice
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Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.

Tradução de Carlindo Lellis
Ilustração: Portrait de Paul Verlaine, de Eugène Carrière, 1891
Óleo sobre tela, Museu Orsay, Paris

E agora, A Canção de Outono de Verlaine

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Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Canção do Outono

Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh’alma
num langor de calma
e sono.

Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.

Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido…

Tradução de Alphonsus de Guimaraens
Ilustração: Autumn in BavariaWassily Kandinski – 1908
Óleo sobre papelão – 33x45cm – Centro Georges Pompidou, Paris

E como foi a vida atribulada e escandalosa de Verlaine, que registrou “a contradição entre uma conduta deplorável e um ideal poético quase primitivo de pureza e misticismo”?

Paul Verlaine (1844-1896) . Poeta francês. Simbolista, seu lirismo musical abriu novos caminhos para a poesia na França. O lirismo musical e evanescente de Verlaine exerceu influência decisiva no desenvolvimento do simbolismo e abriu novos caminhos para a poesia francesa. Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.

Paul-Marie Verlaine nasceu em Metz, França, em 30 de março de 1844. Filho de um militar abastado, estudou no Liceu Bonaparte – hoje Condorcet – de Paris e, mais tarde, conciliou o trabalho numa companhia de seguros com a vida boêmia nos círculos literários parisienses. Em
seus primeiros livros, Poèmes saturniens (1866; Poemas saturninos) e Fêtes galantes (1869; Festas galantes), ouvem-se ecos do romantismo e do parnasianismo.

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Em 1872, dois anos após casar-se, Verlaine abandonou mulher e filho e iniciou, com o jovem poeta francês Arthur Rimbaud, uma turbulenta ligação sentimental que os levou a percorrer vários países europeus. O relacionamento teve um final abrupto em Bruxelas, em 10 de julho de 1873, quando Verlaine feriu o amigo com um tiro de revólver e foi condenado a dois anos de prisão. Libertado, Verlaine tentou em vão reconciliar-se com Rimbaud. Viveu no Reino Unido até 1877, quando regressou à França. Datam desses anos dois magníficos livros de poesia, Romances sans paroles (1874; Romances sem palavras) e Sagesse (1880; Sabedoria), este a expressão de sua volta aos ideais de um cristianismo simples e humilde.

Apesar de sua crescente fama e de ser considerado um mestre pelos jovens simbolistas, o fracasso dos esforços que fez para recuperar a esposa e levar uma vida retirada conduziram Verlaine a uma recaída no mundo da boêmia e do alcoolismo que, durante o resto de seus dias, o obrigou a frequentes hospitalizações.

Os vários livros de poemas que se seguiram apenas ocasionalmente recuperaram a antiga magia, como Amour (1888). Da produção posterior de Verlaine, o que mais se destaca são os textos em prosa, como o ensaio Les Poètes maudits (1884; Os poetas malditos), vital para o reconhecimento público de Rimbaud, Mallarmé e outros autores, e as atormentadas obras autobiográficas Mes hôpitaux (1892; Meus hospitais) e Mes prisons (1893; Minhas prisões). Paul Verlaine morreu em Paris, em 8 de janeiro de 1896.

Texto extraído da Encyclopaedia Britannica.
Ilustração: Um canto de mesa, por Henri Fantin-Latour (1836-1904), pintado  em 1872. Em primeiro plano, sentados, Verlaine e Rimbaud (da esquerda para a direita).

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Nota

A expressão poetas malditos foi cunhada por Alfred de Vigny, que a utilizou em 1832 na sua peça dramática Stello, onde se refere aos poetas como “la race toujours maudite par les puissants de la terre” (a raça para sempre maldita para os poderosos da terra). Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Lautréamont  são considerados exemplos típicos. Mas foi o poeta François Villon (1431-c. 1474) o primeiro a ser cognominado como poeta maldito por seus contemporâneos. (Fonte: Wikipedia)

Marilda envia seu cadastro

Bem vinda ao nosso estabelecimento, Marilda. Obrigado pelos dados da biografia poética e pelo depósito em moeda estrangeira.

marildatri

Eu sou só uma mulher que sofre de poesia crônica

eu sou só uma mulher que sofre de poesia

eu sou só uma mulher que sofre

eu sou só uma mulher

eu sou só uma

eu sou só

eu sou

eu

.

