Arquivo do dia: 18 de julho de 2010

Voo intuitivo de Salut Navarro

Intuición

Salut Navarro Girbés, Valencia, España

En la abstración de mi pensamiento
te encuentro absorto en tu esencia,
araño las albas no vividas
agotadas ya em nuestras quimeras.

Un canto extrañamente seductor
me convierte en ave blanca
para llegar a tu puerto y besar
las alas que te permiten volar.

La tristeza me cubre y me descalza.
mi soledad bate em tu corazón
trazando arco Iris en la hierba negra,
y adviertiendo que mi destino es el mar.

Intuição

Na abstração de meu pensamento
te encontro absorto em tu essencia,
arranho as albas não vividas
esgotadas já em nossas quimeras.

Um canto estranhamente sedutor
me converte em ave branca
para chegar a teu porto e beijar
as asas que te permitem voar.

A tristeza me cobre e me descalça.
minha solidão bate em teu coração
traçando arco-íris na erva negra,
e advertindo que meu destino é o mar.

_____________

Versão em Português e ilustração: C. de A.

Jamil Snege faz muita falta (Wilson Bueno)

A frase é simples, quase rotineira. Sempre aparece quando perdemos uma pessoa querida. Mas Wilson Bueno, no ano passado, quando sequer imaginava que também se juntaria a Jamil Snege, em algum canto da nova vida (em duplo sentido), a escreveu com a saudade de um amigo cultivado por quarenta anos. Jamil Snege faz muita falta.

Hoje, domingo, oito dias após o aniversário de Jamil, encontrei entre meus livros o seu O jardim, a tempestade (que Bueno considerava a sua melhor obra) e também bafejou aquela brisa de saudade.  Também fomos amigos por muitos anos e convivemos em sonhos e realidades. Uma delas foi o Tempo Sujo, de 1969, seu primeiro livro, por mim ilustrado e editorado com os recursos da época. Na dedicatória grafada n’O Jardim, em 19 de junho de 1989, Jamil fez um P.S. rememorativo: “Nosso Tempo Sujo comleta 22 anos em dezembro próximo. Você acha que ‘limpou’ alguma coisa? Abração, J.S.”

É possível, Jamil, porque temos que acreditar que sempre virão tempos melhores. E sua poesia ajudou a construí-los. Pois, como disse o também poeta Roberto Piva, que igualmente passou para o outro lado há pouco, “a Poesia não impediu Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar”. E o melhor da história é que os poetas não morrem. Tiram férias permanentes e seus versos continuam a trabalhar por eles, a limpar os tempos.

Feliz aniversário, Jamil! Porque, sem tirar os já passados sete anos de perenes férias, foram 71 anos de vida bem vivida e que sempre continuará a viver em seus textos. Como faremos com dois poemas, um deles em homenagem a Wilson Bueno. E na página de Crônicas vai o texto de Wilson Bueno, publicado quando você completou 70 anos.

Aos opacos

Jamil Snege, Curitiba (1939, 2003)


……..Deixem-me arder
……..Deixem-me queimar as asas
nesse vela,
nesse sol, nesse leiser que envenena
as couves embrutedidas
pela treva.
…….Deixem-me arder.
…….Se ofendo sua lógica,
sua prosódias, seus anéis
de sempre elegante curvatura,
esmaguem minha musculatura
e os ossos que a sustêm.
…….Mas me deixem arder
…….Deixem-me arder de infinito
nesse iníquo delíquio
de existir.
…….E se os ofendo,
soprem minhas cinzas,
derramem minha lixívia,
mas me deixem auferir
as estrelas como o úmero roto
açoita o músculo que seu vôo
desencanta.
…….Deixem-me luzir
definhar meu luminoso espanto
onde só lhes é permitido
sobraçar espasmos
e guarda-chuvas.
…….E seu eu venha a ferir,
opacos, o lusco-fusco
de seus baços,
o hálito de hortaliças,
o bolor de queijo
que amadurece em seus
atrios
absteçam-me de mil insultos
…….Mas me deixem incender.

________________

Osso para Wilson


Penso em Wilson Bueno
como um osso ao relento,
nu e núbil como um osso
a esmo.

Osso que se bastasse
de sua óssea alvura,
nu e núbil de sua própria
lua.

Osso que se recusasse
à sina que o paparica
e se adornasse de sua
própria adrenalina.

Osso à deriva, a dedilhar
seus venenos como uma
visita.

Osso Wilson Bueno
Ouço sua cítara.

De O Jardim, a tempestade. Jamil Snege. Curitiba: edição do autor, 1989.