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Ainda relembrando Millôr Fernandes

Ainda surpresos com a viagem de Millôr (como alguém escreveu ontem: o Brasil ficou ainda mais sem graça), colhemos mais algumas flores que ele plantou em sua profícua vida. O gosto pela poesia e sua extrema capacidade de reduzir a algumas palavras uma quantidade enorme de pensamentos levou-o as estudar a técnica japonesa dos Hai-Kais, os pomes sintéticos que concentram ideias em apenas três versos. Sempre com as inefáveis leveza e sutileza do humor.  Em suas páginas da Internet ele deixou publicados muitos exemplos de hai-kais e um ensaio sobre essa forma poética, abaixo transcrito. (C. de A.)

Hai-Kus ou Hokkus

(pequena introdução para os não iniciados)

Millôr Fernandes

O Hai-ku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, pois a letra teima em permanecer na língua, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira.

O segundo motivo do não uso da grafia Hai-ku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designando certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

Resolvi – e não entro em detalhes para não alongar esta explicação – usar a grafia (comprometida) Hai-Kai, para as composições deste saite.

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescida nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuô Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Em cima da neve
O corvo esta manhã
Pousou bem de leve.

Contudo há quem afirme que Bashô foi ultrapassado, tanto em popularidade quanto em inspiração, pelo poeta do século posterior (XVIII) Yataro Kobayashi (Issa):

Vem cá passarinho
E vamos brincar nós dois
Que não temos ninho.

Bem hospitaleiro
Na entrada principal
Está o salgueiro.

Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

Roubaram a carteira
Do imbecil que olhava
A cerejeira.

Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.

Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas. Os Hai-Kais deste saite foram compostos entre 1959 e 1986.

De: http://www2.uol.com.br/millor/haikai/intro/index.htm

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O veludo
Tem um perfume
Mudo.

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A imagem tua,
Amante, decai;
Como a da Lua.

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O pôr-do-sol, é certo
Já não me toca
Tão de perto.

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Nem é segredo;
Sou feito de pó, carência,
vaidade –  e muito medo.

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Não sei se mudo
A sexta-feira é um dia
Longe de tudo.

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À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.

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 Cuidado, Fernando,
Os horizontes
Estão se aproximando.

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Meio-dia e as sombras somem.
Eis uma escondida
Embaixo do homem.

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Morto de ciúme
Sob a luz da lua
Vaga-lume lume.

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Esta é a verdade:
Já sou um homem
Da minha idade.

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1923-2012

Solivan nostradâmico

As profecias de Igor

Para Jorge Linzmeier

Ilustração: Cleto de Assis

 

I

Sete nomes terá a ovelha com estômago de lobo que trará o
Tempo das algemas abençoadas com vinho, e o escriba da
Masmorra escreverá, com cobras, poemas tristes. Um viajante
Irá decorar o livro, será assim contrabandeado e traduzido.

II

No cio das estrelas as aves do paraíso morrerão ao se
Alimentar com as unhas de Sithar, mas assim conseguirão
Levar oferendas para o lado negro da lua onde vive um cão
Dourado que guarda num átomo a história da humanidade.

III

Quando o primogênito reinar, a peste se abaterá sobre
O ouro que ficará coberto de terríveis chagas e as formigas
Desmembrarão os diamantes. Os ciclos parecerão mortos,
Mas uma colméia de lobos negros aprenderá a fazer mel.

IV

No cálice de prata cinzelado com a história dos heróis,
A sacerdotisa ordenhará o sangue simbólico do sacrifício
E entoará aos cardeais do concílio, nova mensagem: o sinal
Da cruz não deve tocar o ombro, mas nas palmas das mãos.

V

Peixes ornamentais nadarão nas chamas das bibliotecas
E a liberdade perderá seus braços como Vênus de Milo
E as esposas terão que beber água do mar para voltar a ter
Lágrimas e aguardar os rouxinóis comporem outra canção.

