Está faltando um Brecht por aqui

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 10 de Fevereiro de 1898 e morreu em Berlim, em 14 de Agosto de 1956. Portanto, há exatamente 55 anos ele deixou o planeta Terra, depois do tempo a ele concedido, e não mais se aborreceu com os desmandos da chamada burguesia capitalista, contra quem dedicou boa parte de suas reflexões e de sua obra. Brecht é conhecido, no Brasil, mais por seu trabalho na dramaturgia e muitas de suas peças foram por aqui encenadas. Mas foi também excelente poeta, dono de uma ironia finíssima e criador de metáforas que se celebrizaram como axiomas do Século XX, notadamente na crítica política e econômica. Sua fama internacional ganhou estatura de gigante com a encenações do Berliner Ensemble, uma companhia teatral por ele criada, durante 1954 e 1055, em Paris.

Ainda jovem, com 22 anos, Brecht se tornou marxista, porém a seu modo, e com as teorias de seu patrício comunista, pintou sua obra teatral, poética e literária,. Também sofreu influência dos experimentos teatrais de Erwin Piscator e Vsevolod Emilevitch Meyerhold, do conceito de estranhamento do formalista russo Viktor Chklovski, do teatro chinês e do teatro experimental da Rússia soviética, já a partir de 1917.

O Banco da Poesia destaca um de seus mais famosos poemas e publica três versões brasileiras: a primeira, de Manuel Bandeira; a segunda, do tradutor Paulo César de Souza e, finalmente, a do nosso amigo Frederico Fuellgraf. A propósito de Frederico, vale fazer aqui um pequeno comercial: visitem o seu blog Fuellgrafianas,  onde encontrarão muitos textos inteligentes. Além de tradutor, FF é cineasta e grande estudioso da sétima arte. Veja mais sobre ele aqui.

An die Nachgeborenen 

de Bertold Brecht

 

 

 

 

 

Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

Sie sagen mir: iss und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.

Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.

As nossas versões

I – Aos que vierem depois de nós

(Versão de Manuel Bandeira)

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

II – Aos que vão nascer

(Versão de Paulo César de Souza)

1
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
indica insensibilidade. Aquele que ri
apenas não recebeu ainda
a terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
falar de árvores é quase um crime
pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
não está mais ao alcance de seus amigos
necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
tiro o que como ao que tem fome
e meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
levar sem medo
e passar sem violência
pagar o mal com o bem
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
é verdade, eu vivo em tempos negros.

2

À cidade cheguei em tempo de desordem
quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
e me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor cuidei displicente
e impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
quase inatingível.
Assim passou o tempo
que nesta terra me foi dado.

3

Vocês, que emergirão do dilúvio
em que afundamos
pensem
quando falarem de nossas fraquezas
também nos tempos negros
de que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
através das lutas de classes, desesperados
quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
também o ódio à baixeza
deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
torna a voz rouca. Ah, e nós
que queríamos preparar o chão para o amor
não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
do homem ser parceiro do homem
pensem em nós
com simpatia.

III – Aos nascidos depois de mim

(Versão de Frederico Fuellgraf)

Realmente, eu vivo em tempos sombrios!
A palavra melindrosa é pusilânime. Uma fronte sem rugas
É a expressão da indiferença – o folgazão
Apenas não recebeu em tempo
a terrível notícia.

Que tempos são estes, quando
Uma conversa sobre abobrinhas é quase um crime.
Porque encerra o silêncio sobre indizíveis atentados!
Aquele que cruza a rua impassível
Já se tornou impiedoso para os amigos
Caídos em desgraça ?

É verdade: ainda ganho para o meu sustento
Mas acreditem: é mera coincidência. Nada
do que faço dá-me o direito de saciar-me.
Sou poupado por distração. (Se minha sorte me abandonar,
estarei perdido).

Dizem-me: come, tu, e bebe, dá graças que tens o quê!
Mas como poderei comer e beber, se
Ao faminto surrupio a comida e
Se o que faz falta ao sedento é meu copo d´água?
Apesar disso, como e bebo.

Eu também gostaria de ser  douto.
A sabedoria está descrita nos livros antigos:
“Furtar-se às contendas do mundo e desfrutar
Sem medo o tempo exíguo.”
Mais: renunciar à violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer seus desejos, melhor esquecê-los
Sabedoria seria isso.
E é tudo o que não posso:
Deveras, eu vivo em tempos sombrios!

Cheguei às cidades quando lá campeava a desordem
E imperava a fome.
Juntei-me às pessoas no instante da revolta
E indignei-me com elas.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.

Comi meu pão entre uma e outra batalha
Para dormir deitei-me entre os assassinos
Indelicado cultivei o amor
Impaciente contemplei a natureza.
Assim feneceu o tempo
Que meu foi dado na Terra.

