Arquivo do dia: 17 de março de 2009

A Revista Forma

Manoel de Andrade
formaneco

Não me esquecera da Revista Forma e do impacto cultural que causou na época, acenando-nos, naquele janeiro de 1966, com um espaço onde pudéssemos semear nossas ideias e nossos sonhos.

Forma chegava no momento certo. Os tempos sinalizavam para a nossa emancipação intelectual e, na década de 60, apesar do quartelaço de 64, o Paraná passava por um estado de graça em termos de cultura, e Curitiba, como centro polarizador dessa conjuntura, demandava uma publicação que expressasse ao país aquela realidade e partilhasse suas inquietudes com a inteligência nacional.. Vivia-se numa agradável atmosfera do espírito, marcada pela relevância das artes plásticas na presença do Juarez Machado, cartunista, na imprensa nacional; pelos prêmios do João Osório Brzezinski; pelas gravuras do Fernando Calderari e pelo destaque do Salão Paranaense de Belas-Artes. A literatura ainda buscava seu espaço marcado com a presença de novos poetas e contistas, pelo destaque de prosadores como o Dalton Trevisan e Jamil Snege e pela emocionante Noite da Poesia Paranaense, em 65, no Teatro Guaira. A dramaturgia mostrava sua presença com o talento de Cláudio Correia e Castro na direção do Teatro de Comédia do Paraná e, pelo apoio oficial, foi criado no Teatro Guaíra a Escola de Arte Dramática,  promovendo-se um intercâmbio com grandes companhias nacionais que colocaram Curitiba no roteiro dos grandes espetáculos. A música também ensaiava, por aqui, os seus melhores passos e instituições como a Pró-Música e a Scabi estiveram à frente de cursos e festivais de música realizados na Capital. Tudo isso partilhado com a regência do grande trabalho do maestro Roberto Schnorremberg no comando do Curso Internacional de Música do Paraná. Muitos de nós líamos o Cahiers du Cinéma e acompanhávamos também o pionerismo de Sylvio Back que já anunciava seu grande talento em vários curta-metragens, lançando em 1968, o filme Lance Maior.A crítica cinematográfica surge com o talento prematuro e de vanguarda de Lélio Sotomaior e Sérgio Rubens Sossélla, –que em setembro de 1963 me presenteou seu primeiro livro, 9 Artigos de Crítica  –marcou sua  indelével passagem por aqueles anos, como poeta, como crítico  – um dos maiores entendidos na obra de Fialho de Almeida, no Brasil  – e como colaborador e membro do Conselho de Redação da revista Forma. Naquela mesma época, publicava o ensaio sobre Milton Carneiro e sua Procissão de Eus. Na imprensa, a cultura era veiculada através da incansável atividade de Aramis Millarch e, sobretudo, pelo respeitável trabalho de Aroldo Murá Haigert, cuja coluna Vernissage, no Diário do Paraná, era a caixa de ressonância da melhor expressão da arte e da cultura paranaense. Quiséramos falar de outras sementes, de flores que desabrochavam e de frutos que começavam a amadurecer. Quiséramos falar  das tantas luzes que iluminaram aquela aurora cultural – marcada também pela arquitetura e a importância superlativa do nosso urbanismo –, mas tudo isso ou quase tudo, mal conseguiu chegar intacto até o fim de 68. E toda esta  primavera curitibana  –  abortada pela repressão e o trágico silêncio cultural que se seguiu ao AI-5 –  a Forma se propunha abarcar em seu espaço, mas fechou suas páginas prematuramente e não conseguiu retratar a integralidade daquele fenômeno.

Em julho de 2003 enviei uma carta a Fabio Campana parabenizando-o pelo primoroso lançamento da Revista Et Cetera e dizendo-lhe que, apesar de não ter notícia de que no Paraná se tenha publicado uma revista de cultura com um requinte visual e uma escolha tão criteriosa dos textos quanto a sua, houve, contudo, em Curitiba, uma honrosa exceção, tentada no bem intencionado projeto da revista Forma, lançada pela originalidade e a sensibilidade gráfica de Cleto de Assis e com carismática intelectualidade de Philomena Gebran.

Hoje, 43 anos depois, compulsando com saudade suas páginas, abro o meu nº 01  – autografado pela Philomena, pelo Cleto e pelo João Osório – e releio o primeiro artigo: Cultura no Paraná, uma bela matéria sobre a primeira metade da década de 60. Escrito com  elegância  e inteligência por Ennio Marques Ferreira (a quem o Paraná também muito deve por sua passagem, naquela época, pelo Departamento de Cultura da Secretaria da Educação e Cultura e, mais recentemente, na Casa Andrade Muricy), o texto delineia toda a paisagem cultural do Estado, na primeira década de 60, enfatizando o papel da arquitetura e das artes plásticas. Seguem outras tantas expressões da cultura paranaense e pontificam neste número os desenhos litografados de Poty, a pintura de João Osório, um estudo sobre uma partitura de Bach feita pelo regente José de Almeida Penalva (o famoso Padre Penalva, da época), um belíssimo poema do poeta e estadista senegalês Léopold Sedar Senghor e textos de Sylvio Back, Elias Farah e Nelson Padrella.

