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Morre mais um poeta

Quando morre um poeta, não creio que sua alma migre para qualquer lugar, paraísos, nirvanas, campos elíseos ou qualquer outro endereço. Acredito firmemente que sua alma permanece entre nós. Na obra que deixa, no registro de sua sensibilidade, na criatividade essencial para a formação da alma. Nesse sentido, podemos falar de uma alma imortal, de um espírito imanente ao seu legado literário. Assim também vale para todos os artistas e para todas as pessoas de quem possamos falar – que alma boa ela tem.

Há dois dias morreu um poeta mexicano, da mesma terra que já nos deu um Octavio Paz, um Carlos Fuentes, uma Sor Juana Inés de la Cruz e outros tantos de interminável lista, em todas as épocas da história do México pré e pós-colombiana. Sim, porque houve um Nezahuacóyotl, imperador, arquiteto e poeta asteca, a quem se atribuem vários poemas. (Na nota mexicana de 100 pesos está registrado uma de suas composições poéticas: Amo o canto do zenzontle / Pássaro de quatrocentas vozes, / Amo a cor do jade / E o enervante perfume das flores, / Porém mai amo a meu irmão, o homem) O poeta que nos deixou há pouco se chamava José Emilio Pacheco.

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Nascido em 30 de junho de 1939 e falecido em 26 de janeiro de 2014, José Emilio Pacheco pode ser considerado um artista completo e comprometido, que cultivou quase todos os gêneros literários, além de ter incursionado na edição e na direção de publicações de interesse cultural, tais como a revista Estaciones. Por outro lado, dedicou-se a traduzir diversas obras do inglês, de autores do porte de Oscar Wilde, T.S. Eliot, Samuel Becket e Tennessee Williams. Foi profesor em universidades de muitas partes do mundo, como nos Estados Unidos, Canadá e Grã Bretanha, além de seu país. Não bastasse, são notáveis seus aportes à pesquisa nos campos da antropologia e da história.

Seu trabalho foi sumamente reconhecido em várias oportunidades. Entre outros galardões, recebeu o Prêmio Cervantes (2009); o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2009); os prêmios José Donoso (2001), Octavio Paz (2003), Pablo Neruda (2004) e Ramón López Velarde (2003); o Prêmio Internacional Alfonso Reyes (2004); o José Asunción Silva (1996); o Xavier Villaurrutia (1973); o García Lorca (2005) e o Prêmio Alfonso Reyes, outorgado por El Colegio de México (2011).

Destacou-se pelo impecável uso da linguagem, a magistral destreza com a que plasmava em uma folha as imagens mais variadas e profundas, como é possível apreciar em seu poema “Ecuación de primer grado con una incógnita“. Entre seus livros publicados, encontramos os poemários “Los elementos de la noche” e “Desde entonces“, e as novelas “Morirás lejos” e “Las batallas en el desierto“. Seu poema Alta traición é talvez o mais célebre entre a juventude mexicana.

Carlos Monsiváis, seu compatriota e contemporâneo, assim se referiu sobre o estilo do escritor:

Carlos Monsivaes

Carlos Monsivaes

A paixão pela metáfora, a concentração em umas quantas linhas de um relato quase sempre pesaroso, o gosto pelos relatos inesperados, o desprendimento do poder de síntese, o exercício múltiplo da metáfora, o jogo de analogias como espelhos da devastação, o elogio jubiloso da paisagem. Em poesia, ajusta seus dons melancólicos, seu pessimismo que é resistência ao autoengano, sua fixação do lugar da crueldade no mundo, seu poderio aforístico.

Em  2010 deixou uma série de objetos na Caixa das Letras do Instituto Cervantes a serem abertos 100 anos depois, em 2110. No momento do depósito afirmou:

“Aqui o deixo para que quem abra isto em cem anos saiba quem fui, porque não creio que alguém recorde minha obra”.

Sua morte ocorreu em 26 de janeiro de 2014 devido a uma parada cardiorrespiratória.

(Fontes: Wikipédia e Poemas del Alma)

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Ecuación de primer grado con una incógnita

En el último río
de la ciudad, por error
o incongruencia fantasmagórica, vi
de repente un pez casi muerto. Boqueaba
envenenado por el agua inmunda, letal
como el aire nuestro. Qué frenesí
el de sus labios redondos,
el cero móvil de su boca.
Tal vez la nada
o la palabra inexpresable,
la última voz
de la naturaleza en el valle.
Para él no había salvación
sino escoger entre dos formas de asfixia.
Y no me deja en paz la doble agonía,
el suplicio del agua y su habitante.
Su mirada doliente en mí,
su voluntad de ser escuchado,
su irrevocable sentencia.
Nunca sabré lo que intentaba decirme
el pez sin voz que sólo hablaba el idioma
omnipotente de nuestra madre la muerte.

