Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades que todavia se contradizem. A primeira é de que, perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte. Dão, é certo, um prazer mais nobre que os da vida; porém são como os sonhos, em que sentimos sentimentos que na vida se não sentem, e se conjugam formas que na vida se não encontram; são, contudo, sonhos de que se acorda, que não constituem memórias nem saudades, com que vivamos depois uma segunda vida.
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjetivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá, contudo, que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espetáculo externo de todas as impressões.Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta – estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade – um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.
Nada me satisfaz, nada me consola, tudo – quer haja sido, quer não – me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.
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Do Livro do Desassossego. Pelo semi-heterônimo Bernardo Soares. Organização de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
Há amigos que vêm e se vão. Há amigos que chegam e ficam para sempre. Luiz Adolfo Pinheiro foi um deles. Partiu prematuramente, na manhã da terça-feira de carnaval, 28 de fevereiro de 2006, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Naquela época, ele encarnava um sonho há muito perseguido, como um Dirceu que tinha, realmente, encontrado a sua Marília e podia dizer, abertamente, como seu conterrâneo Tomás Antonio Gonzaga: “Graças, Marília bela, graças à minha Estrela!”
Convivi com Luiz Adolfo durante muitos anos. Foi no Ministério da Educação, em Brasília, que nos conhecemos, onde ele fazia uma assessoria de comunicação social para o então ministro Ney Braga. Dali em diante estivemos em permanente contato social e profissional. Desenhei algumas capas de livros por ele escritos e participei de alguns de seus projetos editoriais, ele sempre cheio de criatividade. Em uma de suas dedicatórios em livro, ele definiu-me como “artifice e partícipe das aventuras brasilianas”.
Sofri com ele quando, num erro imperdoável, o incluiram no episódio dos anões do Congresso. Mais tarde o erro seria reconhecido, mas restaram cicatrizes. Ele havia feito uma reforma gráfica e editorial no Correio Braziliense, do qual era diretor de redação e o jornal, em vez de defendê-lo, optou pela medida mais simples, deixando-o sem emprego. Não sei se chegou a receber a indenização concedida pelos danos morais que sofreu, mas as marcas tristes não são apagadas por dinheiro nenhum.
O jornalista, escritor e poeta brasileiro Luís Adolfo Pinheiro nasceu em Prados, MG, em 1940. Fez seus primeiros estudos no Colégio Anchieta, de padres jesuítas, em Nova Friburgo (Rio de Janeiro). Começou no jornalismo como repórter do Correio de Minas, em 1962, de uma geração de jovens profissionais, como Moacir Japiassu, José Maria Mayrink, Carmo Chagas, entre outros. Trabalhou ainda no Estado de Minas, no Diário de Minas e no A Notícia. No Rio, foi de O Jornal e do departamento de pesquisa do Jornal do Brasil, quando ganhou o prêmio de reportagem do IV Centenário do Rio, com o pseudônimo de Flávio de Sá. Em 1968, mudou-se para São Paulo para compor o primeiro time da revista Veja, pela qual mudou-se para Brasília em 1970.
Na capital federal, comandou a sucursal de Veja e de O Globo. Foi superintendente da EBN (atual Radiobrás), redator, colunista e editorialista do Jornal de Brasília e do Correio Braziliense, onde criou os cadernos Mulher e Cidades, e do qual foi também diretor de Redação. Foi também editor da revista Rádio & TV, da Abert e fundador da revista Poder, voltada para a política em Brasília, e vice-presidente da Federação Nacional de Jornalistas, de 1996 até 1968.
Foi vencedor de vários prêmios jornalísticos, entre eles o do IV Centenário do Rio de Janeiro, outorgado pelo Jornal do Brasil (1965) e o Prêmio Esso Regional Centro-Oeste (1993), pelo Correio Braziliense.
Publicou ainda livros sobre a história política do País, como A Consciência Nacionalista; A Política Demográfica Brasileira; A Queda de Jango; A República dos Golpes; 3 X 30 – Bastidores da Imprensa;
e JK, Jânio e Jango, os Três Jotas que Abalaram o Brasil. São dele também as ficções Tocata & Fuga e Joel, um Justiceiro e preparava o lançamento de JK, Procura-se um Outro, em que narra a trajetória política de Juscelino Kubitschek.