Cosas de mujer

Ilustração: montagem sobre desenho de Modigliani

midigliani

Tu dijiste que venías.

Fui a la tienda
a comprar flores, vino.
No, no trabajé.
Hice dulces,
buñuelos de lluvia,
pan, el pelo, uñas…

Tu dijiste que venías.

Encendi incienso, di brillo al suelo
Cambié las sábanas de la cama
Toallas, jabones,
Abri las ventanas…

Tu dijiste que venías.

Vestí  ropa dominguera
Sandalias nuevas,
medias finas,
espiritu navideño,
día de cumpleaños,
de final Brasil y Argentina…

Tu dijiste que venías.

Y yo dormí en la sala,
descubierta,
esperándote.

Yo dormí mi vida toda,
encubierta,
esperándote.

Marilda Confortin

http://iscapoetica.blogspot.com/

Rumorejando, por Juca Zokner

Juca Zokner publica suas Constatações em vários blogs, a começar pelo seu, Rimas Primas (http://rimasprimas.blogspot.com/). O Banco da Poesia recebeu a sua última produção, que publicamos com pequenas ilustrações, na falta de maiores.

“Se a gente não levar a vida com bom-humor para todas as coisas que acontecem, as situações ficam mais difíceis de se resolverem. Assim, é melhor dar boas risadas e ver por um ângulo diferente. Ainda que algumas pessoas vejam o lado difícil da vida, prefiro encarar os fatos de outra maneira”.

José (Juca) Zokner

juca-4

Pequenas constatações, na falta de maiores

Constatação I (Falando da frágil paz ou dos preparativos das guerras).

liquidificadorOs tratados
Antes solidificados,
Foram abandonados,
Mal falados,
Vilipendiados,
E acabaram liquidificados.

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Constatação II (Meio ambiente)

grimpa21Dizia o jardineiro,
Poetando:
“O pinheiro
olta grimpas*
Supimpas;
Solta pinhão
Que é uma obra-prima
De formatação
Da mãe natureza
Ou Daquele lá de cima.
Com toda a certeza,
Foi gerado com poesia
Com rima
Que, nos campos,
Naquela era
Havia
Outra atmosfera:
Pirilampos
Piscando;
Sapos coaxando;
Corujas crocitando;
Cigarras cantando;
Grilos
Com seus estrilos.
É, tudo isso,
Toda essa cena,
Algum dia,
Ainda se via.
Pena!
_________

*Grimpa = Ramo do pinheiro

Constatação III

A freqüência
Naquele bar
É uma indecência,
Disse a solteirona,
Sentada na poltrona,
Olhando pela janela
Do quarto dela.
Só tem homem acompanhado,
Com cara de enfastiado,
Que comigo não daria par.

Constatação IV (Tragédia do cotidiano).

Com o passar do tempo, com o avanço cronológico da idade, os cônjuges continuaram a dormir na cama de casal. Mas havia como uma espécie de muro de Berlim virtual no meio do assim chamado leito nupcial: Ele nem, ao menos, chegava a passar a mão na abundância dela; ela nem chegava a roçar no seu maior patrimônio. Coitados!

Constatação V

juizDesacato a uma autoridade é quando você não chama:
– Um juiz de meritíssimo;
– Um reitor de magnífico;
– Um cardeal, ou bispo de reverendíssimo;
– Um deputado ou senador de Vossa Excelência, ao invés de nominar, como os franceses, que se reportam a todos os cidadãos, sem distinção, de senhor e senhora.

xx

Constatação VI

Estava num baita dilema,
Sem dúvida um problema,
Queria provar por teorema,
Sem ser apelativo,
Se uma prevaricação
Ajudaria
A reciclar a libido, ou não
O que seria,
Em caso positivo,
Uma excelente solução.