No meu tempo as ruas conduziam ao atoleiro
E a palavra delatou-me ao verdugo.
Consegui fazer pouco. Mas sem mim
Os poderosos sentiam-se mais seguros; essa era a minha idéia.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.

Eram poucas as forças. A causa
longe de ser conquistada.
Jazia ali com nitidez, mas para mim
Mal-e-mal à mão.
Assim passou o tempo
Que meu foi dado na Terra.

Vós, que emergireis da maré
Na qual naufragamos
Relembrai
Quando falardes de nossas fraquezas
Também os tempos sombrios
Dos quais vos livrastes.

Pois, trocando mais de países que de sapatos
Caminhávamos através das guerras das classes, angustiados
Bastava lá reinar a injustiça e nenhuma indignação.
Ora pois, sabemos muito bem que:
O ódio contra a vileza
Endurece as feições.
A ira contra a injustiça
Deixa rouca a voz. Diabos!, nós
Que queríamos semear a amabilidade
Já não conseguíamos ser amáveis.

Vós, porém, quando chegar a hora
Em que o homem for o amparo do homem
Lembrai-nos
E sede indulgentes.

Dicas de Fernando Pessoa – 7

Da Arte

  1.  Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.
  2. O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele; e, como é pela emoção, e pelo pensamento que a emoção provoca, que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experiência, registra-a ele nos fastos de suas emoções e não na crônica de seu pensamento científico, ou nas histórias dos seus regentes e dos seus donos.
  3. A arte é a autoexpressão lutando para ser absoluta.
  4.  A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são. O essencial na arte é exprimir; o que se exprime não tem importância.
  5. Deixemos a nossa arte escrita para guia da experiência dos vindouros, e encaminhamento plausível das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida.

José Marins: oração a Malaquias

Anjo de Quintana

Anjo Malaquias
onde andam seus pés
de acompanhar poetas,
desde que Quintana se foi?

Anjo Malaquias
nada tenho para te oferecer,
além de receios ou passos vãos,
viajo sorvido pelo sonho.

Anjo Malaquias
se puder olhar por mim,
teus olhos de poesia e luz,
vela por meus versos tão miúdos.

Anjo Malaquias
quando vier com suas asas
de transparência e luar,
traga-me da alegria e do humor
de Mário Quintana.

Um pouco que seja
de quintanares letras,
e siga-me na estrada do poeta
essa que faço na esteira dos nadas.

José Marins / jan 2011
Ilustração: cdeassis

Da Galícia, mais um depósito de Arthur Novellhe

O poema estava depositado entre os muitos recebidos nos últimos meses de exílio espiritual, lá no baú das peças raras. Veio com o seguinte recado do autor, Athur Alonso Novelhe, caríssimo cliente deste Banco:

“Bom amigo Cleto, tempo já há que nada envio ao seu magnífico site… esse projeto livre de poesia e poetas… Agora, que ando mais à vontade de tempo, envio este poema… desejo que goste dele”.

Tanto gostei que vai entre os primeiros libertados.

Os Deuses na Sombra

Ilustração de Cleto de Assis

Escolheram nomes para falar-nos da vida,
procuraram rotas para dizer-te,  convencidos:
nós temos um destino a cumprir:
salvar tua ignorância do lume.

E não repararam em gastos, nem fadigas
para alçar Impérios que logo a morte conquista,
sempre conquista
como os sonhos que se fixam na mente do alienista
contra o cordeiro de Deus na outra luz daqueles mundos.

Esconderam o ódio com disfarces ambíguos
e cegaram as fontes da essência referida, pelos criadores do amor.
Com palavras sobre palavras fabricaram sua mentira

e te venderam o medo ferida a ferida
como a ilusão de acreditar na Única  Salvação Possível.

Não acreditas, bom não acredites,
mas tu desfilas no aniversário das bandeiras vencidas
tu comes a sua oferta e os produtos adquiridos
tu bailas na noite sinalada
e dormes na noite requerida
(logo simulas no ventre formoso do sexo repousar)
como cantas no seu templo o salmo corrompido
e bebes ou fumas enquanto eles o precisem
(de ti, um homem tão simples…)
Mas eles também prescindem: lamentável, não?

Deverias observar:
quantas assinaturas tem o teu convite?
quantos nomes distintos para a carne ser redimida?
quantos grãos de ouro no papel verde das notas floridas,
quanto sangue preciso para erguer logo pedras acima
da primeira casa, da primeira escola,
onde Pedro vendeu ao maestro e esqueceu-se das esmolas:
Em Nicéia, vi o sol dourado de Constantino.
Depois, uma fita a pendurar
sabendo que sempre a mesma mão se recorta da virgem.
Aleijado viverás igual, mas nunca já será simples.