Seu último cargo foi de assessor-chefe da Assessoria de Comunicação Social do Superior Tribunal de Justiça (STJ), convidado pelo presidente Edson Vidigal, cargo que assumiu em 5 de abril de 2004.
A Luiz Adolfo, o poeta amigo, minha homenagem, com a publicação de poemas seus em nosso Banco da Poesia. C. de A.
Morte
xxxxxxxxxxxxxxxx“Meu canto de morte,
xxxxxxxxxxxxxxxxxGuerreiros, ouvi!”
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx(Gonçalves Dias)
minha morte
como será?
morrerei de acidente
dor grito gente gente
entre sangue e gemido
menos só, mais coletivo
no seio da multidão xxxxxxxxxx– morrerei sem solidão?
minha morte
como será?
morrerei gasto, em desuso
de velhice velha e rabicho
que nem sabe se distingue
uma folha de um livro
um balanço de uma rede
uma palha de um caniço xxxxxxxxxx – morrerei confuso, disso?
minha morte
como será?
soleníssima rito quente
missa de corpo presente
flor coroa e rastro
de alguém que teve lastro
numa terra pó sem fim xxxxxxxxxx – morrerei de algo assim?
minha morte
como será?
morrerei de emboscada
morte quente e castigada
ou de pura sonolência
(sono de sonho e dolência)
numa tarde de janeiro
na Mantiqueira ou Florença xxxxxxxxxx –morrerei com minha essência?
minha morte
como será?
morrerei sem madrugada
no meio da noite, nada
no meio do dia, sem cada
pedaço que formei
com choro e sangue (sangrei) xxxxxxxxxx – morrerei, eu saberei?
minha morte
como será?
Invasão holandesa
xxxxxxxxxxxxxxxx“Ali andavam entre eles três ou quatro moças,
xxxxxxxxxxxxxxxxxbem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos
xxxxxxxxxxxxxxxxxe compridos pelas costas; e suas vergonhas,
xxxxxxxxxxxxxxxxxtão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras
xxxxxxxxxxxxxxxxxque, de as nós muito bem olharmos,
xxxxxxxxxxxxxxxxxnão se envergonhavam.”
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx(Carta a El Rei D. Manuel,
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxde Pero Vaz de Caminha, em 1500)
Jardim Menara, Marraquech - Foto de Marcin Sochacki, Polônia -
Se quiseres ver
tens de ir a Marraquexe
Há um contador de fábulas
que levanta pólen
formando romeiras,
a cada pancada de seu pé direito
e serpenteia cada braço
num rito consciente,
enquanto escuro o ventre palpita
retumbar ecoando sonhos
de tribos nômades perdidas,
presságios antigos
ainda não satisfeitos
a sua historia atendem
entusiastas as crianças,
os homem supõem visitar além o adentro
e as mulheres, por um segundo, evadem
libertadas de um severo olhar
as túnica gastas no vento
Se em verdade
abres os olhos
pode ser que penetres
por fim em Marraquexe
onda a luz solar flutua areia âmbar
o tempo é teu inconsciente
e aquele supor, agora faz parte
de um processo, pesado descanso
Na praça do enforcado estatuas vagueiam
e à cerimônia antiga, cumprido ritual,
as casas fazem círculos de adobe trás a lua
Senão foste flauta de alento
perde-te-ás
profundo no seu cetro
e já não poderás divisar sinais nas ringleiras
de palmeiras em sombra fresca
Não te será oferecida bem-vinda
nem avançar poderás
por estas portas sempre abertas
Para entrar em Marraquexe
é preciso deitar fora
toda carga que nos pese
______________
Artur Alonso Novelhe, poeta, vive na Galícia, Espanha.*O topônimo Marraquech (capital da região marroquina
Marrakech-Tensift-Al Hauouz) é utilizado, no Brasil, com ch final.
