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Nos Rastros da Utopia

Lançamento do novo livro de Manoel de Andrade

Capa2Na Livrarias Curitiba do Shopping Estação, em Curitiba, como anunciamos há dias, ocorreu o lançamento do livro “Nos Rastros da Utopia” (Editora Escrituras, 910 págs.), produto de vários anos de aventurosa peregrinação por terras americanas. Como ele mesmo diz, com “este livro entrego o testemunho de um longo caminhar. Ao deixar o Brasil em março de 1969, meus passos cruzaram 16 países num prolongado auto-exílio pelo continente” … “Este livro é, sobretudo, o relato de um poeta itinerante, de um bardo errante, profundamente identificado com seu tempo e com sua condição de latino-americano. Um confidente solitário, comprometido com o resgate de uma América povoada de utopias e com a saga lendária daqueles que ousaram sonhar com um ‘admirável mundo novo’ “.

Ex-aluno de História, Manoel de Andrade relata, abundantemente, uma parte da história de sua vida, imbricada com as origens, as batalhas, as injustiças, os dramas e os sonhos de sua América – a nossa América – com jeito de livro de contos de fadas, onde os muitos personagens que conheceu surgem ali e acolá como protagonistas e coadjuvantes de uma história sem fim, acalantados por seus trabalhos de utopia poética.  Além do sabor literário, Maneco nos coloca nas mãos e em nossa reflexão um valioso documento de um tempo não tão longínquo, que ainda se reflete na vida dos países de nossa região continental.

Manoel de Andrade e Cleto de Assis na noite do lançamento de "Nos Rastros da Utopia"

Manoel de Andrade e Cleto de Assis na noite do lançamento de “Nos Rastros da Utopia”

Novo livro de Manoel de Andrade

Depois de longa caminhada pelo chão da América Latina, Manoel de Andrade completa a não menos extensa jornada literária sobre a sua aventura em busca da utopia

Finalmente, a  editora Escrituras lança uma empreitada de mais de 900 páginas que condensam os vários anos do errante percurso do poeta Manoel de Andrade pelas veias abertas da América Latina — como metaforizou Eduardo Galeano — há mais de quatro décadas, quando todo o continente buscava portos seguros para suas contradições sociais e políticas. Mas Manoel de Andrade não fez de seu livro um mero relato autobiográfico e nem uma narrativa que desculpasse sua saída do Brasil para desfraldar sua poesia em defesa de ideais utópicos. Em verdade, Nos rastros da Utopia tenta redescobrir a América por meio dos personagens que o autor encontrou e conheceu, com quem dialogou e conviveu por tempos breves, mas absolutamente enriquecedores. 

Endosso o convite feito pela editora e por Livrarias Curitiba. E principalmente o convite do próprio escritor: “convido-o a viajar comigo por caminhos e por um tempo fascinante, em que o sonho e a esperança comandavam os rumos da História. Ventura e desventura, encanto e desencanto são os sabores com que estão temperados os fatos que passarei a relatar“.

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Um texto antigo sobre “Nos Rastros da Utopia”

Cleto de Assis

Já repeti, ali e acolá, que minha amizade com Manoel de Andrade ultrapassa as fronteiras do trivial e localiza-se no que há de melhor em uma relação fraterna. Para repetir um clichê, afirmo que, mais que irmão consanguíneo, Maneco é o mano escolhido, selecionado durante a jornada da vida.

Mas isso não nos torna irmãos corsos: temos as nossas diferenças de pensamento, adotamos crenças distintas em matéria política e religiosa. O que não nos transforma em inimigos ou adversários, como requer o saudável convívio democrático, que admite positivamente a multiplicidade de opiniões e a boa convivência entre os contrários. E não é bom assim? Chatice seria o consenso absoluto, que não nos permitiria sequer perseguir objetivos vitais e construir as mais variadas utopias.

Na narrativa de Manoel de Andrade, sempre com máximo respeito às ideias que o levaram a formular sua utopia, venero mais o entusiasmo do cavaleiro andante a percorrer as pátrias latino-americanas, em um tempo coberto por sombras e indefinições políticas, como tem sido, desde tempos imemoriais, a história deste continente. Sempre reunido a grupos que se acercavam à sua alma de artista sonhador, naquela idade vintaneira: estudantes idealistas e expressões culturais de cada local visitado. Muitas dessas expressões eram nascentes, ainda jovens como ele. Cresceram e firmaram conceitos de credibilidade intelectual e não deixaram de lembrar-se do brasileiro que os visitou e, quase sempre, recebia toque de retirada das cornetas governamentais dos países pelos quais passava. Na bolsa da memória do viajante foram acumulados, passo a passo, tesouros de bom relacionamento (com o povo que o recebia, não com os donos eventuais do poder) e de comunhão de utopias, que agora migram para o papel do escritor e poeta.

Passados tantos anos – mais de 40 – Manoel de Andrade fez um natural upgrade em suas utopias (para usar um termo atual, sem qualquer intenção irônica), mas continua em busca de sonhos, para poder continuar o caminho, como define Fernando Bini, citado em seu texto. Novas buscas na espiritualidade, novos sonhos no campo da justiça social. As velhas utopias – algumas desmanteladas por quedas de muros e pelo desânimo de descobrir que a ambição humana, o apego ao poder e o extremismo da corrupção e da deslealdade não têm cor política, mas estão sempre de tocaia no cérebro límbico do homem, prontas a aflorar à superfície, se as circunstâncias facilitarem – foram remodeladas, mas o escritor de agora permanece leal à alma condutora do jovem errante de ontem.

Já declarei, também, que seu livro “Nos Rastros da Utopia” será, quando publicado (e o está sendo agora), um marco para a história dos anos 60 em nosso continente. Depois de quatro décadas, diante de confessa perplexidade com este início de século, Manoel de Andrade pode dizer-se dono de uma certeza: somente os bons carregam à sua frente, continuadamente, as incertezas das utopias. Os maus têm projetos ambiciosos, preferencialmente para o presente ou futuro bem próximo, sem se importar com o que acontecerá para a sociedade que nos é comum. E é nos rumos dessas incertezas que se vão colhendo resultados positivos e se estabelecem as conexões corretas para ampliar a justiça e a harmonia sociais. Como seu leitor, vejo claramente que sua melhor utopia se chama Fraternidade.

8 de maio de 2012