Assim,
limparam as covas de símbolos
porque sempre é necessário mudar os ritos.
Trocaram as festas da cerimônia antiga
e a música velha lustraram de novo em papiros
mudando sua grafia,
mas segues caminhando pela mesma estrada acima
segues empurrando o peso de todas as caricias
e golpes que ainda hão chegar
(tu sozinho,
enquanto eles aguardam na cima)
Ao chegar ao alto outros homens divisas
Requerem tua atenção, para minorar a sua fadiga.

Não acreditas, pois bem, não acredites,
Pronto de novo te irão escolher,
mas desta vez será para o teu próprio sacrifício.

Deixas mulher?
Outros se encarregarão dos teus filhos…

Arthur Alonso Novelhe – jan/2011
Ilustração: cdeassis

Nascer de novo: quantas maneiras há?

Renascer

“A água
que puseste no teu vinho não pode
mais ser retirada. Porém
tudo se transforma. E recomeçar
é possível mesmo no último suspiro.”

Bertolt Brecht

Nascer, viver, morrer: eis a história natural da humanidade.
xxxxxxNascer porque alguém quis,
xxxxxxviver porque se insiste em querer,
xxxxxxmorrer porque não há alternativa.
xxxxxxxxxxxxEntre o nascer e o morrer, mil renascimentos.
Renascer a cada instante no sorvo lácteo
e no respirar aéreo, sem águas amnióticas.
Renascer para o iluminado mundo multidimensional
pouco a pouco descoberto por olhos surpresos e mãos tateantes.
Renascer para as notas bailarinas
a tecer novas magias sensoriais em forma de acalanto.
Renascer na visão miraculosa das cores,
a enfeitar flores e pássaros e paisagens infinitas.
Renascer para a beleza de todas as artes
na miríade espetacular de novas sensações.
Renascer para a palavra, que encurta a distância entre nós e o outro.
Renascer para a poesia, que encurta a distância
entre o real ilusório e o sonho irrefragável.
Renascer para o conhecimento,
que cria divergentes verdades ontológicas e metafísicas.
Renascer na leitura e na feitura dos livros,
Renascer para as conversões e para as variadas acepções e decepções religiosas.
Renascer no corajoso abandono das convenções inúteis do teatro social.
Renascer para as bonanças depois das tempestades
e para as tempestades depois das calmarias.
xxxxxxxxxxxxRenascer ante o limitadamente conhecido
xxxxxxxxxxxxe o infinitamente misterioso.
Renascer para as descobertas macrocósmicas.
e para o entendimento do infinitesimal.
Renascer em uma ameba unicelular
ou num lago extinto de Marte
onde trilhões de amebas navegaram há milhões de anos.
Renascer numa piscadela de estrela anã
e no brilho intenso de uma supernova
a biguebanguear novos universos.
Renascer na estreiteza do interstício celular
e na largueza do intermúndio celestial.
xxxxxxxxxxxxRenascer mais perto de nós do que imagináramos.
Renascer para os olhos das mulheres eleitas e fugidias
e para o coração das escolhidas.
Renascer nas almas e nos corpos dos filhos
segundo as leis da veraz reencarnação.
Renascer, depois, nos espíritos dos filhos dos filhos
em encarnações multiplicadas
e corpos multifacetados
a espraiar-se nas areias do espaço e do tempo
por todas as gerações das gerações.
Que assim seja.

CletoAssis/set.2011

Artur Novelhe surreal

Recebemos da Galícia um poema de Artur Alonso Novelhe, com o seguinte rtecado:

“Caro amigo Cleto, envio poema, por se você gosta e pode ser pendurado no Banco da Poesia.Tardei um bocadinho em enviar este poema pois, esta já pronto à sair a rua em meado de setembro, o meu terceiro livro de poemas intitulado: Filhos da Brêtema… e esteve trabalhando em ele todo este tempo.
Um grande abraço e, como sempre, parabéns pelo seu grande contributo à poesia.  Artur Alonso
Obrigado ao amigo Artur Alonso. Envie mais notícias sobre seu novop livro.

