Arquivo do dia: 28 de setembro de 2011

José Marins: oração a Malaquias

Anjo de Quintana

Anjo Malaquias
onde andam seus pés
de acompanhar poetas,
desde que Quintana se foi?

Anjo Malaquias
nada tenho para te oferecer,
além de receios ou passos vãos,
viajo sorvido pelo sonho.

Anjo Malaquias
se puder olhar por mim,
teus olhos de poesia e luz,
vela por meus versos tão miúdos.

Anjo Malaquias
quando vier com suas asas
de transparência e luar,
traga-me da alegria e do humor
de Mário Quintana.

Um pouco que seja
de quintanares letras,
e siga-me na estrada do poeta
essa que faço na esteira dos nadas.

José Marins / jan 2011
Ilustração: cdeassis

Da Galícia, mais um depósito de Arthur Novellhe

O poema estava depositado entre os muitos recebidos nos últimos meses de exílio espiritual, lá no baú das peças raras. Veio com o seguinte recado do autor, Athur Alonso Novelhe, caríssimo cliente deste Banco:

“Bom amigo Cleto, tempo já há que nada envio ao seu magnífico site… esse projeto livre de poesia e poetas… Agora, que ando mais à vontade de tempo, envio este poema… desejo que goste dele”.

Tanto gostei que vai entre os primeiros libertados.

Os Deuses na Sombra

Ilustração de Cleto de Assis

Escolheram nomes para falar-nos da vida,
procuraram rotas para dizer-te,  convencidos:
nós temos um destino a cumprir:
salvar tua ignorância do lume.

E não repararam em gastos, nem fadigas
para alçar Impérios que logo a morte conquista,
sempre conquista
como os sonhos que se fixam na mente do alienista
contra o cordeiro de Deus na outra luz daqueles mundos.

Esconderam o ódio com disfarces ambíguos
e cegaram as fontes da essência referida, pelos criadores do amor.
Com palavras sobre palavras fabricaram sua mentira

e te venderam o medo ferida a ferida
como a ilusão de acreditar na Única  Salvação Possível.

Não acreditas, bom não acredites,
mas tu desfilas no aniversário das bandeiras vencidas
tu comes a sua oferta e os produtos adquiridos
tu bailas na noite sinalada
e dormes na noite requerida
(logo simulas no ventre formoso do sexo repousar)
como cantas no seu templo o salmo corrompido
e bebes ou fumas enquanto eles o precisem
(de ti, um homem tão simples…)
Mas eles também prescindem: lamentável, não?

Deverias observar:
quantas assinaturas tem o teu convite?
quantos nomes distintos para a carne ser redimida?
quantos grãos de ouro no papel verde das notas floridas,
quanto sangue preciso para erguer logo pedras acima
da primeira casa, da primeira escola,
onde Pedro vendeu ao maestro e esqueceu-se das esmolas:
Em Nicéia, vi o sol dourado de Constantino.
Depois, uma fita a pendurar
sabendo que sempre a mesma mão se recorta da virgem.
Aleijado viverás igual, mas nunca já será simples.

Assim,
limparam as covas de símbolos
porque sempre é necessário mudar os ritos.
Trocaram as festas da cerimônia antiga
e a música velha lustraram de novo em papiros
mudando sua grafia,
mas segues caminhando pela mesma estrada acima
segues empurrando o peso de todas as caricias
e golpes que ainda hão chegar
(tu sozinho,
enquanto eles aguardam na cima)
Ao chegar ao alto outros homens divisas
Requerem tua atenção, para minorar a sua fadiga.

Não acreditas, pois bem, não acredites,
Pronto de novo te irão escolher,
mas desta vez será para o teu próprio sacrifício.

Deixas mulher?
Outros se encarregarão dos teus filhos…

Arthur Alonso Novelhe – jan/2011
Ilustração: cdeassis