Dante convida

Dante Mendonça, jornalista, cartunista e escritor – é membro da Academia Paranaense de Letras –,  apresenta mais uma novidade em sua obra artística: uma exposição de aquarelas, instalada na sede da Aliança Francesa de Curitiba, na rua Prudente de Moraes, 1101. A abertura será no próximo dia 03 de novembro, às 19 horas. A mostra ficará aberta ao público até 02 de dezembro.

Desejamos ao Dante pleno sucesso em mais esta faceta de sua veia artística.

O que é Poesia? (1)

O nosso poeta Manoel de Andrade deixou momentaneamente a poesia em hibernação e mergulhou na prosa. Há vários meses se concentra em reunir memórias de sua peregrinação pelo Brasil e pela América Latina, quando assumiu um auto-exílio, na época do governo militar. Inconformado pela perda de um diário, em um dos últimos percursos de sua caminhada pelo continente, no qual registrava a memória daqueles dias de cavaleiro andante, Maneco (como o chamamos os amigos) tenta recuperar a riquíssima experiência em um livro de memórias com o título provisório de “O Bardo Errante”.
Recentemente, um blog de Portugal – Livres Pensantes, do Algarve –  descobriu seus poemas e passou a publicá-los, assim como artigos seus também publicados na rede. Feita a aproximação, M.A. cedeu um fragmento do livro ainda inédito, que pode ser lido aqui.

De certa maneira, podemos ver em Manoel de Andrade um lampejo de Telêmaco, filho de Ulisses, descrito por Homero também como alguém que andou “errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de” projetar sua voz em direção à liberdade e à solidariedade humana.

Cumprimentando-o por mais essa conquista de sua odisséia poética, fazemos uma homenagem com a publicação de um poema seu, ainda inédito na nuvem internética. Como numa sequencia ao post anterior, ele procura respostas para a eterna pergunta: o que é Poesia?

O que é a poesia…, meu irmão?

a Maria da Graça Andrade

A poesia, Gracinha
não é somente teu sonho
tua paixão de menina…
é a respiração suspensa
por tudo que desatina
é tua voz de criança
o abc que te ensina
a soletrar esperança
é a região proibida
para os que não sabem ver
é onde me despojo e morro
pra me sentir renascer.

A poesia, Gracinha
é cada grão que germina
é o corpo do camponês
inclinado sobre a terra
semeando a própria dor
são os ombros do proletário
suportando no salário
o peso imenso da vida.

A poesia, Gracinha
é o nosso maior pecado
é a flor que o homem pisa
neste mundo devastado
é tudo que agoniza
pelo nosso esquecimento
é nossa vida vivida
além deste eterno momento
é a fome de cada dia
protelada sempre em vão
é a própria sede da terra
sem a chuva de verão.

A poesia, Gracinha
está na raiz do amor
em toda coisa criada
e no ato do Criador
está no macho sobre a fêmea
no pólen gerando a flor
na jornada das abelhas
na flor transformada em mel
está no salto incontido
do filhote em busca do céu
no vôo da mariposa
latente numa crisálida.
Por traz da humana  crueza
a poesia, Gracinha
é o amor parindo a vida
no ventre da natureza.

A poesia, Gracinha
são teus olhos debruçados
numa aurora de verão
é o vulto da minha dor
boiando na solidão
é minha infância num tempo
que o rio escorreu pro mar
é o amor feito  lenha
ardendo no teu olhar
é a rubra flor do teu corpo
desabrochando o desejo
a inocência transformada
numa árvore de beijos
é o lirismo que assoma
no rosto da minha amada
quando meu canto ilumina
os passos da madrugada
é o nosso olhar batendo
nos olhos de quem se amou
a vida buscando a gente
no que a saudade deixou.

A poesia, Gracinha
é minha forma de morrer
quando tenho que cantar
toda dor que me transtorna
é a angústia de te dar
meu canto desfigurado
pelo áspero fardo de dor
que amarga meu sorriso
ao sentir que desfaleço
quando contemplo meu povo
com suas mãos algemadas
caminhando para o abismo
nesta pátria engatilhada
é este jeito de sentir
minha dor multiplicada
pela fé que não me mude
quando o asfalto se mancha
com o sangue da juventude.

A poesia, Gracinha
é o delírio de ver
o homem ensaiar tão alto
a dimensão do seu salto
e a tristeza de saber
que embaixo tanto lhe falta
tornando assim prematura
a vertigem  do astronauta.