Surrealismo

O silencio chama às noites
cabeças de sereias que adornem o seu palácio
e tu não tens filhos
e eles não precisam, no teu seio, aconchegar-se

porque quando o tempo é de silencio
as fontes de pedra resultam sensatas

e no prado os corpos jazem
eternos, desnecessários e úmidos
como início, que são, da nova geração

glacial de alma

Daí que o primeiro ministro
evada orçamentos
e guarde detrás do desvão
astutos e árduos momentos
para vender, sem pudor, quilômetros de pátria
e ambientes

mas tu não precisas de uma bandeira
nem a pobreza dos fortes
aguarda dos teus remédios,
simplesmente como sujeito
da história desapareceste

tua mãe o sabe,
porque intui
qual é o preço a pagar no troco.
Gostaria poupar ânimo,
mas nunca se lhe ocorrera
como entregar teu corpo…

porque as orquídeas choram
esquecidas que o ar tudo agita
e os nomes que avisam
nunca deixam de parecer prelúdio:
olhos perdidos na grande penumbra

Os sonhos nunca aguardam um porquê
porque sempre para o regresso
têm as portas da casa abertas

como o silencio que chama as noites
como a cabeça de cisne no conto do alienado

Manoel de Andrade e sua participação nas Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana

No início de agosto Manoel de Andrade esteve em Niterói para participar do  JALLA BRASIL 2010, a nona edição das Jornadas Andinas de Literatura Latino Americana, realizada na Universidade Federal Fluminense . O congresso é considerado um dos mais importantes eventos latino-americanos na área de estudos de literatura e cultura da região e sua primeira realização no Brasil representou um grande gesto de solidariedade, integração e interlocução cultural entre os povos sul-americanos. Alguns paranaenses ligados à área acadêmica estiveram presentes e apresentaram trabalhos de pós graduação – mestrado e doutorado – na área de literatura hispânica. O convite ao poeta Manoel de Andrade foi para a apresentação de sua poesia, analisada durante o congresso, produzida no período em que foi marcante a sua  militância poética e ligação política com o continente latino-americano, na década de 70. No relato de suas impressões sobre o evento surgiu a idéia de publicarmos uma entrevista no Banco da Poesia, que inaugura mais uma modalidade de comunicação com nossos correntistas.

O depoimento apresenta opiniões pessoais do entrevistado e não representa, em seu todo, o pensamento da editoria do Banco da Poesia, que é uma tribuna livre, plural e democrática de divulgação da arte poética e dos temas a ela relacionados. As fotos que ilustram a matéria foram feitas pelo entrevistado e por ele cedidas.

BP – Como surgiu o convite para participar do JALLA BRASIL 2010?

MAFoi por meio da professora Suely Reis Pinheiro, doutora em Língua Espanhola e Literatura Hispânica e diretora da Revista Hispanista, publicada no Rio de Janeiro. Em sua dissertação de mestrado, no ano de 2003, na UFRJ, sobre o livro “Garabombo: El Invisible”, do peruano Manuel Scorza, ela epigrafou o texto com alguns versos do meu poema Canção de Amor à América e apresentou-o em vários encontros de literatura no continente. Em 2008,  nos descobrimos pela Internet. Posteriormente passei a assinar a coluna Vida & Poesia em sua revista eletrônica e, agora que meu livro Poemas para a Liberdade foi publicado no Brasil, ela resolveu apresentá-lo no  JALLA BRASIL 2010.

BP – Qual sua impressão sobre o Congresso?

MAA melhor possível, do primeiro ao último dia. A abertura, no Teatro Popular de Niterói, foi muito interessante, sobretudo pelo alto nível intelectual das conferências do uruguaio Hugo Achugar e do brasileiro Silviano Santiago,  com o tema O entrelugar do intelectual latino-americano. Com quase 1200 participantes,  vindos da maior parte dos estados brasileiros e de todos os países sul-americanos, onde se ouvia mais castelhano que português, o evento primou pela excelente organização, pelas portas que abriu como uma grande resposta brasileira aos contatos com o mundo hispano-americano, pela riqueza dos temas, onde se aprofundaram os estudos de literatura hispânica e brasileira e marcado também  pela forte presença da cultura afro-americana. O Congresso estava envolvido por um contagiante espírito de fraternidade continental, facilitando para todos os participantes  e, particularmente para mim, importantes contatos literários e promessas de belas amizades.

BP – O JALLA e a FLIP foram realizados na mesma semana. Um evento não fez concorrência  com o outro?

MATradicionalmente o JALLA não é um encontro de escritores, mas de estudiosos da literatura. Um evento onde as obras dos grandes autores do continente são apresentadas, analisadas e debatidas pelo mundo acadêmico voltado às Letras. Embora a Feira Internacional de Parati, ali próxima e simultânea, tenha polarizado a atenção do país e do mundo, importantes autores e estudiosos da literatura  brasileira e hispano-americana estiveram presentes nas Jornadas Andinas de Niterói.

BP – Você fala de importantes contatos literários. Pode citar alguns?