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Equação de primeiro grau com uma incógnita

No último rio
da cidade, por erro
ou incongruência fantasmagórica, vi
de repente um peixe quase morto. Agonizava
envenenado pela agua imunda, letal
como o ar nosso. Que frenesi
o de seus lábios redondos,
o zero móvel de sua boca.
Talvez o nada
ou a palavra inexpressável,
a última voz
da natureza no vale.
Para ele não havia salvação
senão escolher entre duas formas de asfixia.
E não me deixa em paz a dupla agonia,
o suplício da água e seu habitante.
Seu olhar dorido em mim,
sua vontade de ser ouvido,
sua irrevogável sentença.
Nunca saberei o que tentava dizer-me
o peixe sem voz que somente falava o idioma
onipotente de nossa mãe, a morte.

Alta traición

No amo mi patria.
Su fulgor abstracto
es inasible.
Pero (aunque suene mal)
daría la vida
por diez lugares suyos,
cierta gente,
puertos, bosques de pinos,
fortalezas,
una ciudad deshecha,
gris, monstruosa,
varias figuras de su historia,
montañas
(y tres o cuatro ríos).

Não amo meu país

Alta traição

Não amo minha pátria.
Seu fulgor abstrato
é inapreensível.
Porém (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques de pinheiros,
fortalezas,
uma cidade desfeita,
gris, monstruosa,
várias figuras de sua história,
montanhas
(e três ou quatro rios).

Salve 2014!

Primeiros dias chilenos

Cheguei em Santiago na terça-feira, 31 de dezembro. O sol se punha junto ao mar, não visível do avião, mas supondo seu declínio nas sombras da cordilheira. Recepção encantadora de parentes, festa para terminar a noite última do ano velho. No primeiro dia do ano, tempo de preguiça e de programar as primeiras visitas ao centro da cidade. Já nos primeiros passeios notei, pelo assédio dos distribuidores de felipetas das agências de turismo, que as casas-museus de Neruda estão em quase todos os roteiros de Santiago e do litoral mais próximo, Viña del Mar e Valparaíso. Vou marcar próximos encontros com o poeta em seus santuários.

No jornal El Mercurio de hoje, descobri que se programava, para amanhã, 4 de janeiro, um encontro de poetas e múcicos para homenagear Nicanor Parra, decano ainda vivo de quatro gerações de artistas, irmão de Violeta e Roberto Parra, outros dois grandes poetas e músicos chilenos. Mas a Internet, mais rápida que os órgãos impressos, já anunciou o cancelamento do evento, que seria uma espécie de avant-première do VI Encontro Internacional de Poetas e Intelectuais, organizado pelo movimento Chile-Poesia e programado pera setembro de 2014, quando o poeta completará 100 anos.

Nicanor Parra: 10 x 10

Nicanor Parra: 10 x 10

O evento, denominado “Las Cruces de Parra”, teria lugar na praia “Las Cadenas”, no litoral central do Chile, onde o criador da antipoesia e ganhador do Prêmio Cervantes 2011 vive há vários anos, com pouco ou nenhum contato com o exterior e sem aceitar entrevistas, nos últimos tempos.

Nicanor Parra, cuja obra prima “Poemas y Antipoemas” completa em 2014 cinquenta anos de publicação, nasceu a 5 de setembro de 1914 na localidade de San Fabián de Allico, na província de Ñuble, no sul do Chile. A atividade, com entrada livre, contaria com a presença de conhecidos poetas e músicos, segundo anunciou Chile-Poesía em sua página eletrônica.

Entre los poetas figurariam Erick Pohlhammer, Lila Díaz Calderón, Lorena Tiraferri Arce, José María Memet, Carmen Berenguer, Julio Carrasco, Ana María Falconí, Germán Lamoza, Mario Barahona, Guillermo Bown, Jean Jacques Pierre-Paul e Amador Ruiz. Da área musical, se anunciavam María Colores, Sol y Lluvia, Iván Torres & Zapatillas Social Blues, Mauricio Redolés & Los Descuentos, Catalina Rojas & Los Parecidos, Jorge Jiménez & La Rompehuesos, Claudio Narea & Los Indicados, além de bandas e solistas daquela região.

O encontro, segundo Chile-Poesia, pretendia ampliar o reconhecimento a uma das figuras mais destacadas da história literária e cultural do Chile, que mudou a poesia de língua castelhana, também ganhador dos prêmios Juan Rulfo, em 1991, Rainha Sofia (2001) e o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda (2012).

Próximo a completar cem anos, o autor de “Hojas de Parra”, “Poemas para combatir la Calvicie” e “Sermones y Prédicas del Cristo de Elqui”, entre outras obras, “está lúcido, em pé, com boa saúde e criando”, afirmo Chile-Poesia. Até setembro, os festejos em honra ao também criador dos “artefatos”, explosivos poemas breves (“Cuba sí, yanquis también” ou “La Izquierda y la Derecha unidas, jamás serán vencidas”), se manifestarão em muitas outras atividades orientadas a homenageá-lo, potencializar a Poesia, reunir grandes figuras da lírica mundial com poetas chilenos e intervir nos espaços públicos.