A poesia, Gracinha
é uma canção operária
trabalhando solitária
na reconstrução do homem.
É a palavra feita canto
o canto feito esperança
de todo pão repartido
no gesto amplo e fraterno
de um tempo enfim ressurgido.

A poesia, Gracinha
se a mim cabe definir…
é o clarim que anuncia
ao homem que ainda um dia
cansado dos seus enganos
despertará comovido
garimpando atrás dos anos
a fala imensa do amor.

A poesia, eu te digo,
é o gesto dilatado
de toda mão estendida
é o doce sabor dos frutos
a face amarga do mundo
a eterna canção da vida.

Curitiba, outubro de 1968
________________________

Iustração: C. de A.

O que é Poesia? (2)

No início de vida do Banco da Poesia  publicamos uma página especial do com este título. Vários poetas deram suas opiniões e as definições mostraram que Poesia – assim como todas as artes – tem tantas definições quanto a multidão de almas que já habitou, habita e ainda viverá neste pontinho ínfimo do cosmos. Mas a profusão de significados só amplia a beleza dessa arte antiga, protegida por três entre as nove musas gregas.

E prosseguimos com a busca por mais interpretações, porque, afinal, a poesia se alimenta de metáforas. Assim, ampliamos nossa página O que é Poesia, depois de intensa garimpagem. Ela está aberta para todos os que desejarem contribuir.

Para completar, um recadinho de Carlos Drummond de Andrade aos poetas, sobre o que não é poesia.

Não faças poesias com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão inofensivo à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me revele seus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

¡Bienvenido, Eduardo Masullo!

Conheci Eduardo Masullo há cerca de três anos. Ele vivia na Colômbia e veio a Curitiba cumprir uma missão educacional. Convivemos por cerca de uma semana e, já no final de sua visita, descobrimos (eta, mundo pequeno!) que tínhamos amigos comuns. Em 2010, depois de longo tempo sem notícias suas, descobri que ele estava de volta à sua terra e passamos a nos corresponder. Revelou-me outra faceta de sua criatividade,  a literatura. Enviou uma boa coleção de poemas para o Banco da Poesia, que passamos a publicar, a partir de hoje. Tive o prazer de passá-los ao Português. Junto a seus poemas, veio uma pequena descrição do autor, com a mesma concisão de seu estilo poético.

“Nasci em Buenos Aires, em Villa Devoto. Um bairro de classe média acomodada, amigável, estável, com valores às vezes firme, onde uma criança podia amadurecer como um gato: distanciando-se, a cada dia, um metro a mais de sua casa,  de forma gradual, até chegar ao mundo.”
“Estudei sociologia. Publiquei um livro de poesia (Empezar en Buenos Aires) e um romance (Quién mató a Iadira Salazar), além de uma série de poemas e contos em várias publicações. Traduzi Henry James, Melville, Gore Vidal etc. Além de livros de sociologia. Trabalhei como publicitário em Buenos Aires, Colômbia e Venezuela. Vivo em Buenos Aires e, para mais dados, meu endereço é emasullo@gmail, por meio do qual qual responderei com muito prazer.”

¡Bienvenido, hermano Eduardo!

Los Guerreros

Todo triunfo lleva a la muerte.
A los enemigos muertos
la próxima guerra los ascenderá a estatuas,
afortunadamente,

Si no hay guerra
el sol no dice nada
la amistad no existe.
Si no hay guerra
cómo vas a hacer amigos?

Un enemigo muerto
no es un enemigo,
tampoco un amigo,
es un odre de ausencia.
Hagamos de él,
ya mismo,
una estatua
para la próxima guerra
que ya vendrá.

Os Guerreiros

Todo triunfo leva à morte.
Aos inimigos mortos
a próxima guerra os ascenderá a estátuas,
afortunadamente,Se não há guerra
o sol não diz nada
a amizade não existe.
Se não há guerra
como vais fazer amigos?Um inimigo morto
não é um inimigo,
tampouco um amigo,
é um odre de ausência.
Façamos dele,
agora mesmo,
uma estátua
para a próxima guerra
que já virá.

9/7/2010

El hombre araña

Atrapado en esta red de palabras
Que es el mundo,
Me creo un poeta.

O homem aranha

Pegado a esta rede de palavras
que é o mundo,
me creio um poeta.