MA Particularmente, tive oportunidade de estreitar laços literários e fraternos com alguns escritores, ensaístas e pesquisadores acadêmicos. Entre os escritores quero ressaltar  meu fraterno relacionamento com Enrique Rosas Paravicino, narrador cusquenho que desponta vigorosamente no Peru com obras como Al filo de rayo, El  gran señor, Ciudad apocalíptica, La edad de Leviatán, além de estudos e ensaios que têm merecido  reconhecimento nacional e internacional. Sua última novela,  Muchas Lunas en Machu Picchu, que Enrique me presenteou com autógrafo de palavras tocantes e solidárias, é uma viagem fascinante pela história andina, detalhando, com um estilo sedutor, a construção da cidadela de Machu Picchu, pelo imperador Pachacútec. Ele conta a grandeza do incário e sua trágica destruição pelos espanhóis.

Lá estava também Raúl Bueno, outro peruano de Arequipa, com quem troquei gratas lembranças de atividades poéticas, recordando minha passagem pela cidade em 1969, quando a  Federación  Universitaria de Arequipa lançou a primeira edição panfletária de meu livro Poemas para la libertad. Bueno é um intelectual brilhante e tem um currículo acadêmico invejável.  É autor de muitos estudos sobre literatura, editor da importante Revista de Crítica Literária Latinoamericana e professor de espanhol e português nos Estados Unidos. No JALLA ele partilhou a conferência plenária sobre Tradução como mediação cultural, com o escritor paulista Eric Nepomuceno. Com este último tive agradáveis momentos.  Eric – tradutor de grandes prosadores hispano-americanos como Eduardo Galeno, Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Juan Rulfo e tantos outros –, sempre muito descontraído, deixou todo mundo à vontade em sua conferência, ao explicar o seu estilo original de traduzir e falar sobre a invejável amizade que mantém com os autores que traduz.

Também como conferencista do evento esteve presente o escritor boliviano Guillermo Mariaca, autor de vários livros, entre eles O poder das palavras, editado em Cuba, pela Casa das Américas. Guillermo esteve em maio deste ano no Brasil, participando  do  VI  Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, na Universidade Federal da Bahia e é uma das figuras de grande prestígio na Bolívia e no Continente como estudioso de literatura. Ele foi portador de meu último livro para pessoas com quem me relacionei  na Bolívia, há 40 anos. Um deles foi o cineasta Jorge Sanjinés, diretor, entre outros,  do premiado filme Yawar Mallku, como também a jornalista Sylvia Laborde, cuja memorável reportagem  – escrita em 1970 sobre o lançamento, em La Paz, de meu primeiro livro – consta agora na fortuna crítica da edição  brasileira, publicada no ano passado. Creio que ela terá uma grata surpresa ao ver sua matéria escrita no jornal Jornada, em 20 de junho de 1970, estampada agora em dois idiomas nas páginas do meu livro.

Entre os escritores brasileiros passou também por lá o mineiro Silviano Santiago, há muito tempo radicado no Rio de Janeiro. Romancista, poeta, ensaísta e contista, com dezenas de livros publicados e ganhador do Prêmio Jabuti de romance em 1993, Silviano – que teve a gentileza de me mandar por e-mail o seu discurso de abertura –, embora ainda não tenha recebido o reconhecimento nacional, é um dos mais prestigiados críticos literários do país e uma das mais brilhantes personalidades da literatura brasileira contemporânea.

Diante da variedade de simpósios, plenárias e conferências, não foi possível estabelecer e estreitar contato com tantos quanto eu quisera; contudo não posso esquecer o reconhecimento e os gestos fraternos de grandes pesquisadores da literatura que me distinguiram com honrosos convites para futuras apresentações. Entre estes quero destacar as professoras-doutoras Sara Araujo Brito (UFRRJ) e Rita Diogo (UERJ). Quero também aproveitar o oportuno espaço desta entrevista para tornar pública minha gratidão à professora-doutora Suely Reis Pinheiro, pela apresentação do meu livro no JALLA BRASIL 2010 e pelo prestígio que tem dado a minha poesia em outros países, fazendo a leitura dos meus versos num tempo em que eu sequer sonhava em voltar para a literatura.

BP– Consta  na orelha de seu livro Poemas para a liberdade que você foi expulso da Bolívia, depois de participar de um Congresso de Literatura. Como foi isso?