Inicio a homenagem do Banco da Poesia aos poetas chilenos com dois poemas de Nicanor e um de Violeta, este já com vistas a enfrentar o ano político do Brasil, quando deverão ser repetidos os insípidos discursos dos candidatos.

Último Brindis

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó…
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

Nicanor_último_brinde

Último Brinde

Queiramos ou não
somente temos três alternativas:
o ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três
porque, como diz o filósofo,
o ontem é ontem
nos pertence somente na recordação:
da rosa que já se despetalou
não se pode tirar outra pétala.

As cartas de jogar
são somente duas:
o presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas
porque é um fato bem estabelecido
que o presente não existe
senão na medida em que se faz passado
e já passou…
como a juventude.

Em resumidas contas
só nos vai estando o amanhã:
eu levanto meu copo
por esse día que não chega nunca
porém é o único
de que realmente dispomos.

Test

Qué es un antipoeta:
un comerciante en urnas y ataúdes?
un sacerdote que no cree en nada?
un general que duda de sí mismo?
un vagabundo que se ríe de todo
hasta de la vejez y de la muerte?
un interlocutor de mal carácter?
un bailarín al borde del abismo?
un narciso que ama a todo el mundo?
un bromista sangriento
deliberadamente miserable?
un poeta que duerme en una silla?
un alquimista de los tiempos modernos?
un revolucionario de bolsillo?
un pequeño burgués?
un charlatán?

un dios?

un inocente?

un aldeano de Santiago de Chile?
Subraye la frase que considere correcta.

Qué es la antipoesía:
un temporal en una taza de té?
una mancha de nieve en una roca?
un azafate lleno de excrementos humanos
como lo cree el padre Salvatierra?
un espejo que dice la verdad?
un bofetón al rostro
del Presidente de la Sociedad de Escritores?
(Dios lo tenga en su santo reino)
una advertencia a los poetas jóvenes?
un ataúd a chorro?
un ataúd a fuerza centrífuga?
un ataúd a gas de parafina?
una capilla ardiente sin difunto?

Marque con una cruz
la definición que considere correcta.

Nicanor_Test

Teste

Que é um antipoeta:
um comerciante de urnas e ataúdes?
um sacerdote que não crê em nada?
um general que duvida de si mesmo?
um vagabundo que ri de tudo
até da velhice e da morte?
um interlocutor de mau caráter?
um bailarino à borda do abismo?
um narciso que ama a todo mundo?
um piadista sangrento
deliberadamente miserável?
um poeta que dorme em uma cadeira?
um alquimista dos tempos modernos?
um revolucionário de bolso?
um pequeno burguês?
um charlatão?

um deus?

um inocente?

um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correta.

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MIREN

 Violeta Parra

Miren cómo sonríen
los presidentes
cuando le hacen promesas
al inocente.

Miren cómo le ofrecen
al Sindicato
este mundo y el otro
los candidatos.

Miren cómo redoblan
los juramentos,
pero después del voto
doble tormento.

Miren el hervidero
de vigilante
«para rodar de flores
al estudiante».

Miren cómo relumbran
carabineros
«para hacerle premios
a los obreros».

Miren cómo se visten
cabo y sargento
para teñir de rojo
los pavimentos.

Miren cómo profanan
las sacristías
con pieles y sombreros
de hipocresía.

Miren cómo blanquean
mes de Maria
y aL pobre negreguean
la luz del día.

Miren cómo le muestran
una escopeta
para quitarle al pobre
su marraqueta.

Miren cómo se empolvan
los funcionarios
para contar las hojas
del calendario.

Miren cómo sonríen,
angelicales,
miren como se olvidan
que son mortales.

bolsas polí
VEJAM

Vejam como sorriem
os presidentes
ao fazer promessas
aos inocentes.

Vejam como oferecem
ao Sindicato
este mundo e o outro
os candidatos.

Vejam como redobram
os juramentos,
mas depois do voto
duplo tormento.

Vejam o formigueiro
de vigilantes
«para rodear de flores
os estudantes».

Vejam como deslumbram
os mercenários
«para entregar prêmios
aos operários».

Vejam como se vestem
cabo e sargento
para tingir de rubro
os pavimentos.

Vejam como profanam
as sacristias
com peles e chapéus
de hipocrisia.

Vejam como branqueiam
mês de Maria
e ao pobre negaceiam
a luz do dia.

Vejam como lhe mostram
uma espingarda
para tirar do pobre
sua fornada.

Vejam como se maquiam
os funcionários
para contar as folhas
do calendário.

Vejam como sorriem,
angelicais,
vejam como se esquecem
que são mortais.