VI

Aos demônios reunidos, o que foi anjo magnífico anunciará
Acariciando seu gato que uma mãe pacífica em demasia criará
Os trigêmeos do anticristo, então as águias terão que combater
As pombas malévolas e o cordeiro será mais cruel que o lobo.

VII

Quando um coral de bicéfalos e irmãos siameses cantarem
Uma canção natalina para o eclipse, seu sinal. Ele assinará
Com uma pena de corvo um tratado de paz nefasto. Sacrifica
Tua televisão, teu automóvel no altar de Deus enquanto há tempo.

VIII

O país justo terá suas leis em um pequeno livro de letras
Grandes, usarão apenas vinte carneiros para os pergaminhos.
O rubi valoroso, seu símbolo, ficará exposto na Ágora, sem
Soldados, maldições ou redomas e não será roubado.

IX

Quando a ciência substituir os Sacerdotes na descrição
Do apocalipse e crença na vida eterna for retirada das
Mãos divinas e entregues à medicina, saberemos que
O asno apenas substitui uma tolice por outra maior.

X

O homem acreditará no sábio que dissecou o corpo e não
Encontrou alma alguma e assim provou que ela existe.
E no alquimista que escreverá na quinta linha que a matéria
Que se transforma com mais facilidade em ouro é o suor.

XI

Os que pensam emaranhar os desejos na verdade tecem crisálidas
Dirá o deificado que pacificará com luxúria e um novo versículo
Aparecerá na escritura: Quanto mais casto, mais furioso é um povo.
E mostrará, no sêmen, os pregadores em desterro no sétimo círculo.

XII

Aviões jogarão tigres sobre as cidades e as viúvas gemerão como cedros
Caindo e o povo abandonará suas casas como um filhote de cervo, a mãe
Devorada. No êxodo, poucos sobrevirão bebendo o veneno das         xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx[serpentes
E enriquecendo, com sua passagem, os tecelões de mortalhas baratas.

XIII

Será o tempo da última fome no sol nascente, porém somente
Tenores poderão anunciar o suntuoso imperador vestido de jade
Mas para provar sua abnegação se alimentará com apenas um
Pequeno pedaço do baiacu, a maior parte será distribuída à multidão.

XIV

O que lê no passado, o futuro, verá uma amarga verdade no seu cristal:
As nações que enriquecerão à custa da servidão se tornarão dignas
Com mais facilidade que as pobres que tentarem ser generosas em
Demasia antes do tempo, estas retornarão à mais triste barbárie.

XV

Quando nenhuma profecia se realizar e a concha não tiver mais o
Marulho do mar, o silvo do guepardo, o rosnado do chacal
E o sibilar da serpente serão usados para adormecer as crianças.
A flora gemerá de preocupação porque o leão começará a pastar.

Solivan Brugnara

Ilustração: C. de A.

Dante convida

Dante Mendonça, jornalista, cartunista e escritor – é membro da Academia Paranaense de Letras –,  apresenta mais uma novidade em sua obra artística: uma exposição de aquarelas, instalada na sede da Aliança Francesa de Curitiba, na rua Prudente de Moraes, 1101. A abertura será no próximo dia 03 de novembro, às 19 horas. A mostra ficará aberta ao público até 02 de dezembro.

Desejamos ao Dante pleno sucesso em mais esta faceta de sua veia artística.

O que é Poesia? (2)

No início de vida do Banco da Poesia  publicamos uma página especial do com este título. Vários poetas deram suas opiniões e as definições mostraram que Poesia – assim como todas as artes – tem tantas definições quanto a multidão de almas que já habitou, habita e ainda viverá neste pontinho ínfimo do cosmos. Mas a profusão de significados só amplia a beleza dessa arte antiga, protegida por três entre as nove musas gregas.

E prosseguimos com a busca por mais interpretações, porque, afinal, a poesia se alimenta de metáforas. Assim, ampliamos nossa página O que é Poesia, depois de intensa garimpagem. Ela está aberta para todos os que desejarem contribuir.

Para completar, um recadinho de Carlos Drummond de Andrade aos poetas, sobre o que não é poesia.