A nota de abertura do segundo número comenta da receptividade e do alcance nacional da Revista. Enfatiza seus propósitos como instrumento de diálogo com a intelectualidade brasileira e como instrumento de divulgação de uma cultura democrática. Não vou declinar, nos limites desta nota, toda a seleta galeria dos nomes que integraram os dois números da revista Forma. Contudo, quero ressaltar, no segundo número, a saudosa presença de Guido Pellegrino Viaro contando, num texto autobiográfico, as passagens marcantes de sua vida, desde sua origem simples e provinciana na cidadezinha italiana de Badia Polesina, onde nasceu em 1897. Destaca as dificuldades dos primeiros estudos, seus sonhos com terras distantes, seu alistamento, aos 16 anos, sua participação na 1ª Guerra Mundial, depois a tristeza e os horrores. Mais tarde, os estudos em Veneza e a busca de um caminho para a sua arte…, “a linha – sempre a linha  – os espaços, a cor.”  Da Europa para a América. Do Rio para São Paulo. A chegada fortuita a Curitiba. “Procurei me manter em pé sem fazer concessões. (…). Tratei com carinho a composição, após ter estudado a paisagem e a criatura. Só assim consegui não soçobrar, permanecendo assim mesmo, o pintor figurativo de ontem.”  O  segundo número tem sequência com um estudo arquitetônico de Cleon Ricardo dos Santos; um recheado BAÚ de notícias culturais, o poema Cântico de Guerra, de João Manuel Simões e um interessantíssimo artigo sobre Literatura: Regional & Universal, de Hélio de Freitas Puglielli. Este número fala ainda de teatro e promove  um DEBATE sobre Orson  Welles,  através de textos de Sergio Rubens Sossella, Sylvio Back e Luiz Geraldo Mazza. Entre outras matérias, este segundo e último número da Revista se encerra com dois contos: Lamentações de Curitiba, de Dalton Trevisan e Noite/Nove,  de Jamil Snege.

Forma teve um nascimento deslumbrante, mas, infelizmente, morreu ainda infante. Tinha tudo para ser nossa aldeia, nosso mágico território. Gestada pelas idéias de um tempo melhor, teve um parto cultural luminoso. Filha de tantos anseios e dos legítimos sonhos de cultura do Cleto e da Philomena, todos acompanhamos seus primeiros passos, e por isso  ela foi o nosso mimo, nosso relicário e agonizou em nossas lágrimas. Nestes dias, em que a memória da década de 60 abre as portas para tantos visitantes, registramos aqui nosso saudoso sentimento e uma esperançosa alegria por sabermos que o Cleto de Assis, que navega com destreza nas águas da informática, pretende publicar na Internet todo o rico conteúdo das duas únicas edições.

Uma conta para Saramar

Quero abrir conta corrente, neste Banco da Poesia, em nome de Saramar Mendes de Souza, poeta goiana. Ou, simplesmente, Saramar, nome que já é um poema de apenas sete letras, como as notas da escala musical. Há algum tempo, ela se autodefinia como uma “aprendiz de poeta, em constante luta com as palavras”. Pura enganação. Fingimento de poeta, como diria Pessoa, já que ela domina as palavras com maestria. Hoje, a descrição de si mesma é mais singela: “Sou apenas uma mulher tentando escrever sobre sentimentos, emoções e algumas dores”.

Conheci Saramar por outros caminhos, não os abertos pela poesia. Frequentamos, durante algum tempo, uma comunidade da Internet preocupada com os destinos deste país e nos identificamos em alguns comentários. Ela gostou de um texto meu e pediu licença para publicá-lo no blog Outras Letras, mantido por um amigo seu. Foi depois disso que descobri a imensidão poética que nela habita. Visitei seus blogs, indicados em seu perfil. Aliás, um perfil que não esconde, por exemplo, sua idade, mas não revela outras qualidades que por certo lhe acompanham.

Lembro que, entusiasmado, fiz um comentário elogioso em um de seus poemas publicado no Flanarfalares (veja, abaixo, os endereços dos principais que ela criou e administra) e enviei uma mensagem para alongar meus elogios: Hoje matei o tempo a vaguear (ou flanar?) pela Internet e decidi conhecer um pouco mais de minha prolífica amiga, mãe de encantadas escrevinhações e doces falares. Busquei por seu nome no Google e voilà! você é mais que domínio público, de tão conhecida por este mundão. Foi melhor que uma taça de vinho tomada no Santo Graal! Escarafunchei quase tudo e só parei para poder economizar mais sabores para outras ocasiões. Estou verdadeiramente deslumbrado com sua poesia, embora tão impregnada de solitudes. Temos muitas coincidências a enfeitar nossas vidas: nascemos em um dia 9 (eu, 9 de maio), gostamos de boleros e MPB e amamos as palavras mágicas da poesia: ambos pessoanos declarados. Muito obrigado pela tarde maravilhosa que lhe roubei, sem pedir licença. Como não concordo com seu perfil de “aprendiz de poeta, em constante luta com as palavras”, resolvi pagar o tempo furtado com outra escrevinhada, louvando as palavras como nossas ternas e eternas amigas, mesmo quando as usamos para nos defender da áspera insensibilidade de tantas pessoas. Declaro, perante a Humanidade, que me senti orgulhoso por você ter-me incluído entre seus amigos, que já se contam aos milhares.