Tanto andar

Y nunca llego a ninguna parte.
Bajado del avión,
andando el pasillo de los aeropuertos,
miro a mis espaldas
y sé que algo no ha llegado,
algo que no perdí, que no está allí,
que sencillamente no está ya conmigo.

¿Qué es lo que dejo?
Una pierna, un brazo.
Algo que llevo doble –
¿Un testículo? ¿La mitad
De las ganas de vivir?

¿Cómo seguiré,
de ahora en adelante,
sin saber lo que he dejado?,
Lo que me ha abandonado
en estos pasillos que llevan
a todas las nadas?

¿El recuerdo de una lluvia,
la caricia de tus dedos
sobre mis dedos; de tus ojos
sobre mi mirada; de tu garúa vieja
sobre mi soledad apenas?

O será mi soledad, vieja traidora,
la que he abandonado perdida para siempre?

Ya he mirado para atrás
completamente. Y no he visto nada.
es hora de volver a andar,
viejo camarada.
Otras lluvias, otras soledades,
otras ciudades,
la pesadez mayor en las rodillas,
hay que andar, hay que andar,
preparando el gran viaje
sin saberlo, cuando ya no haya siquiera
nadie que vuelva la cabeza.

Tanto andar

E nunca chego a nenhuma parte.
Baixado do avião,
andando pelos corredores dos aeroportos,
olho em minhas costas
e sei que algo não chegou,
algo que não perdi, que não está ali,
Que simplesmente já não está comigo.

Que é o que deixo?
Uma perna, um braço.
Algo que carrego em duplo –
Um testículo? A metade
da vontade de viver?

Como seguirei,
de agora em diante,
sem saber o que deixei?
O que me abandonou
nestes corredores que levam
a todos os nadas?

A lembrança de uma chuva,
a carícia de teus dedos
sobre meus dedos; de teus olhos
sobre meu olhar; de tua garoa velha
sobre minha solidão apenas?

Ou será minha solidão, velha traidora,
a que abandonei perdida para sempre?

Já olhei para trás
completamente. E não vi nada.
É  hora de voltar a andar,
velho camarada.
Outras chuvas, outras solidões,
outras cidades,
o peso maior nos joelhos,
há que andar, há que andar,
preparando a grande viagem
sem sabê-lo, quando já não haja sequer
ninguém que volte a cabeça.

11/7/2010
Versão e ilustrações: C. de A.

Canto esperançoso de Vera Lúcia

Vera Lúcia Carmona, ou Vera Lúcia Kalahari, dona do blog Infinito, editado em Portugal, é uma das mais assíduas correntistas do Banco da Poesia. Jornalista e escritora, além de sensível poeta, ela vive ora em Portugal, ora em Angola ou em suas rotas africanas, continente no qual nasceu e por onde perambula com suas esperanças por um mundo melhor. Como sua conta corrente não foi ampliada nos últimos meses (mais por culpa do gerente do Banco), fui a seu blog e emprestei, segundo as regras bancárias, um lindo poema seu, que vai abaixo. Saudades, Vera Lúcia!

Cântico dos cânticos

Queria ter confiança na eternidade
e na terra da verdade…
Queria nunca m’esquecer
que volta sempre a primavera
qu’entre pedras faz nascer rosas…
Queria deixar de ser este mar morto
mar sem ondas e sem portos…
Queria deixar de mendigar
no silêncio das noites escuras
caminhando por ermas estradas
sem saber pra onde vou.
Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha
quem pisou minhas ilusões desfolhadas…
Queria ser a manhã qu’apaga estrelas
e encontrar amor em todas elas…
Queria ser a perdida, a que não s’encontra
aquela que ninguém conhece,
a rutilante luz dum impossível…
Queria deixar de segurar nas mãos
o bem que nunca é meu
e encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…
Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta…
Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…
Nos que choram em insanas guerras…
Nos que mentiram e nos que mentem…
Não ter pena dos que em má hora nasceram…
Queria ter asas para voar e ser na fé
na agonia dum moribundo…
Queria ser tudo…e não sou nada.

Vera Lucia

Ilustração: C. de A,

Novamente, o Nobel de Literatura de 2011

O Banco da Poesia já publicou a notícia da premiação do Nobel de Literatura de 2001 (veja aqui), destinada ao poeta sueco Tomas Traströmer. A repersussão do prêmio, no Brasil, foi mínima, embora seja importante destacar que foi um porta a mercê-lo, entre tantos escritores de renome na literatura universal contemporânea.