MACheguei à Bolívía  nos primeiros dias de setembro, em 1969,  e uma semana depois o exército matou, em La Paz, o guerrilheiro Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara em Ñancahuazú. Eu trazia do Chile os contatos para chegar até sua Organização, porque pretendia entrar na guerrilha reestruturada por ele. Com sua morte tudo mudou e, na minha frustação, escrevi, em sua memória,  o poema El Guerrillero. Posteriormente fui convidado para participar do Congresso Nacional de Poetas, realizado no fim de setembro em Cochabamba, onde, apesar de ser alertado dos riscos que corria, li o poema diante do auditório lotado no Palácio da Cultura. No dia seguinte, 26 de setembro, caiu o governo de Siles Salinas e tomou o poder o general Alfredo Ovando, responsável, dois anos antes, pelo tristemente célebre massacre de mineiros na “Noche de San Juan”. Tudo mudou no país e o Congresso passou a ser controlado por militares. O poeta boliviano Ambrosio Garcia Rivera foi preso e eu tive 48 horas para deixar a Bolívia por acharem que meu poema a Inti Peredo era uma subversiva instigação à luta armada e uma aberta provocação à autoridade militar que o tinha assassinado três semanas antes.

BP – Você esteve 30 anos afastado da poesia e retornou, em 2007, com a publicação de seu livro Cantares. Como está a recepção de sua poesia no Brasil?

MASer poeta é uma sublime e solitária aventura. O poeta sempre foi um ser desgarrado do seu tempo e hoje mais ainda. Ao mundo importa cada vez menos a poesia. Em 1965 o público lotou o Pequeno Auditório do Teatro Guaíra para assistir a “Noite da Poesia Paranaense” e lá estivemos 13 poetas gratificados com tantos aplausos. Hoje um acontecimento desse porte pareceria um espetáculo insólito em Curitiba, apesar do empenho em se manter o interesse pela oralidade da poesia em iniciativas admiráveis, como vem fazendo o SESC, no Paraná e em todo o país, para citar apenas um raro exemplo promovido oficialmente..  Somente os festivais nacionais e os grandes festivais internacionais de poesia têm preservado a sua imagem no mundo. Além da crise da oralidade, são poucos os que  leem poesia  e por isso mesmo o mercado editorial não favorece seus títulos e as livrarias “escondem” seus volumes. Depois desse desabafo – que é também um gesto solidário com tantos bons poetas que não encontram as portas editoriais abertas para seus livros – eu respondo que tenho recebido alguma atenção da mídia com reportagens, entrevistas e convites para eventos literários. Meu livro Cantares teve, sim, uma boa recepção e está quase esgotado e Poemas para a Liberdade está vendendo muito bem.

Minha participação no JALLA 2010 ensejou muitos convites, entre eles o patrocínio para meu retorno ao Rio de Janeiro, em fins de setembro, para apresentar-me na UERJ e na UFRRJ. O caminho da notoriedade para um  escritor e, sobretudo, para um poeta é longo e imprevisível, sobretudo num país imenso como o nosso. Voltei há três anos para essa estrada e só agora percebo o tempo imenso dessa ausência. Mas esses 30 anos não foram perdidos.  Outra bandeira, com as cores da fraternidade, esteve em minhas mãos e agora eu quero recompô-la com o estandarte da poesia.

BP – Quais são seus projetos como escritor? Há títulos novos no forno?

MASim. Estou escrevendo as memórias de minhas andanças pela América Latina, na década de 70. É uma experiência fascinante voltar a transitar pela estrada do tempo. É um pouco dessa busca proustiana do tempo perdido. Creio que todo poeta, todo escritor chega a um momento em que procura recuperar o passado. Grandes obras  da literatura universal, e sobretudo os grandes poemas épicos, como os Lusíadas, a Ilíada e a Odisseia, são frutos da memória aliada à imaginação. Devo dizer que meu depoimento, ao longo dos 16 países onde passei,  não é uma confissão meramente pessoal e aventureira. Os fatos e as referências pessoais marcam apenas a estrutura cronológica e geográfica do meu roteiro. Por trás desse caminhar está o testemunho crítico de um tempo de lutas e esperanças que caracterizou a história revolucionária do continente nas décadas de 60/70  e, sobretudo,  o mergulho constante na história dos países  por que passei  e  nos movimentos libertários que marcaram a história da América desde o seu descobrimento – como a  história dos 350 anos de resistência e invencibilidade dos araucanos, no Chile, e a revolta de Túpac Amaru, na região andina –, e que são historicamente rediscutidos  à luz  da interculturalidade contemporânea e das muitas leituras e pesquisas que fiz naqueles anos.