No poema, respeitamos a grafia do autor, que é também correta.
Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.
Na década de 50, quando estudava em Florianópolis, conheci um brilhante jovem português que havia acompanhado seu pai em várias jornadas, desde a saída da família de Portugal, em 1944. Convivemos, Pedro Manuel Agostinho da Silva e eu, durante alguns anos, no movimento escoteiro e consolidamos uma bela amizade, embora nossos destinos tivessem se orientado a diferentes geografias. Pedro Agostinho queria estudar Arqueologia, mas o Brasil não oferecia esse curso. Acabou optando por Antropologia, com mestrado na Universidade de Brasília, depois de cursar História na Universidade Federal Fluminense. E foi parar na Bahia, onde se tornou titular da cadeira de Antropologia, agora aposentado.
Por meio de Pedro Agostinho conheci seu pai, George Agostinho Baptista da Silva, então diretor do Departamento de Cultura de Santa Catarina. Ambos dividiam um apartamento em Florianópolis, perto da Praça Getúlio Vargas. Hoje a rua onde moravam não existe mais, ocupada por uma grande avenida. Mas a residência oficial da família era no interior da ilha, em Saco Grande, onde Judite, esposa de George, lá ficava com as crianças menores, durante a semana.
E vamos às revelações. Judite era filha do historiador português Jaime Cortesão, com quem George havia trabalhado, entre 1948 e 1954, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e na organização da exposição do 4º Centenário de São Paulo. E o prof. George – como todos o conheciam em sua temporada catarinense e que, para mim, era apenas o pai de Pedro, naquela época de adolescência – na realidade era um grande filósofo e poeta português, que andava pela terra descoberta por seu patrício Cabral desde que decidiu abandonar Portugal, em razão das dissensões com o governo de Oliveira Salazar, após curtas estadas no Uruguai e na Argentina.
Agostinho da Silva, redução nominal pela qual passou a ser conhecido no universo cultural, trabalhou muito por nosso país, após sua chegada, em 1947. Já em 1948 começou a trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, onde também estudou entomologia e, ao mesmo tempo, lecionou na Faculdade Fluminense de Filosofia. Com o historiador português Jaime Cortesão (seu ulterior sogro, no casamento com Judite Cortesão) colaborou em pesquisa sobre Alexandre de Gusmão. De 1952 a 1954, foi professor na Universidade Federal da Paraíba e também em Pernambuco.
Em 1954, como registrei acima, trabalhou novamente com Jaime Cortesão na organização da Exposição do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Na mesma década, mudou-se para Florianópolis, onde exerceu a função de diretor do Departamento de Cultura do Estado. Foi um dos fundadores da Universidade de Santa Catarina, criou o Centro de Estudos Afro-Orientais e ensinou Filosofia do Teatro na Universidade Federal da Bahia. Em 1961, tornou-se assessor para a política externa do presidente Jânio Quadros. Em suas andanças pela capital federal, participou na criação da Universidade de Brasília e do seu Centro de Estudos Portugueses, em 1962, e, em 1964, criou a Casa Paulo Dias Adorno, em Cachoeira, na Bahia (existente até hoje) e idealizou o Museu do Atlântico Sul, em Salvador.
Regressou a Portugal em 1969, após a doença de Salazar e a sua substituição por Marcello Caetano, já em época de abertura política e cultural. A decisão de retornar a Portugal também se deveu à sua discordância com o regime militar brasileiro instaurado à época. Na terra natal, continuou a escrever e a lecionar em diversas universidades portuguesas. Também dirigiu o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e foi consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, atual Instituto Camões.
Como literato, pontuou sua obra como filósofo, poeta e ensaísta. Seus exegetas registram que “seu pensamento combina elementos de panteísmo, milenarismo e ética da renúncia, afirmando a Liberdade como a mais importante qualidade do ser humano”. Agostinho da Silva é considerado um filósofo prático, dedicado à transformação da sociedade. Dedicou parte de seu trabalho à integração cultural entre Portugal e o Brasil. É considerado como um dos principais intelectuais portugueses do Século XX, Agostinho da Silva, nascido no Porto em 1906, é também reconhecido como um batalhador da integração cultural entre Portugal e o Brasil. Seu falecimento ocorreu em Lisboa, que acolheu a última fase de sua vida, a 3 de abril de 1994. Em 2006, o centenário de seu nascimento foi comemorado em Portugal e no Brasil.