Vamos dar um repeteco, com um artigo publicado na Espanha, onde seus versos são mais conhecidos, pois já existem algumas traduções feita no idioma de Cervantes.

Primeiro poeta sueco em receber um Nobel de Literatura

Entre os nominados ao premio se encontrava Murakami*, um autor que, mesmo com muitos admiradores, tem vários inimigos entre os críticos, que crêem que o único que lhe favoreceu como autor foi haver nascido em uma época propensa, mas que deixa muito a desejar, no sentido literário.
Além dessa – e realmente uma das nominações mais surpreendentes – foi a de Bob Dylan**, um cantor norte-americano de muito prestígio, mas cuja lírica não pode, nem de começo, competir com a de Trastömer e de tantos outros poetas contemporâneos.

Tomas Traströmer nasceu em15 de abril de 1931 na cidade de Estocolmo, a capital da Suécia. Desde muito jovem se vinculou com as letras, chegando a converter-se em um importante poeta em sua terra.

Em 1990 sofreu um acidente vascular que lhe tirou grande parte de sua motricidade e afetou  consideravelmente sua capacidade de falar. O poeta assegurou, em reiteradas entrevistas, que graças à poesia e à música pode superar esse momento crucial e doloroso em sua existência.

Metáforas para entender a realidade

A poesia de Trastömer se caracteriza por apresentar a realidade de uma forma metafórica, porém sumamente acessível. O faz de uma maneira tão clara e espontânea que permite uma leitura amena, mas não pouco profunda. Em poucas palavras, sua obra ajuda a entender o mundo através de imagens, cores e, sobretudo, sons.

Na obra de Trastömer se pode apreciar un compromisso comparável com qualquer poeta ou escritor europeu de seu tempo: uma necessidade que chega a converter-se em obsessão por conseguir reconstruir uma realidade feita em pedaços, com as consequências da Segunda Guerra Mundial.

Em sua obra “Los recuerdos me miran” (As recordações me olham), Trastömer deixa que as páginas se impregnem de memória, de inventadas histórias que habitam em seu interior, de seres que preencheram sua existência e agora já não estão, de fantasmas…

Numa manhã de junho é muito cedo
para despertar, mas tarde para dormir de novo.
Devo ir à relva que está cheia
de recordações, que me seguem com o olhar.
Não se veem, misturam-se completamente
com o fundo, camaleões perfeitos.
Tão perto que os escuto respirar
apesar do estridente canto dos pássaros.

O artista que há em Trastömer

De qualquer maneira,  estamos não somente frente a um grande poeta e escritor, mas também diante de um artista em corpo e alma, que sabe tocar o piano e tem uma conexão muito forte com a música em geral.

Por outro lado, ele colaborou, como psicólogo, em uma instituição de internação de menores em Roxtuna, colaborando com a reaproximação desses jovens à realidade, em uma tentativa de entregar-lhes formas novas de encarar e ver a vida e de entender as relações que os seres humanos estabelecemos com a própria realidade.

Em razão de provir de um país cuja língua  não é de todo universal, a poesia de Tranströmer não é muito conhecida. Entretanto, ele foi galardoado com o Nobel, pois seu trabalho não poderia passar despercebido.

Este poeta é um verdadeiro apaixonado pela arte da escritura e a prova clara disto é que, em seguida a seu acidente, no qual perdeu a fala e muitas de suas faculdades motoras, Trastömer aprendeu a escrever com a mão esquerda, para não cessar seu trabalho, para não abandonar aquilo que amava, uma das razões que lhe permitia existir.

Dissidências sobre a entrega do Nobel

A concessão do Nobel de Literatura a Tomas deu muito o que falar. Muitos meios de comunicação se colocaram totalmente contra a entregado prêmio, posto que ele não é, na verdade, um poeta conhecido internacionalmente. No entanto, muitos opinam que foi uma premiação acertada.

De vez em quando é bom que a Academia Sueca atenda nomes de bonss escritores e poetas, mesmo que não sejam mediáticos, pois por experiencia sabemos que não necessariamente os mais lidos são os melhores.