***

Poesia na Escola

Lido em um livro escrito há quinze anos

Os verdadeiros professores e os verdadeiros alunos não terão horas suficientes para aprofundar-se no uso das novas tecnologias se não decidirem a abandonar, antes, as antigas. Pode ser um processo paulatino, mas há de ser rápido e integrador.                                                                                             .
Podemos encontrar um modelo a ser seguido na experiência do Gymnasium de Gütersloh (Alemanha), mantido pela Fundação Bertelsmann, que combina a manutenção das tradições religiosas e culturais com a introdução de conteúdos e técnicas modernas, outorgando grande importância à música e às artes criativas. É grande o risco de que essas disciplinas desapareçam dos currículos de ensino, esmagadas pela onda de tecnicismo que nos invade. Convém perguntarmo-nos, por exemplo, a respeito do futuro da poesia. Ausente na maioria das salas de aula dos Estados Unidos, os jovens de hoje cada dia se sentem menos atraídos por leituras desse gênero. Os poetas de antigamente foram substituídos pelos cantores atuais. Com todo meu respeito e minha admiração a esses cantores, a verdade é que fizemos um mau negócio com essa troca. (Cebrián, Juan Luis. A Rede – como nossas vidas serão transformadas pelos novos meios de comunicação. São Paulo: Summus, 1999)

E no Brasil? Fomos mais longe: para gáudio de nossa moçada, foi inventado o brega universitário, isto é, o brega superior, de terceiro grau, daqui a pouco ofertado em pós-doutorado. E para os que se amarram em tecnologia, temos o tecnobrega. Para que poesia?

A ilustração acima foi premiada no projeto da E.M. Nações Unidas. Infelizmente não conseguimos encontrar o nome do aluno/autor.

A ilustração acima foi premiada no projeto da E.M. Nações Unidas (RJ). Infelizmente não conseguimos encontrar o nome do aluno/autor.

 Mas ainda há esperança, ainda há bons professores. Vejam, no vídeo abaixo, o exemplo do Projeto Poesia na Escola 2012 – Trabalho Anual de Produção Poética articulado e desenvolvido com alunos do 6º ao 9º anos, sob orientação do professor da Sala de Leitura. A Escola Municipal Nações Unidas, do Rio de Janeiro, foi a responsável por esse projeto, que se multiplicou em várias atividades, motivadas pelo centenário de Vinicius de Moraes.

Para animar a reconstrução

De tijolinho em tijolinho

Enquanto não fica pronta a nova sede do Banco da Poesia, vou usar alguns tijolinhos para deixar a obra mais animada.

Há alguns dias, um amigo me perguntou: — Você faz haicais? Prontamente respondi que não, pois sempre achei esse tipo de poema, criado pelos japoneses, mais coerente com o idioma oriental, constituído por ideogramas, em que há comunicação linguística diversa da ocidental, toda linear. Deve ser, além de receber a mensagem do poeta, muito prazeroso contemplá-la também plasticamente e entendê-la de forma mais aberta. 

Mas a pergunta serviu como um incentivo para experimentar.

Entretanto, o rigor da definição japonesa, mesmo transposta para nós, faz desse tipo de composição poética uma forma exclusivamente dedicada à observação da natureza e suas nuances, além de exigir a métrica 5-7-5, o que sempre se transforma em desafio técnico, em detrimento da liberdade de expressão criativa. A adaptação do haicai para a linguagem ocidental gerou variações, como o Poetrix, (de poesia + três), cultivado pela nossa poetamiga Marilda Confortin e por um grupo nacional que já virou movimento. Pena que acabamos esquecendo da nossa quadra ou trova, herança portuguesa, que, por sua singeleza, era veículo de difusão da poesia entre o povo e o público infantil. (A propósito, João Manoel Simões publicou, no início deste ano, “Trovas que minha mãe me inspirou & outras quadras”, sobre o qual me dedicarei, oportunamente. E lembremo-nos do mestre de todos nós, Fernando Pessoa, cujas quadras foram reunidas no volume “Quadras ao gosto popular”.)

Rompida a rigorosa tradição oriental ou, como diriam os cientistas, quebrado o paradigma, tomei coragem e invadi o reino dos poemetos sintéticos.

Desculpem-me pela digressão exagerada, que mais parece pedido de perdão antecipado pelos haicais que virão, em forma de tijolinhos de construção. Vamos ver para que servirão.

Haicai

Segundo tijolinho

Malpassada

Reforma Bancária

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Após algum tempo de recesso voluntário, o Banco da Poesia quer anunciar seu retorno, abrindo suas portas a clientes e amigos que sempre lhe prestigiaram. Estamos em obras, preparando algumas inovações. Vamos dinamizar nossa sede, com acréscimo de recursos que o mundo da informática nos oferece e tornarão mais atraente e dinâmica nossa interação com os leitores.

Apesar do grande silêncio, nos últimos meses, acumulamos um grande número de visitas e recebemos muitos seguidores, o que nos incentiva ainda mais a continuar a desbravar o mágico mundo da poesia, o mundo plural da poesia. Plural como o universo, como lembrava Pessoa. Até já. Faltam apenas alguns tijolinhos. C. de Assis

Morre Millôr. Viva Millôr!

Vai-se Milton Fernandes, Millôr por acidente ortográfico

Nasceu como Milton Viola Fernandes, mas foi registrado – graças a a um traço fora da linha ascendente do T, que virou um L e o traço um acento circunflexo –  como Millôr. Aos dez anos de idade vendeu o primeiro desenho para O Jornal, do Rio de Janeiro, por dez mil réis. Em 1938 começou a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro. No mesmo ano ganhou um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudônimo de “Notlim”). Assumiu a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicou a seção Poste Escrito,  já assinada por Vão Gogo.