Conheci Agostinho da Silva de raspão. Jovenzinho ainda desatento às grandezas do mundo, eu o via apenas como pai de meu amigo, embora já admirasse sua grande inteligência. Mas não sabia que estava convivendo com uma enorme personalidade da cultura portuguesa, assim reconhecido em pesquisa recente da RTP, na qual os portugueses elegeram as maiores figuras nacionais de sempre. Agostinho da Silva ficou em 21º lugar na votação do programa “Os Grandes Portugueses”, como um dos mais notáveis filósofos da história de Portugal. Comparado até a santo, como se registra no vídeo abaixo.
E também um dos mais paradoxais pensadores portugueses. O escritor Fernando Dacosta afirmou que, “para mim, é a personalidade mais marcante da segunda metade do século XX português, tal como Fernando Pessoa é da primeira metade. Conciliava um raciocínio rigorosíssimo com um mistério profundo das coisas. Conseguiu a harmonia de realidades verdadeiramente inconciliáveis.”
Agostinho da Silva se autodefiniu com a seguinte frase: “Não sou um ortodoxo nem um heterodoxo. Sou um paradoxo.”
_______________________
Uns poemas de Agostinho
1
A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.
2
Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus.
3
Pena que as revoluções
não as façam os tiranos
se fariam bem em ordem
durariam menos anos.
liberdade sairia
como verba de orçamento
e se houvesse qualquer saldo
se inventava suplemento
pagamento em dia certo
daria isto aquilo
o que sobrasse guardado
de todo o assalto a silo
mas o que falta aos tiranos
é só imaginação
e o jeito na circunstância
é mesmo a revolução.
4
O que escrevo de versinho
e na verdade o que sinto
mas porque procuro a forma
de qualquer maneira minto
o que eu quero era poder
dar naquilo que escrevesse
de tal modo o que me sou
que a todos aprendesse
sem os prender no entanto
deixando-os livres de ser
mas que sentissem então
o que eu fosse sem dizer
ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se o não for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.
5
Vieram com Lutero os vendilhões do templo – e o Sol se cobriu;
Vieram com os Césares os fumosde mandar – e o Sol se cobriu;
Vieram com Trento os autos-de-fé – e o Sol se cobriu; xxxxxe nunca mais Portugal foi luz.
Porque, porém, dobrou o joelho – eis aí a pergunta;
Porque é tão fácil, entregou o guerreiro a sua espada – eis aí a pergunta;
Porque foi tão fácil, renunciou o monge à sua alma– eis aí a pergunta; xxxxxa pergunta que, sem resposta, fez da Nação um luto.
Inês o sabe e não perdoa – que por ela pecaram os portugueses;
Fernando o o sabe e não perdoa – que por ele pecaram os portugueses;
África o sabe e não perdoa – que por ela pecaram os portugueses; xxxxxcurva o remorso as frontes, abate a pena as mentes.
Só pagará a dívida o que em mim for frade – num só claustro, o mundo;
Só pagará a dívida o que em mim for braço – de meu irmão ajuda;
Só pagará a dívida o que em mim for nada – perante um Deus que é Tudo; xxxxxcomo se Portugal inteiro em mim coubesse.
xxxxxxxxxxxDo livro Uns Poemas de Agostinho – Editora Ulmeiro: Lisboa, 1990
Aquí estoy con mi pobre cuerpo frente al crepúsculo
que entinta de oros rojos el cielo de la tarde:
mientras entre la niebla los árboles oscuros
se libertan y salen a danzar por las calles.