Não faças poesias com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão inofensivo à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me revele seus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Está faltando um Brecht por aqui

Eugen Berthold Friedrich Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 10 de Fevereiro de 1898 e morreu em Berlim, em 14 de Agosto de 1956. Portanto, há exatamente 55 anos ele deixou o planeta Terra, depois do tempo a ele concedido, e não mais se aborreceu com os desmandos da chamada burguesia capitalista, contra quem dedicou boa parte de suas reflexões e de sua obra. Brecht é conhecido, no Brasil, mais por seu trabalho na dramaturgia e muitas de suas peças foram por aqui encenadas. Mas foi também excelente poeta, dono de uma ironia finíssima e criador de metáforas que se celebrizaram como axiomas do Século XX, notadamente na crítica política e econômica. Sua fama internacional ganhou estatura de gigante com a encenações do Berliner Ensemble, uma companhia teatral por ele criada, durante 1954 e 1055, em Paris.

Ainda jovem, com 22 anos, Brecht se tornou marxista, porém a seu modo, e com as teorias de seu patrício comunista, pintou sua obra teatral, poética e literária,. Também sofreu influência dos experimentos teatrais de Erwin Piscator e Vsevolod Emilevitch Meyerhold, do conceito de estranhamento do formalista russo Viktor Chklovski, do teatro chinês e do teatro experimental da Rússia soviética, já a partir de 1917.

O Banco da Poesia destaca um de seus mais famosos poemas e publica três versões brasileiras: a primeira, de Manuel Bandeira; a segunda, do tradutor Paulo César de Souza e, finalmente, a do nosso amigo Frederico Fuellgraf. A propósito de Frederico, vale fazer aqui um pequeno comercial: visitem o seu blog Fuellgrafianas,  onde encontrarão muitos textos inteligentes. Além de tradutor, FF é cineasta e grande estudioso da sétima arte. Veja mais sobre ele aqui.

An die Nachgeborenen 

de Bertold Brecht

 

 

 

 

 

Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

Sie sagen mir: iss und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.

Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.

As nossas versões

I – Aos que vierem depois de nós

(Versão de Manuel Bandeira)

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

II – Aos que vão nascer

(Versão de Paulo César de Souza)

1
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
indica insensibilidade. Aquele que ri
apenas não recebeu ainda
a terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
falar de árvores é quase um crime
pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
não está mais ao alcance de seus amigos
necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
tiro o que como ao que tem fome
e meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
levar sem medo
e passar sem violência
pagar o mal com o bem
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
é verdade, eu vivo em tempos negros.

2

À cidade cheguei em tempo de desordem
quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
e me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor cuidei displicente
e impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
quase inatingível.
Assim passou o tempo
que nesta terra me foi dado.

3

Vocês, que emergirão do dilúvio
em que afundamos
pensem
quando falarem de nossas fraquezas
também nos tempos negros
de que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
através das lutas de classes, desesperados
quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
também o ódio à baixeza
deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
torna a voz rouca. Ah, e nós
que queríamos preparar o chão para o amor
não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
do homem ser parceiro do homem
pensem em nós
com simpatia.

III – Aos nascidos depois de mim

(Versão de Frederico Fuellgraf)

Realmente, eu vivo em tempos sombrios!
A palavra melindrosa é pusilânime. Uma fronte sem rugas
É a expressão da indiferença – o folgazão
Apenas não recebeu em tempo
a terrível notícia.

Que tempos são estes, quando
Uma conversa sobre abobrinhas é quase um crime.
Porque encerra o silêncio sobre indizíveis atentados!
Aquele que cruza a rua impassível
Já se tornou impiedoso para os amigos
Caídos em desgraça ?

É verdade: ainda ganho para o meu sustento
Mas acreditem: é mera coincidência. Nada
do que faço dá-me o direito de saciar-me.
Sou poupado por distração. (Se minha sorte me abandonar,
estarei perdido).