Além disso, oreconhecimento de Trastörmer põe em evidencia que existem muitos nomres, alguns como o seu, pouco conhecidos forra de seu país, e outros no mais absoluto anonimato, que têm algo para oferecer e que merecem nosso reconhecimento. (Por Téxil Gardey, redatora do site Poemas del Alma, Espanha)

__________________
* Haruki Murakami (12 de janeiro de 1949), escritor e tradutor japonês.
** Bob Dylan ( 24 de maio de 1941), músico, cantor, compositor, poeta e pintor norte-americano. (notas do Banco da Poesia)

Hélio de Freitas Puglielli: biopoética de Brecht

Visita ilustre: veio até o Banco da Poesia Hélio de Freitas Puglielli, correntista que há muito não comparecia. Trouxe mais depósitos, capeados por simpático recado: ” Querido Cleto, salve! Andei uns tempos fora de órbita, mas agora estou gravitando em torno do seu Banco de Poesia, que está excelente e super atualizado. Admirei, entre outros tópicos, a oportuna tradução e publicação de versos do prêmio Nobel de Literatura 2011, o que, nos velhos tempos da influência francesa, chamava-se de ‘morceaux choisies’ (trechos escolhidos). Também vi que, em 30 de setembro, você rendeu homenagem a Brecht, a quem admiro imensamente. Tanto que havia escrito, tempos atrás, uma espécie de ‘mini-biografia poetizada’. Sei que a sua ‘carteira de depósitos’ está sobrecarregada, mas, se houver espaço e apesar da greve, meu texto aí está.”

E seu texto, sempre bem-vindo, aqui vai.

Olhando Bert Brecht

Em 1927 você foi fotografado por Konrad Ressler.
Era jovem de menos de 30 anos,
mas já tinha três filhos com três mulheres
e estava legalizando a separação com Marianne Zoff
(a primeira com que casou, a segunda que fez mãe).
Disso nada falam o nariz reto,
um pouco arrebitado,
e o olhar sereno e altivo.
O pai de Frank, Hanne e Stefan
sorri levemente,
apesar da tensão dos lábios em torno do charuto.
Veste sobretudo de couro negro, abotoado até o pescoço,
como pressentindo que logo ficaria de luto pela Alemanha
e por si mesmo.
Na aparência olha para frente,
mas as pupilas infletem minimamente para baixo,
o suficiente para dar a impressão de que sua visão defronta-se com a História.
E os ventos da História em seguida te arrastaram pela Europa,
Dinamarca, Finlândia, Suíça, Áustria, Checoslováquia,
até atravessar a URSS e chegar ao porto de Vladivostok,
onde, singrando o Pacífico, o navio te levou aos EUA.
E agora te reencontro, na foto de Gerda Goedhartd,
um homem de 55 anos,
que do jovem só conserva a testa e as espessas sobrancelhas.
O nariz como que se abateu sobre si mesmo,
marcado pelas bochechas fofas e as asas gordas das narinas.
Há um charuto nos lábios,
mas tornou-se necessário o indicador em anzol para também sustentá-lo.
A fisionomia triste fala das vicissitudes em Hollywood,
das entrevistas com os inquisidores à cata de comunistas nacionais e estrangeiros.
Mas o olhar acabrunhado deve refletir a morte do filho Frank,
um dos tantos que tombaram nos campos gelados da Europa Oriental.
Hitler conseguiu matar seu filho, um entre tantos milhões de jovens alemães
amortalhados nos campos de batalha.
Bert Brecht, que sempre lutou pela paz e a justiça,
suga amargamente o indefectível charuto.
Houve certamente a alegria de voltar a Berlim e montar suas peças.
Elas foram encenadas e premiadas também na Europa Ocidental e nos EUA.
Essa alegria você teve em vida,
talvez como compensação ao dissabor de ver que a RDA não era bem a dos teus sonhos.
Mas Brecht, que se preocupava demais com a humanidade e o futuro,
está triste e pensativo na foto de 1953.
Três anos mais tarde estaria livre de todas preocupações
e a nós compete fazer com que seus textos, sim, não morram,
pois sempre haverá alguém assim para defender a dignidade de todos os homens.

Helio de Freitas Puglielli

Ilustração: montagem de C. de A. sobre fotos de Konrad Ressler e Gerda Goedhartd

E o Nobel de Literatura de 2011 vai para… Poesia!