Em 1941 voltou a colaborar com a revista O Cruzeiro, continuando a assinar como Vão Gogo na coluna Pif-Paf, com desenhos de Péricles. A partir daí passou a conciliar as profissões de escritor, tradutor (autodidata) e autor de teatro.

Em 1956 dividiu a primeira colocação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o desenhista norte-americano Saul Steinberg e, em 1957, ganhou uma exposição individual de suas obras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Dispensou o pseudônimo Vão Gogo em 1962,  passando a assinar Millôr em seus textos n’O Cruzeiro. Deixou a revista no ano seguinte, por conta da polêmica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica.

Em 1964 passou a colaborar com o jornal português Diário Popular. Em 1968 começou a trabalhar na revista Veja e, em 1969, tornou-se um dos fundadores do jornal O Pasquim, junto com Ziraldo, Jaguar, Prósperi, Claudius e Fortuna.

Millôr também for um dos criadores do jornal “O Pif-Paf” que, apesar de ter durado apenas oito edições, é considerado o início da imprensa alternativa no Brasil. Seu site publicava páginas da antiga publicação.

Nos anos seguintes escreveu peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio. Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.

Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retornou à Veja em setembro de 2004, de onde sairia, em 2009.

Na virada do século, lançou seu site oficial “Millôr Online”. Mesmo com a avançada idade, foi sempre ligado a internet, às redes sociais, e possuía conta no Twitter com mais de 360 mil seguidores.

Sua morte, ocorrida hoje, 28 de março de 2012, tomou o Brasil de surpresa, logo após o falecimento de outro grande humorista, Chico Anísio. Morreu como o Grande Millôr, outro da coluna dos insubstituíveis. Humoista, sim, mas também grande poeta satírico, na mesma dimensão de um Bocage ou de um Gregório de Matos. (C. de A.)

Poeminha de homenagem à preguiça universal

Que nada é impossível
não é verdade;
todo o mundo faz nada
com facilidade

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Poeminha da negação da afirmação

Sou um homem bem comum
sem nenhuma aspiração.
Não quero ser general
e muito menos sultão.
Sou moderado de gastos,
de ambição reduzida,
não sonho ser big-shot
estou contente da vida.
Nunca invejei o próximo
nem lhe cobiço a mulher,
pego o meu lugar na fila
e seja o que Deus quiser.
Não sou mau pai, nem mau esposo,
Grosseiro nem invejoso
– só um pouco mentiroso.

Poeminha sobre as reações paradoxais numa sociedade

Na conversa sofisticada
a debutante, nervosa,
tem um problema bem seu:
fingir que entende tudo
ou fingir que não entendeu

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Poeminha sobre o Tempo

O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?

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Saudação aos que vão ficar

Como será o Brasil
no ano dois mil?
As crianças de hoje,
já velhinhas então,
lembrarão com saudade
deste antigo país,
desta velha cidade?
Que emoção, que saudade,
terá a juventude,
acabada a gravidade?
Respeitarão os papais
cheios de mocidade?
Que diferença haverá
entre o avô e o neto?
Que novas relações e enganos
inventarão entre si
os seres desumanos?
Que lei impedirá,
libertada a molécula
que o homem, cheio de ardor,
atravesse paredes,
buscando seu amor?
Que lei de tráfego impedirá um inquilino
– ante o lugar que vence –
de voar para lugar distante
na casa que não lhe pertence?
Haverá mais lágrimas
ou mais sorrisos?
Mais loucura ou mais juízo?
E o que será loucura? E o que será juízo?
A propriedade, será um roubo?
O roubo, o que será?
Poderemos crescer todos bonitos?
E o belo não passará então a ser feiura?
Haverá entre os povos uma proibição
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta?
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos)
não farão às ocultas, homens especiais
que, de repente,
possam duplicar o próprio tamanho?
Quem morará no Brasil,
no ano dois mil?
Que pensará o imbecil
no ano dois mil?
Haverá imbecis?
Militares ou civis?
Que restará a sonhar
para o ano três mil
ao ano dois mil?

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr era um grande frasista. Resumia, em poucas palavras, grandes reflexões, como esta:

Claro, sabemos muito bem que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?

Guardei, desde meu tempo de guri, uma outra famosa, publicada no Ministério de Perguntas Cretinas, do Pif-Paf da revista O Cruzeiro:

Por que se chama parto uma coisa que deveria se chamar chego?

