Arquivo do dia: 30 de novembro de 2009

Mário Quintana: o Tempo é invenção da Morte

Ah! Os relógios


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida — a verdadeira —
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém — ao voltar a si da vida —
acaso lhes indaga que horas são…

De: A Cor do Invisível

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Ilustração: C. de A.

As visões poéticas de Emily Dickinson

Emily Dickinson nasceu em Amherst, Massachusetts, nos Estados Unidos da América do Norte, a 10 de Dezembro de 1830. Foi a segunda filha de Edward e Emily Norcross Dickinson.

Emily teve uma ótima formação escolar e chegou a cursar, durante um ano, o South Hadley Female Seminary. Abandonou o seminário após se recusar, publicamente, a declarar sua fé. Quando findou os estudos, Emily retornou à casa dos pais para deles cuidar, juntamente com a irmã Lavínia que, como ela, nunca se casou.

Em torno de Emily, construiu-se o mito acerca de sua personalidade solitária. Tanto que a denominavam de a “Grande Reclusa”. É importante que se diga que o comportamento de Emily era próprio do modelo feminino que imperava naquela parte dos EUA, à época. Emily deixou sua vida reclusa em raras vezes. Em toda sua vida, apenas fez viagens para a Filadélfia, para tratar de problemas de visão, outras duas para Washington e Boston. Foi numa destas viagens que Emily conheceu Charles Wadsworth e Thomas Wentworth Higginson, que teriam marcada influência em sua vida e inspiração poética.

Charles Wadsworth, um clérigo de 41 anos, conheceu Emily quando ela viajou à Filadélfia. Alguns críticos dizem que grande parte dos poemas de amor escritos por Emily dirigiam-se a ele. Mas quase tudo que se sabe sobre sua vida tem como fonte as correspondências que ela manteve com algumas pessoas, como Susan Dickinson, sua cunhada e vizinha. Colegas de escola, familiares e alguns intelectuais, como Samuel Bowles, o Dr. e a Sra. J. G. Holland, T. W. Higginson e Helen Hunt Jackson, também se corresponderam com ela. Nestas cartas, além de tecer comentários sobre a sua vida, também costumava remeter alguns poemas.

Por volta de 1858, Emily começou a confeccionar seus livros manuscritos e encadernados à mão, que ela chamava de fascículos. De1860 a 1870 sua produção foi intensa e chegou a compor centenas de poemas a cada ano. Em 1862, remeteu quatro poemas ao crítico Thomas Higginson que, por não compreender inteiramente sua poesia, aconselhou-a a não publicá-los.

A partir de 1864, já com problemas de visão, diminuiu um pouco o ritmo de seu trabalho literário. E, apesar de sua prolífica obra, Emily Dickinson, autora de cerca  de 1800 poemas e quase 1000 cartas, não chegou a a ver publicado nenhum livro , enquanto viveu. Há apenas registros de algumas publicações anônimas de alguns poemas. Toda a sua obra foi editada após sua morte, ocorrida em 15 de maio de 1886, na mesma cidade em que nasceu.

A edição crítica completa, , com 1775 poemas, foi organizada por Thomas H. Johnson e ocorreu somente em 1955, após a transferência de seu acervo para a Universidade de Harvard. Posteriormente acrescida de outros poemas, em 1999. Outra edição, feita em 1999, com 1769 poemas, foi organizada por R. W. Franklin.

A casa onde ela nasceu e viveu, construída por seus avós   Samuel Fowler e Lucretia Gunn Dickinson , que ficou conhecida como “The Homestead” (A Casa Rural) permanece aberta para visitação, no período de março a dezembro.

Segundo Augusto de Campos, um de seus tradutores para a língua portuguesa, a poesia de Emily Dickinson se aproxima, de certa forma, ao Hai-Kai: “Emily é muito sintética, seus poemas são, em geral, muito breves, e ela é capaz de captar um momento insubstituível de observação ou de reflexão poética com um mínimo de palavras. ‘Um romance num suspiro’, como disse Schoenberg a propósito de Webern. Seus poemas são pequenas ‘iluminações’. Mas não são poemas circunstanciais. São muito elaborados e ao mesmo tempo surpreendentes”.