Dizem-me: come, tu, e bebe, dá graças que tens o quê!
Mas como poderei comer e beber, se
Ao faminto surrupio a comida e
Se o que faz falta ao sedento é meu copo d´água?
Apesar disso, como e bebo.

Eu também gostaria de ser  douto.
A sabedoria está descrita nos livros antigos:
“Furtar-se às contendas do mundo e desfrutar
Sem medo o tempo exíguo.”
Mais: renunciar à violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer seus desejos, melhor esquecê-los
Sabedoria seria isso.
E é tudo o que não posso:
Deveras, eu vivo em tempos sombrios!

Cheguei às cidades quando lá campeava a desordem
E imperava a fome.
Juntei-me às pessoas no instante da revolta
E indignei-me com elas.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.

Comi meu pão entre uma e outra batalha
Para dormir deitei-me entre os assassinos
Indelicado cultivei o amor
Impaciente contemplei a natureza.
Assim feneceu o tempo
Que meu foi dado na Terra.

No meu tempo as ruas conduziam ao atoleiro
E a palavra delatou-me ao verdugo.
Consegui fazer pouco. Mas sem mim
Os poderosos sentiam-se mais seguros; essa era a minha idéia.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.

Eram poucas as forças. A causa
longe de ser conquistada.
Jazia ali com nitidez, mas para mim
Mal-e-mal à mão.
Assim passou o tempo
Que meu foi dado na Terra.

Vós, que emergireis da maré
Na qual naufragamos
Relembrai
Quando falardes de nossas fraquezas
Também os tempos sombrios
Dos quais vos livrastes.

Pois, trocando mais de países que de sapatos
Caminhávamos através das guerras das classes, angustiados
Bastava lá reinar a injustiça e nenhuma indignação.
Ora pois, sabemos muito bem que:
O ódio contra a vileza
Endurece as feições.
A ira contra a injustiça
Deixa rouca a voz. Diabos!, nós
Que queríamos semear a amabilidade
Já não conseguíamos ser amáveis.

Vós, porém, quando chegar a hora
Em que o homem for o amparo do homem
Lembrai-nos
E sede indulgentes.

José Marins: oração a Malaquias

Anjo de Quintana

Anjo Malaquias
onde andam seus pés
de acompanhar poetas,
desde que Quintana se foi?

Anjo Malaquias
nada tenho para te oferecer,
além de receios ou passos vãos,
viajo sorvido pelo sonho.

Anjo Malaquias
se puder olhar por mim,
teus olhos de poesia e luz,
vela por meus versos tão miúdos.

Anjo Malaquias
quando vier com suas asas
de transparência e luar,
traga-me da alegria e do humor
de Mário Quintana.

Um pouco que seja
de quintanares letras,
e siga-me na estrada do poeta
essa que faço na esteira dos nadas.

José Marins / jan 2011
Ilustração: cdeassis

Da Galícia, mais um depósito de Arthur Novellhe

O poema estava depositado entre os muitos recebidos nos últimos meses de exílio espiritual, lá no baú das peças raras. Veio com o seguinte recado do autor, Athur Alonso Novelhe, caríssimo cliente deste Banco:

“Bom amigo Cleto, tempo já há que nada envio ao seu magnífico site… esse projeto livre de poesia e poetas… Agora, que ando mais à vontade de tempo, envio este poema… desejo que goste dele”.

Tanto gostei que vai entre os primeiros libertados.

Os Deuses na Sombra

Ilustração de Cleto de Assis

Escolheram nomes para falar-nos da vida,
procuraram rotas para dizer-te,  convencidos:
nós temos um destino a cumprir:
salvar tua ignorância do lume.

E não repararam em gastos, nem fadigas
para alçar Impérios que logo a morte conquista,
sempre conquista
como os sonhos que se fixam na mente do alienista
contra o cordeiro de Deus na outra luz daqueles mundos.

Esconderam o ódio com disfarces ambíguos
e cegaram as fontes da essência referida, pelos criadores do amor.
Com palavras sobre palavras fabricaram sua mentira

e te venderam o medo ferida a ferida
como a ilusão de acreditar na Única  Salvação Possível.