Poeta sueco ganha o Nobel de Literatura

Foto: Sophie Bassouls

Tomas Tranströmer nasceu em Estocolmo, Suécia, em 15 de abril de 1931. Frequentou a Universidade de Estocolmo, onde estudou psicologia e poesia. Considerado um dos poetas mais importantes da Suécia, Tranströmer já vendeu milhares de volumes em seu país natal e sua obra foi traduzida para mais de cinquenta línguas. Seus livros de poesia em Inglês incluem The Sorrow Gondola (Green Integer, 2010); New Collected Poems (Livros Bloodaxe, 2011); The Great Enigma; New Collected Poems (New Directions, 2003); The Half-Finished Sky (2001); New Collected Poems (1997); For the Living and the Dead (1995); Baltics (1974); Paths (1973); Windows and Stones (1972, e Seventeen Poems (1954).

Seu trabalho mudou gradualmente da tradicional e ambiciosa poesia sobre a natureza, escrita em seus primeiros vinte anos, em direção de um verso mais obscuro, pessoal e mais aberto. Seus poemas se dirigem para o vazio, no esforço de entender e lidar com o desconhecido, em busca de transcendência.
“Eu sou o lugar / onde a criação trabalha por si mesma”, declara em seu poema The Outpost, sobre a qual escreveu “Esse tipo de idéia religiosa recorre aqui e ali, em meus últimos poemas, no que eu vejo uma espécie de significado em estar presente, no uso da realidade, em experimentá-la, em fazer algo dela. ”

Tranströmer é o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2011. Suas outras honrarias e prêmios incluem o Prêmio Literário Aftonbladets, o Prêmio de Poesia Bonnier, o Prêmio Neustadt International de Literatura, o Prêmio Oevralids, o Prêmio Petrach, na Alemanha, e o Prémio da Suécia do Fórum Internacional de Poesia.

Lecionou em muitas universidades norte-americanas, muitas vezes com o poeta e amigo Robert Bly. Tranströmer é um respeitado psicólogo e já trabalhou em uma prisão juvenil, com viciados em drogas. Ele vive com sua esposa Monica em Vasteras, a oeste de Estocolmo. Tranströmer sofreu um acidente cérebro-vascular em 1990 que o deixou parcialmente paralisado e incapaz de falar. No entanto, continuou a escrever e a publicar seus trabalhos até os primeiros anos deste Século. Seu último trabalho original, The Great Enigma, foi publicado em 2004. Desde então, deixou de escrever. Mas não abandonou a arte: também pianista, ainda consegue tocar, embora com apenas uma das mãos.
Tranströmer não tem, até agora, sua obra publicada no Brasil. Com a notícia do prêmio, a Biblioteca Nacional publicou hoje, em seu site (http://www.bn.br/portal/) notícia que a sua coleção Poesia Sempre, de nº 25, publicou hai-kais de autoria do poeta sueco, com tradução de Marta Magalhães de Andrade.
Abaixo, três das onze estrofes publicadas, conforme divulgação da BN,

Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Para não deixar de apresentar o novo Nobel de Literatura aos leitores do Banco da Poesia, ousei recolher alguns poemas publicados em Espanhol e os traduzi para nossa língua. Espero que essas versões, em razão da triangulação idiomática, não tenham se distanciado em excesso da poesia de seu autor. Os três poemas pertencem a seu livro Sorgegondolen, Ed. Bonniers, Estocolmo, 1996 ( traduzido para o Espanhol como Góndola Fúnebre).

Amor e silêncio

A primavera jaz deserta.
A vala, escura como veludo
se arrasta junto a mim
sem espelhismos.

Somente irradiam
as flores amarelas.

Sou levado em minha sombra
como um violino
em sua caixa negra.

O único que quero dizer
reluz fora de alcance
como a prataria
na casa de penhores.

 O reino da inseguridade


A chefe do escritório se inclina e traça uma cruz
e oscilam seus brincos como espadas de Dâmocles.

Assim como a frágil borboleta se faz invisível no solo
conflui o demônio com o diário aberto.

Um capacete que  ninguém conduz tomou o poder.
A tartaruga-mãe foge voando sob a água.

Folha de livro noturno

Em uma noite de maio aterrizei
em um frio luar
em que a erva e as flores eram grises
mas seu aroma, verde.

Resvalei costas acima
na noite daltônica
enquanto as pedras brancas
assinalavam a lua.

Um espaçotempo
de alguns minutos
cinquenta e oito anos de largura.

E atrás de mim
além das águas reluzentes qual chumbo
estavam a outra costa
e os poderosos.

Gentes com futuro
em vez de rosto.