A água inerte de Gabriela

Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, nascida em Vicuña, Chile, a 7 de abril de 1889, escolheu um nome mais curto para assinar seu belo trabalho poético. Gabriela Mistral foi o nome que se notabilizou e alcançou o prêmio Nobel de Literatura de 1945, antes mesmo de seu patrício e colega Pablo Neruda, que o ganhou em 1971. E Mistral por quê? É o nome de um vento típico do sul da França, também chamado de vento de Outono, que transporta ar de alta densidade pelas colinas abaixo. Um vento catabático (do grego katabatikos, descendo colinas). Gabriela soube domá-lo e com ele cavalgar pelo reino da Poesia, ora a fazer emergir o amor, outras vezes a extrair emoções da memória, cheias de dor e mágoa. Mas Gabirela Mistral também cantou os elementos vitais e a própria água. Neste Dia Internacional da Água, lembramos um de seus belos poemas, em que observa a chuva, “este fino pranto amargo” que verte sobre a terra.

LA LLUVIA LENTA

Esta agua medrosa y triste,
como un niño que padece,
antes de tocar la tierra
……….desfallece.

Quieto el árbol, quiero el viento,
¡y en el silencio estupendo,
este fino llanto amargo
……….cayendo!

El cielo es como un inmenso
corazón que se abre, amargo.
No llueve: es un sangrar lento
……….y largo.

Dentro del hogar, los hombres
ni sienten esta amargura,
este envío de agua triste
……….de la altura.

Este largo y fatigante
descender de agua vencida.
hacia la Terra yacente
……….y transida.

Bajando el agua inerte,
callada como un ensueño,
como las criaturas leves
……….de los sueños.

Llueve… y como chacal lento
La noche acecha en la tierra.
¿Qué va a surgir, en la sombra,
……….de la Tierra?

¿Dormiréis, mientras afuera
cae, sufriendo, esta agua inerte,
esta agua letal, hermana
……….de la Muerte?

A CHUVA LENTA

Trad. de Ruth Sylvia de Miranda Salles

Esta água medrosa e triste,
como criança que padece,
antes de tocar a tierra,
……….desfalece.

Quietos a árvore e o vento,
e no silêncio estupendo,
este fino pranto amargo,
……….vertendo!

Todo o céu é um coração
aberto em agro tormento.
Não chove: é um sangrar longo
……….e lento.

Dentro das casas, os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
……….da altura;

este longo e fatigante
descer de água vencida,
por sobre a terra que jaz
……….transida.

Em baixando a água inerte,
calada como eu suponho
que sejam os vultos leves
……….de um sonho.

Chove… e como chacal lento
a noite espreita na serra.
Que irá surgir na sombra
……….da Terra?

Dormireis, quando lá foram
sofrendo, esta água inerte
e letal, irmã da Morte
……….se verte?

Dia Internacional da Síndrome de Down

Um Príncipe sonhador

Hoje também se faz homenagem aos portadores da síndrome de Down, desde 2006, após proposta da Down Syndrome International, uma organização filantrópica inglesa. Em suas vidas de permanente superação, embora limitados por sua condições congeniais, essas encantadoras criaturas, as quais sempre associo com o afeto natural e a permanente alegria, nasceram para nos dar lições. Seus grandes esforços e sensibilidade têm revelado dotes artísticos que podem ser invejados por muitos daqueles que se consideram “normais”. Como o poeta escolhido pelo Banco da Poesia, aluno de uma APAE, que percebe o que é a linguagem poética e com ela se expressa no singelo poema aqui publicado. O autor tem, hoje, mais de 30 anos, embora seu desenvolvimento mental, segundo seus professores, seja comparável ao de uma pessoa de 15 anos. E não é fantástico e invejável ter sempre 15 anos?

Ilusões do Amanhã

Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você.
Eu quero apenas viver, se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar, sem nem ao menos me olhar,
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr.
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um,
o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão,
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho.
Na procura de te esquecer,
Eu fiz brotar a flor.
Para carregar junto ao peito,
E crer que esse mundo ainda tem jeito.
E como príncipe sonhador…
Sou um tolo que acredita, ainda, no amor.

Príncipe Poeta (Alexandre Lemos – APAE)

Dia Mundial da Poesia

A sempiterna Poesia

Hoje se comemora o Dia Mundial da Poesia, instituído pela Unesco em 16 de Novembro de 1999. O Banco da Poesia também se une às comemorações com excertos de um texto primevo, considerado a mais antiga obra literária da humanidade, a Epopeia de Gilgamesh, igualmente conhecida como Poema de Gilgamesh. Supõem-se que ela tenha sido escrita há mais de 2.500 anos a.C., embora a forma que nos chegou esteja registrada no Séc. VII a.C.  São inúmeras tablitas de barro, com escrita cuneiforme, boa parte das quais foram conservadas e possibilitaram a divulgação do texto nas linguagens ocidentais. Existe uma versão em Português, ainda inédita, feita pelo professor Emanuel Bouzon (1933-2006). Muitos trabalhos já foram escritos no Brasil sobre a obra de Gilgamesh, baseadas em versões editadas em outros idiomas.

Gilgamesh foi um rei sumério, cuja vida é semi-lendária, que se tornou conhecido por ser o protagonista da sua Epopeia. Ele teria sido o quinto rei da primeira dinastia de Uruk, que existiu cerca de 2750 a.C. Seu reinado teria durado 126 anos e as lendas que se criaram em torno dele levaram-no a ser considerado uma divindade, cujos feitos influenciaram as sucessivas religiões da região mesopotâmica, inclusive o judaísmo.