Não acreditas, bom não acredites,
mas tu desfilas no aniversário das bandeiras vencidas
tu comes a sua oferta e os produtos adquiridos
tu bailas na noite sinalada
e dormes na noite requerida
(logo simulas no ventre formoso do sexo repousar)
como cantas no seu templo o salmo corrompido
e bebes ou fumas enquanto eles o precisem
(de ti, um homem tão simples…)
Mas eles também prescindem: lamentável, não?

Deverias observar:
quantas assinaturas tem o teu convite?
quantos nomes distintos para a carne ser redimida?
quantos grãos de ouro no papel verde das notas floridas,
quanto sangue preciso para erguer logo pedras acima
da primeira casa, da primeira escola,
onde Pedro vendeu ao maestro e esqueceu-se das esmolas:
Em Nicéia, vi o sol dourado de Constantino.
Depois, uma fita a pendurar
sabendo que sempre a mesma mão se recorta da virgem.
Aleijado viverás igual, mas nunca já será simples.

Assim,
limparam as covas de símbolos
porque sempre é necessário mudar os ritos.
Trocaram as festas da cerimônia antiga
e a música velha lustraram de novo em papiros
mudando sua grafia,
mas segues caminhando pela mesma estrada acima
segues empurrando o peso de todas as caricias
e golpes que ainda hão chegar
(tu sozinho,
enquanto eles aguardam na cima)
Ao chegar ao alto outros homens divisas
Requerem tua atenção, para minorar a sua fadiga.

Não acreditas, pois bem, não acredites,
Pronto de novo te irão escolher,
mas desta vez será para o teu próprio sacrifício.

Deixas mulher?
Outros se encarregarão dos teus filhos…

Arthur Alonso Novelhe – jan/2011
Ilustração: cdeassis

Recesso involuntário

O Banco da Poesia esteve em recesso por mais de um mês. Recesso que seu gerente lamenta profundamente, causado por muitos motivos. Mas nenhum deles aponta para o desinteresse de nossos correntistas e leitores, que continuaram a enviar colaborações e a visitar nosso blog. Os mais longínquos mandaram mensagens preocupadas com possíveis problemas de saúde do administrador, que lhes garantiu estar em perfeita forma física e mental. Agradeço o interesse de todos e prometo que o BP reabre suas portas, com novo layout, prometendo novidades. E maior asiduidade em suas movimentações poéticas, com régia distribuição de dividendos.

Novo depositante: Tonicato Miranda

Conheci Tonicato Miranda há pouco tempo. Já havia lido trabalhos seus no blog de João Bosco Vidal, Palavras, Todas Palavras e, recentemente, protagonizamos uma rápida polêmica com o poeta Roberto Prado, motivada por um desencontro de opiniões após a morte de Wilson Martins. Tudo resolvido, as palavras voltaram a seu equilibrado lugar e a energia das faíscas virou versos, como se pode constatar abaixo. Tonicato ainda não havia feito depósitos no Banco da Poesia e, após insistência nossa, mandou um poema, com dedicatória ao gerente desta instituição bancária, sem, evidentemente, qualquer merecimento. Pedi também fotos e currículo e ele enviou o que se segue.

“Sobre meu currículo, teria de perguntar do que. Isto porque não tento repetir Pessoa, mas tenho várias facetas. E quem não as tem?
O técnico transporteiro, envolvido com questões de transporte e da mobilidade urbana, e isto não cabe aqui numa biografia cultural.
Tem ainda o técnico de planejamento e projetos cicloviários, que também não vem ao caso. Tem o empresário, também fora desta questão. E outras coisas mais.
Acho que o importante seria dizer que fui colaborador do Estado do Paraná, no Almanaque na época do saudoso Aramis Millarch, na década de 80. Fui escritor de crônicas diárias no ano de 1992 no Jornal do Estado. Fui dono da Livraria Ipê Amarelo, situada ali no início da Comendador Araújo, de 1990 a 1992. Publiquei a coletânea de poesia com Jairo Pereira, Desiré da Costa, Gerson Maciel e Luiz Alceu intitulada Varandaes, no ano de 1984. Publiquei em 1986 meu primeiro e único livro solo. O meu Paganini chamava-se Cais do Mar de Cima, que recebeu capa e ilustrações da Denise Roman. Durante três anos, de 1988 a 1990 mantive intensa correspondência literária com a Helena Kolody. Depois de 1992 me afastei das lides literárias até retornar, em 2008, com o site dos palavreiros, publicando poemas, crônicas e alguns artigos. Acho que é somente isto. O mais está por ser feito.”