Ilustrações: c. de assis

Morre o homem que mudou a história das últimas gerações

Sem a sua criatividade e sua persistência, talvez não estivéssemos aqui, reunindo-nos na nuvem internética sempre que desejamos. Ou talvez estivéssemos nos comunicando em diferentes formas. Há quinze anos ele afirmou: “Picasso tinha um ditado: ‘ bons artistas copiam, grandes artistas roubam’. Sempre tivemos vergonha sobre roubar grandes idéias… Acho que parte do que tornou grande o Macintosh é que as pessoas que trabalham nele são músicos, poetas, artistas, zoólogos e historiadores, que também passaram a ser os melhores cientistas de computação do mundo .” O certo é que Steve Jobs soube perceber que o mundo eletrônico é rapidíssimo e apressou esses encontros imediatos com suas criações geniais. Do Apple I ao iPad foram apenas 30 anos. Tivesse a vida lhe reservado mais vinte ou trinta, aonde chegaria? (C. de. A.)

Ser o homem mais rico do cemitério não me importa … Ir para a cama à noite, dizendo que fizemos algo maravilhoso… é isso que importa para mim. “

Steve Jobs

Mais um Pessoa português

Um poeta português de hoje, a mim aprsentado por meu amigo João Defreitas: Joaquim Pessoa. Ele nasceu em Barreiro (na foz do Tejo, em frente a Lisboa) em 1948. Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa. Seu primeiro livro foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram lhe atribuídos os prêmios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prêmio de Poesia de 1981), o Prêmio de Literatura António Nobre e o Prêmio Cidade de Almada. Poeta, publicitário e pintor, é uma das vozes mais destacadas da poesia portuguesa do pós 25 de Abril, sendo considerado um “renovador” nesta área. O amor e a denúncia social são uma constante nas suas obras e, segundo David Mourão Ferreira, é um dos atuais poetas progressistas naturalmente de capazes de comunicar com um grande público.Para os leitores do Banco da Poesia, três poemas do novo Pessoa português.

O Cão da Tristeza

O cão da tristeza está aqui.
Aqui, sem alma, ferrado no meu espanto.
Puxando as verdes charruas do meu pranto
lavrando a dor cinzenta do meu povo.

O cão da tristeza está aqui.
No giz do meu lume, na fogueira acesa
que queima a minha casa, destrói a minha mesa
e magoa o meu sangue e a minha voz.

o cão da tristeza está aqui.
No açaime do medo que nos cala
na sombra do punhal, no frio da bala
apontada ao coração da nossa esperança.

Canção de estar em terra

Da sede meu amor farei um barco.
Uma vela no porto. E ao vê-la perto
eu direi meu amor que por ti parto
e fico e firo e faço e sigo e ardo.

Direi a rosa o cravo o trevo o cardo.
Darei o corpo, amor. Direi um astro.
Ai flor de quem está farto farto farto
de rimar contra a maré em pinho incerto.

Que mais direi amor? Eu que maldigo
eu que mal amo as coisas conquistadas
que mais direi? Anéis corais espadas?
Já mal me há-de bastar o que eu não digo.

É aqui, de bruços sobre a espuma
que o mar nos causa a dor de estar em terra.
E as palavras nos doem uma a uma.
E os homens em Lisboa fazem guerra.

Palavras

Vi trigo            vi fome
vi ferros           vi feras
vi ruas              vi nomes
vi grades          vi esperas

vi armas           vi muros
vi lutas             vi mortes
vi surdos          vi mudos
vi fracos           vi fortes

vi mares           vi terras
vi negros          vi servos
vi fardas           vi guerras
vi balas             vi nervos

vi corpos           vi cardos
vi fama             vi glória
vi punhos         vi cravos
vitória               vitória

vi abril              vi povo
vi rosto             vi espanto
vi nosso            vi novo
vi pouco           vi tanto

tão cedo           tão cedro
tão certo           tão perto
tão raiva           tão medo
tão mar            tão deserto

tão lua              tão leve
tão pobre         tão pouco
tão fúria           tão febre
tão longe          tão louco

tão alto             tão erva
tão raso            tão resto
conversa           conserva
tão lento           tão lesto

tão urze            tão hoje
tão zero            tão tojo
tão fica             tão foge
tão ontem        tão nojo

tão mata          tão morra
tão égua           tão água
tão pinho         tão porra
tão merda        tão mágoa

Ilustrações: c. de assis