Constatação VII (Poeminha atrapalhado, aloprado sem muito pé e muito menos cabeça).

loboConstrito,
Depois de ouvir
Um grito
Sair
Da boca do lobo
Ou da boca-de-lobo
Já nem me lembro mais
Ando esquecido demais
Confuso,
Meio bobo,
Obtuso
Será que é o fuso?
Ou o horário de verão
Puxa! Que confusão
Vou ficar é calado
Antes que eu seja internado
Em vários asilos,
Por causa dos meus grilos,
Sem
Que alguém
Tenha pena de mim.
Fim.

Constatação VIII

rosaventoRico semeia uma rosa, dos ventos, e colhe uma brisa de pétalas; pobre, semeia uma rosa, dos ventos, e colhe uma tempestade de espinhos.

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Constatação IX

dcamiloUm dos exemplos de humanismo, amizade e paixões do povo italiano é o que se pode encontrar nos livros do escritor Giovanni Guareschi, principalmente naqueles cujos personagens principais são o padre Dom Camilo e o comunista Peppone. Leitura obrigatória, como diriam os críticos.

Constatação X (De dúvidas cruciais).

cravorosa4Foi o concerto para a mão esquerda, de Maurice Ravel, que foi vetado pelos políticos da assim chamada Direita? E foi durante a execução de Os pinheiros de Roma, de Ottorino Respighi, que caíram umas grimpas na cabeça do regente? E, mais ainda, foi na Valsa das flores, de Piotr Ilich Tchaikovsky que a rosa brigou com o cravo, debaixo de uma sacada?
xx

Constatação XI (De uma dúvida crucial via pseudo-haicai)

redcardMudança de atitude
Da regra do jogo, durante
O seu transcurso, é ilicitude?

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Constatação XII

polvaFoi a polva que, no bem-bom, disse pro polvo:
“Bem, isso de agora passar um dos tentáculos
Na minha bun, digo nuca, depois eu resolvo”?

xx

Constatação XIII

Foi o caminhante,
Seguindo a trilha,
Que, de repente,
Apareceu
Numa ilha
E nada mais entendeu?

Constatação XIV (Ah, esse nosso vernáculo)

reiO rei quando estava sentado no trono lhe deu vontade de sentar no trono e com voz tronante pediu licença à corte e saiu correndo numa velocidade de um mésotron.

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Constatação XV

missazeda1Ela clareou os dentes como sói acontecer com os atores e atrizes globais. No entanto, ela era por natureza azeda, digna de se candidatar a um concurso de Miss Azedume. Jamais, em tempo algum, se permitia um simples sorriso. Quando muito, um amarelo. Rir, então, nem pensar. Quando lhe perguntavam por que nunca ria, até para mostrar os dentes clareados, ela respondia que sim. Que ela ria. Mas, por dentro.

Constatação XVI

maradonaNão só o Brasil inteiro ficou triste, compungido, macambúzio com a derrota acachapante da Argentina para a Bolívia. A América Latina inteira também…

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E deixamos a Poesia fugir, em seu dia

No dia 21 de março último, o mundo inteiro comemorou o Dia Mundial da Poesia. Poucas comemorações no Brasil. Nenhuma em Curitiba, que eu saiba. A Unesco, entidade responsável pela promulgação desse dia, divulgou uma mensagem de seu diretor geral,   Koichiro Matsuura:

Poesia é uma arte milenar. É a arte da linguagem, uma interação de palavras, estética oral. Um poema não se lê, se diz.

Por isso, a poesia tem atravessado épocas e continentes. Fruto do imaginário, tanto individual como coletivo, a poesia é um elemento permanente na construção da vida social, tanto como a música, a dança e as artes plásticas. A poesia está presente em todas as partes e, no entanto, ao mesmo tempo, é inacessível. Sua fragilidade aparente, ligada ao seu caráter imaterial, fazem dela uma arte superior inviolável, que não teme os assaltos do tempo e da intolerância.