Depois do terremoto e da contra-ode à canalha

Tonicato Miranda,  Curitiba

para Roberto Prado

Ah minha juventude estacionada
retardando todos meus legumes em flor
O que pode a couve flor contra a buganvília?
A bilha movendo meu carrinho de rolimã já vai longe
A trilha, o cavalo e a cilha transportam hoje um monge
Mãos e rosto ainda não de todo crestados
viajam de lado desviando do capim navalha da palavra
este que a juventude lavra sem perdão
desbastando com rudeza a montanha da emoção
Jovens passarinhos atenção ao meu canto de ferro
Acreditem: ele não será um solitário berro
está vestido de acordes é voz que segue a partitura
mas sua voz é livre, sua juventude tem a carne dura
mas minha pele se cresta, meu cantar já se arrasta
mas não me raspa com a borracha sobre o papel
minha linguagem é menos o sal, muito mais o mel
Convido-o companheiro para eu lhe ouvir poemas
traga aos meus ouvidos suas tralhas
vou também lhe mostrar minhas produções canalhas
vá que alguma encontre em você um abrigo?
Vá que ela seja o ferrolho da porta se abrindo
você um amigo?

Prosa de boca e beijo

Tonicato Miranda,  Curitiba

para Cleto de Assis

Agora tudo já se apresenta acalmado
Agora tudo se deita, dorme acamado
Até o rio corre sussurrando ou calado
Já pode o homem de costas ser amado

Águas passam tranquilas sob a ponte
as matas refletem mil verdes ao olhar
pássaros e insetos revoluteiam no ar
e até o sol não mais queima a fronte

Depois da tempestade e da enxurrada
quando tudo foi tropeçando em montes
terras, carros, mobílias, gritos e gentes
uma loura flor nasceu, e não foi tragada

Agora tudo já se apresenta acalmado
vaidades sentam-se para conversar
com novas mobílias na sala de estar
falam sorrindo com seus perfis de lado

Agora tudo se deita, dorme acamado
velho pano de centro na mesa da vovó
apara o prato com doces e pães de ló
também esconde as cicatrizes calado

Até o rio corre sussurrando ou calado
quem nisto acreditar certo se engana
ele dormita acumulando a nova gana
tragédia futura para se deixar ao lado

Já pode o homem de costas ser amado
agora é hora de servir pães de queijo
misturados à prosa de boca e beijo
é tempo de deixar tudo desassanhado

Curitiba, 21/05/2010

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Ilustração: C. de A.

Manoel de Andrade em prece ao alvorecer

Aurora

Manoel de Andrade, Curitiba

Não direi que me encantas mais do que o silêncio
porque é assim que despertas as aves e os caminhos.
Meus olhos também nascem pelo parto da esperança
porque vivo na imortalidade renascendo em cada dia.

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida
porque tua luz é sempre uma catarse.
Teu olhar estende as linhas do horizonte
e toda a paisagem é então uma ventura
e já não és mais nada
porque desfaleces no seio da beleza.

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido
mas como é grande o que em mim te contempla.
Para renascer basta-me apenas teu momento
tua humilde majestade
tuas pétalas de fogo
e essa corola ardente
porque não peço nada mais que a tua luz
inaugurando o mundo em cada alvorecer
e que nunca me encontres cego ou vencido.

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Curitiba, abril de 2004 – Em Cantares