Yo no sé por qué estoy aquí, ni cuándo vine,
ni por qué la luz roja del sol lo llena todo;
me basta con sentir frente a mi cuerpo triste
la inmensidad de un cielo de luz teñido de oro.
la inmensa rojedad de un sol que ya no existe,
el inmenso cadáver de una tierra ya muerta,
y frente a las astrales luminarias que tiñen el cielo,
la inmensidad de mi alma bajo la tarde inmensa.
Aqui estou com meu pobre corpo frente ao crepúsculo
que entinta de ouros vermelhos o céu da tarde:
enquanto entre a névoa as árvores escuras
se libertam e saem a dançar pelas ruas.
Eu não sei por que estou aqui, nem quando vim,
nem por que a luz vermelha do sol preenche tudo;
basta-me sentir frente a meu corpo triste
a imensidão de um céu de luz tingido de ouro,
a imensa vermelhidão de um sol que não mais existe,
o imenso cadáver de uma terra já morta,
e frente às astrais luminárias que tingem o céu,
a imensidão de minha alma sob a tarde imensa.
xxxxxxxxxxxxxVersão ao Português e ilustração: C. de A.
O Prêmio NÓSSIDE é um Projeto global fundado em 1984 e dedicado à poetisa Nósside de Locri, do III séc. a.C.. Promovido pelo Centro Studi Bosiode Reggio Calabria e reconhecido pela UNESCO, por meio de seu programa Aliança Global UNESCO PARA A DIVERSIDADE CULTURAL
XXV PRÊMIO NÓSSIDE INTERNACIONAL – 2009 Plurilinguístico e Multimedial
Único Prêmio Global de Poesía sem fronteiras de línguase de formas de expressão _____________________________________________________ Cinco línguas oficiais (italiano, espanhol, inglês, francês, português) e todas as outras línguas do mundo (nacionais, originárias, minoritárias, dialetos) _____________________________________________________
Para o Vencedor Absoluto: 2.000 €uros e a Placa em prata, de Gerardo Sacco
Para cada um dos 4 Vencedores: 1.000 €uros e a Placa Nósside, de UmbertoBoccioni
Para cada uma dos 10 Mencionados Especiais: 600 €uros e a Placa Nósside, de Boccioni
Para cada um dos 20 Mencionados Distintos: Medalha Nósside e Atestato
Três Poemas do Vencedor Absoluto e uma poesia de cada Vencedor, Mencionado Especial, MencionadoDistinto e Mencionado na Antologia Plurilinguística e Multimedial “Nósside 2009”
O Prêmio Internacional Nósside, Plurilinguístico e Multimedial, é o único concurso global de poesia para obras inéditas e jamais premiadas no mundo, sem confins de línguas e de formas de comunicação e faz parte da Unesco World Poetry Directory.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxde Manoel da Andrade para Isabela
Teus olhos,
abrem o mundo…
inauguram o destino…
Teu ser…
luz que escavou o ventre em busca do amanhecer,
é a véspera de toda ventura
o talvez de tudo
uma aurora retirada do mistério.
Passo a passo… e encantada…
ressurgiste na semente peregrina
caminhando como seiva palpitante.
Penetraste nos segredos da criatura
decifrando os idiomas do encanto.
Atravessaste as fronteiras do impasse
e de forma em forma, de reino em reino,
pelas fácies primordiais da vida,
gestada pelo código das espécies
pelo tempo imensurável dos enigmas
e por esse umbilical território da beleza… tu chegaste!
Retomas com o véu do esquecimento desterrando sombras
e anunciando a esperança.
E agora já és promessa e reencontro,
um botão se entreabrindo num parto de louvores
e assim… eis a rosa…
a rosa amanheci da
a flor… enfim…
a flor imprescindível.
Teus olhos
corolas cristalinas de ternura
âncoras da luz e do silêncio,
são retratos adormecidos de outras eras
sóis que acordarão novas primaveras
cantiga antecipada de lirismo
invadindo a aldeia da minha melancólica poesia.
Dádiva perfeita
viandante de todos os caminhos
filha milenar do tempo e das estrelas…
o meu amor apenas germinou teus passos
e construirá contigo um caminho para o sol.