Obras

  • Poems by Emily Dickinson – Organização de Mabel Loomis Todd & T. W. Higginson. Boston: Robert Brothers, 1890.
  • The poems of Emily Dickinson, 3 volumes. Organização de Thomas H. Johnson. Cambridge: The Belknap Press, Harvard University Press, 1955.
  • The letters of Emily Dickinson, 3 volumes. Organização de Thomas H. Johnson & Theodora Ward. Cambridge: The Belknap Press, Harvard University, 1958.
  • The complete poems of Emily Dickinson. Organização de Thomas H. Johnson. Boston e Toronto: Little, Brown and Company, 1960.
  • The manuscript books of Emily Dickinson, 2 volumes. Organização de R. W. Franklin. Cambridge e Londres: The Belknap Press, Harvard University Press, 1981.
  • The masters letters of Emily Dickinson. Organização de R. W. Franklin. Amherst: Amherst College Press, 1986.
  • The poems of Emily Dickinson. Organização de R. W. Franklin. Cambridge e Londres: The Belknap Press, Harvard University Press, 1999.

Alguns livros editados no Brasil

  • Poemas EscolhidosTrad. Ivo Cláudio Bender. L&PM Editores.
  • Um Livro de HorasTrad. Ângela Lago. Editora Scipione.
  • Não Sou NinguémTrad. Augusto de Campos. Editora Unicamp.
  • Alguns PoemasTrad. José Lira. Editora Iluminuras.

Alguns Poemas de Emily Dickinson

Tradução de João Ferreira Duarte, em “LEITURAS, poemas do inglês”, Relógio de Água, 1993

I

It was not Death, for I stood up,
And all the Dead, lie down —
It was not Night, for all the Bells
Put out their Tongues, for Noon.

It was not Frost, for on my Flesh
I felt Siroccos —rawl —
Nor Fire — for just my Marble feet
Could keep a Chancel, cool —

And yet, it tasted, like them all,
The Figures I have seen
Set orderly, for Burial,
Reminded me, of mine —

As if my life were shaven,
And fitted to a frame,
And could not breathe without a key,
And ‘twas like Midnight, some —

When everything that ticked — has stopped —
And Space stares all around —
Or Grisly frosts — first Autumn morns,
Repeal the Beating Ground —

But, most, like Chaos — Stopless — cool —
Without a Change, or Spar —
Or even a Report of Land —
To justify — Despair.

Não era a Morte, pois eu estava de pé
E todos os Mortos estão deitados —
Não era a Noite, pois todos os Sinos,
De Língua ao vento, tocavam ao Meio-Dia.

Não era a Geada, pois na minha Carne
Sentia Sirocos – rastejarem —
Nem Fogo — pois só por si os meus pés de Mármore
Podiam manter frio um Presbitério —

E contudo sabia a tudo isso ao mesmo tempo;
As Figuras que eu vi,
Preparadas para o Funeral,
Faziam-me lembrar a minha –

Como se me tivessem cortado a vida
E feito à medida de moldura,
E eu não pudesse respirar sem chave,
E foi um pouco como a Meia-Noite —

Quando todos os relógios — pararam —
E o Espaço olha à volta —
Ou Terríveis geadas — nas primeiras manhãs de Outono,
Revogam o Palpitante Solo —

Mas foi sobretudo com o Caos — frio — Sem-Fim —
Sem Ensejo nem Mastro —
Nem mesmo Novas de Terra —
A justificar — o Desespero.

II

Bloom — is Result — to meet a Flower
And casually glance
Would scarcely cause one to suspect
The minor Circumstance

Assisting in the Bright Affair
So intricately done
Then offered as a Butterfly
To the Meridian —

To pack the Bud — oppose the Worm —
Obtain its right of Dew —
Adjust the Heat — elude the Wind —
Escape the prowling Bee

Great Nature not to disappoint
Awaiting Her that Day —
To be a Flower, is profound
Responsibility —


Florescer — é Resultar — quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente
Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano —

Encher o Botão — opor-se ao Verme —
Obter o que de Orvalho tem direito —
Regular o Calor — escapar ao Vento —
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza
Que A espera nesse Dia —
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade —

III

I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June* —
To an admiring Bog!

Eu sou Ninguém! E tu quem és?
Também tu és — Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar — sabes!

Como é aborrecido — ser — Alguém!
Como é público — qual rã —
Dizer-se o nome — Junho fora* —
A um Charco admirador!

* Com todo respeito ao tradutor, a frase assinalada parece soar melhor com outra versão, mais apropriada ao termo utilizado pela autora: “the livelong June”,  ou seja, “o interminável Junho” (C. de A.)

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Ilustrações: C. de A.