Segundo artigo publicado na Wikipédia, existem especulações dos estudiosos sobre a influência da Epopeia de Gilgamesh “sobre textos mais difundidos e conhecidos pela humanidade, como os poemas épicos gregos Ilíada e Odisséia de Homero, escritos entre VIII e VII a.C.  A polêmica é ainda maior” quando comparada “às narrativas do Pentateuco, a parte mais antiga do Velho Testamento, datadas do Primeiro Milênio a.C.” Com relação à Bíblia judaica, “além de semelhanças impressionantes,” há clara afinidade com “o próprio contexto histórico e geográfico”, pois não se desconhece “que a origem dos hebreus e das grandes civilizações semitas” é mesclada “com a própria história do povo sumério. Históricos períodos de cativeiro, onde a aculturação era, além de inevitável pelas circunstâncias de sobrevivência, uma forma de dominação ideológica”.

Em seu final, a Epopeia centra-se na dor de Gilgamesh pela morte de Enkidu, um dos personagens principais da obra. Essa emoção o faz seguir um busca compulsiva pela imortalidade. Gilgamesh quer descobrir o segredo da vida eterna e consulta Utnapishtim, o herói imortal do dilúvio. Mas o sábio responde às suas indagações com uma afirmação que até hoje preocupa a humanidade: “A vida que você procura nunca encontrará. Quando os deuses criaram o homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse.”

Fragmentos da Epopeia de Gilgamesh

“A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidu.”

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“Ele era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra. Enkidu comia grama nas colinas junto com as gazelas e rondava os poços de água com os animais da floresta; junto com os rebanhos de animais de caça, ele se alegrava com a água.”

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“Enkidu perdera sua força pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam seu coração.”

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“… tu, um mercenário, que depende do trabalho para obter teu pão!”

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“Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: ‘O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.’ Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana.”

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“Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”.

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… põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas. (…) Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos.”

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São claras as semelhanças entres textos sumérios e as narrativas da Gênese bíblica, principalmente quando se referem ao dilúvio universal, a indicar que, muitas vezes, a poesia, sempre repleta de sonhos humanos, é mais consistente que a própria história, ou, em outras palavras, a História sempre se aferrará à materialidade dos fatos, enquanto a Poesia tem o poder de, sem perder sua magia, tornar-se registro factual para muitas culturas. (C. de A.)

Bom dia, Ano Novo!

Meu mantra

Nas várias religiões que cobrem o mundo há discussões infindas sobre o valor das orações repetidas. Fosse eu sacerdote (ou ainda melhor, um bispo) de uma delas, defenderia a repetição como a reiteração do desejo não alcançado, a insistência, a persistência, a reprodução e a multiplicação da vontade. “Ah, mas Mateus ensinou que não devemos multiplicar as palavras, como fazem os pagãos, que usam a força das palavras para serem ouvidos.” Segundo o apóstolo cristão, Deus sabe o que necessitamos, antes mesmo que peçamos a ele. Porém, prevenindo-se contra as dúvidas, ele ensinou a seus discípulos a rezar o Pai Nosso, tantas vezes repetido ao longo de todos os dias.

Mas entre nós, míseros mortais, a força da palavra deve ser usada à exaustão, já que os ouvidos dos poderosos são moucos, mesmo quando sabem, também à exaustão, o que necessitamos.

A oração, para mim, é um ato íntimo (como pregava Mateus), uma busca pelas forças recônditas de nosso próprio ser. Não é prova de abandono, mas de apego à vida, até em momentos em que a esperança é ínfima. Sobretudo, a oração utiliza a energia da palavra para também multiplicá-la em nosso interior. Desse modo, não é preciso ser religioso, no sentido de pertencer a uma determinada organização mística, para fazer uma oração. Noel Rosa fez uma canção em louvor a uma mulher amada e lhe deu um nome adequado: “Feitio de Oração”. E era (é) realmente uma oração, sem necessariamente ser dirigida a um ser supremo. Os pintores também rezam quando produzem seus quadros, porque retiram de dentro de si a energia da criação. Os poetas literalmente oram e predicam em seus poemas, construídos com a força da palavra.

Os budistas e outros religiosos orientais vão além das palavras para proferir suas orações, sempre em busca de um caminho energético. Fixam-se, em seus mantras, nos sons de palavras antigas, algumas incompreensíveis, cuja repetição e, possivelmente, a vibração ou onda sonora com que são produzidos criam vários efeitos sobre a pessoa que as emite ou, como creem os seus adeptos, entre o emissor e aquelas que são alcançadas por tais sons.

Repetir um mantra abre portais para o akasha, que seria, no nosso limitado entendimento ocidental, uma espécie de substrato espiritual, o cosmos, a quintessência universal.