Como todo o conjunto de patrimônio imaterial, esta arte deve ser objeto de toda nossa atenção. Ainda que todos a admirem, publica-se pouca poesia e se traduz ainda menos. Encontra-se no coração de todas as línguas, mas também é freqüentemente considerada inacessível.

Poesia é uma arte na qual permite-se criar raízes e renovar-se, é o mais autêntico mensageiro de uma cultura; testemunha única e refinada da História. A poesia pode ensinar muito acerca do universo de outros povos, seus valores e sonhos. A poesia é uma porta aberta para o diálogo e para a compreensão dos povos e, por isso, é celebrada neste Ano das Nações Unidas do Diálogo entre as Civilizações.

A UNESCO está engajada na promoção do ensino da poesia nas escolas e apoia todos os esforços para a publicação e tradução de poesia. Gostaria de convidar os Estados Membros a contribuir também, de todas as maneiras possíveis, para a promoção permanente da poesia”.

Também a 14 de março, data de nascimento de Castro Alves (1847) foi comemorado (onde?) o Dia Nacional da Poesia. Confesso-me partícipe da legião dos desmemoriados, mas a culpa maior foi dos promotores culturais, esses estranhos seres que habitam os gabinetes oficiais.

Tanto o dia nacional quanto o mundial deveriam ter sido lembrados principalmente nas escolas, com a participação dos poetas vivos e  a lembrança dos que já se foram, deixando-nos as relíquias de suas palavras mágicas. Meta anotada para o próximo ano.

Para não dizer que esquecemos totalmente da data, usarei o dia da inauguração deste Banco da Poesia, a 12 de março, para homenagear as duas datas. Pelo menos, tudo aconteceu em março.

Recolhi, no colombiano Con-fabulación (http://con-fabulacion.blogspot.com/), a notícia e interessante saudação feita a propósito da comemoração do Dia Nacional da Poesia naquele país, que transcrevo a seguir. C.deA.

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Todos os poetas do pasado, todos os poetas do presente e todos os poetas do futuro, tão somente escrevem um fragmento, um episódio de um grande poema coletivo que escrevem todos os homens”.

Percy Bysshe Shelley


A terceira versão do Dia Mundial da Poesia reuniu 180 devotos na Universidade Nacional de Colômbia e 320 no teatro do Ginásio Moderno. Agora sabemos que também é formosa a colheita intangível e que, como disso Octavio Paz: “A poesia necessita da morte do poeta que a escreve e do nascimento do poeta que a lê…

Agradecemos a esta bela horda de Con-fabulados, assim como aos 18 poetas que uma vez mais demostraram que a poesia é o único ofício desinteressado, e aos meios de comunicacão  que difundiram animadamente o evento: El Espectador, El Tiempo, Caracol Radio, UM radio, TV Centro, Libros & Letras, Canal Capital,   Radiodifusora Nacional… Representados nos jornalistas e intelectuais empenhados no êxito da cerimônia, os professores Fabio Jurado Valencia e Jorge Rojas, e os jornalistas Gustavo Gómez, Paola Mariño, Henry Posada, Oriana Obagi, Lilian Contreras, Carlos Restrepo e Jorge Consuegra.

A seguir, a bela peça que, a maneira de prefacio, fez o escritor Federico Díaz-Granados. Habemus poesia.

A festa do equinócio

Por Federico Díaz-Granados*

Nosso admirado Aldo Pellegrini nos convidou a contribuir à confusão geral. Por isso, o Ginásio Moderno, esta casa centenária, acolhe na tarde de hoje a todos os confabulados interessados em empreender a verdadeira aventura essencialista da criação e do assombro, fiel a seu talante liberal e inclusivo e à herança humanista dos pais fundadores que nos ensinaram que somente por meio da poesia e da literatura poderíamos entender as proporções de uma sociedade mais justa e solidaria.

federico_diaz_granados2Todos nos recordamos que, nos tempos primitivos, a poesia servia para chorar e celebrar o mundo. Hoje, a poesia continua tendo, entre tantas, a função de exaltar a existência e lamentar e combater a morte.