Manoel de Andrade com o escritor peruano Enrique Rosas Paravicino

Manoel de Andrade com o escritor peruano Enrique Rosas Paravicino

O poeta na mesa coordenada pela prof. Suely Reis Pinheiro, na qual leu poemas de sua autoria

O poeta na mesa coordenada pela prof. Suely Reis Pinheiro, na qual leu poemas de sua autoria

Manoel em diálogo com o escritor Eric Nepomuceno,  tradutor vários autores hispano-americanos

Manoel em diálogo com o escritor Eric Nepomuceno, tradutor de vários autores hispano-americanos

Um dos muitos contatos feitos por Manoel de Andrade no JALLA 2010 foi com o editor e professor peruano Raul Bueno

Recesso involuntário

O Banco da Poesia esteve em recesso por mais de um mês. Recesso que seu gerente lamenta profundamente, causado por muitos motivos. Mas nenhum deles aponta para o desinteresse de nossos correntistas e leitores, que continuaram a enviar colaborações e a visitar nosso blog. Os mais longínquos mandaram mensagens preocupadas com possíveis problemas de saúde do administrador, que lhes garantiu estar em perfeita forma física e mental. Agradeço o interesse de todos e prometo que o BP reabre suas portas, com novo layout, prometendo novidades. E maior asiduidade em suas movimentações poéticas, com régia distribuição de dividendos.

Perda, busca e achamento em seis tempos

Amarras do Tempo

Cleto de Assis, Curitiba


Tempo I

Da surpresa


Entre os sabores de mar e uva
e palavras jorradas
como a compensar tantos anos de silêncio mútuo:
será a insinuante menina
ou a grave senhora que conta causos
e esconjura trevas
com a mesma afinação de voz do tempo anterior?
Convencionam-se distâncias medidas
com toques suaves de receio e apreensão
em busca de espelhos tardios – quem os perceberá?
Remembranças de morte, conchegos de vida,
juventudes distraídas, sonhos entrecortados,
futuros desconstruídos.
Presente: quem o sabe?

Tempo II

Da reflexão


Destinos não exigem rotas precisas
e súbitos ventos causam desvios,
naufrágios, descobertas inesperadas,
encontro de ilhas remotas e desabitadas.
Quem saberá a distância
entre o benquerer e o sem querer?
Quem poderá medir o certo e o errado
nas escolhas e  nos escolhos?
Quem, afinal, determina
esta estranha geometria
traçada sem esquadros ou compassos
a preencher com maestria
todos os tempos e espaços?

Será a memória um mata-borrão da vida
sem direito a correções, a novas direções?
E as dimensões da mancha impressa,
que limites terão elas?
Abrirão novas janelas ou fecharão esta porta?
Ou a incerteza está certa, ou a certeza está morta.

Eis lá no fundo o passado
que não passa. Tudo é vivo.
O tempo ressuscitado
já não é tempo afetivo.
Beijos, abraços, carinhos,
se perderam co’a esperança
de eternizar a lembrança
daqueles belos caminhos.
O soturno Saturno noturno
soube desviar as rotas
e criar novas veredas labirínticas
para o homem taciturno.

Tempo III

Da súbita rebeldia


Ah! À distância rimas e ritmos
e métricas e metáforas!
Não há qualquer simbolismo
neste funil que se estreita
à medida que nos aproximamos do finito.

Mas somos melhores, diz a voz,
do que no tempo em que tudo era infinito.
Temos, então, direito a novas auroras
Nesta hora crepuscular?

Terá o sonho solução?
Será o devaneio adolescente desmensurável plano
no tempo mínimo de nossa juventude?
O sonho é apenas um corte fugidio do presente
que não acumula certezas
e vive de ouro de tolo garimpado no passado.
Um dia, quando menos esperamos,
ou dolorosamente aguardamos,
damos de cara com o futuro
vestido em andrajos de Filho da Noite
a cuidar da porta que leva a parte nenhuma.
Apenas nos será permitido olhar mais vez para trás
sem direito a lamentações sonoras
ou pedidos de reconsideração.
Somente mais um último olhar no vazio do que passou
e de todos os presentes perdidos:
eis o Homem diante de seu Futuro.

Tempo IV

Da constatação


Pois há muito esquecemos
que um sorriso não tem devir,
ele existe para aquele momento em que se abre
e eterniza sentimentos.
Nem a flor, em sua efemeridade,
anuncia tempos vindouros
mas doura apenas os dias em que vive
e terá em suas irmãs e filhas
o contínuo refazer de presentes coloridos e perfumados.
Mais transitória ainda,
a borboleta, intensa flor flutuante,
não faz de seus passados de lagarta e crisálida
prisões de lamentações.
Só voa em suas visitas de flor em flor
a enfeitar preciosos e rápidos presentes.
E nisto está o mistério da vida, como queria Pessoa:
não haver nela qualquer mistério, só transitoriedade.
Somente nós, os reis da natureza,
queremos que ela pareça eterna
para celebrar o enganoso reinado perene
que impera sobre tudo o que é apenas passageiro,
a começar pela própria vida.
Aí inventamos a vaidade, a prepotência
e todas as demais formas de violência
que nada têm a ver com a lei maior da efêmera sobrevivência.
E insistimos em não ver o que é transitório
porque gostamos de alargar a sensação do infindo
imaginando tempos cósmicos de quinze mil anos solares
que criam um deus à nossa imagem e semelhança.
Não conseguimos aceitar que, no pórtico do silêncio vital,
há avisos claros sobre o que não deveríamos ter feito.