Por isso, retomo um recado ao ano de 2010, publicado em dezembro de 2029 no Banco da Poesia, e dedico-o ao novo ano que abre agora suas portas. A releitura serviu para convencer-me que pouco mudou, nos limites da pátria amada, nem em 2010, nem em 2011. Os poucos avanços que conquistamos foram quase todos inerciais, produtos da energia social que não necessita de apoios oficiais para mover-se, ou de empurrões do mundo globalizado, que nos obriga a acompanhar ou copiar ações de outros países. Continuamos a ser meros exportadores de produtos primários (ou de commodities, como dizem os mais sofisticados) e de alguns semimanufaturados, sem agregar valor às nossas riquezas naturais. Temos pouco desenvolvimento tecnológico, porque nos faltam Educação e pesquisa científica. Recebemos afagos da vaidade quando anunciam que nos tornamos a oitava economia mundial e logo seremos a sétima, passando pelo Reino Unido e pela França, o que só nos distrai de outra verdade mais contundente: o Brasil ainda está na 84ª posição no índice de Desenvolvimento Humano, atrás de muitos países da América Latina, como Argentina, Chile, México, Uruguai, Cuba, Costa Rica, Panamá, Peru, Equador  e Venezuela. A cada novo governo, a cada novo ano, ecoam as promessas mântricas de prioridade para a Educação, combate à fome e à miséria (como se fossem coisas separadas), faxina para os malfeitos (mas nunca para todos os malfeitores). Continuam a ser mantras sem reverberações.

Eis-nos, pois, nascente ano de 2012, novamente embasbacados diante de ti, um novo ano aventuroso, cujas venturas podem se confundir apenas com leves ventos de esperanças. Arrepiados, por exemplo, quando se anuncia, já para janeiro, a troca do roto pelo esfarrapado na pasta da Educação, que deveria ser o ministério mais importante para qualquer governo. Temerosos, novamente, quando ainda perduram as estruturas políticas viciadas e os estratagemas indecentes para manter o poder de determinados partidos. Assombrados porque, diante de um novo ano eleitoral, quando iremos escolher novos prefeitos e vereadores, nada mais existe, em matéria política, que a mera vontade de se ganhar eleições, sob qualquer condição, com qualquer indivíduo, seja ele preparado para o trabalho público ou um virtual aproveitador do dinheiro público.

É hora, portanto, de repetir meu mantra, certo de que, em um ano qualquer mais radiante, conseguiremos fazer com que nossa sociedade nacional cresça e apareça –  mais séria, mais respeitosa e respeitada.

E não custa também repetir, apesar disto ser um velho clichê: Feliz Ano Novo para todos! (Cleto de Assis)

 Oração a 2012

2012,  que estás a chegar
tão cheio de esperanças, tal como teus irmãos passados,
venha até nós com certezas e realizações.
Faze-nos atingir o caminho da Justiça, em todas as suas direções
e realiza o milagre da multiplicação dos pães
sem o auxílio mesquinho de astuciosas dádivas politicóides,
mas alcançado por meio do Trabalho digno e recompensador.
Faze com que a Saúde seja também imperadora em todos os lares
e afasta principalmente as crianças das caliginosas névoas da tristeza
e da fome e da doença.
Acende a chama pentecostal do conhecimento
sobre todas as cabeças, por meio da nobreza da Educação e da alegria do Saber.
Livra-nos das promessas vazias dos homens e das mulheres que querem nos liderar
e encaminha-os ao cometimento de ações sérias e consequentes
com total respeito ao imposto nosso de cada dia.
Não os deixes cair nas tentações das propinas
e não lhes perdoes as suas ofensas, nem lhes dês a benção espúria da impunidade.
Unge-nos com o bálsamo da paciência
para que possamos suportar as falsidades, as descaradas mentiras,
os impropérios gramaticais dos horários eleitorais
e as ladainhas sem sentido dos salvadores da Pátria.

Amigo 2012, tu que vens com data certa para um novo exercício de Democracia,
faze com que ela permaneça entre nós,
senhora que é da Liberdade e da Justiça Social.
Ajuda-a a não ser usada para a prosperidade dos demagogos
ou para o gozo dos déspotas.
Mostra aos pretensos donos do poder que só ela salva
e pode nos garantir o direito de opinião e de expressão
sem termos que nos submeter à censura dos donos das verdades
ou ao estulto absolutismo de um único partido.
No período eleitoral, faze que, quando houver ódio,
possamos também falar de amor sem nos envergonharmos;
quando houver ofensa, que ela seja sucedida pela pacificação;
quando houver discórdia, que possamos remar a favor da união;
quando houver dúvida, que tenhamos de pronto o esclarecimento;
quando houver erro, que possamos chegar rápido à verdade;
quando houver desespero, ajuda-nos a manter a esperança;
quando houver tristeza, que se eleve a alegria;
quando houver trevas, que se faça a luz.

Sobretudo, aguardado 2012,
faze com que finalmente compreendamos o valor da Paz e do Trabalho
para que não precisemos mais suplicar por felizes novos anos .

Cleto de Assis – dezembro de 2009, renovado em dezembro de 2011.