O poeta português Eugenio de Andrade (ver post abaixo) mencionou que a única e verdadeira moral da poesia “é que se rebela contra a ausência do homem no homem, porque se este se atreve a – cantar no suplício – é porque não quer morrer sem se olhar em seus próprios olhos e reconhecer-se e detestar-se ou amar-se”.

Desde Homero a São Juan de La Cruz, de Virgílio a William Blake, desde o lamento do pobre Jó a Fernando Pessoa, desde Hölderlin a Nazim Hikmet, a maior ambição do quefazer poético sempre tem sido a mesma: Ecce Homo, repete Eugenio de Andrade e parece dizer cada poema: Eis aqui o homem, eis aqui sua fugacidade sobre a terra. Porque o futuro do homem é o homem, estamos de acordo, mas o homem de nosso futuro não nos interessa desfigurado e aí sobreviverá a eterna e misteriosa poesia. Ausência e presença, vazio e plenitude, dúvida e certeza estarão presentes para sempre na palavra.

Quem senão o poeta para devolver ao mundo um pouco da beleza e o horror que este nos outorgou? Quem senão o poeta para traduzir a liberdade do homem e de seus sonhos? A poesia não vai resolver, nem nunca resolveu os conflitos, nem o problema da fome e seguramente hoje não solucionará o flagelo do sequestro ou o dos desaparecidos ou o dos torturados, mas sempre nos tem acompanhado (melhor dizendo, desde o avô pitecantropo) e nos tem ajudado a sobreviver graças a sua beleza. Quiçá essa seja sua única obrigação: ser bela, seja qual seja seu tempo e seu tema, e revelar,  como num cálculo algébrico, a obscuridade e o desconhecido. Por isso, celebrar o Dia Mundial da Poesia é festejar o triunfo do assombro, a solidariedade e o compromisso em tempos da globalização e da desumanização. Não seria justo estar aqui se não estivéssemos conscientes de que exaltar o Dia Mundial da Poesia, no equinócio de primavera, é proclamar uma vez mais o triunfo da poesia como a verdadeira resistência do homem em sua passagem por esta aventura dea vida sobre a Terra.

Neste complicado, difícil e caótico mundo que nos correspondeu, a poesia segue definindo-se como um milagre e segue defendendo-se ante toda proposta virtual. O homem está em crise há muito tempo e sua catástrofe nos recorda uma espécie de Titanic de nossa modernidade. Por isso, quando restar o último de nós, solitário sobre a única rocha erguida sobre a terra, naquela noite final dos tempos, somente terá a seu lado a poesia, a palavra, a prece ou a imprecação como companhia.

Saint-John Perse disse, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, que quando as mitologias se desvanecem, o sagrado encontra na poesia seu refugio e talvez seu relevo, porque a poesia moderna adentra em uma aventura cuja meta é conseguir a integração do homem. Isso é o que festejamos na tarde de hoje, a integração do homem através dea palavra de sempre.

A poesia, escreveu García Márquez, “por cuja virtude o inventário esmagador das naves que enumerou o velho Homero em sua Ilíada, é visitado por um vento que as impulsiona a navegar com sua presteza intemporal e alucinada. A poesia que sustém, no delgado andaime dos tercetos de Dante, toda a fábrica densa e colossal da Idade Média. A poesia, enfim, essa energia secreta da vida cotidiana que ferve os grãos-de-bico na cozinha e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos”.

Bem vindos, poetas, bem vindos todos vós a esta casa de poesia e celebremos nossa grande recompensa de presenciar o milagre do feito poético em tempos da amnésia e da paranóia, onde não têm cabida os milagres nem a taumaturgia. Bem vindos, poetas herdeiros de uma profunda e verdadeira tradição que hoje cada um de vós homenageia com sua voz.

Em conclusão, quero citar a Pablo Neruda, que nos recordou que: “somente com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens. Assim a poesia não terá cantado em vão”.

Que a poesia seja nosso pastor e nada nos falte…

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*Poeta, catedrático e ensaísta colombiano