Espero que Saramar me perdoe pela abertura desta conta corrente, feita sem prévio consentimento da correntista. Juro que minha intenção não é a mesma dos demais bancos e administradoras de cartões de crédito que nos mandavam (agora já é proibido) cartões não solicitados. A sua inclusão em nosso rol de “clientes”, além de homenagem mais que merecida por seu trabalho poético, intenciona motivar outros possíveis depositantes, neste começo de vida do Banco da Poesia. E a inauguração ficaria incompleta sem o registro de sua presença.

Escolhi quatro poemas de Saramar entre os últimos publicados. Não usei qualquer critério para a escolha, pois não é preciso ser criterioso em relação à sua obra para se obter poesia da melhor qualidade.

Para quem quiser conhecer mais sobre o oceano de sensações de Saramar, aqui vão os endereços de quatro de seus principais blogs. A partir deles, os leitores poderão descobrir outras veredas da poesia saramariana, inclusive em publicações internacionais.

Escrevinhações  http://lidosevividos.blogspot.com/
Falares http://flanarfalares.blogspot.com/
Abrindo janelas http://abrindojanelas.blogspot.com/
Eufeminismos http://eufeminismos.blogspot.com/

Como sempre, visito seu mundo de sensibilidade sem pedir licença, como fiz em uma tarde antiga e em muitas ocasiões posteriores. Terei seu perdão?

A alguém

Alguém diz com lentidão:
” Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga descalça e leve,
um vento súbito e claro nos cabelos…”
Eugénio de Andrade

caminhobl

A alguém, um único alguém, importam todos os versos.
Se, por acaso, desarvorado, outro alguém degusta a ânsia
das minhas palavras espalhadas em arremedo de poemas
e nelas bebe o que me sacia e me abre os céus do amor,
percebe logo, em uma ou outra linha dispersa e morna,
que todas as luas acesas e os beijos estão encantados
do feitiço mais improvável.

Não me culpe, nem queira desvendar meu sentir,
se, porventura, alguma palavra tange a corda do querer
e desperta o desejo de amor semelhante a este meu amor
que não se cala, antes abre-se como portas arrebatadas pelo vento.

Não, não me culpe e nem me peça o que já não me pertence.
O meu amor, insubmisso e alheio ao que lhe nega o existir,
anda perdido pelos caminhos, buscando os rumos
de quem o tomou sem pressentir.

Saramar

Silêncio

silenciobl

Da saudade já disse
e da boca nua e fria
de desolação.
Adormeço as palavras na pele
na mudez de todo dia.
O silêncio espanta o sono
guardado no verbo insensato
de quem ama o desvario,
de quem planta o pranto.
Já mais não falo
meu silêncio agoniado
dói nos olhos da noite.
Insone sigo
olhando a dor por dentro.

Saramar

Amantes de outonos ou dos pedidos ao tempo

outono3

É de outonos que me disfarço,
vento na manhã,
o tempo violando cortinas,
passos tangidos na premência de ser já primavera
colorindo estes muros mortos de sono.

Nas calçadas inelutáveis dos dias,
ao som dos saltos e do gemido das folhas,
o vento se despedindo do que fora árvore
sonho o destino dos pássaros, alto,
de caminhar entre o vento.
(e chegar, enfim, aos teus braços).

Nos outonos de que me visto,
nunca te esqueço e, como pedes,
peço ao tempo as horas maiores
de voltear em teus braços
frágil fêmea em flerte,
nas mais tontas danças,
o vento voluteando-nos.

Eu peço ao tempo, o maior do dia
a hora mansa e quente
os chãos de amar
em cores de amantes,
semelhantes, todos semelhantes
no querer.
peço ao tempo, o tempo de te encontrar.

Saramar

Rendas de sal

“Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar…”
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

rendabl

Rendo-me ao improvável navegante
de minhas águas
marés ignoradas.
Rendo-me
ao que nunca me abraça
ao barco que passa além
e seus olhos de não ver ressacas e remansos
areia de palavras, decorada
que espalho, de tempos em tempos.
Rendo-me ao vento inocente dos dias
que apaga o sonho, ao passar
e leva o aroma dos beijos
e leva quem amava para outro e longe mar.
Rendo-me à ardente constância das águas
presas nestes meus olhos
e à abstinência dos sentidos
nestes frios lençóis, perdidos.
Rendo-me
e me sufocam os bordados
e as flores tristes
à espera do navegante para sempre longe
destas rendas que, de amor,
teci.

Saramar