Curitiba, esboçado em junho de 1980
e reescrito em junho de 2004
Do livro Cantares, Escrituras Editora, 2007
Ilustração: Cleto de Assis
Alfonsina Storni nasceu em Sala Capriasca, Suíça, em 29 de maio de 1892. Imigrou com os seus pais para a província de San Juan na Argentina em 1896. Em 1901, muda-se para Rosario (Santa Fé), onde tem uma vida com muitas dificuldades financeiras. Trabalhou para o sustento da família como costureira, operária, atriz e professora.
Descobre-se portadora de câncer no seio em 1935. O suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, em 1937, abala-a profundamente.
Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto Voy a Dormir, que aqui reproduzimos.
Consta que suicidou-se andando para dentro do mar — o que foi poeticamente registrado na canção Alfonsina y el mar, gravada por Mercedes Sosa (veja abaixo). Seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938. Alfonsina tinha 46 anos. (extrato de Wikipédia)
Deixou dez livros de poesia, duas peças teatrais e um volume de ensaios. Toda sua obra reflete dramatismo, luta e uma audácia inusual para a época. Sua temática é, sobretudo, amorosa, feminista e profunda, onde se nota um caráter singular, muitas vezes marcado pela neurose.
Voy a dormir
Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.
Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.
Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases
para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido…
Vou dormir
Dentes de flores, touca de de orvalho,
mãos de ervas, tu, fâmula fina,
deixa-me prontos os lençóis terrosos
e o cobertor de musgos cardados.
Vou dormir, aia minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
uma constelação; a que mais gostes;
todas são boas; baixa-a um pouquinho.
Deixa-me só: ouves romper os brotos…
te nina um pé celeste lá de cima
e um pássaro te traça alguns compassos
para que esqueças… Obrigada. Ah, um encargo:
se ele novamente chamar por telefone
tu dirás que não insista, que eu saí…
¡Adiós!
Las cosas que mueren jamás resucitan,
las cosas que mueren no tornan jamás.
¡Se quiebran los vasos y el vidrio que queda
es polvo por siempre y por siempre será!
Cuando los capullos caen de la rama
dos veces seguidas no florecerán…
¡Las flores tronchadas por el viento impío
se agotan por siempre, por siempre jamás!
¡Los días que fueron, los días perdidos,
los días inertes ya no volverán!
¡Qué tristes las horas que se desgranaron
bajo el aletazo de la soledad!
¡Qué tristes las sombras, las sombras nefastas,
las sombras creadas por nuestra maldad!
¡Oh, las cosas idas, las cosas marchitas,
las cosas celestes que así se nos van!
¡Corazón… silencia!… ¡Cúbrete de llagas!…
¿de llagas infectas? ¡cúbrete de mal!…
¡Que todo el que llegue se muera al tocarte,
corazón maldito que inquietas mi afán!
¡Adiós para siempre mis dulzuras todas!
¡Adiós mi alegría llena de bondad!
¡Oh, las cosas muertas, las cosas marchitas,
las cosas celestes que no vuelven más! …
Adeus!
As coisas que morrem jamais ressuscitam,
as coisas que morrem não voltam jamais.
Quebram-se os vasos e o vidro que resta
é pó para sempre e por sempre será!
Quando os botões despencam dos ramos
duas vezes seguidas não florecerão…
As flores mutiladas pelo vento ímpio
se esvaem para sempre, jamais voltarão!
Os dias acabados, os dias perdidos,
os dias inertes não mais tornarão!
Que tristes as horas que se debulharam
sob os ásperos golpes da solidão!
Que tristes as sombras, as sombras nefastas,
as sombras criadas por nossa maldade!
Oh, as coisas idas, as coisas murchadas,
as coisas celestes que nos abandonam!
Coração… silencia!… Cobre-te de chagas!…
De chagas infectas? Cobre-te de mal!…
Que tudo o que chegue faleça ao tocar-te,
coração maldito que inquietas minha ânsia!
Adeus para sempre, ó delícias todas!
Adeus alegria plena de bondade!
Oh, as coisas mortas, as coisas murchadas,
as coisas celestes que não voltam mais! …