Não fale e siga,
diga e não diga
até a próxima curva
que não existe.
Depois prossiga
direto ao limite
do próximo passo.
Pare, olhe, escute:
se ouvir o silvo
ou o apito
esconda o grito
recolha o espanto.
Escolha o canto,
engula o pranto,
negue o infinito.

É dos segundos, minutos e horas que perdemos a pensar,
esperançosos,
na felicidade que ainda não veio
que formamos nossos futuros vazios,
sem perceber que a distância entre nós e as estrelas
é a ligação de muitos pontinhos sem luz bem próximos um do outro.
Basta olhar ao céu para consignar essa verdade.

Tempo V

Da remissão dos pecados


Eu, pecador, confesso:
deixei de colher pequenas vitórias passageiras
porque busquei glórias definitivas.
Abandonei faces que cativei e me cativaram
em troca de ilusórias paixões imorredouras.
Fui sempre infiel à vida
porque não a percebi nem a recebi
em sua infinda misericórdia e compaixão,
mas me acreditei superior à ela,
e contra ela blasfemei ao criar um deus, deuses e santos
para livrar-me da condenação eterna
por meio de breves arrependimentos
e esconsas meae culpae.
Deixei a balançar mãos solitárias
porque  me neguei a estender as minhas,
pretensamente  solidárias.
Fundei religiões que me impediram
de ver em mim e diante de mim a maravilha da criação
e imaginei paraísos e nirvanas distantes
que turvaram a visão da verdadeira vida.
Por não saber ter olhos para ver,
me reinventei em visionário,
pensando em luzes e cores
muito além de meu já mágico poder de visão.

Tempo VI

Dos encontros, desencontros e reencontros


E eis-me a abraçar a grande curva do universo
que gera encontros e desencontros e novos encontros
todos em seu momento exato, porque escritos na vontade.
Não a vontade da esperança
mas a decisão de ver e estar dinamicamente atento
a tudo que nos rodeia, sem juízos premonitórios.
E eis-me aqui disposto a entender a teia do tempo
que nos torna diferentes a todo momento
e preserva a memória que constrói todos os novos momentos.
Eis-me aqui porque talvez ainda haja mãos estendidas.
Eis-me aqui porque minhas mãos ainda podem operar milagres.
Eis-me aqui porque nego a fuga à retaguarda ou à vanguarda
e sou soldado de meu momento,
de meus momentos encadeados,
perfeitos elos de minha história sagrada e única.
Recolho nos ainda intatos escaninhos da memória
as horas consagradas
e trago-as ao presente, pois presentes estão
e têm o poder de fazer ressurgir o agora
e fazem o milagre da multiplicação de todos os agoras.

Subitamente, sem marcar encontro com o fado,
a voz sussurrou palavras meigas
capazes de cicatrizar feridas ainda abertas.
Uma suave carícia sobre os cabelos já a encanecer
completou a fórmula balsâmica
ontem e nesta nova hora.
E foram mais alguns anos solares à frente
a anunciar o quase esquecimento.
Novas curvas, novas retas
a insinuar-me geômetra para domá-las.
E eu, apenas um mero compositor de linhas toscas
em perigo iminente de fazer enorme maçaroca
de memória e tempo em helicoidais tropeços,
devo tentar recompô-las em devida trajetória
porque não há finais, só recomeços
e cada recomeço uma nova história.

Curitiba, junho de 2010.

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Ilustrações: C. de A.

Voo intuitivo de Salut Navarro

Intuición

Salut Navarro Girbés, Valencia, España

En la abstración de mi pensamiento
te encuentro absorto en tu esencia,
araño las albas no vividas
agotadas ya em nuestras quimeras.

Un canto extrañamente seductor
me convierte en ave blanca
para llegar a tu puerto y besar
las alas que te permiten volar.

La tristeza me cubre y me descalza.
mi soledad bate em tu corazón
trazando arco Iris en la hierba negra,
y adviertiendo que mi destino es el mar.

Intuição

Na abstração de meu pensamento
te encontro absorto em tu essencia,
arranho as albas não vividas
esgotadas já em nossas quimeras.

Um canto estranhamente sedutor
me converte em ave branca
para chegar a teu porto e beijar
as asas que te permitem voar.

A tristeza me cobre e me descalça.
minha solidão bate em teu coração
traçando arco-íris na erva negra,
e advertindo que meu destino é o mar.

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Versão em Português e ilustração: C. de A.